Se todos os prémios têm o seu quê de parvoeira, porque não a dita parvoeira ter ela própria os seus prémios. Meus amigos, eis que estão de volta os Oscaritos, uma parvoíce pegada de prémios que começaram em 2007, seguiram depois para 2008 e 2009 (ver aqui edições anteriores), noutra plataforma, e que agora são apresentados nesta nova casa.
Não é só a academia que tem novidades, com a sua longa lista de 10 filmes para o prémio maior. Esta, apesar de ser mais humilde, também tem. Assim, além do corte orçamental, são muitos menos prémios nesta edição, em sinal da crise dos tempos (a inspiração não anda pelos melhores dias, mas nestas coisas convém dar sempre uma explicação técnica), passa a haver primeiro nomeados em lugar do prémio final de imediato.
Eis, então, os nomeados em 2010 para os filmes de 2009, estreados pelo burgo lusitano, nas suas diferentes categorias:
v Bimby – Mete-se tudo na máquina e já está, uma iguaria de efeitos especiais de comer e chorar por menos.
o Transformers: Retaliação por não terem ficado quietos com o primeiro, fazer mais espalhafato para quê?, todo já sabemos que num sucateiro qualquer está uma magia especial que transforma a lata em peça de alto valor, ou não tivesse aí a Face Oculta para provar.
o Exterminador Implacável: A Salvação volta Arnaldo que está perdoado, aquilo está que não se aguenta, vê se numa próxima, em lugar de andarem a exterminar a humanidade, que por si só já vai tratando do assunto, aniquilam de vez os produtores da saga, a malta agradece.
o 2012 por insistir que o nosso fim vai ter que ser um deslumbramento digital, melhor seria dar ao homem um Magalhães que, ao ter menos bytes de memória, pode levar a que o homem sossegue a sua piriquita apocalíptica e para a próxima faça apenas um abanão ligeiro num prédio por influência das flatulências do vizinho do 5º esquerdo, assim como assim, não há muita diferença no produto final.

v Abaixo a Independência – E a culpa foi do D. Afonso Henriques que em lugar de bater na mãe devia era ter andado com Castela ao colinho.
o Second Life, se isto é cinema português quero já ser espanhol, enroscam-se umas gajas nas outras, chama-se o jet set dos pobrezinhos, metem-se umas buchas em inglês e pronto o pessoal vai gramar de certeza. Não gramou. Não há mais vidas, game over!
o Contrato se isto é cinema português quero já um visto sem volta para a Nova Zelândia, já não basta ter que os gramar nas telenovelas ainda nos impigem uma versão ampliada deste pessoal, ao menos que lhe forneçam um manual de instruções como se segura a câmara e como os actores devem circular em cena. Vá lá, não tropeçaram nos fios, já não é nada mau.
o Salazar – A Vida Privada se isto é cinema português quero já cantar o hino do Burkina Faso de mão no peito, era só o que nos faltava, transformar um botas em sex symbol, mais um pouco ainda o temos como atracção numa feira erótica perto si. Teve ao menos uma originalidade que foi a de iniciar um género novo, a pornografia histórica .

v Domingo de Páscoa – E a culpa é de Cristo por ter vindo com esta mania de ressuscitar por tudo e por nada.
o Star Trek por ter tido a ousadia de levantar da tumba esta saga e, ainda por cima, com alguma qualidade e sucesso, o que nos leva a crer que nos tempos mais próximos vamos ter que gramar com todos os idiotas a coleccionar naves e orelhas, bem como a fazer convenções tupperware.
o Sexta-Feira 13 já não bastavam os Saw’s do nosso descontentamento e ainda tinham que tirar do baú o que já tem está desfeito pelo pó do esquecimento há muito, para fingirmos todos que temos muito cagaço dos diabos, como se os dias que nos caem em cima não tivessem terror que bastasse. Ainda haverá alguém que precise do pretexto da sua piquena soltar um grito de medo e se agarrar ao seu pescoço para depois dizer, sim filha, qual terror, qual quê, o que tu queres sei eu?!
o Fama porque se a vida é um cabaret, então o palco deve ser numa morgue, onde, ao som de umas notas fora de tom, os defuntos saltam para cima de um balcão e cantam como são felizes, como precisam de suar. Onde é que eu já vi isto? Embarque na Gate 59, desculpem-me, estão a chamar-me para o voo.

v Melão – A porra do prémio nunca mais vem.
o Robert Downey Jr em O Solista e Sherlock Holmes, ora faço de idiota inteligente, ora faço de inteligente idiota, acham mesmo todos muita piada, mas nunca mais levo a estatueta, a continuar assim ainda me meto nos copos outra vez, depois queixem-se, eu estou a avisar.
o Brad Pitt em Sacanas Sem Lei e O Estranho Caso de Benjamin Button , ora faço de cabotino, ora faço de entravadinho, mas isto não pega, nem com um coisa nem com outra, ainda por cima tenho que aturar a Angelina, que lá em casa é ela quem veste as calças do Oscar, é certo que fez de doida para o levar, mas lá que o tem, tem. Para a próxima faço de gay, pode ser que a coisa pegue.
o Tom Cruise em Valquíria nem mesmo a fazer de quase entravadinho, uma pala no olho já dá pontos nas deficiências, e de nazi quase bom, o pessoal me dá valor. Tenho que voltar à cadeira de rodas e ao Vietnam para me levarem a sério.

v Multiópticas – A miopia das más consciência no seu melhor.
o A Troca por nos ter mostrado que quando o poder nos quer convencer de uma coisa já não vende somente a mãe ao diabo, ele até o filho nos troca, e isto porque não estavam em campanha eleitoral, pois caso fosse, até a própria Angelina era trocada pela Luciana Abreu e convencida que a diferença de talentos era apenas um detalhe de dioptrias.
o Avatar por ter criado a ideia de um mundo novo, puro, comunitário e em harmonia – Marx, Lenine não fariam melhor, – que depois é arrasado de uma assentada por esses eternos mauzões capitalistas que só querem sugar a energia do povo, ah, claro, tudo isto feito com muitos milhões capitalistas da indústria cinematográfica que investiu forte e feio no filme. A sorte dele, do James Cameron, foi o retorno dos dólares, pois caso contrário bem que podia emigrar para o tal planeta e fundar um Avante azul.
o Capitalismo – Uma História de Amor por nos ter mostrado que os americanos ainda não enxergaram bem esta coisa do dinheiro e do seu papel social, mas que, pelo sim pelo não, são eles que definem a dita coisa para todos a copiarem, ou seja, a casa do mundo inteiro vai abaixo sempre que eles espirram.
v Seca – Vamos embora que já dormi uma soneca
o Vicky Cristina Barcelona por apenas ter sido um projecto turístico do governo autonómico da Catalunha, onde se passeiam estereótipos, o latino garanhão, a espanhola histérica e a nova yorquina muito dada às artes, com conversas de sempre, ou seja, de coisa nenhuma, e a intelectualidade ter aplaudido de pé. O Rei vai nu, for ever.
o Singularidades de uma Rapariga Loira por colocar pela enésima vez os actores a falar como se estivessem a ler um romance para avó, que a maldita da velha nunca mais dorme. O próprio Eça ao pé da narrativa apresentada é um psicadélico grande maluco.
o Revolutionary Road por nos mostrar que o casamento, ao ser uma valente seca, quando nasce é para todos, logo isso dos gays ficarem de fora do padecimento não vale, ou há moralidade ou comem todos.

E ainda nomeações especiais nas seguintes categorias:
v Sindicato dos Jornalista – Frost/Nixon, por nos mostrar que afinal, por muito estranho que possa parecer, a informação também é feita de jornalismo;
v Vai um referendozinho?! – Milk, por nos mostrar que a solução que quiseram por cá era, ainda assim, um mal menor face à verdadeira vontade dos seus autores, a solução radical americana de lhe limpar o cebo sempre ia melhor com o seu espírito;
v Cliente BPP – Quem Quer Ser Bilionário?, por nos mostrar que a diferença entra a ganância de enriquecer num banco ou num concurso manhoso não é nenhuma;
v Plano Nacional de Leitura – O Leitor, arranjem umas ouvintes como a Kate e vão ver como a malta nova se anima a ler todos os dias, se calhar até mais do que uma vez por dia, que na idade deles são bem capazes disso;
v Mortos-Vivos – Maradona em Maradona e Mickey Rourke em O Wrestler por já terem morrido e ainda não lhe terem dito;
v Saco de enjoo - Velozes e Furiosos por nos mostrar que não são só as imagem em velocidade que nos enjoam, os maus filmes também;
v Preservativo – Anjos e Demónios – por mostrar que a importância do preservativo pode estar para além do uso normal, fosse o Papa adepto deles e os enfiasse nas canetas de maus autores não tinha que gramar com livros e filme que crucificam o bom gosto;
v O Anjinho – Home – O Mundo é a Nossa Casa é tão bom ver filmes cheios de boas intenções, só que de boas intenções está o inferno cheio e os cofres das produtores também. Não é verdade sr. Al Gore?
v Cresce e Desaparece – Harry Potter e o Príncipe Misterioso, já está na hora deste miúdo brincar com outras coisas, façam antes uma versão porno que consegue ser mais convincente;
v Tragam tampões – Hannah Montana – O Filme, que o pessoal já não aguenta tanta berraria de gente jovem, depois admiram-se que apareçam nos ídolos aqueles cromos todos;
v Algodão doce – Up – Altamente! Porque ainda há coisas que nos enchem de ternura.
v Workshop – Sacanas Sem Lei por ser um americano a mostrar como se faz um europudim (filme europeu que engloba gente de várias nações). E que tal se ele viesse cá ensinar ao pessoal como se junta gente diferente, com línguas diferentes e se faz uma história que é um hino ao cinema?
v Copinhos de leite – A Saga Twilight – Lua Nova por já não haver paciência para os vampiros sanguinariamente correctos, mandem o cool às urtigas e afinfem-lhe com os dentes, que é para isso que foram inventados, para betinhos já temos o Pedro Ranger.
Quantas estradas deve um homem caminhar antes que o chamem de homem? Cantava em tempos o Bob Dylan. Não sei se a resposta está no vento ou não, mas que as imagens podem soprar alguma ideia, lá isso podem. Fellini na sua caminhada fez questão de ventilar várias encruzilhadas burlescas, ao jeito de um circo decadente cheio de brilho.
Tudo isto a propósito de nas últimas semanas ter esbarrado em 2 filmes que me devolveram ao mundo felliniano, que é talvez o universo que mais marcou o meu imaginário.
Quando tinha 12 anos, vá lá saber-se porquê, resolvi ver o filme A Estrada do maestro Federico Fellini, e foi o bom e o bonito, o filme desabou em grande estilo em cima da minha tenra cabeça, nunca tinha visto nada assim, tão profundo, tão burlesco, tão profundamente triste e apalhaçado. Não vou dizer que fiquei convertido ao talento do realizador e um seu fiel seguidor de imediato, com aquela idade sabia lá quem o homem era, por incrível que pareça não havia internet para ir logo googlear, mas que o raio do filme me marcou imenso, marcou. Tanto que, mais tarde, já com os meus 18/19 anos fiz questão de ver a obra dele toda, em ciclos promovidos pelo Cineclube do Porto e a revista Cinema Novo, e daí resultou uma paixão enorme por todo aquele imaginário circense da vida, especialmente naquele que eu considero, ao jeito da estúpida eleição do filme da nossa vida, a cereja em cima do bolo cinematográfico, Amacord.
Quando na semana passada estreou A Estrada, sabia que o filme nada tinha a ver com a obra de Fellini nem com o seu imaginário, mas, mesmo assim, fui vê-lo com uma certa pontinha de nostalgia, unia-os o nome. Voltei a ter um choque, mais uma vez o filme desabou sobre mim. Brutal é palavra que me ocorre. As estradas que ali se percorrem, ao contrário do que diz a canção, são apenas para apelidar o homem de animal, devolvê-lo à sua condição de presa e predador na natureza.
A Estrada, The Road título original, um filme de John Hillcoat baseado no romance de Cormac McCarthy (autor do livro Este país não é para velhos), trata das consequências sociais após uma grande catástrofe apocalíptica, nomeadamente na luta de um pai para tentar salvar o filho, não só levando-o para uma suposta terra, a sul, onde pode haver alguma esperança, a eterna quimera para além do arco-íris, mas também, e especialmente, incorporando nele uma chama – o fogo, como refere o miúdo – de fé na própria humanidade. Aparentemente não traz nada de novo, já vimos esta história em muitos lados, mas a forma como ele mostra, sugere, este caminhar, onde toda a humanidade está confinada ao seu lado mais animal, a selva da sobrevivência, é demasiado forte, excessivamente amarga para os nossos olhos, a visão aterradora e angustiante de um mundo onde o homem comum não tem salvação possível não nos deixa escapatória, o horror está no meio de nós e, naquelas condições, não seremos heróis de coisa nenhuma. Poderá haver algo mais horrível do que um pai pedir a um filho para que morra? A cena da despensa foi do mais grotesco que já vi em cinema, não é a carne e o sangue que nos incomoda é a desumanidade canibalesca sugerida que nos deita por terra.
Neste filme não temos os efeitos especiais, os monumentos a explodirem numa orgia de cores, nada, nunca sabemos o que se passou, temos apenas o drama do que vem a seguir e que nunca é contado, até que ponto sobreviver não é a mais dolorosa das mortes? Talvez o Haiti esteja aí para responder à questão.
Tal foi o abismo onde mergulhei, que mesmo no final, em aberto, onde outros viram esperança eu vi a pior das crueldades até ali mostradas.
Se Viggo Mortensen faz o papel da vida dele, só o fracasso do filme o leva a ficar afastado dos Oscares, Kodi Smit-McPhee, o miúdo surpreende pela sua capacidade dramática, pela sua expressividade. Robert Duvall, numa curta e disfarçada aparição, está magnífico.
Contado de uma forma lenta, cinzenta, uma fotografia soberba, com uma narração poética, como se houvesse uma catarse do horror nas palavras, A Estrada é um daqueles filmes que incomodam muito, andei dias para esquecer o que vi, que achamos muito bom mas que não recomendamos a ninguém, o que o torna num injusto fracasso. Nota, se alguém ousar ir ver leve muitos lencinhos, vão dar jeito.
Mas se a Estrada só o ligava a Fellini pelo nome propriamente dito, esta semana estreou um outro filme que, esse sim, supostamente tenta aportar o imaginário do autor de Oito e Meio. Nove, baseado numa peça da Broadway com o mesmo nome, que por sua vez foi buscar citações a 2 dos grandes filmes de Maestro, o já referido Oito e Meio e a La Dolce Vitta, é um filme musical do Rob Marshal, autor de Chicago, e que, e para ser parco em considerações, fica-se por aí, em meras citações de memórias cinematográficas embaladas com musiquinhas à maneira.
Eu com os musicais tenho uma relação do ama-me ou deixa-me, ou gosto muito, quando me consigo elevar e a música faz parte da narrativa, ou detesto, quando não consigo descolar e vejo sempre a parte musical a encher chouriços auditivos. Nada mais cativante do que uma música para despertar as emoções que a cena está a tentar passar, mas nada mais penoso do que ter uma historinha e fazê-la parar para entrar uma musiquita enchouriçada. Faz lembrar as penosas revistas à portuguesa que, entre uma laracha e outra, sai depois uma musica e um bailado para ilustrar coisa nenhuma.
Desde o primeiro plano, em que temos a visão de um realizador angustiado pelo bloqueio criativo, até ao último o que se passa em Nove? Nada. Apenas o desfile disso mesmo, de nada se saber, nada se fazer, intercalado, isso sim, com números de canções à la carte. A narrativa é penosa, o drama existencialista de um tal Guido – Daniel Day Lewis está como peixe fora de água – é uma seca, e serve apenas para que entre o mulherio em cena a dar o corpo ao manifesto, mostrar os belos corpos e os dotes vocais que a técnica fez questão de tornar bonitinhos.
Curiosamente, o suposto filme que o tal Guido quer fazer e não consegue chama-se Itália, ora é precisamente isso que acontece em Nove, de tanto a quererem mostrar, a Itália não mora ali, só mesmo uma versão estereotipada, para a americanada ver, é que faz a sua aparição. Apenas o número da prostituta na praia com os miúdos a perderem uma certa inocência perante o castigo do clero, se aproxima do velho imaginário neo-realista, tem inclusive algo de Amacord, mas a escolha da cantora, Fergie dos Black Eyed Peas, não foi a mais acertada, pois, apesar de ser a que afina melhor as notas musicais, precisava-se de uma mulher mais carnuda para ilustrar as Mamma Roma do antigamente, sedutoras e destruidoras de virtudes infantis.
Resta a consolação de ver as grandes divas todas bonitas a fingir que cantam. Será que no DVD vai sair uma edição especial em que só aparecem elas em palco? Era uma boa ideia.
Nas encruzilhadas dos caminhos destes 2 filmes chego à conclusão que não queria que o vento me soprasse o que quer que fosse, perante o eco das respostas de A Estrada preferia ser surdo, porque dói muito ouvir a dor, e perante Nove preferia mesmo que o vento levasse para bem longe o deserto de ideias.
Muito mais do que os monumentos, os grandes edifícios ou a beleza geográfica, um lugar faz-se de pequenos detalhes e de impressões que se colaram na pele, ainda que não constem em nenhum compêndio histórico ou turístico. Assim, a forma como respirámos num determinado sítio embruma ou esplandece o nosso olhar sempre que a paisagem da sua memória se abre na nossa janela.
Durante este quase meio século em que é composta a minha caminhada – não podia ter arranjado imagem mais deprimente para ilustrar o meu calendário pessoal- já tive a sorte de ter passado por muitos lugares, de ter visto muita coisa e, para mal dos meus pecados, de ter sofrido muitos acontecimentos. Quando refiro sofrer não estou propriamente a compor uma hipérbole ao sabor da pena para fazer ramalhete na frase, é mesmo de padecimento que falo, tal é a minha mala pata para que desabem sobre mim agruras aos molhos, numa espécie de desfile de carnaval de figuras funestas de absurdo em que cada uma consegue sempre superar a outra. Não acreditam? Relembro Isto.
Nesta minha nova série de Sombras, de histórias vividas e padecidas em distantes lugares, vou iniciar o relato por Sydney, uma das cidades que o meu olhar mais amou, e a pele também [:)].
Sydney é uma cidade muito bonita, não só pela organização urbana que foi feita ao longo do tempo, com uma mistura de estilos engraçada, o moderno e a o antigo convivem de braço dado, como também pelo facto da natureza a ter bafejado com todos aqueles recortes marítimos, o que lhe dá um ar de ilha permanente, mesmo sem o ser. Digamos que é uma espécie de mistura de Nova Iorque com o Rio de Janeiro, sem a componente benigna de ambas, ou seja, sem o esmagamento urbano de NY e sem a violência e a pobreza das terras cariocas. A imagem maior que me ficou da cidade foi a de um regresso por barco, ao anoitecer, depois de uma visita a umas montanhas no interior, e ver aquela manta salpicada de luzes, os arranha-céus da baixa ficam todos iluminados durante a noite, como o distrito financeiro em NY, a aproximar-se lentamente, como se nos viesse abraçar. Valeu a pena o quase ter ficado com a cara paralisada de frio, tal era o vento gélido na proa.
Precisamente depois dessa grande sensação, e porque vinha enregelado, como se me tivessem tirado de um congelador, esqueci-me que em Julho faz frio por lá e não levei grande roupa, resolvi aquecer-me bem, e nada melhor do que uma boa sauna. No elevador reparei que o hotel tinha sauna e piscina no terraço do último andar. A piscina estava fora de questão, não devia ser aquecida, mas a sauna vinha mesmo a calhar. Mal cheguei ao quarto despi-me vesti o roupão do hotel e zás, aí vou eu para o forno humano que a rapaziada lá dos mantos nórdicos resolveu inventar. Ao chegar ao terraço fiquei mais uma vez maravilhado, a vista era espectacular, a velha e conhecida Harbour Bridge, a magnifica Ópera e os magnânimes arranha-céus iluminados, estavam mesmo ali ao lado, a encher-me a vista de contentamento. Reservei a imagem, para a voltar contemplar, num dia mais vestido, e fui para a minha sauna catita que esperava ansiosamente por mim. Ups, ao chegar lá vi que a dita era mista e eu apenas tinha no corpinho o belo roupão branco bordado com o logótipo do hotel. Não me atrapalhei, enrolei-me numa das muitas toalhas disponíveis para o efeito e entreguei-me aos prazeres das altas temperaturas. Uma outra surpresa contemplativa esperava por mim, a sauna tinha uma pequena janela de vidro que permitia estar a destilar por todo o lado e a ver a Ópera lá ao fundo, toda janota, bem como os barquinhos a ir para o cais. Pude inclusive abrir a toalha, detesto estar muito embrulhado numa sauna, porque não apareceu ninguém, também já era tarde e o pessoal devia estar no repasto.
Mais reconfortado, e depois de me ter esvaído em suor, passei-me por um chuveiro e saí da sauna. Já me preparava para abandonar o terraço quando reparei num belo jacuzzi envolto em vapor, tal era o contraste entre o quente da água e o frio do ar, mesmo ao lado da piscina. Bolas, porque é que não tinha levado calções de banho, devia ser espectacular estar ali no quentinho, com o frio na cara a contemplar todo aquele espectáculo da vista. Mas se não tinha aparecido ninguém até ao momento, dificilmente àquela hora viria mais alguém, assim, não devia haver problema em me meter naquela água quentinha tal e qual como vim ao mundo. Se bem o pensei, melhor o fiz. Tirei o roupão, coloquei-o numa cadeira mesmo ao lado, para o caso de o ter que vestir de emergência se ouvisse barulho, e mergulhei nas delícias de uma água quente ao ar livre em plena noite australiana.
Estava eu tão extasiado com o deleite das sensações de calor no corpo, frio na cara e uma imagem soberba, apesar de estar no alto, os enormes edifícios financeiros da dowtown pareciam desabar sobre mim, que nem ouvi que alguém chegara entretanto. Quando reparei, já tinha uma enorme família à minha volta, digo enorme porque traziam crianças e os adultos, 3 ou 4, aportavam com eles umas dimensões muito bem generosas, aquilo da carne de canguru deve ser mesmo muito nutriente. De imediato pensei em pisgar-me, enquanto estavam naquela algazarra da instalação, tinha o roupão ali ao lado e eles nem iam reparar na minha saída. Engano. Não só as criancinhas voaram sobre o jacuzzi de imediato e começaram a chapinhar, como o meu belo roupão, pousado na doce cadeira, foi arrastado para mais longe nas arrumações que aquelas singelas mãos australianas, pelo sotaque eram, fizeram, num instante viram aquilo do avesso. Ok, calma. Isto vai compor-se, bastava ficar aqui com cara de parvo a lançar sorrisos amarelos perante as diabruras infantis e esperar que eles se cansassem e zarpassem dali para fora. Novo engano.
Vieram para ficar durante muito tempo. Esqueci-me que as crianças nunca se cansam de estar na água e que o pessoal mais gordo acha que as borbulhas de um jacuzzi desfaz as calorias que andaram a enfardar durante anos, pelo que quando se metem lá passam largas horas a tentar definhar. Para agravar a situação e me sentir ainda mais um alien naquele espaço, a família, por ser avantajada, não coube toda naquela banheira borbulhenta e um deles, presumo que o chefe da tribo, ficou sentado à espera que eu saísse para que ele mergulhasse as suas belas adiposidades em tão fogoso caldo. Cada minuto que passava lançava-me um olhar fuzilador, como quem diz, ó cromo baza que agora é a minha vez.
Só tinha mesmo uma solução, enfrentar as feras. Eu é que estava a ser parvo, aquilo era gente muito evoluída e estar-se-iam a borrifar para a nudez de um pacóvio qualquer. Nem percebia muita bem a minha reacção, se nunca tido problema em despir-me em qualquer lado, desde que o lado fosse próprio para isso, evidentemente, porque estava eu com tantos pudores em sair dali? Ganhei coragem, enchi o peito de ar, levantei-me, mostrei orgulhosamente a minha nudez, como quem diz, eu venho lá da metade da fatia do norte do globo mas sou muito mais evoluído, para mim jacuzzi é em pelo, seus mariquinhas, e procurei o roupão. Vesti-me e desejei-lhe uma boa noite em língua de gringo. Nem me lembro se me responderam, apenas sei que, de repente, Sidney deve ter entrado num coma profundo, só ouvi um ruidoso e imenso silêncio, a conversa intensa com que as mulheres se digladiavam dentro de água ficou automaticamente suspensa, o olhar perseguidor foi a única linguagem que vislumbrei.
A aventura nudista foi depois motivo para grande risota, são estas coisas que dão colorido aos sítios e tornam as viagens marcantes. Não tinha que me preocupar, a probabilidade de me cruzar com aquela gente era praticamente nula. Siga a viagem e a desfrutar do tempo que ainda faltava para estar naquelas paragens.
Na última noite em Sydney, depois de mais um dia aproveitado até à exaustão, já era tarde e havia que procurar lugar para jantar, o que não era fácil, tirando os bares da boémia da zona do Rocks, perto do hotel, os restaurantes à semana fecham normalmente cedo. Como estava perto do complexo do Sydney Harbour achou-se melhor comer algo por ali, tinha espaços agradáveis e alguns ainda estavam abertos. Entrámos num restaurante italiano que tinha boa pinta, ok, a comida por lá não era grande coisa, e manjar algo cá das europas até que não era mau. Mal entrei, ouvi uma voz, aguda e em eco pelo restaurante:
- Mummy, mumy, looks, he’s the naked man!
Uma adorável menina, sentada numa mesa, onde fartos acompanhamentos deglutiam fartas pizzas, apontava de dedo em riste para mim, canalizando todos os olhares para a minha pessoa, como setas precisas de William Tell a disparar sobre a maçã. Nessa noite comi a pizza mais corada e pesada do mundo.
Pronto, esta foi a minha aventura nudista em terras australianas, num próximo post relato os jackpots falhados, o atentado a coca-cola e aventura mais próxima que tive de um filme pornográfico.
Muito amor e paz no mundo. Não precisamos de ter uma coroa na cabeça, uma faixa a tiracolo e as pernas à mostra para soltar a eterna frase. Mal se aproximam as 12 badaladas da torre de Saint Dennis de qualquer passagem ano, lá estamos, entre brindes e passas, todos a proferir estes desejos, mostrando que em cada um de nós mora secretamente uma Miss Portugal, Mundo ou até mesmo Universo, na hora de despejar os nossos anseios sobre o tempo que se avizinha. Pois é, nesta coisa dos votos de ano novo, o léxico que utilizamos bem podia participar num qualquer concurso de beleza numa ilha das Caraíbas, entre sorrisos pepsodent e maminhas XL, apresentado por alguns figurões cabotinos em fim de carreira

Porque será que ninguém pede coisas mais terrenas, mais simples, tipo um micro-ondas, que a sogra deixe de arreliar a paciência ao domingo ou que a vizinha do prédio da frente finalmente deixe a janela aberta quando vai tomar banho? Porque isso era ser egoísta e nós queremos ser altruístas, magnânimes sobre os outros, que o bem seja o mais colectivo possível e, assim, ficarmos perto de uma certa canonização instantânea. Ok, mas não podíamos, então, pedir coisas mais palpáveis, sei lá, que o mundo inteiro tivesse um Ferrari ou que passasse andar tudo vestido por Armani. Estúpido? Talvez, inclusive até supera os votos da mensagem original, mas uma coisa é certa, o pessoal ia adorar muito mais, ó se ia! Então não era muito melhor andar por aí a laurear a pevide num popó todo vermelho, que faz ronron em cada aceleradela, com um fato de fino corte, do que essas coisas das pombinhas a voar e de beijinhos fraternos entre todos? Eu, olhando para o vizinho meu do 8º direito, e pensar que poderia receber um ósculo seu, preferia já a 3ª guerra mundial mesmo em frente à porta.
Uma forma de dar volta à questão é desejar saúde e sorte, para nós, para os próximos e para todos em geral, continuamos, assim, com a nosso pontinha de santo pontífice mas não nos comprometemos muito em termos de pirosice. Ora se a ideia é bonita, e saúde e sorte dão sempre muito jeito, a coisa, se fosse mesmo verdadeira, poderia ser muito complicada, porque nisto de ter uma boa e grande sorte implica sempre que outro a tenha má e pequena. Passo a explicar, há uma teoria, Lavoisier não a escreveu mas poderia tê-la escrito, que diz que a sorte global mantém-se sempre constante e que somatório das sortes de cada gente é igual à sorte geral, logo se o nível de sorte geral for 1.000 e a minha for 10, no dia em que a minha aumentar para 50 significa que, para manter os 1.000, alguém teria que perder 40. Confusos? Vamos a coisas práticas.

Imaginemos que Deus, num momento de boa disposição, já esqueceu o livro de Saramago, anda agora a ler o último da Rebelo Pinto para ver se entende as mulheres, ou, pelo menos, para ver se entende a própria Margarida, que não há quem a aguente em prelecções sobre a modernidade do mulherio, resolve conceder-me a minha sorte mais desejada, o euromilhões. Fico feliz, extraordinariamente feliz, digamos que com uma hecatombe de felicidade nas Bahamas de papo para o ar, e a sorte aumenta exponencialmente na conta bancária, tudo bem, mas para eu ter aqueles milhões todos, milhões de pessoas ficaram sem uma pequena parte deles, ainda que trocos, e um outro, ou vários, deixaram de ganhar o primeiro prémio.
Imaginem também que Ele estava um mãos largas, cá para mim deixara de ler o livro e esperaria pelo filme com a irmã gémea da Margarida no papel principal, a Alexandra Lencastre, e metia a cereja em cima do bolo ao dar-me também a Angelina Jolie que caía a meus pés tolhida de paixão pela minha pessoa. O que acontecia? O coitado do Brad Pitt, outro bp de 63, ficava lavado em lágrimas da má sorte que lhe tinha calhado, ficara sem o seu amor e ainda por cima a criançada, que não fora incluída no pacote do prémio, restara por lá com ele a moer-lhe o juízo e a fazer-lhe pesar ainda mais a cabeça.

Mas vamos a coisa mais simples, mais terra a terra, digamos que a disposição de Todo o Poderoso já não está no seu melhor, resolveu ver a Júlia Pinheiro e o Goucha com as encantadores criancinhas a fingirem que cantam, e, para expiar a sua dor de ouvidos, faz, por exemplo, com que eu seja promovido. O que acontece de seguida? Um outro vai ficar a chuchar no dedo e a soltar pragas ao vento com a dor que sente, tanta que ainda irá à urgência fazer uma radiografia ao cotovelo.
Mesmo a saúde, coisa que todos queremos e achamos que é um beneficio global, imagine-se que se me acabam as maleitas todas em 2010, coitados dos médicos, lá vão ficar com umas consultas a arder e menos dinheiro em caixa. Mais exemplos de desejos banais cumpridos, deixo de ter programas cretinos na televisão, já viram? Cláudio Ramos teria que emigrar urgentemente para Burundi. Triste, não é? Nesta coisa da sorte, não há mesmo almoços de borla. Nunca, mas mesmo nunca, há bela sem senão.

E não pensem que esta teoria só se aplica nos desejos individuais, pois nos colectivos é a mesma coisa. Voltemos às Misses. Já imaginaram se Deus estivesse, só para contrariar e dar uma lição ao mundo, em dia sim e concedesse aquilo tudo, muito amor e paz no mundo?! Posso vos adiantar que qualquer dos cenários seria terrível, senão vejamos:
Se houvesse uma onda de amor, seria catastrófico e não era porque a dona Isaltina da mercearia se ia agarrar a mim até eu me sufocar completamente nos seus laaaaaaaaargos braços e profuuuuuundo peito – se bem que, visualizando a ideia, isso seria uma calamidade maior do que o efeito estufa, – mas sim porque a economia ia completamente ao charco. Está provado que qualquer apaixonado baixa a produtividade, anda com a cabeça na lua, só quer é chegar à horinha de sair para partir para os braços da amada e enchê-la de beijinhos, dar-lhe docinhos e dedicar-lhe músicas pirosas. Se o amor se instalasse de armas e bagagem por cá, o mundo virava um autêntico supermercado nos tempos da grande depressão, prateleiras vazias, volte cá amanhã que já devemos ter, o pessoal deixava de produzir, as empresas não tinham nada para vender e seria o principio do caos. Ui, então se o amor fosse físico é que era o bonito, amanhã entrego-lhe o relatório que agora tenho que ir ali à sala das fotocópias matar este calor que me consome com a Liliana dos financeiros. A vantagem é que ficaríamos também um pouco prozac, não tínhamos as coisas, tudo à nossa volta despencava, mas também não nos preocupávamos muito, o amor é, afinal, o maior psicotrópico do mundo.
Se a paz viesse por aí abaixo, qual nevão global, a coisa não seria melhor. Primeiro fechavam as fábricas todas de armamento, e haveria cidades das grandes potências que desapareceriam do mapa, milhões no desemprego, organizações que eram extintas, carreiras políticas arruinadas, muita fortuna que não se construía e daí novamente mais desemprego, especialmente no bairro da moda de Milão, nos grandes construtores de automóveis, nas joalharias da Quinta Avenida, etecetera e tal. A crise económica ia ser tal que ao fim de algum tempo o pessoal já andava todo à batatada uns aos os outros e deixávamos de ter guerras lá nas montanhas perdidas do Oriente para passar a tê-la ao virar da esquina do nosso bairro. Brincadeira à parte, a indústria do armamento é a última das grandes indústrias pesadas que resistiu no tempo e se modernizou, os seus valores pesam muito nos PIB dos países e a maioria das guerras existentes não passam de meras ilusões ópticas de idealismos ou fanatismos, pois são, verdadeiramente, apenas o marketing mix a funcionar nas sua políticas de distribuição e de criação de mercados.
Pois é, isto não fácil, de tanto queremos uma coisa nunca pensamos que a nossa possível boa onda poderá ser a má de outros, é um pouco como aquelas empresas que se instalam em Portugal, ficamos felizes com a sua vinda mas esquecemos que deixou um rastro de desemprego no sítio de onde ela veio e que será o mesmo que vai deixar por cá, quando for embora para outras paragens a fazer feliz outras gentes. Voltamos ao Lavosier de pacotilhana, na sorte e na riqueza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Bem vistas as coisas, vem-me sempre à cabeça uma conversa de café, que em tempos escutei numa mesa ao lado (não sou cusco, mas se as pessoas falam alto não posso tapar os ouvidos), em que um rapaz com as hormonas aos saltos, especialmente quando misturadas em cerveja, dizia:
- Este ano estou-me cagando para essas cenas de saúde, sorte e outras merdas, quero é foder muito, mesmo muito, foder até cair para o lado.
Bom, à parte da forma vernácula como foi explicitado o desejo e da fúria da idade, o rapaz não deixava de ter uma certa razão, se até o meu avô, homem de outros tempos, dizia que o que se leva desta vida é o que se petisca na mesa e na cama. Parece que ambos afinavam pelo mesmo diapasão, e, deixemo-nos de cantilenas, não há nada que chegue ao sexo, não tem contra-indicações, inclusive faz parte dos 5 elementos que prolongam a vida, não diminui a produtividade, o pessoal até fica com pica para trabalhar mais, e é amigo do ambiente, com o calor dos corpos quem precisa de aquecedores. No entanto, sobre aquilo do até cair para o lado , há que ter algum cuidado, especialmente com a idade, alguns, se levarem isso à letra, ainda se arriscam a ficar com a clavícula partida na queda.
Em tempos, sempre que se aproximava um ano novo, tinha muitos desejos e superstições (sobre estas já delirei, em tempos, por aqui ), hoje em dia, espero apenas que a coisa corra bem ou pelo menos que corra sem sobressaltos, o que já dá para aguentar o barco.

Assim, e já que aí vem 2010, que tudo vos corra bem e que os dias tenham muita espuma. Apenas isso.
Qual é o país mais capitalista do mundo, qual é? Os States, claro. Quem faz mais manifestos anticapitalistas? Os americanos no seu cinema, evidentemente, mesmo que ele seja uma das pérolas maiores do próprio sistema. Qualquer filme vindo de lá consegue ser mais marxista que o próprio Marx, Hengel e Lenines juntos. Nem o próprio Bernadino Soares, se agarrasse uma câmara e pusesse a Angelina Jolie de foice na mão e o Brad Pit de lenço vermelho ao pescoço e punho erguido, conseguiria tanto (não deixa de ser um exercício mental curioso pensar que filme poderia ele fazer com este naipe de actores). Ainda que já tenha explanado sobre isto, em tempos, por aqui , não deixa de ser curioso voltar ao assunto depois de ver AVATAR.
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1. O Delírio
A historinha pode resumir-se em 2 penadas: A primeira, trata daquela espécie ruim como as cobras, o ser humano, que chega a uma terra distante para sacar a riqueza e lixa tudo o que está à sua volta; a segunda, trata do indivíduo, desgraçadinho, paralítico, com irmão morto, aquelas coisas que mais parecem decalcadas de um triste fado luso numa tasca de Alfama, que se mistura com os estranhos para os lixar mas depois é ele que acaba por lixar o plano todo ao se apaixonar por uma indígena e tomar partido dos mais fracos. Original, não é? Bom, uma coisa assentamos desde já, o filme é sobre o eterno lixanço, isto para não me espraiar em termo mais vernáculo, que o homem sempre faz, quer seja em bando, como praga de gafanhotos, quer seja a nível individual sempre que se enrola com os meandros da vida, nomeadamente se os meandros tiverem um bom par de pernas, que neste caso são bem esguias e azuis ainda por cima. Resta agora saber se o filme vai lixar o cinema ou se ele próprio se lixa nas bilheteiras, mas sobre isso já lá iremos mais abaixo, vamos agora ao delírio social.
Ao ver o filme, uma coisa saltou-me no pensamento, não fossem as longas 3 horas e aquilo até podia ser o preâmbulo do discurso de Obama em Copenhaga ou em outra parte do mundo, tal é o moralismo ecológico e pacífico que aporta. Não sei mesmo se não é o James Cameron que anda a fazer os discursos emblemáticos ao presidente, cheio de boas intenções, melodramático e arrebatador, há mesmo uma altura em que o herói Jake Sully disserta para a plateia indígena e em que ficamos à espera de um Yes we can, todo o filme assenta numa áurea de ambientalmente correcto: as conquistas energéticas, e especialmente as da ganância, do subsolo destroem os mundos pela forma como vão corroer o equilíbrio da natureza e só mesmo uma verdadeira consciência civilizacional nos poderá salvar. Além disto, deixa ainda escapar uma outra Obamada, tudo é muito bonito, muita paz, muito amor, mas só a guerra nos pode libertar, claro que é uma guerra boa, limpa proveniente da natureza e contra os maus, uns capitalistas dos diabos que chacinam tudo. Porque será que os argumentistas americanos, quando toca à moral, são tão bipolares, roçando mesmo uma certa esquizofrenia cinematográfica?
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Não deixa de ser curioso ver um produto maior do capitalismo – Avatar é o maior investimento de sempre do cinema, 500 milhões sem grandes rigores, e precisa de vender muito, mas mesmo muito, para não colocar ninguém com o pescoço na guilhotina, – a trazer uma bonita metáfora sobre as consequências do dito capitalismo sobre o meio, a ânsia desmedida de fornecer produtos abate drasticamente os recursos, não nos podemos esquecer que na ficção em causa a conquista do planeta deriva do facto de se querer captar um minério energético, o Unobtainium, que mais do que mover o mundo, o faz levitar, na verdadeira acepção do termo.
2. A Mensagem
Aquilo que é aparentemente um filme de acção e de ficção científica, acaba por ser um manifesto imenso de boas ideias.
A primeira já referi, a procura de energias minerais é devastadora e acaba por colocar sempre em perigo as outras energias naturais, menos fortes mas mais equilibradas. Todos sabem disso, mas a rentabilidade económica, ao ser grande, dita a cegueira e avança-se sobre a natureza para colher os frutos malditos, petróleo ou Unobtainium tanta faz, o resultado é o mesmo, a aniquilação total. A certa altura a personagem principal refere que na terra já não há verde pois tudo foi destruído, não contentes há que ir para outros planetas fazer o mesmo, que nesta coisa da fotossíntese ninguém se pode ficar a rir. A pergunta que fica por esclarecer é se havia alternativa, se a espécie humana para sobreviver não teria mesmo que invadir e lixar tudo, afinal não é a própria natureza que tem as regras dos predadores e das presas? Mas pronto, fica mais bonito mostrar como somos maus e os aborígenes extraterrestes bonzinhos de uma pureza angelical. Porque será que nunca mostram que os povos primitivos, apesar de toda a espiritualidade e crença em bolinhas de sabão, são também normalmente bárbaros?
Mas talvez a maior mensagem que o filme tenta passar está na coisa mais simples, que é o facto de na natureza estar tudo ligado e em harmonia e que só mergulhando de novo nesse equilíbrio, integrando-nos nela, nos poderemos salvar. A “ligação” tem no filme uma metáfora muito física, os selvagens ligam os seus cabelos a filamentos de outros animais e plantas e comunicam com eles, como se ficassem a fazer parte de um único elo. Mais, essa ligação ao ser uma forma de comunicação acaba por criar a energia que tanto se precisa, e a própria internet, como rede, não foi afinal nada inventada, apenas decalcou, em electrónica, aquilo que sempre esteve no ecossistema global, uma vasta teia de partilha.
Com esta coisa do está tudo ligado ficou-me uma dúvida, será que a ZON patrocinou o filme?
É sempre bonito sair com reconforto espiritual de um filme. Penso mesmo, que o pessoal que se sentou a empanturrar com sacos gigantes de pipocas e baldes de plástico de coca-cola a ver a fita, saiu feliz, quase expiado, por sentir que o mundo humano e a natureza têm que andar de mãos dadas e em harmonia como um casalinho de pombinhos em inicio de namoro, isto até encherem um saco com o lixo que criaram com os comestíveis cinematográficos e virarem na esquina do centro comercial para comprarem o novo Nokia, que faz umas coisa giras, mesmo sabendo que o que têm bolso ainda funciona e faz tudo o que precisam, no fundo, novamente como o tal casal que, passado o arrufo romântico inicial, já grita um com o outro.
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3. O Filme
Bom, agora sobre o filme propriamente dito, uma coisa é incontestável: Não adiante blue-ray, nem plasmas gigantes ou home-cinema, aquilo é mesmo para ser visto em ecrã gigante com os óculos 3D e tudo. Nunca, alguém que só vai ver em televisão, poderá dizer que viu propriamente o filme. A beleza cromática, o detalhe das figuras e a coreografia dos elementos só são mesmo perceptíveis na forma para a qual foram concebidas, o ecrã de cinema e em 3D. James Cameron apostou forte, e neste aspecto ganhou a batalha, o filme é uma peça única e marca o cinema, tal como StarWars marcou na época, com uma viragem na abordagem das imagens e na sua espectacularidade, o que pode ser a salvação imediata do convento face ao declínio da exibição cinematográfica actual, até podem estar a oferecer cópias piratas de Avatar à entrada que não fazem dano, uma versão em DVD vai parecer sempre uma anedota. Talvez, assim, o futuro do cinema passe por aqui, por criar objectos que se distanciam de uma possível visão doméstica e que obrigam a ir a recintos próprios para os visualizar, pois todos nós sabemos que tudo o que puder ser visto em casa, será objecto de réplicas electrónicas a baixo ou nenhum custo.
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O rigor técnico do filme é de excelência, não me admira nada que leve a palma dos Óscares nas categorias especiais, não deve falhar uma. Um deslumbramento para os olhos consegue apesar de tudo, que essa overdose de universos faça parte da narrativa e não nos afaste dela. A primeira parte parece, inclusive, um passeio por um parque de atracções, tudo são motivos para nos surpreender com a beleza da fotografia e da cinematografia. Este assombramento visual não significa que o filme funcione bem como um todo, pois o argumento tem algumas debilidades. Além da falta de originalidade, decalca em parte Dança com Lobos, não esmiúça, palavra da moda, em condições as personagens nem detalha alguns pormenores que seriam interessantes, o que está a acontecer na Terra, a aplicação do mineral, como é feita a transposição neural dos avatares, são perguntas não esclarecidas. Além disso, há alguns buracos na história, umas incoerências que não se percebem, como o do avatar da cientista, Sigourney Weaver, que afinal já se misturava com os indígenas e poderia ter tirado toda a informação que queriam, sem precisar de todo aquele espalhafato do agente infiltrado.

Ao escrever este post ainda não sei o comportamento da receita de Avatar, sei que no dia de estreia rendeu 27 milhões, foi bom mas abaixo do esperado, parece que havia por lá umas tempestades e o pessoal ficou em casa, mas fica a dúvida se alcançará o sucesso de Titanic. Tenho sérias dúvidas, Titanic era um filme de gaja, aí o meu Leonardo que belo, que os gajos também viam, pela acção de ver aquilo tudo ir ao fundo, tenho um jogo em casa que faz quase igual, e que além de levar os jovens ainda trazia as velhas senhoras, que antes de scones e chás, passavam pela sala de cinema para chorar os desencontros de amor do casalinho principal, já para não falar dos velhos senhores que também gostavam de ver a tragédia do acidente, pois na segunda circular há muito que não havia uma batidela em condições para parar e avaliar. Avatar, a ser classificado, é mais um filme de gajo, a acção é predominante na narrativa, ainda que tenha um piscar de olhos ao lado gaja com a previsível historinha de amor entre o bom selvagem e a selvagem boa, já para não falar no deslumbre estético da cenografia natural. Faz-me lembrar aquele apartamento de gajo solteiro, comprado apenas para reunir amigos e fazer altas farras, copos a rodos, uns filmes javardos e umas miúdas, por encomenda, para se descascarem, mas que ao mesmo tempo convida uma amiga, pela qual tem um fraquinho, para o decorar e ir lá fazer um pouco de companhia, a certa altura nem a rapariga está bem nem os gajos se divertem. Um sucesso será de certeza, mas não será tanto quanto se pensaria, a não ser que a inflação dos bilhetes, são muito mais caros, a isso ajude.
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Mas a grade marca de AVATAR será o que ele pode significar no cinema, o fim de um ciclo e o princípio de outro, que ditará a sua morte, pelo menos tal e qual como o conhecemos.
Se no filme já está simbolizada o fim da nossa civilização, caso não se inverta o rumo, alô Copenhaga, ele próprio poderá simbolizar o fim do cinema como uma macro indústria. Apesar dos seus elevados custos ele veio demonstrar que é possível fazer cinema sem nada, basta a voz. Até agora o que se via, além dos filmes de animação, era que os efeitos serviam de suporte para o desenrolar da acção principal, esta real e com gente de carne e osso, mesmo as personagens virtuais, quando existiam, eram de contraponto, caso do Smiguel ou King Kong, para impressionar. Em AVATAR não, as personagens verdadeiras e de dimensão dramática são as virtuais, sendo os actores reais mero suportes secundários. Ou muito me engano ou futuro da profissão dramática será a representação oral, como nos tempos do velho folhetim radiofónico. E se agora são precisos muitos milhões para fazer uma fita como esta, em bom pouco tempo isso será doméstico, os bons princípios do capitalismo assim o ditam, e vai haver avatares nos youtubes da época a dar com um pau, se até agora o poeta, o escritor, ou o artista plástico que há em nós já tem um palco solitário para se exibir ao mundo, através dos blogues, daqui a pouco o cineasta que também cá mora tem os ecrãs electrónicos domésticos para se mostrar, assim haja bytes disponíveis. Será triste pensar que daqui a 100 anos uma Angelina Jolie terá por detrás uma Magda Patalógica qualquer que apenas tem uma voz sexy, felizmente que já cá não estarei.
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Mas se sobre esse cenário ainda faltam alguns anos, não tantos como se pensam, um outro poderá ter nascido com AVATAR, o do filme imagem sensação, em que é necessário ir mesmo à sala para o ver, como se voltássemos ao velho tempo da feira popular e de cinematógrafo, que é como quem diz, às verdadeiras origens do cinema, em que a propósito de nos assombrar com umas imagens iam desfilando algumas historinhas. No fundo, é disto que se trata neste filme, uma pequena história dentro de um imaginário imenso. E que imaginário!
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Andam brilhantes estudiosos a dissecar as semânticas em acordos e prontuários a rodos, para que esteja sempre na ponta língua e do ouvido a epistemologia mais adequada, que é como quem diz, para que não seja dado nenhuma realíssimo pontapé na gramática interpretativa, andam, inclusive, simboligistas a decifrar códigos malucos, especialmente para venderem romances quebra-cabeças como pães quentes, e sempre se esqueceram de desemaranhar aquilo que é o mais óbvio, as línguas que se escondem por detrás da própria língua.
Se quando alguém nos manda fornicar, em linguagem vernácula código máximo, nós não saltamos de imediato para o lombo da/o parceira/o que estiver ao nosso lado, de forma a cumprir logo ali os desígnios do coito imperativo, é porque esquecemos, por momentos, o português académico, mesmo com todo o molho de calão não saímos dele, e interpretamos aquela ordem lasciva por um outro léxico semiótico menos despudorado, que é como quem diz, ok, não te chateio mais. Mas onde está ele, esse tal glossário especial, afinal? Pois, não está!
Ainda que ninguém nos tenha explicado, todos nós sabemos que por detrás de uma linguagem primária se esconde uma outra alternativa, invisível, sem cheiro nem odor, que vai directamente àquela parte do cérebro que está lá escondida para não nos complicar a vida, ou seja, ao pedaço mais inteligente que dispomos mas que tapamos com um lençol de neurónios BqDJ (Burrice-que-Dá-Jeito). Agora, se na maioria das vezes dá mesmo jeito não perceber, ou fingir que não entendemos, o que realmente nos estão a querer dizer, outras há em que era importante enxergar logo o verdadeiro significado da coisa para não perdemos tempo em tarefas difíceis e penosas para os nossos dias. Ora, se quando me disseram que eu até estava bom, para a idade, claro, eu tivesse logo percebido que me estavam a dizer que estava a ficar velho, não teria ido fazer bungee jumping na ponte da Arrábida para mostrar quanta juventude havia em mim, e agora não andava a desembolsar fortunas em sessões de fisioterapia, para pôr as malditas vértebras direitas, e de psicanálise, para recuperar a auto-estima perdida perante a figura que fiz.
O problema da interpretação é que não há uma só língua invisível, mas sim várias, o que torna o estudo muito mais complexo. Quando ouvimos um político falar, por exemplo, além da sua língua mãe, vamos esquecer inglês técnico, francês de exilado e outras variantes arrojadas, ele fala também um outro tipo de dialecto subliminar, o politiquês, em que, apesar de utilizar o mesmo vocabulário do português, a sua epistemologia é completamente diferente. Senão vejamos, quando ele, o dito politico, diz, “eu vou ser sincero” quererá mesmo dizer isso?, não, quer dizer apenas “deixa-me lá ver como é que me vou sair desta”. Mas se este mesmo político disser a frase para a sua mulher, o que ele está a dizer verdadeiramente é, “o que te vou dizer é só missa a metade daquilo que gostava de te atirar à cara”. Estão a ver complexidade disto tudo?! Só mesmo com um doutoramento em Havard é que se consegue vislumbrar alguma luz ao fundo do túnel e, ainda assim, era preciso que o Dan Brown tivesse inspirado.
Bom, para facilitar, armei-me em Robert Langdon de trazer por casa, e tentei decifrar o verdadeiro significado de certas expressões nas tais línguas invisíveis. Para já, trago apenas a língua Masculinês e Feminês. Numa próxima, apresentarei Politiquês, Culturalês, Socialês e Trabalhês, se outras não surgirem, entretanto, no decurso laboratório de alto nível em que estou envolvido.
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ELE numa sessão de compras
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Frase:
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Escolhe tu querida, confio no teu bom gosto.
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Tradução:
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Não me chateies com essa merda, quero lá saber da porra dos cortinados.
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ELE para ELA
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Frase:
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Nunca conheci uma mulher como tu.
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Tradução:
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Finalmente consegui esquecer a outra, que me andava a atormentar a cabeça o tempo todo.
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ELA para ELE
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Frase:
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Nunca conheci um Homem como tu.
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Tradução:
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Chiça, finalmente encontrei um tipo que me apara o jogo todo!
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ELE para amigo
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Frase:
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Estou a viver uma paixão do outro mundo.
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Tradução:
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Ando a dar umas quecas dos diabos, daquelas de trepar paredes.
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ELA para amiga
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Frase:
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Estou a viver uma paixão do outro mundo.
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Tradução:
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Finalmente encontrei um tipo que me mostrou o que é o sexo.
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ELE numa festa perante a loura de decote generoso
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Frase:
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A miúda é bem gira.
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Tradução:
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A miúda é boa como o milho, tem umas mamas e um cu que só visto.
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ELA numa festa perante a mesma loura
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Frase:
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Sim, a miúda é bem gira.
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Tradução:
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Para a idade até nem está má de todo, escusava era de se estar exibir toda como um pavão, quero ver quando tudo aquilo começar a cair se ainda vai ser a rainha da festa.
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ELA para um amigo
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Frase:
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És tão querido!
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Tradução:
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És um cromo que me diverte, mas até um certo ponto, se alguma vez pensaste que te ia pôr na minha cama, esquece.
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ELE na discoteca
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Frase:
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Desculpa, acho que te conheço de algum lado.
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Tradução:
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Desculpa, não te conheço de lado nenhum mas a noite está a acabar e não quero ficar a seco.
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ELA na discoteca
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Frase:
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Ah, está ali a Nini…Nini! Está ali uma amiga que não via há muito, prazer em conhecer-te.
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Tradução:
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Desampara a loja que tenho mais que fazer do que aturar cretinos como tu.
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ELE ou ELA na discoteca
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Frase:
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Não está muito barulho? E se fossemos conversar para um sítio mais sossegado?
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Tradução:
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Chega de chove não molha, vamos lá embora para o enrolanço que já se faz tarde.
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ELE ou ELA em encontro
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Frase:
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Vou indo, amanhã tenho que me levantar cedo.
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Tradução:
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Bom, isto não dá em nada, o melhor é bazar.
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ELA na cama
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Frase:
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Sabes bem que o tamanho não interessa.
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Tradução:
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Com tanto gajo bom, tinha logo que me calhar este anjinho barroco.
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ELE na cama
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Frase:
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Isto nunca me tinha acontecido antes, juro!
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Tradução:
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Bolas, mais uma gaja que me deixou de dar tesão. O melhor é partir já para passarinho novo antes que isto se torne hábito.
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ELA para ELE na cama
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Frase:
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Foi bom?
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Tradução:
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Ele esforçou-se muito, mas será que percebeu que eu fingi?
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ELE para ELA na cama
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Frase:
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Foi bom?
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Tradução:
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Quase que fiz o pino, mas ainda assim, cá para mim ela fingiu.
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ELE ou ELA na cama
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Frase:
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Chega para lá, preciso de espaço.
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Tradução:
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Preciso da cama toda, está na hora de saíres dela para fora e não voltares a pôr mais cá os pés.
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ELA a comentar relação
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Frase:
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A nossa relação está agora numa fase mais madura, mais serena.
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Tradução:
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A nossa relação está chata como a potassa, ele até já deve andar enrolado com a secretária, mas mesmo assim leva-me a jantar fora.
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ELE para ELA, em conversa sobre a relação
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Frase:
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A nossa relação está a sufocar-me um pouco, acho que preciso de espaço.
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Tradução:
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Estás uma chata de primeira, não largas o meu pé. Tenho saudades das minhas fainas de solteiro, dos copos e das noitadas e quero voltar a elas, agora que me apareceram os primeiros cabelos brancos e sinto que a vida me está a fugir.
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ELE ou ELA em conversa sobre a relação
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Frase:
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Acho que devíamos fazer qualquer coisa na nossa relação, dar uma volta nisto, sei lá, torná-la mais aberta.
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Tradução:
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Quero pôr-te os cornos mas não quero ter sentimentos de culpa.
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ELE ou ELA em conversa sobre a relação
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Frase:
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Preciso de um tempo.
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Tradução:
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Não aguento mais olhar para a tua cara, a tua fala causa-me enjoos, quero ir para o Tibete para não ter a mínima hipótese de me voltar a cruzar contigo.
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ELE ou ELA
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Frase:
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Sexo sem amor não é grande coisa.
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Tradução:
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Há mesmo muito tempo que não dou uma valente queca.
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ELE numa sessão de compras
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Frase:
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Querida, esses sapatos são o máximo, mas experimenta também estes que vão ligar muito bem com aquela mala grená que tens.
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Tradução:
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Querida, adoro fazer compras contigo, mas depois quero ainda voltar a esta loja sozinho porque está ali um empregado que é um pão e já fizemos olhinhos um para o outro.
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É triste! Enquanto os italianos discutem a alcova do seu primeiro-ministro , nós andamos às voltas com a alcofa do nosso, ou seja, por lá o que interessa é saber com quem é que ele dormiu, que bacanais promoveu e quanto vai desembolsar para pagar os seus pecados, por cá discute-se o que é ele acordou à surdina, que pactos promoveu e quanto é que poderia ter embolsado. Triste este país, onde passamos a vida a discutir as dores que nos consomem enquanto os outros se preocupam com o prazer que alguém consumiu. É por essas e por outras que eles tiveram um Fellini, com o seu circo da vida, e nós um Manoel de Oliveira, com os longos silêncios do nada. Confesso que me sentia melhor se tivesse que acordar todos os dias com a notícia que o PM foi apanhado nuns telefonemas para uma linha erótica, do que este triste folhetim de escutas a discutir negócios negros.
Pois, com uma coisa ou outra, o certo é que já não passamos sem um folhetim do PM. Qual novela da Globo, qual Morangos com Açúcar, qual quê, o que queremos mesmo é a cena dos próximos capítulos de um tal José Sócrates, depois de uma licenciatura lavada a seco, de uma outlet com porta-luvas e de umas escutas de funil, só falta mesmo um caso de sangue para a saga ficar completa. Não me surpreendia nada que daqui a dias, ao ligar a TSF, ainda com os olhos remelados, escute que foi descoberto um cadáver no Guincho e que o carro do PM foi visto poucas horas antes no local. Vão por mim, já falta pouco.
Mas porque raio, temos esta obsessão com o homem? Porque ele tem ar de galã ou porque se põe mesmo a jeito? Não sei, mas por mim tudo está neste eterno gosto pelos folhetins, ficou-nos o vício desde a Gabriela, ou talvez não, e agora, como qualquer dependente, queremos mais e com formatos inovadores. Mas se até a modinha de cravo e canela da Baía não inventou nada, de onde vem mesmo esta mania de nos lambuzarmos com narrativas em suaves prestações?
O folhetim sempre foi o parente pobre da literatura, herdeiro do cordel, primeiro como parte de um jornal, histórias contadas aos pedaços (capítulos), com enredos simples mas cheio de nós de interesse bastante fortes, com as relações familiares sempre no seu extremo e com personagens pouco profundas e estereotipadas, depois em publicações próprias por fascículos, o certo é que depressa cativou os leitores e não só. Mesmo os grandes escritores não foram indiferentes a este conteúdo e nas suas grandes obras de eminência literária não deixaram de introduzir elementos folhetinescos para fazerem evoluir a sua narrativa de uma forma mais sedutora, sem ofensa, Eça e Tolstoi também tiveram o seu lado de Janete Clair.
Mas será que é mesmo um género menor? Não creio, é apenas um género e, como tal, tem e teve alguma importância, por exemplo, a sua contribuição para a diminuição da iliteracia primária é indiscutível, pois ao conseguir pôr populações menos cultas a ler fez algo que a melhor literatura, apesar da sua indubitável importância para a perpetuação maior das letras, não conseguiu. Mas o folhetim, e as suas derivações, foi para além do facto de pôr as sopeiras a escreverem algo mais do que a sua assinatura, muita das variantes da escrita de hoje, romances, nomeadamente os best-sellers e as sagas fatiadas, argumentos, o cinema comercial é talvez o seu maior bebedor, dramaturgia, desde a elitista ópera até ao musical xaroposo, entre outros, devem bastante a esta forma simples de contar histórias, fazer da palavra, não um rendilhado semântico de elevado sabor linguístico, mas um construtor de seduções imediatas para que o receptor fique preso até ao surpreendente fim.
O problema é que, no meio disto tudo, não contávamos que o jornalismo também se transformasse num seu discípulo, mas se virmos bem a coisa, é o regresso à sua origem, ao seja, voltamos à velha historieta publicada diária/semanalmente só que deixamos as desilusões amorosas da condessa que teve um filho bastardo com o jardineiro que havia mais tarde de se perder de amores pela filha dos patrões que era a sua própria irmã, e passamos a ter o político que se vendeu a não sei quem para que esse quem pudesse ganhar não sei o quê. Enfim, o que vamos fazer? São tempos modernos e a forma do folheto do século XIX já lá vai, agora, depois das inenarráveis novelas televisivas, só mesmo as manchetes diárias dos média, que viram neste “novo” conteúdo o filão para aliviar a ferida financeira dos seus dias, para nos prender e salpicar a rotina cinzenta dos nossos próprios dias, viver a histórias dos outros e pôr a nossa em banho-maria.
Bom, voltando o bico ao prego, e como gosto de experiência um tanto ou quanto parvas, vou atirar-me a mais uma, um relato folhetinista de uma personagem ao longo dos tempos, um pobre homem que, cansado de procurar o dito amor da sua vida, o acaba por encontrar numa caixa de Viagra. Por capítulos, como convém, ilustrar uma época ao mesmo tempo que se subvertem escritas. O Carlos Saura que me perdoe por lhe ter roubado o título, mas foi mais forte do que eu, conhecia o ditado desde pequeno, cria corvos e eles comer-te-ão os olhos, sempre me impressionou esta terrível imagem, e há muito que tinha vontade de escrevinhar à volta dele.
Cria Corvos
Cria corvos e comer-te-ão os olhos.
Quando José Bernardo ouviu esta frase proferida pela madrinha, de costas voltadas para ele a fingir contemplar a paisagem distante da janela, ficou gelado, empedernido no meio da sala, como uma estátua equestre no centro da praça. Nunca esperou que ela reagisse daquela forma, com uma frase cortante, sem nexo com o assunto, e a acentuar cada sílaba na ressonância de uns dentes cerrados. Calculava que a reacção não seria a melhor, ia perder o seu querido afilhado, mas responder, assim, à notícia do seu casamento estava fora de qualquer previsão. Bem que ele ensaiou várias formas de comunicar o evento antes de entrar na sala grande, sempre escura, de cortinas corridas, a luz causava dores de cabeça à velha senhora, mas nada adiantou, a reacção foi a pior possível.
- Madrinha, eu não vou embora, vou estar por aqui.
- Para mim foste para sempre – disse Amélia Bento de Oliveira, sem mover o mais pequeno músculo a não ser os labiais, caídos e rugosos, para deixar sair aquela frase dramática.
- Não percebo, afinal eu vou casar com a Belinha, que a madrinha tanto gostava – José Bernardo tentou apelar a algum sentimento saudoso que ainda pudesse existir perante aquela que foi, durante muito tempo, a sua criada de servir. Esqueceu-se que Amélia, mal suspeitara que havia namorico com o seu afilhado, a tinha corrido de casa alegando que lhe desaparecera um anel.
- Uma ladra é o que ela é.
- A madrinha sabe que não é verdade, o anel apareceu depois no armário do corredor. Olhe que nunca ninguém a mimou tanto como a Belinha.
- Basta! Esta conversa tem agora um ponto final. Vai então procurar a tua felicidade, mas não tenhas ilusões, nunca a irás encontrar.
Sem mais palavras, José Bernardo deixou a casa grande, o local onde passara quase todos os seus dias desde que se lembrava de si mesmo. Filho do antigo encarregado da grande propriedade que começava na quinta do Arco, mesmo dentro da aldeia que tinha nome de vila, Vila Maria, e da cozinheira dos ganhões, foi, desde os tempos de berço, o aí Jesus da única filha do homem mais poderoso das redondezas, que viu nele um certo consolo para o seu colo estéril e virgem de mulher culta e rica que se deixou passar no tempo sem nunca vislumbrar homem para constituir família. Mas se nos primeiros tempos esta protecção maternal de madrinha de baptismo foi farta para o pequeno Bernadinho, assim o apelidava, depressa se tornou um afecto sufocante pois, o medo de o perder, fez com que não o deixasse ganhar asas, seguir estudos, uma instrução básica era suficiente para tomar conta da propriedade. Todos pensaram de início que, face ao carinho que a madrinha tinha pelo afilhado, ela o iria pôr a estudar na capital para se formar doutor. Mas não, nem à cidade lhe foi permitido ir para fazer o liceu. Mal terminou a sexta classe ficou como uma espécie de aio da senhora, que sofria na altura o enorme desgosto da morte do pai, mais do que nunca, precisava naquele momento de um homem, ainda que de calções, que estivesse ao seu lado para a orientar. Os estudos, supostamente, só eram importantes para quem nada tinha e o Bernadinho começava uma caminhada para ser dono de tudo aquilo, uma fatia quase total das redondezas.
- Está decidido, vai ficar aqui ao meu lado – com esta frase Amélia decidiu o destino de José Bernardo, ser uma espécie de camareiro da grande proprietária da região. Mesmo a aprendizagem das lides da terra, o tomar conta dos negócios que poderia vir a herdar, foi ficando para trás, todo o tempo era pouco para andar à volta da madrinha, que era um autêntico poço sem fundo de caprichos. Por mais que ele tentasse pôr o pé fora de casa, para ganhar um pouco o mundo, havia sempre um pedido súbito de Amélia para que voltasse depressa, só um chá feito pelo afilhado a impedia de entrar em convulsões e de chamar o médico a casa, especialmente se lhe faltavam os fins de tarde, em que ela, todos os dias, o sentava no seu colo e lhe acariciava os seus cabelos cor de mel enquanto lhe contava histórias dos seus antepassados, umas reais outras inventadas ao gosto das festas capilares.

Sabor a rosas, era assim que José Bernardo sentia a pele da madrinha quando, sentado no colo, tombava a sua cabeça no peito dela e se deixava embalar pelos gestos enfeitados de palavras. Com o tempo, aquela sensação de paz e aroma florar, foi dando lugar a um certo desconforto de rapaz de pelos nas pernas sentado no colo de senhora velha, e aquilo que era uma fragrância macia depressa se transformou numa sensação enjoativa de pele de galinha perfumada. Uma questão de ossadas acabou por resolver o que começava a ser um problema, enquanto os ossos de rapaz vigoroso ganhavam volume e muito peso, os de uma velha senhora davam sinais de fragilidade. Assim, o colo de embalar foi substituído por um aconchego no sofá onde, lado a lado, ela continuou a falar das vidas que viveu e que imaginou viver, naquele seu tom verbal eloquente, de sílabas quase soletradas, como se fosse projectada para uma peça teatral épica, de grandes tragédias e fortunas em tempos perdidos. O sabor perfumado tinha desaparecido mas a impressão de uma pele crespa mantinha-se, Amélia, nos momentos mais empolgantes da sua prédica apertava a mão do afilhado, como se ela própria ficasse com medo do que dizia.
O tempo vai amaciá-la, pensou José Bernardo quando, novamente, se viu cá fora, no meio da praça. Desconhecia a tragédia que batia asas na sua direcção.
O resto da primeira entrega da saga, segue por aqui, por ser a casa onde fica mais resguardado das ventanias electrónicas.
1. O Delírio
E de repente, saindo do eterno marasmo, Portugal moveu-se. Não nos eternos indicadores económicos, que nos assolam a cabeça há muito, mas sim no verdadeiro sentido do termo. Aquilo, a que chamamos território, ganhou vida própria e avançou sobre o Atlântico, como que ao encontro de uma certa América. Aparentemente, digamos que Deus, num magnânime gesto de humor negro, resolveu provar a Saramago que Ele existe e deu corpo a uma espécie de Jangada de Pedra.
Mas não tivemos grande tempo de saborear este macro cruzeiro terrestre de borla, um grande tsunami veio engolir-nos a todos. Eu fui logo dos primeiros a ser contemplado, é o que dá armar-me em fino e comprar casa em frente ao mar, uma coisa é poder contemplar a paz azul do oceano a toda a hora, outra é tê-lo a entrar pela sala adentro, logo naquele dia que até estava bem arrumada. Nem piei!
Bom, as cenas que descrevi acima, apesar de serem um delírio meu, fazem parte do filme 2012. Sim, pela primeira vez, eu e todos nós, deste de cantinho à beira mar plantado, entramos numa grande produção de Hollywood. Portugal inteirinho está lá, primeiro a tremer e depois a afundar, se bem que sobre este último aspecto já temos alguma cátedra. Neste momento, quem já viu o filme, está aos pulos e a pensar, ou tenho uma doença crónica de sonambulismo assolapado, e nem vi essas cenas, ou então o gajo é doido, o que não deixa de ser sempre uma verdade aproximada.
Esclareço então, sim, as cenas não estão propriamente visíveis, os produtores têm que tomar opções porque a malta quer mesmo é ver o Cristo Redentor, a Casa Branca e os Casinos de Las Vegas a serem pulverizados e não propriamente a Foz ou Restelo a serem engolidos nas calmas, mas estão lá subentendidas, ou pensam que nós escapamos? Não senhora, somos todos companheiros daquela desgraça e, mesmo que não nos seja dedicado um mm sequer de fotograma, o certo é que também estamos ali, aos berros e a cair-nos tudo em cima. Aliás, podia ser um bom exercício para as criancinhas, como trabalho escolar inclusive, ora meus meninos, perante o que viram, descrevam agora vocês o que nos aconteceu a nós, que, apesar de termos estado escondidos durante todo o filme, também fomos protagonista desta grande tragédia. Iam ver o quanto sucesso escolar teriam os trabalhos, provavelmente haveria descrições que nem os mais dos arrojados argumentistas se lembraria em tempo algum.
Uma coisa assim do género, estávamos nós na aula de matemática e, de repente, ouviu-se um estrondo, ainda pensámos que tivesse sido a dona Matilde, auxiliar da entrada, que tivesse rebentado com uma nova gripe, a B se calhar, pois ela, nos seus enormes kilos, passa a vida a gritar coisas da gripe A, que temos que limpar as mãos à entrada, à saída e mais não sei o quê, e que qualquer dia estoura com tanto trabalho. Mas não, foi mesmo uma bola de fogo que veio por ali abaixo e aterrou mesmo em cima do sotôr de matemática, abrindo-o ao meio. O pessoal primeiro bateu palmas, mas depois viu que a coisa era séria, o chão da sala abriu-se e os colegas começaram a cair para um fosso cheio de lava, o primeiro foi o Bernardo, marrão como é, só sabe o que vem nos livros, não se desviou e malhou lá bem pró fundo. Depois foi o Tiago, que tem a mania que é bom e quis armar-se em herói, pimba, também zarpou para as profundezas. Eu e a Mafalda conseguimos fugir e, quando toda a escola se desmoronava e era engolida pela crateras, ouviam-se os gritos dos sotôres todos que berravam mais dos que as crianças, vimos uma luz no céu, não era mais um meteorito, nem sequer Deus, apesar de já o ter chamado cá abaixo não sei quantas vezes, era uma nave que nos recolheu e nos levou para fora dali, para bem longe, onde pude, com a minha amiga, dar origem à nova humanidade. Claro que tivemos que esperar um tempo, os nossos corpos não estavam ainda preparados para tão importante Missão. Esqueci-me de dizer que, durante toda aquela destruição na escola, havia sangue e tripas por todo o lado, algumas pessoas rebentavam como borbulhas, devia ser da pressão atmosférica, acho que dei isso em Geografia.
2. Psicanálise
Mesmo perante um cenário destes, em que a tragédia é imensa, quase total, as pessoas acorrem em massa para ver o filme e ficam felizes com as imagens magnânimes de destruição, enquanto sorvem ruidosamente refrigerantes calóricos e mastigam, ainda mais ruidosamente toneladas de pipocas. Aliás, quanto maior for o índice de destruição melhor o grau de satisfação – que chatice, afinal só se vê o Cristo Redentor a desfazer-se e não o Rio de Janeiro todo a ser todo engolido pela fúria das águas, – numa espécie de massacre-depedência.
A questão é, porque raio vamos nós ao cinema para ver sofrer, sofrermos também artificialmente e depois ficarmos felizes com isto?
Para muitos a coisa é simples, é apenas o fenómeno da montanha russa, já sabemos que nos sentimos mal, que ficamos com o estômago colado, mas que no fim gostamos, rimo-nos muito e voltamos a querer repetir a experiência, mas agora numa ainda maior. Assim, esse tipo de sensações é apenas associado aos ditos filmes comerciais, de baixa categoria, série B ou blockbuster, para entreter as massas num ambiente de feira-popular. Puro engano, a história do cinema mostra-nos que esta arte dita 7ª, está carregada de representações amargas para que as pessoas sofram ao vê-las.
Os géneros terror, catástrofe, suspense, dramático, no seu expoente máximo de melodrama, e até mesmo a comédia, na exploração do ridículo, aportam para cinema todo um conjunto de medos e sofrimentos para cativar o espectador, numa espécie de transposição para as imagens dos seus próprios temores, para não dizer fantasmas, que, ao serem ali exorcizados, acabam por criar um certo prazer sadomasoquista, sofro mas fico bem ao ver sofrer, ainda que no imaginário. Mal pensava um tal senhor Freud que o cinema acabaria por ser o grande divã da humanidade.
O acto principal do ver cinema é espreitar. O espectador olha, refugiado no outro lado do ecrã, uma realidade, mesmo ficção é no momento autêntica, como se de repente pudesse entrar dentro de todas as janelas de um grande condomínio e fantasiar com o que vê. Em que nos transforma tudo isto? Nuns genuínos voyeurs, descomplexados, sem medos, em que podemos contemplar a vida, os acontecimentos dos outros. Mas como qualquer voyeur tanto maior é o prazer quanto maior for o espelho que encontramos na cena, ou seja, todo o deleito deriva do facto de podermos encontrar no que vemos pontos em comum com o que sentimos. E voltamos ao princípio, nada melhor para tranquilizar os nossos medos do que vê-los representados nos outros. Fazemos, assim, uma espécie de projecção na própria projecção que é, em si, o cinema.

Será que pensamos que nos cai um meteorito todos os dia na cabeça para depois irmos a correr ver filmes catástrofe para nos expiar o medo? Não, mas o gosto de ver tudo a sucumbir é apenas uma metáfora sobre aquilo que tememos, das verdadeiras coisas que no desabam sobre a cabeça, piores do que qualquer calhau vindo do céu. Se o medo de perder aquilo que temos, as pessoas que amamos, o emprego, o bem-estar, é o mais comum, então representá-lo na visualização da destruição de grande ícones da humanidade traz ao público uma certa catarse. No fundo, é trazer para a modernidade o velho síndrome do Coliseu romano, vamos ver aquela gente toda a ser massacrada, vomitamos e depois ficamos bem na nossa vidinha de todos os dias, afinal há gente que sofre muito mais do que eu. Uns enfrentam o touro, outros limitam-se a assistir e a aplaudir.
Claro que não é só o medo que tem a sua representação no cinema, a felicidade e o prazer também são perseguidos nessa projecção do eu, daí o sucesso das comédias românticas e da abordagem sexual nas imagens cinematográficas, embora sobre esta última a situação seja mais complexa pois a pornografia deixa de ser cinema e passa acto sexual propriamente dito, mas sobre isso talvez um dia volte a explanar.

Assim, quando olharmos para aquilo que são, aparentemente, filmes menores, devemos pensar até que ponto Freud não se esconde por detrás deles e que, muitos dos Godzilas a esmagar, são apenas reflexos de nós mesmos a (de)calcar os fantasmas que nos habitam as mansões ensombradas das meninges. Projecções dentro da projecção.
3. O Filme
Então e o filme? Pois, o filme. A crítica malhou forte e feio como era de esperar, ah, essa eterna mania de procurar Godard na feira-popular!

Mesmo quando se analisa um filme de pernas para o ar, como eu costumo fazer por vezes, nunca podemos esquecer que estamos dentro de um género típico. Não adianta procurar desenvolvimentos densos no enredo, que tudo aquilo é apenas para abanar, impressionar e seguir caminho, ainda que depois a coisa não seja tão simples assim, como se pode ver no ponto acima.
2012 é um bom filme de catástrofe, não sendo nada por aí além não deixa ficar os créditos por mãos alheias. Socorreu-se de uma boa tecnologia de efeitos especiais, trouxe o imaginário e a narrativa dos vídeos jogos, não se pode esquecer a época que vivemos e o público alvo, embrulhou tudo com as eternas histórias de família e já está. Acusaram-no de ter um argumento fraco. Pois, mas aquilo também não dá para mais, vem nos manuais, desde o célebre Terramoto e a Torre do Inferno que se decalca o desenvolvimento do assunto, até mesmo quando a coisa sobe de nível e bate à porta do patamar da arte, alô Spielberg, não deixa de focar os mesmos clichés: Um conjunto de personagens separadas, as eternas famílias disfuncionais (a deste parece que foi transplantada da Guerra dos Mundos), o encontro e a salvação com a redenção interior de todos (a família volta a ficar unida), ou seja, apesar de tudo ainda há esperança.

Se alguma coisa há apontar ao argumento é o seu lado excessivamente moralista, pois, ainda que distraído, quase que é um pastiche de algumas homilias religiosas. Durante a narrativa morrem milhões mas nós só assistimos, por perto, à morte de meia dúzia. E quem são? Os Messias e as Messalinas.
Sobre os Messias temos de 2 níveis: Nível 1, aqueles que têm a missão de trazer os outros para a salvação, mas que acabam por se sacrificar em nome dessa mesma redenção, fica sempre bem esta emoção; Nível 2, os que levam também a luz aos outros, mas já agora aproveitam a sua boleia e, por via das dúvidas, ficam no aconchego da bem-aventurança, que também são filhos de Deus.
As Messalinas, pecadores e pecadoras de serviço, todos aqueles que resolveram pôr o pé fora da cerca ou foram procurar cercas não abençoadas, uns adúlteros é o que eles são, não têm escapatória, mais tarde ou mais cedo embarcam para os anjinhos, é que nestas coisas, mesmo que seja a esmagar tudo como baratas, não há nada como proteger a moral e os bons costumes. Aliás, o final, não o desvendando, não podia ser mais bíblico do que é, mais um pouco e estava ao nível de figurar num manual de maus costumes dos nobeis.
Voltando ao filme propriamente dito, apesar de estar alguns furos abaixo do Dias depois de amanhã, ele cumpre o seu fim. Tem destruição em massa, historinhas banais de gente a tentar salvar-se e, como não podia deixar de ser, um final feliz, ainda que feito sobre a tragédia humana, para nos reconfortar. Uma coisa trouxe de novo, ou pelo menos acentuou bastante, não se centrou apenas nas catástrofes e seus efeitos soberbos, mas sim no suspense e na acção intrepidante ante da salvação do núcleo principal.
No meio disto tudo há uma certeza, nunca nos podemos esquecer de que género estamos a falar (ver), pois só assim conseguimos alargar os horizontes das imagens que desfilam a uma velocidade alucinante, inclusive vislumbrar para além das suas sombras. Mais do que qualquer outro género, é este que devolve o cinema para as suas verdadeiras origens. Ao ser um mero entretenimento de feira, querer trazê-lo para a Ópera de S. Carlos, para depois malhar nele forte e feio, não é justo e muito menos honesto. Até o meu filho, ao me questionar se era filme para Óscares, e perante o franzir do meu sobrolho, logo rematou, “Claro que estou a falar de efeitos especiais apenas!”
Querido pai, querida mãe
Então que tal?
Cá vou indo do jeito que o sangue quer, umas vezes bem, outras vezes mal.
A coisa não está fácil por aqui, a qualidade do produto tem baixado muito nos últimos tempos, as pessoas já não são o que eram e nós é que pagamos a factura.
No outro dia, uma vizinha minha, que se andava mesmo a oferecer, apareceu-me toda fogosa no elevador, com um decote generoso a desaguar num peito de sustentação quase vertical, e eu não resisti, ali mesmo dei-lhe uma valente dentada. Como as coisas enganam! Ela cheia de bom aspecto mas o sangue era uma coisa tão desenxabida que tive que o cuspir logo ali. Não sei se para manter a linha, ou se para poupar para comprar sapatos e malas, o que é certo é que agora a este tipo de mulher só lhe dá para comer saladas, coisas integrais e outras que tais, desde que light. Claro que depois, uma pessoa tenta beber aquilo e nem os requisitos mínimos de hemoglobina têm, mais vale diluir groselha em água que sempre tem melhor sabor.
Para compensar tentei petiscar uma outra, bem rechonchuda, que é caixa no supermercado do bairro, e que me estava sempre a fazer olhinhos. Esperei nas traseiras do estabelecimento e, mal ela saiu, atirei-me de cabeça. Bom, a mulher quando me viu guinchou de tal forma que parecia que a estavam a matar, mas, ao contrário do que eu pensava, não me repeliu, antes pelo contrário, apertou-me com força, com tanta, que acabámos por cair sobre umas caixas de fruta podre, ainda tenho umas nódoas negras nas costas das tábuas da maçã starking. Por pouco não acabei sufocado em tanto reboliço de carnes, só o peito dela dava para afogar, e fruta. Foi com muito custo que consegui libertar os dentes e dar-lhe uma valente trincadela. Mas foi mesmo só uma, porque não consegui ingerir mais. Mal o sangue me passou pelas goelas devo ter ficado com o colesterol a rebentar todas as escalas. Só me faltou mesmo receber um brinde de Happy Meal, tal era o sabor a hambúrgueres e pizzas que aquilo tinha.
Isto está mesmo mau, não se consegue apanhar uma pessoa de jeito. O desespero já era tanto, que passado algum tempo resolvi mesmo trincar um rapaz que me apareceu pela frente, afinal vivemos numa época de modernices e há que experimentar sensações sanguíneas novas. Só vos digo, ainda consegui engolir alguma coisa, mas ao fim de algum tempo estava com uma moca que já não via nada à minha frente, a cabeça parecia que levitava, mais parecia que tinha entrado num coffee shop de Amesterdão.
Como se não bastasse tudo isto, já não há respeito pelas nossas pessoas. Antigamente quando viam alguém com os dentes afiados e os olhos a ficarem vermelhos fugia tudo a sete pés para a primeira igreja que se lhes aparecesse ou desatavam logo a comer gambas à “l’ajilho”. Agora não, os mais velhos insultam-nos a dizer para ir trabalhar, que isto de andar metido na droga só dá cabo do país, que nos têm que sustentar e mais não sei o quê, há vezes que até nos dão uma moeda quando saem do carro. Os mais novos, esses não se assustam, pelo contrário até acham cool, os rapazes querem logo fazer parte da pandilha e as miúdas suspiram para a que as levemos a uma festa para nos mostrarem às amigas. Só vos digo, uma canseira, já não há pachorra!
A minha esperança, é que, com esta onda de liberalização, eu possa abrir um banco. Não, não é daqueles do tipo de coisas financeiras, esses já têm vampiros que cheguem, ainda que de um outro género, mais discretos sugam mais do que ninguém. Não, vou mesmo abrir um banco de sangue. Porquê andar atrás de fornecedores ambulantes se eles podem vir até mim fazer os depósitos? Claro que não é a mesma coisa do que beber na fonte, mas sempre é melhor do que arriscar directamente em gente pouco segura, é que depois não se saber o que se consome, ao menos se tivéssemos uma espécie de ASAE vampírica a malta andava mais descansada. Assim, com este banco de sangue, sempre posso fazer primeiro umas análises e depois beber só o vintage. Mais, estou até a pensar em expandir o negócio e começar a vender algumas das colheitas em excesso. Para as de primeira linha vou lançar o Moet e Sangueon, para as mais rascas apresento o Sangue-Cola. Vai ser um sucesso.
Com isto tudo me despeço,
Dentadinhas de ternura do vosso filho, Dracusélio
PS: Sou capaz de ir aí pelo Natal.
Entre uma imagem angelical de inocente, as lindas criancinhas, e uma outra de doçura de maturidade, os velhinhos fofinhos, está aquela coisa rude e má que é o ser humano adulto. Muito me estranha este instantâneo cliché que, na maioria da vezes, se atira para explicar os males das sociedades. É certo que a espécie humana mal ganha hormonas nos sítios certos, empreende um caminho bastante aguerrido e, por vezes, leva tudo a direito, não deixando o rasto do caminho em bom estado. Mas será que é mesmo assim?

Será que a perversidade é uma coisa que apenas nasce aquando do romper da aurora dos pelos da cara, ou de outros sítios mais íntimos, e morre logo quando também partes capilares começam a desaparecer? Não andaremos um pouco enganados com esta coisa da inocência pueril e da candura anil? Cá para os meus botões, acho sim.
Nestas coisas de perversidade, penso que ela está nos genes e vem logo ao de cima mal respiramos o primeiro mm3 de oxigénio. O nosso lado animalesco de sobrevivência, mal ouve a pistola de largada, zás, começa logo a fazer das suas com todos os atletas que nos aparecerem nas pistas do lado – o quê? Aquele camafeu não me dá chucha, berro já que me farto, o menino partiu o copo, ó mãe, ele partiu o copo, vamos ver se ela lhe assente já uma galheta para eu ficar feliz – não só para garantir melhor lugar no pódio, como também para podermos rir sarcasticamente dos outros que ainda rebolam no chão. O melhor do mundo são as crianças, dizia o poeta, mas tenho em mim, que bom, bom, será mesmo o momento que normalmente antecede as crianças, assim uns meses antes.
Mas sobre os petizes, o pessoal já encara que eles, afinal, não são os anjinhos barrocos com que eram pintados. Um tal de Freud, um senhor já muito antigo, mostrou isso e a malta ficou de pé atrás. Mas ainda há um mito que resiste, os dos velhinhos, os nossos adoráveis idosos, aquelas pessoas que esbanjam ternura em cada sorriso, em cada festa. Pois! Temo que este filme Corin Tellado descambe muitas das vezes em algo mais Fantasporto.

A idade de ouro é também o fim de um ciclo, ora se o ciclo é redondo, onde se vão encontrar as pontas? Na infância, claro. Assim, aquela perversidade, que ficou escondida na grande corrida da vida, agora que há mais calma, volta a ser tirada do baú onde ficou arrumada, e zás, toca a despachá-la novamente, mas com muito mais inteligência e manha. Assim, aquela espécie de mafioso napolitano adormecido, primeiro de leite agora de chá, volta a atacar nas suas chantagens e nas suas exigências nos bairros familiares do costume.
A perversidade está na condição humana sempre, apenas a escondemos ou a mascaramos durante uma grande fase da vida, num procedimento muito complicado a que podemos chamar crescimento, isto para não ficar mal na fotografia e clicar sobre termos como hipocrisia, falsidade, etc. Só que há uma fase que em achamos que o fardo é muito grande, as costas também já começa dar de si, e volta tudo ao início, manda-se ao ar a carga que com as rugas já ninguém repara.
Em jeito de sombra literária desta imagem que despenquei aqui, apresento um pequeno falso conto (é realmente um capítulo de uma novela porno-satírica) levemente inspirado num caso real.
Maria Clara, já estou pronta!
Irene abriu o roupeiro e começou a escolher as roupas que iria vestir naquele dia. Um simples vestido azul com bolinhas brancas para a manhã, não ia sair de casa, um casaco branco para colocar por cima e, assim, sair depois de almoço até à pastelaria no rés-do-chão do seu prédio para o seu café cheio, com 2 pacotes de açúcar, e, finalmente, uma saia-casaco salmão de lã, que sempre arrefece, para o passeio do fim da tarde. Colocou todas as peças em cima da cama. A empregada já sabia do ritual, passado pouco tempo passava por lá, pegava nelas e dava-lhes um jeito com o ferro. Enquanto não estivesse pronta a primeira veste, Irene ultimava a parte final da sua higiene matinal, apenas a mais simples, a facial, pois a filha todos os dias antes de sair dava-lhe um bom banho. Com 83 anos já lhe era difícil entrar na banheira e lavar-se sozinha, a última vez que o tinha tentado fazer escorregara e fracturara a perna, o que a deixou muito abalada, não pelo traumatismo ósseo propriamente dito, mas porque esteve à beira de um esgotamento nervoso com o facto de ter que ficar fechada em casa durante alguns meses.

Depois do cafezinho pós-almoço e de uma tarde na companhia da sua irmã, com quem mantinha acesas discussões sobre tudo e nada até ao chá das cinco em ponto, momento em que todas as asperezas eram postas de lado pela doçura dos biscoitos e das compotas, Irene voltava ao quarto para fazer a sua higiene de fim de tarde, retocar a maquilhagem, uma mulher não pode sair à rua apenas de cara lavada, e vestir a última toilette escolhida. A empregada, mais uma vez, já sabia que tinha que entrar em cena, comparecia no quarto todos os dias à mesma hora, ajeitava-lhe a roupa, havia sempre uma gola que não estava direita, e ajudava-a a colocar o batom, a mão trémula da velha senhora já não lhe permitia contornos exactos.
Quando a filha abriu a porta, já no final da tarde, pôde ver a paisagem de sempre. A sua mãe, lá estava ela, sentada na cadeira almofadada do hall de entrada, toda arranjada, com uma das melhores indumentárias que tinha, bem hirta, com a mala, a condizer com os sapatos, pousada no colo e a bengala, de punho de prata, numa das mãos.
- Maria Clara, já estou pronta! – repetia ela, como uma deixa teatral, todos os dias ao ver a filha entrar depois de um longo dia de trabalho.
Cansada, ser directora financeira dava muito trabalho, especialmente nas épocas de crise em que há que ginasticar, por vezes com autênticos saltos mortais à retaguarda, toda a economia de uma empresa, Maria Clara suspirava para que a mãe perdesse um pouco o fôlego e não quisesse sair todos os dias para um passeio de fim de tarde. Quer estivesse sol quer estivesse chuva, fosse dia ou já noite profunda, Irene esperava sempre pela filha para fazer um mediano passeio de carro pela cidade ou, se ainda houvesse tempo, uma pequena ronda pelas montras.
- Mas ó mamã, já é tão tarde, estou tão cansada, só me apetece atirar para a cama – suplicou a filha na tentativa que a mãe fosse sensível ao seu estado.
- Por amor de deus, Maria Clara, até me falta o ar! Eu estou um dia inteiro aqui fechada, a ver uma televisão deprimente, a ter que estar sempre em cima da Fernanda, senão faz tudo mal, e a aturar a tua tia Luísa, que não sai de cá.
- Mas a tia Luísa vem para lhe fazer companhia, para se distraírem.
- Distrair? Não se pode conversar com ela, está sempre, sempre, no contra. Imagina tu que agora até me diz que vai votar no Bloco Esquerda. Com aquela idade armada em revolucionária, não vê que esse tipo de politiquice é de gente nova. Qualquer dia perde o juízo de vez e ainda me chega aqui de minissaia. Estás a ver o que eu passo, todos os dias. Ainda queres tu que fique aqui, ai não, preciso mesmo de ir apanhar ar. Tu sabes muito bem como são os meus nervos, tenho que espairecer, aliás o primo Antunes bem o recomendou na última consulta.
- Mas ó mamã, ainda por cima o carro está a fazer um barulho esquisito – tentou Maria Clara uma última oportunidade, aproveitando o facto de o carro ter um chiar esquisito, provavelmente a avisar que estava na hora de ir à revisão.
- Se é por isso, que também não quero ficar aí parada no meio da rua a esta hora, chamamos um táxi.
- Um táxi?
- Sim, ainda tenho reforma para pagar isso.
Maria Clara viu que mais uma vez nada no mundo iria demover a mãe de querer o passeio de sempre.
Bom para não torturar mais aqui, o resto da historieta está completa na outra minha sala o Guardador, precisamente Aqui.
