AVATAR – O Princípio do Fim

2009 Dezembro 20
por bp63

Qual é o país mais capitalista do mundo, qual é? Os States, claro. Quem faz mais manifestos anticapitalistas? Os americanos no seu cinema, evidentemente, mesmo que ele seja uma das pérolas maiores do próprio sistema. Qualquer filme vindo de lá consegue ser mais marxista que o próprio Marx, Hengel e Lenines juntos. Nem o próprio Bernadino Soares, se agarrasse uma câmara e pusesse a Angelina Jolie de foice na mão e o Brad Pit de lenço vermelho ao pescoço e punho erguido, conseguiria tanto (não deixa de ser um exercício mental curioso pensar que filme poderia ele fazer com este naipe de actores). Ainda que já tenha explanado sobre isto, em tempos, por aqui , não deixa de ser curioso voltar ao assunto depois de ver AVATAR.

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1. O Delírio

A historinha pode resumir-se em 2 penadas: A primeira, trata daquela espécie ruim como as cobras, o ser humano, que chega a uma terra distante para sacar a riqueza e lixa tudo o que está à sua volta; a segunda, trata do indivíduo, desgraçadinho, paralítico, com irmão morto, aquelas coisas que mais parecem decalcadas de um triste fado luso numa tasca de Alfama, que se mistura com os estranhos para os lixar mas depois é ele que acaba por lixar o plano todo ao se apaixonar por uma indígena e tomar partido dos mais fracos. Original, não é? Bom, uma coisa assentamos desde já, o filme é sobre o eterno lixanço, isto para não me espraiar em termo mais vernáculo, que o homem sempre faz, quer seja em bando, como praga de gafanhotos, quer seja a nível individual sempre que se enrola com os meandros da vida, nomeadamente se os meandros tiverem um bom par de pernas, que neste caso são bem esguias e azuis ainda por cima. Resta agora saber se o filme vai lixar o cinema ou se ele próprio se lixa nas bilheteiras, mas sobre isso já lá iremos mais abaixo, vamos agora ao delírio social.

Ao ver o filme, uma coisa saltou-me no pensamento, não fossem as longas 3 horas e aquilo até podia ser o preâmbulo do discurso de Obama em Copenhaga ou em outra parte do mundo, tal é o moralismo ecológico e pacífico que aporta. Não sei mesmo se não é o James Cameron que anda a fazer os discursos emblemáticos ao presidente, cheio de boas intenções, melodramático e arrebatador, há mesmo uma altura em que o herói Jake Sully disserta para a plateia indígena e em que ficamos à espera de um Yes we can, todo o filme assenta numa áurea de ambientalmente correcto: as conquistas energéticas, e especialmente as da ganância, do subsolo destroem os mundos pela forma como vão corroer o equilíbrio da natureza e só mesmo uma verdadeira consciência civilizacional nos poderá salvar. Além disto, deixa ainda escapar uma outra Obamada, tudo é muito bonito, muita paz, muito amor, mas só a guerra nos pode libertar, claro que é uma guerra boa, limpa proveniente da natureza e contra os maus, uns capitalistas dos diabos que chacinam tudo. Porque será que os argumentistas americanos, quando toca à moral, são tão bipolares, roçando mesmo uma certa esquizofrenia cinematográfica?

Não deixa de ser curioso ver um produto maior do capitalismo – Avatar é o maior investimento de sempre do cinema, 500 milhões sem grandes rigores, e precisa de vender muito, mas mesmo muito, para não colocar ninguém com o pescoço na guilhotina, – a trazer uma bonita metáfora sobre as consequências do dito capitalismo sobre o meio, a ânsia desmedida de fornecer produtos abate drasticamente os recursos, não nos podemos esquecer que na ficção em causa a conquista do planeta deriva do facto de se querer captar um minério energético, o Unobtainium, que mais do que mover o mundo, o faz levitar, na verdadeira acepção do termo.

2. A Mensagem

Aquilo que é aparentemente um filme de acção e de ficção científica, acaba por ser um manifesto imenso de boas ideias.

A primeira já referi, a procura de energias minerais é devastadora e acaba por colocar sempre em perigo as outras energias naturais, menos fortes mas mais equilibradas. Todos sabem disso, mas a rentabilidade económica, ao ser grande, dita a cegueira e avança-se sobre a natureza para colher os frutos malditos, petróleo ou Unobtainium tanta faz, o resultado é o mesmo, a aniquilação total. A certa altura a personagem principal refere que na terra já não há verde pois tudo foi destruído, não contentes há que ir para outros planetas fazer o mesmo, que nesta coisa da fotossíntese ninguém se pode ficar a rir. A pergunta que fica por esclarecer é se havia alternativa, se a espécie humana para sobreviver não teria mesmo que invadir e lixar tudo, afinal não é a própria natureza que tem as regras dos predadores e das presas? Mas pronto, fica mais bonito mostrar como somos maus e os aborígenes extraterrestes bonzinhos de uma pureza angelical. Porque será que nunca mostram que os povos primitivos, apesar de toda a espiritualidade e crença em bolinhas de sabão, são também normalmente bárbaros?

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Mas talvez a maior mensagem que o filme tenta passar está na coisa mais simples, que é o facto de na natureza estar tudo ligado e em harmonia e que só mergulhando de novo nesse equilíbrio, integrando-nos nela, nos poderemos salvar. A “ligação” tem no filme uma metáfora muito física, os selvagens ligam os seus cabelos a filamentos de outros animais e plantas e comunicam com eles, como se ficassem a fazer parte de um único elo. Mais, essa ligação ao ser uma forma de comunicação acaba por criar a energia que tanto se precisa, e a própria internet, como rede, não foi afinal nada inventada, apenas decalcou, em electrónica, aquilo que sempre esteve no ecossistema global, uma vasta teia de partilha.

Com esta coisa do está tudo ligado ficou-me uma dúvida, será que a ZON patrocinou o filme?

É sempre bonito sair com reconforto espiritual de um filme. Penso mesmo, que o pessoal que se sentou a empanturrar com sacos gigantes de pipocas e baldes de plástico de coca-cola a ver a fita, saiu feliz, quase expiado, por sentir que o mundo humano e a natureza têm que andar de mãos dadas e em harmonia como um casalinho de pombinhos em inicio de namoro, isto até encherem um saco com o lixo que criaram com os comestíveis cinematográficos e virarem na esquina do centro comercial para comprarem o novo Nokia, que faz umas coisa giras, mesmo sabendo que o que têm bolso ainda funciona e faz tudo o que precisam, no fundo, novamente como o tal casal que, passado o arrufo romântico inicial, já grita um com o outro.

3. O Filme

Bom, agora sobre o filme propriamente dito, uma coisa é incontestável: Não adiante blue-ray, nem plasmas gigantes ou home-cinema, aquilo é mesmo para ser visto em ecrã gigante com os óculos 3D e tudo. Nunca, alguém que só vai ver em televisão, poderá dizer que viu propriamente o filme. A beleza cromática, o detalhe das figuras e a coreografia dos elementos só são mesmo perceptíveis na forma para a qual foram concebidas, o ecrã de cinema e em 3D. James Cameron apostou forte, e neste aspecto ganhou a batalha, o filme é uma peça única e marca o cinema, tal como StarWars marcou na época, com uma viragem na abordagem das imagens e na sua espectacularidade, o que pode ser a salvação imediata do convento face ao declínio da exibição cinematográfica actual, até podem estar a oferecer cópias piratas de Avatar à entrada que não fazem dano, uma versão em DVD vai parecer sempre uma anedota. Talvez, assim, o futuro do cinema passe por aqui, por criar objectos que se distanciam de uma possível visão doméstica e que obrigam a ir a recintos próprios para os visualizar, pois todos nós sabemos que tudo o que puder ser visto em casa, será objecto de réplicas electrónicas a baixo ou nenhum custo.

O rigor técnico do filme é de excelência, não me admira nada que leve a palma dos Óscares nas categorias especiais, não deve falhar uma. Um deslumbramento para os olhos consegue apesar de tudo, que essa overdose de universos faça parte da narrativa e não nos afaste dela. A primeira parte parece, inclusive, um passeio por um parque de atracções, tudo são motivos para nos surpreender com a beleza da fotografia e da cinematografia. Este assombramento visual não significa que o filme funcione bem como um todo, pois o argumento tem algumas debilidades. Além da falta de originalidade, decalca em parte Dança com Lobos, não esmiúça, palavra da moda, em condições as personagens nem detalha alguns pormenores que seriam interessantes, o que está a acontecer na Terra, a aplicação do mineral, como é feita a transposição neural dos avatares, são perguntas não esclarecidas. Além disso, há alguns buracos na história, umas incoerências que não se percebem, como o do avatar da cientista, Sigourney Weaver, que afinal já se misturava com os indígenas e poderia ter tirado toda a informação que queriam, sem precisar de todo aquele espalhafato do agente infiltrado.

Ao escrever este post ainda não sei o comportamento da receita de Avatar, sei que no dia de estreia rendeu 27 milhões, foi bom mas abaixo do esperado, parece que havia por lá umas tempestades e o pessoal ficou em casa, mas fica a dúvida se alcançará o sucesso de Titanic. Tenho sérias dúvidas, Titanic era um filme de gaja, aí o meu Leonardo que belo, que os gajos também viam, pela acção de ver aquilo tudo ir ao fundo, tenho um jogo em casa que faz quase igual, e que além de levar os jovens ainda trazia as velhas senhoras, que antes de scones e chás, passavam pela sala de cinema para chorar os desencontros de amor do casalinho principal, já para não falar dos velhos senhores que também gostavam de ver a tragédia do acidente, pois na segunda circular há muito que não havia uma batidela em condições para parar e avaliar. Avatar, a ser classificado, é mais um filme de gajo, a acção é predominante na narrativa, ainda que tenha um piscar de olhos ao lado gaja com a previsível historinha de amor entre o bom selvagem e a selvagem boa, já para não falar no deslumbre estético da cenografia natural. Faz-me lembrar aquele apartamento de gajo solteiro, comprado apenas para reunir amigos e fazer altas farras, copos a rodos, uns filmes javardos e umas miúdas, por encomenda, para se descascarem, mas que ao mesmo tempo convida uma amiga, pela qual tem um fraquinho, para o decorar e ir lá fazer um pouco de companhia, a certa altura nem a rapariga está bem nem os gajos se divertem. Um sucesso será de certeza, mas não será tanto quanto se pensaria, a não ser que a inflação dos bilhetes, são muito mais caros, a isso ajude.

Mas a grade marca de AVATAR será o que ele pode significar no cinema, o fim de um ciclo e o princípio de outro, que ditará a sua morte, pelo menos tal e qual como o conhecemos.

Se no filme já está simbolizada o fim da nossa civilização, caso não se inverta o rumo, alô Copenhaga, ele próprio poderá simbolizar o fim do cinema como uma macro indústria. Apesar dos seus elevados custos ele veio demonstrar que é possível fazer cinema sem nada, basta a voz. Até agora o que se via, além dos filmes de animação, era que os efeitos serviam de suporte para o desenrolar da acção principal, esta real e com gente de carne e osso, mesmo as personagens virtuais, quando existiam, eram de contraponto, caso do Smiguel ou King Kong, para impressionar. Em AVATAR não, as personagens verdadeiras e de dimensão dramática são as virtuais, sendo os actores reais mero suportes secundários. Ou muito me engano ou futuro da profissão dramática será a representação oral, como nos tempos do velho folhetim radiofónico. E se agora são precisos muitos milhões para fazer uma fita como esta, em bom pouco tempo isso será doméstico, os bons princípios do capitalismo assim o ditam, e vai haver avatares nos youtubes da época a dar com um pau, se até agora o poeta, o escritor, ou o artista plástico que há em nós já tem um palco solitário para se exibir ao mundo, através dos blogues, daqui a pouco o cineasta que também cá mora tem os ecrãs electrónicos domésticos para se mostrar, assim haja bytes disponíveis. Será triste pensar que daqui a 100 anos uma Angelina Jolie terá por detrás uma Magda Patalógica qualquer que apenas tem uma voz sexy, felizmente que já cá não estarei.

Mas se sobre esse cenário ainda faltam alguns anos, não tantos como se pensam, um outro poderá ter nascido com AVATAR, o do filme imagem sensação, em que é necessário ir mesmo à sala para o ver, como se voltássemos ao velho tempo da feira popular e de cinematógrafo, que é como quem diz, às verdadeiras origens do cinema, em que a propósito de nos assombrar com umas imagens iam desfilando algumas historinhas. No fundo, é disto que se trata neste filme, uma pequena história dentro de um imaginário imenso. E que imaginário!

As Línguas Invisíveis do nosso (des)contentamento – 1ª Entrega.

2009 Dezembro 13
por bp63

Andam brilhantes estudiosos a dissecar as semânticas em acordos e prontuários a rodos, para que esteja sempre na ponta língua e do ouvido a epistemologia mais adequada, que é como quem diz, para que não seja dado nenhuma realíssimo pontapé na gramática interpretativa, andam, inclusive, simboligistas a decifrar códigos malucos, especialmente para venderem romances quebra-cabeças como pães quentes, e sempre se esqueceram de desemaranhar aquilo que é o mais óbvio, as línguas que se escondem por detrás da própria língua.

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Se quando alguém nos manda fornicar, em linguagem vernácula código máximo, nós não saltamos de imediato para o lombo da/o parceira/o que estiver ao nosso lado, de forma a cumprir logo ali os desígnios do coito imperativo, é porque esquecemos, por momentos, o português académico, mesmo com todo o molho de calão não saímos dele, e interpretamos aquela ordem lasciva por um outro léxico semiótico menos despudorado, que é como quem diz, ok, não te chateio mais. Mas onde está ele, esse tal glossário especial, afinal? Pois, não está!

Ainda que ninguém nos tenha explicado, todos nós sabemos que por detrás de uma linguagem primária se esconde uma outra alternativa, invisível, sem cheiro nem odor, que vai directamente àquela parte do cérebro que está lá escondida para não nos complicar a vida, ou seja, ao pedaço mais inteligente que dispomos mas que tapamos com um lençol de neurónios BqDJ (Burrice-que-Dá-Jeito). Agora, se na maioria das vezes dá mesmo jeito não perceber, ou fingir que não entendemos, o que realmente nos estão a querer dizer, outras há em que era importante   enxergar logo o verdadeiro significado da coisa para não perdemos tempo em tarefas difíceis e penosas para os nossos dias. Ora, se quando me disseram que eu até estava bom, para a idade, claro, eu tivesse logo percebido que me estavam a dizer que estava a ficar velho, não teria ido fazer bungee jumping na ponte da Arrábida para mostrar quanta juventude havia em mim, e agora não andava a desembolsar fortunas em sessões de fisioterapia, para pôr as malditas vértebras direitas, e de psicanálise, para recuperar a auto-estima perdida perante a figura que fiz.

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O problema da interpretação é que não há uma só língua invisível, mas sim várias, o que torna o estudo muito mais complexo. Quando ouvimos um político falar, por exemplo, além da sua língua mãe, vamos esquecer inglês técnico, francês de exilado e outras variantes arrojadas, ele fala também um outro tipo de dialecto subliminar, o politiquês, em que, apesar de utilizar o mesmo vocabulário do português, a sua epistemologia é completamente diferente. Senão vejamos, quando ele, o dito politico, diz, “eu vou ser sincero” quererá mesmo dizer isso?, não, quer dizer apenas “deixa-me lá ver como é que me vou sair desta”. Mas se este mesmo político disser a frase para a sua mulher, o que ele está a dizer verdadeiramente é, “o que te vou dizer é só missa a metade daquilo que gostava de te atirar à cara”. Estão a ver complexidade disto tudo?! Só mesmo com um doutoramento em Havard é que se consegue vislumbrar alguma luz ao fundo do túnel e, ainda assim, era preciso que o Dan Brown tivesse inspirado.

Bom, para facilitar, armei-me em Robert Langdon de trazer por casa, e tentei decifrar o verdadeiro significado de certas expressões nas tais línguas invisíveis. Para já, trago apenas a língua Masculinês e Feminês. Numa próxima, apresentarei Politiquês, Culturalês, Socialês e Trabalhês, se outras não surgirem, entretanto, no decurso laboratório de alto nível em que estou envolvido.

ELE numa sessão de compras

Frase:

Escolhe tu querida, confio no teu bom gosto.

Tradução:

Não me chateies com essa merda, quero lá saber da porra dos cortinados.

 

ELE para ELA

Frase:

Nunca conheci uma mulher como tu.

Tradução:

Finalmente consegui esquecer a outra, que me andava a atormentar a cabeça o tempo todo.

 

ELA para ELE

Frase:

Nunca conheci um Homem como tu.

Tradução:

Chiça, finalmente encontrei um tipo que me apara o jogo todo!

 

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ELE para amigo

Frase:

Estou a viver uma paixão do outro mundo.

Tradução:

Ando a dar umas quecas dos diabos, daquelas de trepar paredes.

 

ELA para amiga

Frase:

Estou a viver uma paixão do outro mundo.

Tradução:

Finalmente encontrei um tipo que me mostrou o que é o sexo.

 

ELE numa festa perante a loura de decote generoso

Frase:

A miúda é bem gira.

Tradução:

A miúda é boa como o milho, tem umas mamas e um cu que só visto.

 

ELA numa festa perante a mesma loura

Frase:

Sim, a miúda é bem gira.

Tradução:

Para a idade até nem está má de todo, escusava era de se estar exibir toda como um pavão, quero ver quando tudo aquilo começar a cair se ainda vai ser a rainha da festa.

 

ELA para um amigo

Frase:

És tão querido!

Tradução:

És um cromo que me diverte, mas até um certo ponto, se alguma vez pensaste que te ia pôr na minha cama, esquece.

 

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ELE na discoteca

Frase:

Desculpa, acho que te conheço de algum lado.

Tradução:

Desculpa, não te conheço de lado nenhum mas a noite está a acabar e não quero ficar a seco.

 

ELA na discoteca

Frase:

Ah, está ali a Nini…Nini! Está ali uma amiga que não via há muito, prazer em conhecer-te.

Tradução:

Desampara a loja que tenho mais que fazer do que aturar cretinos como tu.

 

ELE ou ELA na discoteca

Frase:

Não está muito barulho? E se fossemos conversar para um sítio mais sossegado?

Tradução:

Chega de chove não molha, vamos lá embora para o enrolanço que já se faz tarde.

 

ELE ou ELA em encontro

Frase:

Vou indo, amanhã tenho que me levantar cedo.

Tradução:

Bom, isto não dá em nada, o melhor é bazar.

 

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ELA na cama

Frase:

Sabes bem que o tamanho não interessa.

Tradução:

Com tanto gajo bom, tinha logo que me calhar este anjinho barroco.

 

ELE na cama

Frase:

Isto nunca me tinha acontecido antes, juro!

Tradução:

Bolas, mais uma gaja que me deixou de dar tesão. O melhor é partir já para passarinho novo antes que isto se torne hábito.

 

ELA para ELE na cama

Frase:

Foi bom?

Tradução:

Ele esforçou-se muito, mas será que percebeu que eu fingi?

 

ELE para ELA na cama

Frase:

Foi bom?

Tradução:

Quase que fiz o pino, mas ainda assim, cá para mim ela fingiu.

 

ELE ou ELA na cama

Frase:

Chega para lá, preciso de espaço.

Tradução:

Preciso da cama toda, está na hora de saíres dela para fora e não voltares a pôr mais cá os pés.

 

ELA a comentar relação

Frase:

A nossa relação está agora numa fase mais madura, mais serena.

Tradução:

A nossa relação está chata como a potassa, ele até já deve andar enrolado com a secretária, mas mesmo assim leva-me a jantar fora.

 

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ELE para ELA, em conversa sobre a relação

Frase:

A nossa relação está a sufocar-me um pouco, acho que preciso de espaço.

Tradução:

Estás uma chata de primeira, não largas o meu pé. Tenho saudades das minhas fainas de solteiro, dos copos e das noitadas e quero voltar a elas, agora que me apareceram os primeiros cabelos brancos e sinto que a vida me está a fugir.

 

ELE ou ELA em conversa sobre a relação

Frase:

Acho que devíamos fazer qualquer coisa na nossa relação, dar uma volta nisto, sei lá, torná-la mais aberta.

Tradução:

Quero pôr-te os cornos mas não quero ter sentimentos de culpa.

 

ELE ou ELA em conversa sobre a relação

Frase:

Preciso de um tempo.

Tradução:

Não aguento mais olhar para a tua cara, a tua fala causa-me enjoos, quero ir para o Tibete para não ter a mínima hipótese de me voltar a cruzar contigo.

 

ELE ou ELA

Frase:

Sexo sem amor não é grande coisa.

Tradução:

Há mesmo muito tempo que não dou uma valente queca.

 

ELE numa sessão de compras

Frase:

Querida, esses sapatos são o máximo, mas experimenta também estes que vão ligar muito bem com aquela mala grená que tens.

Tradução:

Querida, adoro fazer compras contigo, mas depois quero ainda voltar a esta loja sozinho porque está ali um empregado que é um pão e já fizemos olhinhos um para o outro.

 

Folhetim, amore mio!

2009 Dezembro 1
por bp63

É triste! Enquanto os italianos discutem a alcova do seu primeiro-ministro , nós andamos às voltas com a alcofa do nosso, ou seja, por lá o que interessa é saber com quem é que ele dormiu, que bacanais promoveu e quanto vai desembolsar para pagar os seus pecados, por cá discute-se o que é ele acordou à surdina, que pactos promoveu e quanto é que poderia ter embolsado. Triste este país, onde passamos a vida a discutir as dores que nos consomem enquanto os outros se preocupam com o prazer que alguém consumiu. É por essas e por outras que eles tiveram um Fellini, com o seu circo da vida, e nós um Manoel de Oliveira, com os longos silêncios do nada. Confesso que me sentia melhor se tivesse que acordar todos os dias com a notícia que o PM foi apanhado nuns telefonemas para uma linha erótica, do que este triste folhetim de escutas a discutir negócios negros.

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Pois, com uma coisa ou outra, o certo é que já não passamos sem um folhetim do PM. Qual novela da Globo, qual Morangos com Açúcar, qual quê, o que queremos mesmo é a cena dos próximos capítulos de um tal José Sócrates, depois de uma licenciatura lavada a seco, de uma outlet com porta-luvas e de umas escutas de funil, só falta mesmo um caso de sangue para a saga ficar completa. Não me surpreendia nada que daqui a dias, ao ligar a TSF, ainda com os olhos remelados, escute que foi descoberto um cadáver no Guincho e que o carro do PM foi visto poucas horas antes no local. Vão por mim, já falta pouco.

Mas porque raio, temos esta obsessão com o homem? Porque ele tem ar de galã ou porque se põe mesmo a jeito? Não sei, mas por mim tudo está neste eterno gosto pelos folhetins, ficou-nos o vício desde a Gabriela, ou talvez não, e agora, como qualquer dependente, queremos mais e com formatos inovadores. Mas se até a modinha de cravo e canela da Baía não inventou nada, de onde vem mesmo esta mania de nos lambuzarmos com narrativas em suaves prestações?

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O folhetim sempre foi o parente pobre da literatura, herdeiro do cordel, primeiro como parte de um jornal, histórias contadas aos pedaços (capítulos), com enredos simples mas cheio de nós de interesse bastante fortes, com as relações familiares sempre no seu extremo e com personagens pouco profundas e estereotipadas, depois em publicações próprias por fascículos, o certo é que depressa cativou os leitores e não só. Mesmo os grandes escritores não foram indiferentes a este conteúdo e nas suas grandes obras de eminência literária não deixaram de introduzir elementos folhetinescos para fazerem evoluir a sua narrativa de uma forma mais sedutora, sem ofensa, Eça e Tolstoi também tiveram o seu lado de Janete Clair.

Mas será que é mesmo um género menor? Não creio, é apenas um género e, como tal, tem e teve alguma importância, por exemplo, a sua contribuição para a diminuição da iliteracia primária é indiscutível, pois ao conseguir pôr populações menos cultas a ler fez algo que a melhor literatura, apesar da sua indubitável importância para a perpetuação maior das letras, não conseguiu. Mas o folhetim, e as suas derivações, foi para além do facto de pôr as sopeiras a escreverem algo mais do que a sua assinatura, muita das variantes da escrita de hoje, romances, nomeadamente os best-sellers e as sagas fatiadas, argumentos, o cinema comercial é talvez o seu maior bebedor, dramaturgia, desde a elitista ópera até ao musical xaroposo, entre outros, devem bastante a esta forma simples de contar histórias, fazer da palavra, não um rendilhado semântico de elevado sabor linguístico, mas um construtor de seduções imediatas para que o receptor fique preso até ao surpreendente fim.

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O problema é que, no meio disto tudo, não contávamos que o jornalismo também se transformasse num seu discípulo, mas se virmos bem a coisa, é o regresso à sua origem, ao seja, voltamos à velha historieta publicada diária/semanalmente só que deixamos as desilusões amorosas da condessa que teve um filho bastardo com o jardineiro que havia mais tarde de se perder de amores pela filha dos patrões que era a sua própria irmã, e passamos a ter o político que se vendeu a não sei quem para que esse quem pudesse ganhar não sei o quê. Enfim, o que vamos fazer? São tempos modernos e a forma do folheto do século XIX já lá vai, agora, depois das inenarráveis novelas televisivas, só mesmo as manchetes diárias dos média, que viram neste “novo” conteúdo o filão para aliviar a ferida financeira dos seus dias, para nos prender e salpicar a rotina cinzenta dos nossos próprios dias, viver a histórias dos outros e pôr a nossa em banho-maria.

Bom, voltando o bico ao prego, e como gosto de experiência um tanto ou quanto parvas, vou atirar-me a mais uma, um relato folhetinista de uma personagem ao longo dos tempos, um pobre homem que, cansado de procurar o dito amor da sua vida, o acaba por encontrar numa caixa de Viagra. Por capítulos, como convém, ilustrar uma época ao mesmo tempo que se subvertem escritas. O Carlos Saura que me perdoe por lhe ter roubado o título, mas foi mais forte do que eu, conhecia o ditado desde pequeno, cria corvos e eles comer-te-ão os olhos, sempre me impressionou esta terrível imagem, e há muito que tinha vontade de escrevinhar à volta dele.

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Cria Corvos

Cria corvos e comer-te-ão os olhos.

Quando José Bernardo ouviu esta frase proferida pela madrinha, de costas voltadas para ele a fingir contemplar a paisagem distante da janela, ficou gelado, empedernido no meio da sala, como uma estátua equestre no centro da praça. Nunca esperou que ela reagisse daquela forma, com uma frase cortante, sem nexo com o assunto, e a acentuar cada sílaba na ressonância de uns dentes cerrados. Calculava que a reacção não seria a melhor, ia perder o seu querido afilhado, mas responder, assim, à notícia do seu casamento estava fora de qualquer previsão. Bem que ele ensaiou várias formas de comunicar o evento antes de entrar na sala grande, sempre escura, de cortinas corridas, a luz causava dores de cabeça à velha senhora, mas nada adiantou, a reacção foi a pior possível.

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- Madrinha, eu não vou embora, vou estar por aqui.

- Para mim foste para sempre – disse Amélia Bento de Oliveira, sem mover o mais pequeno músculo a não ser os labiais, caídos e rugosos, para deixar sair aquela frase dramática.

- Não percebo, afinal eu vou casar com a Belinha, que a madrinha tanto gostava – José Bernardo tentou apelar a algum sentimento saudoso que ainda pudesse existir perante aquela que foi, durante muito tempo, a sua criada de servir. Esqueceu-se que Amélia, mal suspeitara que havia namorico com o seu afilhado, a tinha corrido de casa alegando que lhe desaparecera um anel.

- Uma ladra é o que ela é.

- A madrinha sabe que não é verdade, o anel apareceu depois no armário do corredor. Olhe que nunca ninguém a mimou tanto como a Belinha.

- Basta! Esta conversa tem agora um ponto final. Vai então procurar a tua felicidade, mas não tenhas ilusões, nunca a irás encontrar.

Sem mais palavras, José Bernardo deixou a casa grande, o local onde passara quase todos os seus dias desde que se lembrava de si mesmo. Filho do antigo encarregado da grande propriedade que começava na quinta do Arco, mesmo dentro da aldeia que tinha nome de vila, Vila Maria, e da cozinheira dos ganhões, foi, desde os tempos de berço, o aí Jesus da única filha do homem mais poderoso das redondezas, que viu nele um certo consolo para o seu colo estéril e virgem de mulher culta e rica que se deixou passar no tempo sem nunca vislumbrar homem para constituir família. Mas se nos primeiros tempos esta protecção maternal de madrinha de baptismo foi farta para o pequeno Bernadinho, assim o apelidava, depressa se tornou um afecto sufocante pois, o medo de o perder, fez com que não o deixasse ganhar asas, seguir estudos, uma instrução básica era suficiente para tomar conta da propriedade. Todos pensaram de início que, face ao carinho que a madrinha tinha pelo afilhado, ela o iria pôr a estudar na capital para se formar doutor. Mas não, nem à cidade lhe foi permitido ir para fazer o liceu. Mal terminou a sexta classe ficou como uma espécie de aio da senhora, que sofria na altura o enorme desgosto da morte do pai, mais do que nunca, precisava naquele momento de um homem, ainda que de calções, que estivesse ao seu lado para a orientar. Os estudos, supostamente, só eram importantes para quem nada tinha e o Bernadinho começava uma caminhada para ser dono de tudo aquilo, uma fatia quase total das redondezas.

- Está decidido, vai ficar aqui ao meu lado – com esta frase Amélia decidiu o destino de José Bernardo, ser uma espécie de camareiro da grande proprietária da região. Mesmo a aprendizagem das lides da terra, o tomar conta dos negócios que poderia vir a herdar, foi ficando para trás, todo o tempo era pouco para andar à volta da madrinha, que era um autêntico poço sem fundo de caprichos. Por mais que ele tentasse pôr o pé fora de casa, para ganhar um pouco o mundo, havia sempre um pedido súbito de Amélia para que voltasse depressa, só um chá feito pelo afilhado a impedia de entrar em convulsões e de chamar o médico a casa, especialmente se lhe faltavam os fins de tarde, em que ela, todos os dias, o sentava no seu colo e lhe acariciava os seus cabelos cor de mel enquanto lhe contava histórias dos seus antepassados, umas reais outras inventadas ao gosto das festas capilares.

Sabor a rosas, era assim que José Bernardo sentia a pele da madrinha quando, sentado no colo, tombava a sua cabeça no peito dela e se deixava embalar pelos gestos enfeitados de palavras. Com o tempo, aquela sensação de paz e aroma florar, foi dando lugar a um certo desconforto de rapaz de pelos nas pernas sentado no colo de senhora velha, e aquilo que era uma fragrância macia depressa se transformou numa sensação enjoativa de pele de galinha perfumada. Uma questão de ossadas acabou por resolver o que começava a ser um problema, enquanto os ossos de rapaz vigoroso ganhavam volume e muito peso, os de uma velha senhora davam sinais de fragilidade. Assim, o colo de embalar foi substituído por um aconchego no sofá onde, lado a lado, ela continuou a falar das vidas que viveu e que imaginou viver, naquele seu tom verbal eloquente, de sílabas quase soletradas, como se fosse projectada para uma peça teatral épica, de grandes tragédias e fortunas em tempos perdidos. O sabor perfumado tinha desaparecido mas a impressão de uma pele crespa mantinha-se, Amélia, nos momentos mais empolgantes da sua prédica apertava a mão do afilhado, como se ela própria ficasse com medo do que dizia.

O tempo vai amaciá-la, pensou José Bernardo quando, novamente, se viu cá fora, no meio da praça. Desconhecia a tragédia que batia asas na sua direcção.

O resto da primeira entrega da saga, segue por aqui, por ser a casa onde fica mais resguardado das ventanias electrónicas.

Vai Tudo Abaixo – 2012 está no meio de nós!

2009 Novembro 15
por bp63

1. O Delírio

E de repente, saindo do eterno marasmo, Portugal moveu-se. Não nos eternos indicadores económicos, que nos assolam a cabeça há muito, mas sim no verdadeiro sentido do termo. Aquilo, a que chamamos território, ganhou vida própria e avançou sobre o Atlântico, como que ao encontro de uma certa América. Aparentemente, digamos que Deus, num magnânime gesto de humor negro, resolveu provar a Saramago que Ele existe e deu corpo a uma espécie de Jangada de Pedra.

Mas não tivemos grande tempo de saborear este macro cruzeiro terrestre de borla, um grande tsunami veio engolir-nos a todos. Eu fui logo dos primeiros a ser contemplado, é o que dá armar-me em fino e comprar casa em frente ao mar, uma coisa é poder contemplar a paz azul do oceano a toda a hora, outra é tê-lo a entrar pela sala adentro, logo naquele dia que até estava bem arrumada. Nem piei!

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Bom, as cenas que descrevi acima, apesar de serem um delírio meu, fazem parte do filme 2012. Sim, pela primeira vez, eu e todos nós, deste de cantinho à beira mar plantado, entramos numa grande produção de Hollywood. Portugal inteirinho está lá, primeiro a tremer e depois a afundar, se bem que sobre este último aspecto já temos alguma cátedra. Neste momento, quem já viu o filme, está aos pulos e a pensar, ou tenho uma doença crónica de sonambulismo assolapado, e nem vi essas cenas, ou então o gajo é doido, o que não deixa de ser sempre uma verdade aproximada.

Esclareço então, sim, as cenas não estão propriamente visíveis, os produtores têm que tomar opções porque a malta quer mesmo é ver o Cristo Redentor, a Casa Branca e os Casinos de Las Vegas a serem pulverizados e não propriamente a Foz ou Restelo a serem engolidos nas calmas, mas estão lá subentendidas, ou pensam que nós escapamos? Não senhora, somos todos companheiros daquela desgraça e, mesmo que não nos seja dedicado um mm sequer de fotograma, o certo é que também estamos ali, aos berros e a cair-nos tudo em cima. Aliás, podia ser um bom exercício para as criancinhas, como trabalho escolar inclusive, ora meus meninos, perante o que viram, descrevam agora vocês o que nos aconteceu a nós, que, apesar de termos estado escondidos durante todo o filme, também fomos protagonista desta grande tragédia. Iam ver o quanto sucesso escolar teriam os trabalhos, provavelmente haveria descrições que nem os mais dos arrojados argumentistas se lembraria em tempo algum.

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Uma coisa assim do género, estávamos nós na aula de matemática e, de repente, ouviu-se um estrondo, ainda pensámos que tivesse sido a dona Matilde, auxiliar da entrada, que tivesse rebentado com uma nova gripe, a B se calhar, pois ela, nos seus enormes kilos, passa a vida a gritar coisas da gripe A, que temos que limpar as mãos à entrada, à saída e mais não sei o quê, e que qualquer dia estoura com tanto trabalho. Mas não, foi mesmo uma bola de fogo que veio por ali abaixo e aterrou mesmo em cima do sotôr de matemática, abrindo-o ao meio. O pessoal primeiro bateu palmas, mas depois viu que a coisa era séria, o chão da sala abriu-se e os colegas começaram a cair para um fosso cheio de lava, o primeiro foi o Bernardo, marrão como é, só sabe o que vem nos livros, não se desviou e malhou lá bem pró fundo. Depois foi o Tiago, que tem a mania que é bom e quis armar-se em herói, pimba, também zarpou para as profundezas. Eu e a Mafalda conseguimos fugir e, quando toda a escola se desmoronava e era engolida pela crateras, ouviam-se os gritos dos sotôres todos que berravam mais dos que as crianças, vimos uma luz no céu, não era mais um meteorito, nem sequer Deus, apesar de já o ter chamado cá abaixo não sei quantas vezes, era uma nave que nos recolheu e nos levou para fora dali, para bem longe, onde pude, com a minha amiga, dar origem à nova humanidade. Claro que tivemos que esperar um tempo, os nossos corpos não estavam ainda preparados para tão importante Missão. Esqueci-me de dizer que, durante toda aquela destruição na escola, havia sangue e tripas por todo o lado, algumas pessoas rebentavam como borbulhas, devia ser da pressão atmosférica, acho que dei isso em Geografia.

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2. Psicanálise

Mesmo perante um cenário destes, em que a tragédia é imensa, quase total, as pessoas acorrem em massa para ver o filme e ficam felizes com as imagens magnânimes de destruição, enquanto sorvem ruidosamente refrigerantes calóricos e mastigam, ainda mais ruidosamente toneladas de pipocas. Aliás, quanto maior for o índice de destruição melhor o grau de satisfação – que chatice, afinal só se vê o Cristo Redentor a desfazer-se e não o Rio de Janeiro todo a ser todo engolido pela fúria das águas, – numa espécie de massacre-depedência.

A questão é, porque raio vamos nós ao cinema para ver sofrer, sofrermos também artificialmente e depois ficarmos felizes com isto?

Para muitos a coisa é simples, é apenas o fenómeno da montanha russa, já sabemos que nos sentimos mal, que ficamos com o estômago colado, mas que no fim gostamos, rimo-nos muito e voltamos a querer repetir a experiência, mas agora numa ainda maior. Assim, esse tipo de sensações é apenas associado aos ditos filmes comerciais, de baixa categoria, série B ou blockbuster, para entreter as massas num ambiente de feira-popular. Puro engano, a história do cinema mostra-nos que esta arte dita 7ª, está carregada de representações amargas para que as pessoas sofram ao vê-las.

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Os géneros terror, catástrofe, suspense, dramático, no seu expoente máximo de melodrama, e até mesmo a comédia, na exploração do ridículo, aportam para cinema todo um conjunto de medos e sofrimentos para cativar o espectador, numa espécie de transposição para as imagens dos seus próprios temores, para não dizer fantasmas, que, ao serem ali exorcizados, acabam por criar um certo prazer sadomasoquista, sofro mas fico bem ao ver sofrer, ainda que no imaginário. Mal pensava um tal senhor Freud que o cinema acabaria por ser o grande divã da humanidade.

O acto principal do ver cinema é espreitar. O espectador olha, refugiado no outro lado do ecrã, uma realidade, mesmo ficção é no momento autêntica, como se de repente pudesse entrar dentro de todas as janelas de um grande condomínio e fantasiar com o que vê. Em que nos transforma tudo isto? Nuns genuínos voyeurs, descomplexados, sem medos, em que podemos contemplar a vida, os acontecimentos dos outros. Mas como qualquer voyeur tanto maior é o prazer quanto maior for o espelho que encontramos na cena, ou seja, todo o deleito deriva do facto de podermos encontrar no que vemos pontos em comum com o que sentimos. E voltamos ao princípio, nada melhor para tranquilizar os nossos medos do que vê-los representados nos outros. Fazemos, assim, uma espécie de projecção na própria projecção que é, em si, o cinema.

Será que pensamos que nos cai um meteorito todos os dia na cabeça para depois irmos a correr ver filmes catástrofe para nos expiar o medo? Não, mas o gosto de ver tudo a sucumbir é apenas uma metáfora sobre aquilo que tememos, das verdadeiras coisas que no desabam sobre a cabeça, piores do que qualquer calhau vindo do céu. Se o medo de perder aquilo que temos, as pessoas que amamos, o emprego, o bem-estar, é o mais comum, então representá-lo na visualização da destruição de grande ícones da humanidade traz ao público uma certa catarse. No fundo, é trazer para a modernidade o velho síndrome do Coliseu romano, vamos ver aquela gente toda a ser massacrada, vomitamos e depois ficamos bem na nossa vidinha de todos os dias, afinal há gente que sofre muito mais do que eu. Uns enfrentam o touro, outros limitam-se a assistir e a aplaudir.

Claro que não é só o medo que tem a sua representação no cinema, a felicidade e o prazer também são perseguidos nessa projecção do eu, daí o sucesso das comédias românticas e da abordagem sexual nas imagens cinematográficas, embora sobre esta última a situação seja mais complexa pois a pornografia deixa de ser cinema e passa acto sexual propriamente dito, mas sobre isso talvez um dia volte a explanar.

Assim, quando olharmos para aquilo que são, aparentemente, filmes menores, devemos pensar até que ponto Freud não se esconde por detrás deles e que, muitos dos Godzilas a esmagar, são apenas reflexos de nós mesmos a (de)calcar os fantasmas que nos habitam as mansões ensombradas das meninges. Projecções dentro da projecção.

3. O Filme

Então e o filme? Pois, o filme. A crítica malhou forte e feio como era de esperar, ah, essa eterna mania de procurar Godard na feira-popular!

Mesmo quando se analisa um filme de pernas para o ar, como eu costumo fazer por vezes, nunca podemos esquecer que estamos dentro de um género típico. Não adianta procurar desenvolvimentos densos no enredo, que tudo aquilo é apenas para abanar, impressionar e seguir caminho, ainda que depois a coisa não seja tão simples assim, como se pode ver no ponto acima.

2012 é um bom filme de catástrofe, não sendo nada por aí além não deixa ficar os créditos por mãos alheias. Socorreu-se de uma boa tecnologia de efeitos especiais, trouxe o imaginário e a narrativa dos vídeos jogos, não se pode esquecer a época que vivemos e o público alvo, embrulhou tudo com as eternas histórias de família e já está. Acusaram-no de ter um argumento fraco. Pois, mas aquilo também não dá para mais, vem nos manuais, desde o célebre Terramoto e a Torre do Inferno que se decalca o desenvolvimento do assunto, até mesmo quando a coisa sobe de nível e bate à porta do patamar da arte, alô Spielberg, não deixa de focar os mesmos clichés: Um conjunto de personagens separadas, as eternas famílias disfuncionais (a deste parece que foi transplantada da Guerra dos Mundos), o encontro e a salvação com a redenção interior de todos (a família volta a ficar unida), ou seja, apesar de tudo ainda há esperança.

Se alguma coisa há apontar ao argumento é o seu lado excessivamente moralista, pois, ainda que distraído, quase que é um pastiche de algumas homilias religiosas. Durante a narrativa morrem milhões mas nós só assistimos, por perto, à morte de meia dúzia. E quem são? Os Messias e as Messalinas.

Sobre os Messias temos de 2 níveis: Nível 1, aqueles que têm a missão de trazer os outros para a salvação, mas que acabam por se sacrificar em nome dessa mesma redenção, fica sempre bem esta emoção; Nível 2, os que levam também a luz aos outros, mas já agora aproveitam a sua boleia e, por via das dúvidas, ficam no aconchego da bem-aventurança, que também são filhos de Deus.

As Messalinas, pecadores e pecadoras de serviço, todos aqueles que resolveram pôr o pé fora da cerca ou foram procurar cercas não abençoadas, uns adúlteros é o que eles são, não têm escapatória, mais tarde ou mais cedo embarcam para os anjinhos, é que nestas coisas, mesmo que seja a esmagar tudo como baratas, não há nada como proteger a moral e os bons costumes. Aliás, o final, não o desvendando, não podia ser mais bíblico do que é, mais um pouco e estava ao nível de figurar num manual de maus costumes dos nobeis.

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Voltando ao filme propriamente dito, apesar de estar alguns furos abaixo do Dias depois de amanhã, ele cumpre o seu fim. Tem destruição em massa, historinhas banais de gente a tentar salvar-se e, como não podia deixar de ser, um final feliz, ainda que feito sobre a tragédia humana, para nos reconfortar. Uma coisa trouxe de novo, ou pelo menos acentuou bastante, não se centrou apenas nas catástrofes e seus efeitos soberbos, mas sim no suspense e na acção intrepidante ante da salvação do núcleo principal.

No meio disto tudo há uma certeza, nunca nos podemos esquecer de que género estamos a falar (ver), pois só assim conseguimos alargar os horizontes das imagens que desfilam a uma velocidade alucinante, inclusive vislumbrar para além das suas sombras. Mais do que qualquer outro género, é este que devolve o cinema para as suas verdadeiras origens. Ao ser um mero entretenimento de feira, querer trazê-lo para a Ópera de S. Carlos, para depois malhar nele forte e feio, não é justo e muito menos honesto. Até o meu filho, ao me questionar se era filme para Óscares, e perante o franzir do meu sobrolho, logo rematou, “Claro que estou a falar de efeitos especiais apenas!”

Carta de um jovem Vampiro – (Também quero estar na onda)

2009 Novembro 10
por bp63

Querido pai, querida mãe

Então que tal?

Cá vou indo do jeito que o sangue quer, umas vezes bem, outras vezes mal.

A coisa não está fácil por aqui, a qualidade do produto tem baixado muito nos últimos tempos, as pessoas já não são o que eram e nós é que pagamos a factura.

No outro dia, uma vizinha minha, que se andava mesmo a oferecer, apareceu-me toda fogosa no elevador, com um decote generoso a desaguar num peito de sustentação quase vertical, e eu não resisti, ali mesmo dei-lhe uma valente dentada. Como as coisas enganam! Ela cheia de bom aspecto mas o sangue era uma coisa tão desenxabida que tive que o cuspir logo ali. Não sei se para manter a linha, ou se para poupar para comprar sapatos e malas, o que é certo é que agora a este tipo de mulher só lhe dá para comer saladas, coisas integrais e outras que tais, desde que light. Claro que depois, uma pessoa tenta beber aquilo e nem os requisitos mínimos de hemoglobina têm, mais vale diluir groselha em água que sempre tem melhor sabor.

Para compensar tentei petiscar uma outra, bem rechonchuda, que é caixa no supermercado do bairro, e que me estava sempre a fazer olhinhos. Esperei nas traseiras do estabelecimento e, mal ela saiu, atirei-me de cabeça. Bom, a mulher quando me viu guinchou de tal forma que parecia que a estavam a matar, mas, ao contrário do que eu pensava, não me repeliu, antes pelo contrário, apertou-me com força, com tanta, que acabámos por cair sobre umas caixas de fruta podre, ainda tenho umas nódoas negras nas costas das tábuas da maçã starking. Por pouco não acabei sufocado em tanto reboliço de carnes, só o peito dela dava para afogar, e fruta. Foi com muito custo que consegui libertar os dentes e dar-lhe uma valente trincadela. Mas foi mesmo só uma, porque não consegui ingerir mais. Mal o sangue me passou pelas goelas devo ter ficado com o colesterol a rebentar todas as escalas. Só me faltou mesmo receber um brinde de Happy Meal, tal era o sabor a hambúrgueres e pizzas que aquilo tinha.

Isto está mesmo mau, não se consegue apanhar uma pessoa de jeito. O desespero já era tanto, que passado algum tempo resolvi mesmo trincar um rapaz que me apareceu pela frente, afinal vivemos numa época de modernices e há que experimentar sensações sanguíneas novas. Só vos digo, ainda consegui engolir alguma coisa, mas ao fim de algum tempo estava com uma moca que já não via nada à minha frente, a cabeça parecia que levitava,  mais parecia que tinha entrado num coffee shop de Amesterdão.

Como se não bastasse tudo isto, já não há respeito pelas nossas pessoas. Antigamente quando viam alguém com os dentes afiados e os olhos a ficarem vermelhos fugia tudo a sete pés para a primeira igreja que se lhes aparecesse ou desatavam logo a comer gambas à “l’ajilho”. Agora não, os mais velhos insultam-nos a dizer para ir trabalhar, que isto de andar metido na droga só dá cabo do país, que nos têm que sustentar e mais não sei o quê, há vezes que até nos dão uma moeda quando saem do carro. Os mais novos, esses não se assustam, pelo contrário até acham cool, os rapazes querem logo fazer parte da pandilha e as miúdas suspiram para a que as levemos a uma festa para nos mostrarem às amigas. Só vos digo, uma canseira, já não há pachorra!

A minha esperança, é que, com esta onda de liberalização, eu possa abrir um banco. Não, não é daqueles do tipo de coisas financeiras, esses já têm vampiros que cheguem, ainda que de um outro género, mais discretos sugam mais do que ninguém. Não, vou mesmo abrir um banco de sangue. Porquê andar atrás de fornecedores ambulantes se eles podem vir até mim fazer os depósitos? Claro que não é a mesma coisa do que beber na fonte, mas sempre é melhor do que arriscar directamente em gente pouco segura, é que depois não se saber o que se consome, ao menos se tivéssemos uma espécie de ASAE vampírica a malta andava mais descansada. Assim, com este banco de sangue, sempre posso fazer primeiro umas análises e depois beber só o vintage. Mais, estou até a pensar em expandir o negócio e começar a vender algumas das colheitas em excesso. Para as de primeira linha vou lançar o Moet e Sangueon, para as mais rascas apresento o Sangue-Cola. Vai ser um sucesso.

Com isto tudo me despeço,

Dentadinhas de ternura do vosso filho, Dracusélio

PS: Sou capaz de ir aí pelo Natal. 

A Fofura da Perversidade

2009 Outubro 15
por bp63

 

Entre uma imagem angelical de inocente, as lindas criancinhas, e uma outra de doçura de maturidade, os velhinhos fofinhos, está aquela coisa rude e má que é o ser humano adulto. Muito me estranha este instantâneo cliché que, na maioria da vezes, se atira para explicar os males das sociedades. É certo que a espécie humana mal ganha hormonas nos sítios certos, empreende um caminho bastante aguerrido e, por vezes, leva tudo a direito, não deixando o rasto do caminho em bom estado. Mas será que é mesmo assim?

Será que a perversidade é uma coisa que apenas nasce aquando do romper da aurora dos pelos da cara, ou de outros sítios mais íntimos, e morre logo quando também partes capilares começam a desaparecer? Não andaremos um pouco enganados com esta coisa da inocência pueril e da candura anil? Cá para os meus botões, acho sim.

Nestas coisas de perversidade, penso que ela está nos genes e vem logo ao de cima mal respiramos o primeiro mm3 de oxigénio. O nosso lado animalesco de sobrevivência, mal ouve a pistola de largada, zás, começa logo a fazer das suas com todos os atletas que nos aparecerem nas pistas do lado – o quê? Aquele camafeu não me dá chucha, berro já que me farto, o menino partiu o copo, ó mãe, ele partiu o copo, vamos ver se ela lhe assente já uma galheta para eu ficar feliz – não só para garantir melhor lugar no pódio, como também para podermos rir sarcasticamente dos outros que ainda rebolam no chão. O melhor do mundo são as crianças, dizia o poeta, mas tenho em mim, que bom, bom, será mesmo o momento que normalmente antecede as crianças, assim uns meses antes.

Mas sobre os petizes, o pessoal já encara que eles, afinal, não são os anjinhos barrocos com que eram pintados. Um tal de Freud, um senhor já muito antigo, mostrou isso e a malta ficou de pé atrás. Mas ainda há um mito que resiste, os dos velhinhos, os nossos adoráveis idosos, aquelas pessoas que esbanjam ternura em cada sorriso, em cada festa. Pois! Temo que este filme Corin Tellado descambe muitas das vezes em algo mais Fantasporto.

A idade de ouro é também o fim de um ciclo, ora se o ciclo é redondo, onde se vão encontrar as pontas? Na infância, claro. Assim, aquela perversidade, que ficou escondida na grande corrida da vida, agora que há mais calma, volta a ser tirada do baú onde ficou arrumada, e zás, toca a despachá-la novamente, mas com muito mais inteligência e manha. Assim, aquela espécie de mafioso napolitano adormecido, primeiro de leite agora de chá, volta a atacar nas suas chantagens e nas suas exigências nos bairros familiares do costume.

A perversidade está na condição humana sempre, apenas a escondemos ou a mascaramos durante uma grande fase da vida, num procedimento muito complicado a que podemos chamar crescimento, isto para não ficar mal na fotografia e clicar sobre termos como hipocrisia, falsidade, etc. Só que há uma fase que em achamos que o fardo é muito grande, as costas também já começa dar de si, e volta tudo ao início, manda-se ao ar a carga que com as rugas já ninguém repara.

Em jeito de sombra literária desta imagem que despenquei aqui, apresento um pequeno falso conto (é realmente um capítulo de uma novela porno-satírica) levemente inspirado num caso real.

 

Maria Clara, já estou pronta!

 

Irene abriu o roupeiro e começou a escolher as roupas que iria vestir naquele dia. Um simples vestido azul com bolinhas brancas para a manhã, não ia sair de casa, um casaco branco para colocar por cima e, assim, sair depois de almoço até à pastelaria no rés-do-chão do seu prédio para o seu café cheio, com 2 pacotes de açúcar, e, finalmente, uma saia-casaco salmão de lã, que sempre arrefece, para o passeio do fim da tarde. Colocou todas as peças em cima da cama. A empregada já sabia do ritual, passado pouco tempo passava por lá, pegava nelas e dava-lhes um jeito com o ferro. Enquanto não estivesse pronta a primeira veste, Irene ultimava a parte final da sua higiene matinal, apenas a mais simples, a facial, pois a filha todos os dias antes de sair dava-lhe um bom banho. Com 83 anos já lhe era difícil entrar na banheira e lavar-se sozinha, a última vez que o tinha tentado fazer escorregara e fracturara a perna, o que a deixou muito abalada, não pelo traumatismo ósseo propriamente dito, mas porque esteve à beira de um esgotamento nervoso com o facto de ter que ficar fechada em casa durante alguns meses.

Depois do cafezinho pós-almoço e de uma tarde na companhia da sua irmã, com quem mantinha acesas discussões sobre tudo e nada até ao chá das cinco em ponto, momento em que todas as asperezas eram postas de lado pela doçura dos biscoitos e das compotas, Irene voltava ao quarto para fazer a sua higiene de fim de tarde, retocar a maquilhagem, uma mulher não pode sair à rua apenas de cara lavada, e vestir a última toilette escolhida. A empregada, mais uma vez, já sabia que tinha que entrar em cena, comparecia no quarto todos os dias à mesma hora, ajeitava-lhe a roupa, havia sempre uma gola que não estava direita, e ajudava-a a colocar o batom, a mão trémula da velha senhora já não lhe permitia contornos exactos.

Quando a filha abriu a porta, já no final da tarde, pôde ver a paisagem de sempre. A sua mãe, lá estava ela, sentada na cadeira almofadada do hall de entrada, toda arranjada, com uma das melhores indumentárias que tinha, bem hirta, com a mala, a condizer com os sapatos, pousada no colo e a bengala, de punho de prata, numa das mãos.

- Maria Clara, já estou pronta! – repetia ela, como uma deixa teatral, todos os dias ao ver a filha entrar depois de um longo dia de trabalho.

Cansada, ser directora financeira dava muito trabalho, especialmente nas épocas de crise em que há que ginasticar, por vezes com autênticos saltos mortais à retaguarda, toda a economia de uma empresa, Maria Clara suspirava para que a mãe perdesse um pouco o fôlego e não quisesse sair todos os dias para um passeio de fim de tarde. Quer estivesse sol quer estivesse chuva, fosse dia ou já noite profunda, Irene esperava sempre pela filha para fazer um mediano passeio de carro pela cidade ou, se ainda houvesse tempo, uma pequena ronda pelas montras.

- Mas ó mamã, já é tão tarde, estou tão cansada, só me apetece atirar para a cama – suplicou a filha na tentativa que a mãe fosse sensível ao seu estado.

- Por amor de deus, Maria Clara, até me falta o ar! Eu estou um dia inteiro aqui fechada, a ver uma televisão deprimente, a ter que estar sempre em cima da Fernanda, senão faz tudo mal, e a aturar a tua tia Luísa, que não sai de cá.

- Mas a tia Luísa vem para lhe fazer companhia, para se distraírem.

- Distrair? Não se pode conversar com ela, está sempre, sempre, no contra. Imagina tu que agora até me diz que vai votar no Bloco Esquerda. Com aquela idade armada em revolucionária, não vê que esse tipo de politiquice é de gente nova. Qualquer dia perde o juízo de vez e ainda me chega aqui de minissaia. Estás a ver o que eu passo, todos os dias. Ainda queres tu que fique aqui, ai não, preciso mesmo de ir apanhar ar. Tu sabes muito bem como são os meus nervos, tenho que espairecer, aliás o primo Antunes bem o recomendou na última consulta.

- Mas ó mamã, ainda por cima o carro está a fazer um barulho esquisito – tentou Maria Clara uma última oportunidade, aproveitando o facto de o carro ter um chiar esquisito, provavelmente a avisar que estava na hora de ir à revisão.

- Se é por isso, que também não quero ficar aí parada no meio da rua a esta hora, chamamos um táxi.

- Um táxi?

- Sim, ainda tenho reforma para pagar isso.

Maria Clara viu que mais uma vez nada no mundo iria demover a mãe de querer o passeio de sempre.

 

Bom para não torturar mais aqui, o resto da historieta está completa na outra minha sala o Guardador, precisamente Aqui.

Novas Epidemias, Já!

2009 Outubro 10
por bp63

 

Como se não bastassem as eternas epidemias económicas que, como qualquer peste, se colam a nós e nunca mais nos largam, temos ainda que aturar as outras, as biológicas, as suportadas por um bichinho ranhoso que resolve emigrar da favela corporal duma qualquer espécie animal para o resort de 5 estrelas do corpo humano.

De tempos a tempos, lá temos uma nova onda, como se estivéssemos a assistir a um jogo de futebol e viesse a seca ridícula de levantar os braços, de mais uma epidemia de não sei quê, ora das vacas, ora dos frangos, e agora dos porcos.

Primeiro, será que nós, espécie superior, não temos competência para criar um vírus que seja propriedade nossa, que tenha sido embalado e amamentado até aos 12 meses no nosso colo sanguíneo? Porque raio, temos sempre que importar a desgraça do mundo animal, qual fábula infantil de mau gosto?

Segundo, não conseguimos sair da cepa torta das gripezinhas, da febrinha e dor de garganta, que já são mais velhas do que a Sé de Braga? Está na hora de ter assim umas mutações mais esquisitas. Andam os homens dos filmes a pintar esse cenário a torto e a direito, mas nunca pega.

Dizem os grandes teóricos da conspiração, essas altas individualidades pardas – que na maior parte dos países são uns tolos que sopram coisas para os jornalistas mas que eles não ligam nenhum, com excepção de Portugal onde um delírio vira assunto de Estado – que todas estas epidemias, pandemias e outras tias, são fabricadas em laboratório. Os mais meiguinhos afirmam que o objectivo é dar a ganhar muito dinheiro a multinacionais farmacêuticas falidas. Os mais radicais afirmam a pés juntos que o que eles querem é fazer uma espécie de limpeza na espécie humana.

Pois bem, num caso ou noutro, o que eu tenho a dizer é que, mesmo a ser toda essa conjectura diabólica, é tudo uma pobreza franciscana. Afinal, se os tais senhores iluminados, que andaram a estudar que nem uns desgraçados nas velhas oportunidades, estão nos laboratórios a desenvolverem altas equações para dizer como os bichinhos nos vão atacar, bem que podiam ser um pouco mais imaginativos e não virem sempre com aquela canseira do vírus se propagar pela saliva, pelo sangue, provocar febres, dores, tremuras e cansaço. Ó pessoal disso já nós temos cá todos os dias e há imenso tempo, ainda antes haver laboratórios com tubos a ferver, não podiam agora criar outra coisa mais interessante? Algo que não fosse necessário, fazer um diagnóstico cheio de perguntas e mais perguntas, como se estivéssemos a defender uma tese de doutoramento, por se confundir com imensas coisas já existentes, mas sim, que logo na primeira resposta tivéssemos o resultado: O senhor tem o vírus HK3, faça o favor de entrar naquela porta, dispa-se e faça amor com a primeira mulher que estiver no corredor à direita, não sem antes comer um prato bem cheio de papa Maizena.

Bom, já que os tais homens e as mulheres não têm imaginação, eu sugiro aqui uma série de vírus e epidemias que podiam criar. Assim, não só variava um pouco este bocejo diário, como também tornava as coisas muito mais divertidas.

Vejo tudo Nu

Um pouco ao estilo de um velho filme de Dino Risi (Vedo Nudo, 1969) o pessoal era infectado e ficava assim com uma espécie de visão X do super-homem, em que o obstáculo têxtil era eliminado de vez e a pele era imediatamente enxergada.

Uma pessoa saía à rua e ficávamos logo no Meco, mesmo que estivesse um gelo polar. Bem que podiam pôr no corpo o melhor dos trapinhos da última Moda Lisboa que o pessoal a única marca que topava era mesmo um sinal ou uma tatuagem secreta ao fundo das costas da loura que corre para apanhar o autocarro.

Pontos Fortes:

· Uma sensação de férias eternas num resort nudista do sul de França. Mesmo que a paisagem não fosse boa, e nesses lugares turísticos vivem-se, por vezes, alguns filmes de terror, a malta andaria bastante entretida, ainda que tivesse que estar a despachar o último trabalho chato que o chefe encomendou.

· Descobrir a verdadeira natureza das pessoas, no verdadeiro sentido – ai eu sou toda muita natural, não tenho silicones nem Photoshop, está bem abelha, não tens é pouco!

· O Governo ia poupar todo um dinheirão em gastos de prevenção e combate à doença. A Linha 24 só não fechava porque, por certo, haveria ainda pessoal que iria insistir em ligar para perguntar, não a terapia da doença, mas como é que a podia apanhar – isto já começou há uma série de semanas eu ainda continuo a ver a minha vizinha da frente com a irritante saia-casaco da companhia aérea.

Pontos Fracos:

· A indústria da moda ia ao charco. Quem é que dava balúrdios por Prada se qualquer trapo de chita fazia o mesmo efeito, abrigar e proteger o corpo nas partes mais sensíveis, sim porque o vestuário também serve para isso, lembram-se?!

· Alguns horripilantes espectáculos que teríamos que enfrentar. Imaginem que nas últimas eleições, já infectados, teríamos que assistir a um comício de Manuela Ferreira Leite. A abstenção aumentaria ainda mais, derivado à elevada taxa se suicídio. Eu só de pensar no senhor Mendonça, o homem que me corta os bifes no talho, já quase que suspiro pela peste bubónica.

Só a Verdade, Nada mais do que a Verdade

Também aqui poderiam ir buscar inspiração àquele filme do Jim Carey (Mentiroso Compulsivo – 1997) , pois o pessoal, mal o vírus entrasse cá, apenas com uma corrente de ar, ficava impedido de mentir.

À nosso volta só passávamos a ouvir verdade, por muito dura que fosse. Pior do que isso, também nós teríamos que dizer só a verdade. Provavelmente nos primeiros andaríamos todos gagos, tal seria a estranheza da nova linguagem, mas aos poucos, como crianças a aprender a falar, soltávamos a fala. Provavelmente muitos optariam pela mudez.

Pontos Fortes:

· Finalmente íamos ter uma sociedade justa, verdadeira e fraterna. Claro que também chata e sem sabor nenhum, não haveria nada para descobrir nem desvendar.

· Do mundo da política sairiam, em debandada, a maior parte dos intervenientes, que ficariam enclausurados em retiros monásticos até que aparecesse uma vacina portentosa e eficaz contra semelhante calamidade.

· O senhor Mendonça quando me dissesse que a carne era manteiga, eu tinha mesmo que ir comprar pão fresco para barrar o bife de alcatra.

Pontos Fracos:

· Os primeiros tempos iam ser um caos, não teríamos governantes capazes de levar o barco a bom porto. O Poder iria cair nas mãos dos mais ingénuos que achariam que com a verdade conseguiam governar, mas depressa sucumbiriam também.

· A maior parte das empresas do ramo financeiro e afins, incluindo seguradoras e publicidade, iriam falir e uma onde de desemprego assolaria o mundo.

· As relações sentimentais não durariam mais de um ano, embora isto ainda não percebi se seria realmente uma desvantagem, desconfio até, que deveria estar no ponto de cima.

Musica, Nasci para a Música

Este seria talvez o vírus pior de todos, o que iria causar danos irreversíveis no ser humano. Ao sermos atacados, por exemplo, através das ondas sonoras da voz, rompia em nós uma súbita vontade de sair para a rua e cantar a vida como se vivêssemos dentro do ridículo de um filme musical, daqueles em que pára tudo o que normal para se soltar uma cançoneta perfeitamente anormal.

Já imaginaram, alguém estar a conversar connosco e nós, de repente, na resposta soltássemos uma canção orelhuda, estridente, ao som de uns violinos licorosos, o vírus vinha com banda sonora, soltando uma espécie de La Feria secreto que vive cá dentro. Pois bem, este vírus seria mesmo transformar a vida de cada um numa coisa muito pior do que uma versão contínua do Mamma Mia, onde a propósito de tudo e nada se solta uma cantiga irritante.

Imagino mesmo o sr. Mendonça, largar a peça de carnes verdes e sair para a rua, ainda com ¾ de vazio na mão, a rodopiar, nos seus bem anafados kilos de massa corporal, e de bigode arreganhado, a cantar “Eu quero dançar esta noite, eu quero dançar esta noite” do My Fair Lady, versão portuga do I could have danced all night.

Pontos Fortes:

· Acabariam todos os programas cretinos de busca de talentos na televisão, afinal poderíamos ver qualquer cromo ao virar da esquina.

· Finalmente teríamos as situações em que nos costumam dar música com a sonoridade adequada. Dizer não vou subir os impostos ou estamos a sair da crise ao som de uma ária qualquer sempre iria ferir menos a nossa inteligência.

Pontos Fracos:

· As linhas de saúde teriam que aumentar exponencialmente, porque se agora o pessoal já gosta de contar a vidinha toda, imagine-se o que é fazê-lo cantando. Penso mesmo que os profissionais teriam que ter um estatuto de profissão de desgaste rápido, tal seria a debilidade acentuada dos seus tímpanos.

· Seria o fim da humanidade, pois do ponto vista sexual o pessoal ficaria no nível zero. Quem é que conseguia copular entre uma gemido e uma canção? Tiro-lhe a roupa, acaricio-a levemente e.. I’ve got you under my skin… depois, dou-lhe um beijo, mas antes, Kisses for me, save your kiss form me… Não dá. Antes monge no Tibete!

***

Pronto, eis aqui algumas sugestões de vírus e epidemias para tornar as coisas mais divertidas durante uns tempos, pelo menos o febrões passariam a ser de outro calibre. Se andar por aqui alguém da Teoria da Conspiração, vá lá pegue nesta ou noutras ideias e ponham um pouco de imaginação nisto das pandemias, que já andam iguais há séculos. Não há paciência.

Já agora, se quiserem, podem misturar as 3 sugestões, e fazer um vírus complexo e com mutações, criando a mãe de todas as epidemias. Imaginem só o que seria ver o Sócrates, na noite das eleições, todo nu, a comemorar a vitória, ao som do I Will Survive, e a dizer-nos isto vai ficar mesmo tudo fudido!

Percebem agora porque este blogue é um pouco ensombrado?!

Um Lugar à Sombra

2009 Outubro 9
por bp63

Começou tudo num lugar ao sol , corria o ano da graça de 2006.

Talvez por impulso, talvez para tentar corrigir uma certa dislexia gráfica que me atormenta, talvez para libertar o pequeno fantasma da escrita, acorrentado durante muito tempo num baú feito com velhas tábuas de delírios, talvez para seguir a onda, talvez por nada, o certo é que lá abri a tal casa ensolarada.

Se a ideia era construir imagens do nosso tempo a partir das palavras que desabavam no meu interior, depressa elas tomaram conta de mim, donas do seu nariz, emanciparam-se e resolveram desaguar num certo oceano burlesco, em que um certo e-palhaço saía por vezes como timoneiro.

Mas se há um tempo para um lugar ao sol, não falta um outro para espreitarmos a sua sombra. Pois bem, aqui estão elas de novo, as imagens que vão caindo dos dias, desfocadas pelas palavras, como se uma dança de sombras se tratasse.

Como qualquer casa Em’Sombrada está cheia de recantos e labirintos. Uma Sombra principal espera-vos, aquela que, teimosa, ainda tenta construir imagens, mas outras salas, com piso rangente e vultos pardos, fazem agora parte deste condomínio:

· Uma Orgia para as palavras bacantes;

· Um Guardador de histórias no pasto digital;

· Um Vagabundo dos ventos electrónicos.

 

Entrai, sem medo, e deixai as vossas pegadas, afinal as sombras também dão luz!