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3 – do Cabeleireiro que via coisas – rascunhos

Junho 16, 2013

Foda-se, foda-se, foda-se! Como é que tudo isto pôde acontecer?

Cheguei a casa e parecia uma barata tonta. Abri e fechei portas a um ritmo avassalador. Nem sem sei como os vizinhos não se queixaram com tal barulheira. Felizmente que os meus velhotes tinham ido para a terra – aliás, agora não saiam de lá, a neta só queria ver as galinhas, esperta a miúda, o que ela não curte mesmo é ir para o infantário onde os pais a depositam todos os dias -, caso contrário tinha sido o bonito. Eu estava completamente histérico.

Como podia, de um momento para o outro, tornar-me num criminoso, matar uma mulher que não conhecia e sem saber a razão? Em jeito de alucinação, despertei com uma faca na mão, numa cama cheia de sangue – apesar do quarto ter pouca luz, vi vermelho por todo o lado -, sem saber como tinha chegado ali. Logo eu, que tinha o rótulo de ver e adivinhar coisas, estava completamente às escuras neste caso. Felizmente que me deu para zarpar dali, como um cavalo selvagem a fugir de ser caçado, voltar para a festa e desfazer-me da faca. A minha roupa, apesar de tudo, estava impecável, é o que dá andar sempre vestido de preto e ser perito em não me salpicar com tintas e outros afins.

Só me resta esperar que a polícia se perca ao investigar aquela a família, bem como todos os convidados; todos eles teriam, com certeza, melhores motivos para despachar a criada do que eu, pois foi a primeira vez que entrei naquela casa e nem o nome da mulher sabia. Até aqui o destino parece estar a gozar comigo: ela chamava-se Maria Benedita; eu chamo-me Benedito Emanuel. Como Maria não conta e o meu Emanuel também não – foi só porque quiseram dar um ar moderno à maldita ideia de me porem o nome do santo que nasceu no mesmo dia que eu, 31 de Março -, posso concluir que temos, ou tínhamos, que ela já se foi, o mesmo nome. Será algum sinal? Já não me bastava o fardo de carregar este nome, Benedito, toda a vida, para agora ter uma morta, por acaso mandada para o outro mundo por mim, com o mesmo nome. Felizmente que ninguém ligou esse pormenor, é que todos me conhecem por Ben ou Beni, nick name que me puseram na escola – depois de ser bem gozado com o outro do santo – para tornarem a coisa mais ligeira e, assim, não perderem muito tempo: ó Ben, anda cá para te esmorramos as fuças por seres tão totó; ó Beni, zarpa já daqui antes que leves um pontapé na peida.

Aliás, lá no salão, se a Sónia – a minha patroa, que nos dias bons apelidávamos de Sony e nos maus de blacktrinitron – dissesse, ó Benedito lava e corta aí o cabelo à Dona Alice, a mulher fugia e nunca mais lá punha os pés; pode algum cabeleireiro que se preze chamar-se Benedito? Claro que não; até o bendito santo deveria ter preferido ser outra coisa qualquer, como António, Francisco ou Vicente.

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Mas por que estou eu preocupado com o facto de a minha madrinha ter massacrado os meus pais com a célebre coincidência da nascença do santo – omitindo que a mãe dela também era Benedita e por isso queria afilhado com a mesma bênção -, quando tenho um problema bem mais forte entre mãos?

Tornei-me num criminoso; pior ainda, tornei-me num criminoso amnésico. Como se não bastasse a desgraça que me calhou por sorte, ainda veio com pacote especial: não saber o motivo.

Depois ter esvaziado um armário de bolachas – quando estou nervoso como sem parar, a minha mãe quando vier vai-lhe dar uma coisa ruim ao ver a despensa mais vazia do que prateleira em dia de liquidação total -, começo a pensar que não ter um motivo para matar a criada é uma vantagem; pelo que li, toda a investigação passa sempre por tentar encontrar o motivo do crime. Ora, eu não tenho. Não a conhecia, nunca ouvira falar dela, só pisei aquela casa uma vez – maldita hora! – e não tenho qualquer relação com as pessoas da família e da festa, a não ser lavar a cabeça – que o cabelo só podia ser cortado pela Sónia – da Mariana Almeida Lemos Barraqueiro (embora este último apelido não seja para pronunciar), a aniversariante.

Como tudo começou?

Bom, a Mani – esta coisa de todas quererem um diminutivo amoroso começa a ser enjoativo, mas quem sou eu para falar se também tenho um, só que no meu caso foi uma cena de salvação nacional – fartou-se de anunciar no salão que o pai comprara um solar – palacete na voz dela – sobre o Douro, muito perto do Porto, logo a seguir ao Freixo. Nas diversas vezes que lhe lavei a cabeça, ela contou-me todo os pormenores, que era uma casa de nunca mais acabar, que estava um pouco em ruínas, mas que o pai, homem da construção, ia pôr aquilo num mimo. Imaginei logo o bonito estado em que ficaria, a julgar como ela se vestia; apesar de carregar um nome com brasão do lado da mãe, o gosto tinha descaído todo para o lado do pai, o Barraqueiro.

– Ando assustadíssima – disse-me Mani, na penúltima vez que foi ao salão, enquanto eu lhe aplicava um shampoo caríssimo, que ela trouxera de Paris, mas que pela textura e espuma me parecia igual aos frascos de dois litros que comprávamos num armazém da Maia. – Afinal, parece que a família anterior, uns tais Ferreira Menezes, não vendeu o palácio – já tinha subido o nível da classificação do imóvel – por estar arruinada e não se entender nas partilhas.

– Ai não? – perguntei entusiasmado; foi das primeiras coisas que me ensinaram no salão, devemos sempre fingir grande interesse sobre os assuntos das clientes, como se aquilo fosse a coisa mais importante das nossas vidas, até uma simples comunicação que andavam a comer qualquer coisa que lhe faziam gazes devia merecer, da nossa parte, abelhinhas laborais do salão, uma tal comiseração, como se tivessem cancro e andassem a penar na quimioterapia.

– Não. Parece que a casa – descaiu-se e baixou o nível do património – está assombrada.

– Ai credo! – fiz um gritinho ligeiramente histérico, levando a mão ao peito; é certo sabido que as clientes esperam sempre dos cabeleireiros gestos amaneirados, ao que parece isso dá-nos pontos no raking da tecnicidade capilar; se formos mais machos, já não confiam muito, acham que teríamos mais jeito para barbeiro, que o corte não vai ser delicado, além de desconfiarem das massagens que lhe fazemos na cabeça, pois podem ter outras intenções; embora aí, não sejam muito claras, pois já tive algumas distrações, massajei-lhe o pescoço e os ombros com alguma malícia, e elas não se fizeram nada rogadas, pelo contrário, nesse dia a gorjeta foi maior. Cá para mim, deve bater naquele ponto das mulheres acharem que, mesmo maricas, se elas forem boas, também os gajos se rendem ao outro lado. Aliás, só isso explica que muitas casem com homens em que basta olhar para eles e vê-se logo qual o tipo de pernas que os tipos apreciam, do género bem peludas e musculadas de pontapés na bola, seguramente. Um dia destes, tenho que ver qual o melhor papel para fazer no salão.

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– Veja lá, Bem, o que nos havia de acontecer. O meu pai gastou uma fortuna na compra, outra na recuperação e agora viemos a saber isso.

– Mas como? Sabe que se fala muita coisa, só por falar.

– Há dias, apareceu lá uma das herdeiras, morava no estrangeiro, e não se despediu do palacete. A mulher ficou histérica. Primeiro porque não gostou da remodelação que fizemos, começou a dizer que destruímos a alma da casa. Eu, que não sou de ficar calada, disse logo, que ainda bem, era o que mais nos faltava ficarmos com as almas dos brasões antigos, agora era um novo tempo e se havia alma para morar ali era a nossa. Olhe, foi um rastilho, a senhora, de porte fino, que até estava a falar num tom aceitável, desatou aos berros, como uma louca, e a fazer-nos ameaças, que não sabíamos no que nos estávamos meter, que nos íamos arrepender por ter soltado toda as almas que viviam por ali, amansadas, entre as paredes que as ampararam ao longo dos séculos, que agora ficariam furiosas por termos destruído o seu mundo, como se as almas tivessem ali um condomínio.

– Até estou a ficar arrepiado – não estava, mas tinha que fazer o meu papel.

– Eu nem liguei muito. Afinal, todo aquele espectáculo era só porque mandámos abaixo uma fonte com um lago cheio de estatuetas já podres para fazer a piscina. Não foi por nada, mas era o local com melhor exposição solar. Só que depois, passados uns dias, começaram-se a ouvir ruídos estranho, até os trolhas, que são homens rudes, queriam ir embora. Não fosse o dinheiro que tinham que receber, eles partiam de imediato, mas já se sabe, até o medo tem um preço.

– Não ligue, são só sugestões.

– Ó Beni, nem parece teu, logo tu que tens esses poderes, a desmentires uma coisa dessas – interveio Sónia, para mal dos meus pecados, que, enquanto penteava uma cliente, estivera com ouvidos de tísica, coisa bem típica dela, escutava sempre tudo, mesmo quando se falava baixinho. – Tu é que devias ir lá, com os teus dons resolvias isso tudo.

E foi assim que eu desembarquei no solar dos Barraqueiros – a que eles continuaram a chamar Solar Dourado, por ser esse o seu nome anterior devido à grande porta principal de talha dourada que em tempo fora cartão-de-visita; também, com aquele apelido de família, a lembrar acampamento de refugiados, não havia pedra secular que resistisse se mudassem o nome. Por que fui? Porque no salão acham que eu tenho poderes especiais.

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Tenho? Não tenho. Apenas sei umas coisas, sou muito observador, e tenho uma certa queda para juntar pormenores que depois digo às pessoas numa versão mais romanceada – na escola sempre fui muito bom a redacções. Então, uma mulher que chega ao salão, apanha logo a revista de telenovelas, lê os resumos todos e depois vai ler os signos, só se pode concluir uma coisa: tem muita falta de sexo e, pior do que isso, sonha viver um novo amor, já que o paspalho que tem lá em casa não lhe liga nenhum. Depois, não me é difícil, ao lavar a cabeça, ou no corte – no pentear não dá, pois o raio do secador até ensurdece os pensamentos -, começar a falar-lhe dos problemas (claro que não lhe digo que ela tem falta de peso em cima, que não sou burro, pois isso é assunto que nunca pode ser abordado na negativa) e elas ficam abismadas como adivinho os seus íntimos.

Uma vez, uma cliente também andava aflita com uns passos que ouvia em casa a partir da meia-noite. Eu disse-lhe que podia ser alguém que não queria partir e encontrara na casa dela o porto de abrigo para ficar; o melhor seria puxá-la para fora. Devia estar inspirado nesse dia, para me ocorrer tal história, se calhar por ter visto um filme de merda, como tantos outros que via para matar o tempo. Bom, mas além de me ter deixado levar por uma imaginação pouco recomendável, resolvi dar uns palpites: disse-lhe que pusesse no jardim oferendas de comida – como fazem os Hindus aos seus deuses – e que fosse afastando o prato todas as noites, colocando-o cada vez mais longe. Ela assim fez e deixou de ouvir passos em casa. Lembrei-me de tudo isto porque achei que devia ser animal que se abrigara na casa, mas, se lhe começassem a pôr a comida longe, ele ganharia hábitos de pernoitar fora; claro que não contei a versão do animal, preferi a da alma penada. Foi um sucesso.

Como sempre me acharam esquisito, desde pequeno, a fama assentou-me que nem uma luva: o Benedito tem poderes especiais. Deixei-me levar; nunca tivera sucesso em nada – na escola era sempre dos piores, não porque fosse burro, mas porque estava sempre nas nuvens e não ouvia nada, aliás, por isso tirei um curso técnico-profissional de cabeleiro, sempre gostava mais de mexer nos cabelos do que nos fios elétricos ou em peças de aparelhos -, e agora, pela primeira vez, era melhor do que os outros.

Assim, na vez seguinte, em que a Mariana veio ao salão, convidou-me para a festa no solar. Não porque me tornasse íntimo, mas porque seria a sua atracção: um vidente para libertar o solar dos fantasmas. Devia estar habituada, em pequena, a ter sempre um palhaço para abrilhantar os seus aniversários. Desta vez quis novamente um: eu.

E que palhaço, acabei a ser o assassino de uma pobre criada sem saber porquê. Resta-me uma coisa: que a polícia não chegue até mim antes que eu descubra a razão que me levou a fazer semelhante acto tresloucado. Melhor: descobrir quem me levou a tal. É que eu, mesmo não sendo vidente, tenho uma sensação que alguém, sei lá de que maneira, me induziu a fazer o que fiz.

Segundo capitulo de uma novela policial narrada pela vítima, pelo criminoso e por um inspector muito especial:

Da Criada penada, do Inspector tarado e do Cabeleiro que via coisas

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