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Fascismo Sempre, Democracia Nunca Mais – Batman, um Cavaleiro com muitas Trevas.

Agosto 15, 2012

O sistema vigia-nos; tudo está calmo, as pessoas são felizes. Os ricos enriquecem e dão bonitas festas de beneficência. São bons porque salvam pessoas. Os pobres não se vêm, não se sentem; talvez não existam, ainda que haja festas de beneficência. E de repente…

E de repente há um ataque à bolsa, um mau emerge das profundezas da terra, do local para onde se desterravam aqueles que o sistema definia como maus (terroristas desvairados). Os ricos, especialmente o rico que nos vigia e nos protege, ficam pobres. Os maus revoltam-se contra o sistema, devolvem o poder ao povo – afinal havia pobres – e começa a revolução, perdão, a destruição. Julgamentos sumários – quase que se houve a guilhotina da Maria Antonieta – lixam o pessoal todo. Impera o caos.

Até que o senhor de negro – o rico que ficou pobre – vem para nos salvar. O zelador do sistema é o nosso salvador. Ámen.

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Não, não é uma historinha contada nos tempos da Mocidade Portuguesa aos meninos sobre as vantagens de terem um senhor num Estado Novo, que a todos protegia; nem, tão pouco, uma passagem tirada de um manual ultra neoliberal, que se deixou levar pelos impulsos da literatura de aeroporto – coisa onde qualquer neoliberal é catedrático, já que passa a vida nos ditos, entre o retalho de empresas e leituras pouco recomendáveis. É apenas o resumo, um bocado atolambado, coisa certa, do novo filme do Batman.

Sempre achei a estética deste super-herói algo fascista: aquela arquitetura gótica, de edifícios sombrios e imponentes, a esmagarem o individuo; aquele senhor de boas famílias, que se vestia de negro e pairava sobre a sociedade, fazendo justiça pela sua própria mão quando algo subvertia o sistema. Mas nunca esta interpretação fora levada tão longe como no último filme da saga Batman.

Se no Iron Man, o capitalista tomou-se de amor por Marx e resolve colocar a sua riqueza, obtida com o armamento, ao serviço do povo, desde que ele, o empresário arrependido, se entretenha a brincar com os seus brinquedos, claro, pois socialista sim, mas  parvo não; no Batman, o capitalista está ali para combater os maus que querem destruir o sistema com esse mostrengo do poder popular.

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Filme perigoso este Batman? Não. Primeiro, porque são tantas as metáforas – ou alegorias? –, que o pessoal perde-se com tantos símbolos e acaba por dar mais atenção às explosões e afins do que às subtilezas ideológicas – uau, aqueles prédios todos a virem abaixo, é de mais! Depois, porque Nolan é um bom maestro na arte de filmar e consegue dar um enquadramento com muitas saídas:

os monstros que tentam abater a sociedade ocidental são criados por essa mesma sociedade ao fazer a sua ostracização fascista – o poço, o grande viveiro da maldade (alô Guantánamo) para onde são atirados os grandes criminosos votados ao desterro, é a melhor metáfora do filme e a mais inquietante;

o sistema, afinal também está podre por dentro, pois, quando em desespero, fractura-se, deixando entregue à sua própria sorte a outra parte do mesmo sistema que está debilitada – aquela ponte barrada, que impede a saída e a entrada da cidade caótica, à espera de explodir, não deixa de ser também uma bonita metáfora sobre a nossa Europa e uma tal Alemanha.

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O engraçado é que O Cavaleiro das Trevas Renasce, estando uns furos abaixo do último Batman – uma quase obra-prima no universo dos filmes de super-heróis -, consegue ser muito mais inquietante.

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