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1 – da criada penada morta à facada – rascunho

Junho 2, 2013

Acordei morta, como se costuma dizer; ou seja, não acordei. Na boa da verdade, ainda acordei um pouquinho, pois o raio da dor ao sentir a faca a esfarrapar-me as entranhas fez com que eu viesse acima por breves instantes; mas não adiantou, o quarto estava escuro – nada vi – e a lâmina foi logo esbarrar em coisa vital, uns segundos e fui-me. Agora aqui estou, estendida na cama sem saber o que me aconteceu. É triste uma pessoa morrer e nem saber como; coisa única na vida e é-nos roubado o momento de a encontrar.

A culpa é do mordomo, pelo menos é a frase que se diz sempre. Não percebo a razão de tal dito, eu, que me fartei de ler livros policiais, nunca encontrei nenhum em que o assassino fosse o mordomo. Bom, com isto também não quero dizer que sou uma criada literata, do género: duquesa culta a passar por simples empregada para esconder um grande segredo. Não, apenas, durante um certo tempo – quando se avariou a televisão da cozinha e do meu quarto, na casa dos meus anteriores patrões, e o dinheiro já era pouco para qualquer arranjo -, assaltei a biblioteca que eles tinham e pus-me a ler os livros mais fáceis, claro, que outros havia em que se me ensarilhavam as ideias, coisa de doutores, ainda que naquela casa, ao que me constasse não havia nenhum, era mais gente de vinhas e vinhedos.

Mas voltando ao mordomo – que eu, mesmo morta, posta a enlear conversas, nunca mais me calo -, neste ponto tenho a certeza que não foi ele. Porquê? Porque, apesar de todas as vaidades da família para quem trabalho, ou melhor trabalhava, não existe mordomo algum; quer dizer, só se contar com o senhor Zé, que vem limpar a piscina, tratar do jardim, lavar os carros e ajudar-me a sacudir os tapetes, mas coitado ele é incapaz de fazer mal a uma mosca, está velho e não tinha força para me espetar a faca daquela maneira.

BLOOD KNIFE STAB

Uma coisa eu tenho a certeza: não saio daqui sem saber quem me despachou. Não sei para onde vou a seguir, nem o que me espera – chegou o momento de tirar as teimas com aquelas coisas todas do Criador, do Céu e do Inferno -, mas sem descobrir o autor de semelhante barbaridade ninguém me tira daqui; Deus pode esperar. Que na vida verdadeira, aquela que eu tinha até há bem pouco, não consigam descobrir o assassino é lá com eles, agora no meu eterno descanso – vamos lá ver se ele me é dado – não pode existir essa dúvida, seria um desassossego sem fim.

Não saio; nem que tenha que ficar por aqui, feito alma penada, como aquelas que se temiam lá na terra. Sim, porque eu, como qualquer boa criada tenho que ser da terra, não posso ser mulher da cidade, temos sempre que vir das berças com sotaque entranhado. Só que no meu caso, a terra é postiça; nasci em Massarelos, no Porto, mas fui nova para Monção, o meu pai era guarda-fiscal e foi prestar serviço em terras minhotas. Mesmo assim, eu não deixava de vir passar férias à cidade para não perder hábitos mais civilizados. O meu pai queria, quando eu fosse maior, que viesse estudar no Porto para ser doutora; mas o destino quis outra coisa, bom, e o meu pai também, pois ele bem o marcou com a decisão que tomou em me mandar a servir para uma quinta na Régua. Maldita a hora; se tiver tempo, ainda conto tudo o que se passou para ele me pôr a correr de Monção; agora só quero mesmo é saber quem foi o desgraçado, ou a desgraçada, que nestas coisas, lá por termos menos força, nunca podemos deixar as mulheres de fora, até porque se for por uma questão de motivos, elas têm sempre mais venenos para destilar.

Nem me posso ver ali estendida na cama, toda ensanguentada e, ainda por cima, descomposta; será que não há uma alma caridosa que me puxe a combinação para baixo? Uma morta, mesmo morta, é gente e merece respeito. Até o maldito polícia que está a começar a investigação, acho eu, não tira os olhos das minhas pernas; a continuar assim não vai prestar atenção nenhuma às respostas. Por exemplo, a Guidinha – uma tia encalhada, todas as grandes famílias têm uma, parece que faz parte das regras do apelido – começou por afirmar que não ouviu nada, e agora já está a dizer que só abriu a porta do quarto porque lhe pareceu escutar um gemido. Afinal, em que ficamos? Em nada, que o tal inspector – Arménio Salgado, sua graça – não tiras os olhos das minhas pernas e já despachou a Guidinha, para ela ir fazer o seu carpido fino – era como se fosse da família, vamos sentir tanto a sua falta, quem podia adivinhar um horror destes – na sala principal.

Haja paciência, e eu, como morta, tenho-a toda. Para já, não estou com pressa nenhuma; Deus pode esperar, até porque não devia ter nada preparado para me receber – não nos podemos esquecer que alguém roubou os dias que ainda me estavam destinados – e assim, sempre ganha tempo para dar umas ordens, nem que seja mandar limpar o cantinho onde a minha alma vai repousar.

Primeiro capítulo de uma novela policial narrada pela vítima, pelo criminoso e por um inspector muito especial.

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