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Pó de futuro

Dezembro 9, 2012

Chegou a casa cansado. O dia fora carrasco, torturara-o o tempo todo, só por pouco não o guilhotinou – o que, se tivesse acontecido, não seria de estranhar, não faltaram, na última semana, cabeças a rolar dentro do departamento.

A moedeira, do corpo e do pensamento, não o fez atirar para o sofá e esperar que morresse um pouco; ao contrário das outras vezes, causava-lhe ansiedade, uma certa necessidade de algo que o inflamasse.

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Ligou a televisão. Percorreu, em poucos segundos, a centena de canais que dispunha, mas não encontrou imagem que o aquietasse. Tudo lhe pareceu distante, artificial e de mau gosto; só as notícias, más como sempre, eram próximas e genuínas, mas, ainda assim, com gosto pouco apurado – no fundo, pura cópia da tortura dos seus dias.

Ainda que não o devesse fazer, sabia que, em momentos como aquele, acabaria por procurar o que não devia; era sempre assim.

Levantou-se e abriu o armário, longo e quase vazio, que tinha na sala. Procurou nas prateleiras, onde jaziam recordações artesanais de viagens passadas – os outros objectos mais valiosos, arte cerâmica e alguns cristais da Baviera, há muito que tinham desaparecido em vendas online -, vasculhou nas gavetas, mas nada, apenas encontrou papéis e pó para lhe lembrar o tempo que ele já esquecera.

Voltou à televisão; precisava desesperadamente de umas imagens que lhe aliviassem o sufoco da abstinência que começava a sentir por não encontrar o que queria. De novo, nada encontrou. Parou numa série, daquelas de época, de mulheres com saias a arrojar e chapéus a lembrarem natal fora de época, mas não conseguiu ver mais de cinco minutos; o sangue já lhe fervia e a paciência para discursos enrolados não era nenhuma.

Sem mais perda de tempo – sabia que depois de ter sentido necessidade já não controlava os impulsos -, saiu à procura daquilo que tanto o ansiava. Não seria fácil encontrar, os dealers cada vez mais rareavam, a polícia apertara o cerco e não facilitava quando os apanhava.

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Andou muito até que, perto de um centro comercial, numa esquina escondida, estava um velho homem com ar de quem vendia o que não devia – era fácil reconhecê-los, normalmente não eram novos, vestiam grandes sobretudos, para assim esconderem o produto, e apresentavam uma certa inquietude, andavam de um lado para o outro sem sentido nenhum.

Aproximou-se. Não precisou de dizer palavra, olharam-se e ambos perceberam o negócio. O velho homem abriu o sobretudo e procurou pelos bolsos. Não encontrou nada:

– Bolas! Jurava que tinha aqui o último pacote – observou ele, voltando a fechar o casacão.

Ironia? Puro azar? Alguma coisa parva havia de ser para andar tanto tempo e encontrar o único dealer do mundo que está numa esquina para vender nada. A ansiedade, que agora quase o fazia explodir, começou a torvar-lhe as ideias: só lhe apetecia estrangular o homem.

– Mas não faz mal, já vi que é de confiança. Venha comigo – disse-lhe o néscio vendedor. – Até porque se não for, eles tratam-lhe da saúde. Vamos ao sítio onde me abasteço e lá compra o que quer.

Sem questionar a sugestão – estava por tudo, não podia voltar a casa de mãos vazias -, acompanhou-o. Seguiram por umas ruas mal iluminadas e, não muito longe, foram dar a um prédio, em ruínas, que escondia, na cave, um pequeno armazém.

Quando entrou, sentiu-se criança em loja de doces. No meio de escombros – não faltaria muito para que tudo viesse abaixo –, encostadas às paredes, estavam longas prateleiras, carregadas do seu almejado produto: livros.

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Passou horas a folheá-los, a ler passagens, a cheirá-los, a sacudir-lhes o pó – o que começou a causar alguma irritação e desconfiança nos homens que guardavam o local, será que era um polícia infiltrado? -, até decidir o que levar. Escolheu três; meteu-os por debaixo da camisola e apertou o casaco.

Saiu para rua com um novo tipo de inquietação: ser apanhado pela polícia. Havia o boato que eles tinham radares que detectavam o papel. Mesmo assim, arriscou.

Chegou a casa cansado, mas bastou-lhe ler a primeira página de “O Amor nos tempos de cólera”e a energia invadiu-o; não fosse o ataque de espirros, provocado pelo pó das páginas, e teria devorado numa só noite a obra.

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One Comment leave one →
  1. Anónimo permalink
    Dezembro 12, 2012 10:09 pm

    ó meu “rapaz”… então não é que tu não sabes que ja houve uma inquisição mediatica e nem livros escaparam…?
    minda

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