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A Dureza da Água

Dezembro 6, 2012

Parou o carro em frente à ria.

Deixou os faróis ligados. Assim, pôde observar a neblina sobre a água; as suas nuvens, a deslizarem suavemente em formas abstratas, lembravam-lhe fantasmas – ou aquilo que o cinema lhe vendeu como tal -, no fundo, os mesmos espectros que o levaram a parar o carro naquele sítio ermo, àquela hora da noite.

Como que por ironia – ou como mais uma prova do reality show desvairado que os deuses resolveram inventar -, o rádio do carro devolvia-lhe uma canção sobre a felicidade de viver. Tentou não prestar atenção; não ia ser uma balada dopada de optimismo a estragar-lhe os planos.

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Apalpou o bolso; sentiu a embalagem de comprimidos. Ali estava, bem guardado, o passaporte para passar a última fronteira. Sentiu-se um pequeno deus ao ter na sua mão o momento de definir a viagem que diziam derradeira; não fazia ideia se seria ou não, mas também não era altura para reflexões etéreas.

Abriu a porta do carro; saiu. Precisava de fazer um reconhecimento do terreno. Depois de tomar a embalagem completa dos ansiolíticos não teria muito tempo para entrar dentro de água e afundar-se num sono profundo. Não queria ficar por ali, caído no restolho e acabar numa urgência de hospital a fazerem-lhe uma lavagem ao estômago.

Voltou ao carro, desligou o rádio – não estava a gostar da banda sonora para o momento -, pegou nos comprimidos e preparou-se para os tomar. Procurou a água para os engolir, sempre teve dificuldade em ingerir a seco.

– Raios! Não trouxe água – resmungou, ao não encontrar no assento a garrafa que, cuidadosamente, preparara em casa.

E agora, como engolir dozes pastilhas sem líquido? Tanto mais que eram amargas como os dias que lhe enchiam a vida.

Olhou a ria e viu uma imensidão de água; não lhe faltava o elemento propulsor.

Mas não; por amor de deus, beber aquela coisa imunda nunca. Só o cheiro o estava a enjoar – haveria fábricas ali por perto, não tinha dúvidas. Se ousasse tomar um simples trago, por certo, ficaria com o estômago cheio de bactérias esquisitas, daquelas que são capazes de provocar mutações irreversíveis.

Sem grandes hesitações, pôs o carro em funcionamento e partiu.

Talvez o recuo repentino não fizesse sentido; mas, raios, o início do seu fim não podia ser tão pútrido.

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Dezembro 6, 2012 9:13 pm

    Pior que o mistério do ovo e da galinha… é coragem ou cobardia? Mas está bem visto e é mais comum do que parece, também já me esqueci da água, mais que uma vez. 🙂

  2. Dezembro 6, 2012 11:12 pm

    Mais um ataque de Natalite?

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