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Sombras do Medo – The End is Near

Dezembro 20, 2012

Em tempo de GPS, os nossos verdadeiros caminhos ainda se definem e se cruzam por desígnios pouco electrónicos. Como folhas de papel, os seus traços desenham-se grosseiramente com a tinta das marés – lá vem metáfora parva – que agitam os nossos dias.

Nessa confluência de trilhos em que acabamos por desembocar, por vezes, perguntamo-nos porque razão a nossa estrada nos trouxe para ali, para aqui, porque nos juntou a uns e a outros para viver uma situação que em nada estava programada?

Com base nesse mapa traçado por um acaso, em que várias personagens se cruzam para misturar os seus próprios caminhos e enfrentar os seus próprios medos, baseei este delírio em forma de TIFAMI (Trailer Imaginário de Filme Ainda Mais Imaginário).

Sombras do Medo

 

 Amélia

Sem olhos doces, vive fechada no seu mundo e nos seus 70 anos. Não conseguindo distinguir já muito bem a realidade do que espreita na sua janela televisiva, acredita que o mundo vai acabar dentro em breve, por ter visto isso num filme. Assim, abastece-se de compras e fecha-se numa parte do velho casarão que habita sozinha, à espera do Apocalipse. No entanto, uma companhia muito especial e confusa vai interromper a sua solidão.  

Cena 1: Supermercado. Interior. Dia.

Plano geral de um pequeno supermercado. Amélia está junto à caixa registadora a colocar produtos no tapete. Coloca quantidades enormes de pacotes de batatas fritas, chocolates e bolachas. Empregada olha atentamente a pilha de produtos.

Empregada: Dona Amélia tem a certeza que quer levar isto tudo? Vai acabar o prazo antes que consiga comer tudo.

Amélia: Pois vai, o prazo e o mundo. Não passa desta semana e termina tudo.

Empregada: Lá está a senhora com isso.

Amélia: É verdade. Ontem à noite voltaram a anunciar. Vai cair um “esteroide” ou lá que é e vai destruir quase tudo. Vai se terrível.

Empregada: Terrível vai ser para o seu estômago a comer estas porcarias todas.

Amélia: Ó filha, a dizeres tão bem dos produtos que vendes não vai longe. O teu patrão que não se ponha a pau que ainda lhe dás cabo do negócio. Só não dás porque tudo isto vai estourar.

Cena 2: Sala de Amélia. Interior. Anoitecer.

Amélia fecha todas as janelas. Coloca Oreos, batatas-fritas e chocolates no prato do gato. O gato olha para o prato e vai para debaixo do sofá.

Amélia: Arma-te em esquisito, arma! Agarro em ti e ponho-te lá fora, levas com o meteorito na cabeça começas logo a gostar do manjar.

Ouve-se um barulho forte. Ouvem-se gritos. A casa treme.

Amélia: Pronto, chegou (ajoelha-se).

Plano picado de Amélia de joelhos no meio da sala.

 

Gustavo de Almeida

Cirurgião Plástico.  Considera o corpo a obra de arte suprema. Vive fascinado com os corpos que modificou, considerando-se um seu verdadeiro criador, como se fosse uma extensão de Deus. Numa velha mansão faz réplicas das suas obras. Amélia, que habita por cima, pensa que são corpos verdadeiros que se armazenam lá e que isso também é um sinal do fim do mundo.

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Alexandre

Jornalista especialista em famosos. Tem uma coluna num jornal, a célebre coluna da direita de Alex, onde faz o ranking dos famosos. Com uma fórmula desconhecida, onde mistura critérios diversos como eventos, roupas, obras realizadas, atribui pontos; todos lutam para figurarem na coluna. Alexandre, como fabricante de famosos, está agora interessado em promover Gustavo, pois espera poder obter uma operação de borla. Marcou com ele uma entrevista no velho casarão.

Cena 3: Salão do Casarão de Gustavo. Interior. Final de tarde

Alexandre entra na sala. Grande plano do olhar de Alexandre. Panorâmica da sala. Diversos corpos e parte de corpos estão expostos pela sala.

Alexandre: Isto parece o Madame Tussauds.

Gustavo: A técnica é a mesma. Refaço os corpos com o antes e o depois. (acaricia algumas das peças)

Alexandre: Mas porque faz isto? Dá imenso trabalho. Não era mais fácil fotografar?

Gustavo: (acaricia uma réplica de uns seios) Não é a mesma coisa. Só assim posso voltar a ter uma parte da minha criação. Deus fez uma parte, eu faço a outra.

Alexandre: Acha-se um pouco como ele?

Gustavo: (continua a acariciar, parece tirar um prazer erótico) Melhor. Ele criou uma obra incompleta, deficiente, eu tornei-a perfeita… (mostra uns seios flácidos) Está a ver isto? Isto era uma mulher infeliz. (apresenta outros seios, com um bom volume e rijos, que fazem farte de um manequim completo) Esta é a mulher feliz.

Alexandre: Mas essa parece a Vivi.

Gustavo: Ops, já fui descoberto.

Alexandre: Esta não vou perder (prepara-se para fotografar o modelo com o telemóvel).

Gustavo: Não! (grita) Nunca, não volte a fazer isso. Ninguém retrata as minhas divas.

Alexandre: Só ia fazer uma chamada.

Gustavo: Ia?! Aqui não adianta, nesta casa não há rede. Nunca percebi que estranho fenómeno se passa por estas bandas, mas não há nenhuma rede de telemóvel que funcione. Por isso resolvi montar aqui o meu Olimpo, ninguém me incomoda.

Ouve um barulho forte. Alexandre fica assustado.

Gustavo: Não se assuste, deve ser a D. Amélia a correr atrás de um gato. É uma velha criada dos meus pais que eu deixei ficar a viver num piso de cima.

O barulho intensifica-se. Ouvem-se gritos. O barulho aproxima-se. Ecrã negro.

 

Vivi

Dama da Sociedade, não se lhe conhece profissão a não ser participar em eventos.  O seu sonho é entrar na coluna de Alex. Pensou que com a operação que fez aos seios já tinha conseguido. Organizou uma grade festa em nome de uma associação de crianças deficientes, para mostrar a nova grande obra do seu corpo. Mas não foi suficiente, não alcançou pontos suficientes. Agora tenta levar a cabo um desfile de moda a favor dos sem-abrigo. Acha que desta vez vai capitalizar os elementos necessários para figurar na dita coluna.

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Mimi

Filha de Vivi, ex-estudante de Jornalismo, ex-estudante de psicologia, ex-voluntária, tem agora uma única obsessão:  fazer uma plástica para conseguir um nariz e um queixo diferente para entrar no mundo da televisão.

Cena 4: Festa de Vivi- Jardim. Exterior. Noite

Panorâmica da festa. Vivi conversa com um convidado.

Convidado: Está estupenda Vivi. Os anos por si são ao contrário, só lhe dão juventude.

Vivi: Simpatia sua, António. (Mimi acena-lhe) Peço desculpa a pequenota chama-me. (Vivi afasta-se)

Convidada: (para o outro convidado depois de Vivi se afastar) Juventude! Não fosse o bisturi do Dr. Gustavo de Almeida, eu queria ver. Onde já se viu uma senhora na idade dela com umas maminhas assim? Devem pensar que viemos lá da serra.

 Convidado: Antónia, a menina por vezes fica tão povo, agora parecia uma porteira.

Convidada: É! As outras é que andam a pavonear o corpo emprestado e eu é que sou porteira. Olhe, António, arranje-me mais champanhe que estou a ficar possessa.

Vivi chega junto de Mimi.

Vivi: Mimi, veja se não me monopoliza, sabe que a mãe tem que dar muita atenção, está muita coisa em jogo.

Mimi: Mamã, já viu o Dr. Gustavo?

Vivi: Não.

Mimi: Será que ele vem, mamã?

Vivi: Sabe como são os médicos, têm sempre coisas de última hora. Fique tranquila que o mundo não acaba hoje.

Mimi: Mas mamã, eu preciso tanto de falar com ele. Sabe como essa operação é importante para mim, só mudando o nariz é que serei alguém. E os médicos cá em Portugal não gostam de fazer operações a pessoas muitos jovens. Quem me dera estar no Brasil.

Vivi: Acha que eu tenho cabeça para pensar nisso? A minha coluna está em jogo, nunca mais consigo as estrelas necessárias. Ninguém merece estar lá tanto quanto eu. A menina está com muita ansiedade, vá tomar um calmante.

Mimi: Acho que vou chorar se ele não vier!

Vivi: Quer levar um estalo? Olhe, vamos fazer o seguinte, se ele não vier, vamos nós ter com ele. 

Mimi: Mas no consultório nunca mais vai chegar à minha vez.

Vivi: Por isso mesmo. Eu sei que ele todos os fins de tarde vai a uma velha casa em Sintra, nós vamos lá ter e fazemos uma surpresa. Ele, quando me vir a mim, não vai dizer que não, está tão orgulhoso da sua obra… Ó Mimi, trate-me de pintar esse cabelo. Como quer que as pessoas me vejam como loura se a menina começar a virar morena?

Cena 5: Jardim da Mansão. Exterior. Anoitecer

O carro de Vivi entra no jardim. Vivi e Mimi saem do carro e dirigem-se à casa.

Mimi: Mamã, a casa é assustadora!

Vivi: Tenha calma Mimi, que o pior é lá dentro, parece o laboratório de Frankenstein.

Mimi: A mamã já cá veio?

Vivi: Como pensa a menina que consegui a operação? Acha que foi por uma consulta simples, faz ideia do que custam as mãos daquele homem?… Aviso-a de uma coisa, se ele se mostrar um pouco atrevido não se faça de pudica. Deixe-o seguir, ele só quer mexer na sua obra antes de a esculpir.

Ouve-se um barulho enorme. Vivi e Mimi gritam. Correm para a casa. Ecrã negro.

 

Adelina

Emergente da Sociedade, gosta que a tratem por Deli. Casou em segundas núpcias com Dr. Gustavo. Tentou a todo o custo ser aceite na alta sociedade, mas apenas foi tolerada por estar casada com um homem bastante importante, afinal uma manicure ainda não tem o pedigree suficiente para entrar pela porta principal do glamour social. Percebendo que o casamento estava por um fio e que, face à cláusula de um contrato, o divórcio a ia deixar sem grandes recursos, procurou uma solução mais drástica.

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Pibe

Rapaz sem profissão, cujo caminho, que cedo começou a traçar, não tinha cruzamento com o lado legal da vida. Furtos, agressões, burlas, tudo palavras que o seu vocabulário e o seu cadastro bem conheciam. Cansado de uma marginalidade menor resolveu fazer um up grade na sua vida. Tornou-se um criminoso a soldo. Por intermédio do amante de Adelina, esta contratou-o para matar o marido.

Cena 6: Esplanada. Exterior. Dia

Grande plano de um cheque. Adelina assina-o. Pibe e Adelina estão sentados numa mesa de uma esplanada.

Pibe: Mas o que está a fazer? Vai assinar um cheque?

Adelina: Não quer assim? Pensei que não queria andar com o dinheiro por aí.

Pibe: Eu não acredito nisto, ainda me vou passar. A dona manda-me despachar o seu querido e quer pagar-me com um cheque?

Adelina: Fale mais baixo que ainda nos podem ouvir.

Pibe: Pelo menos a burrice não a deixou surda.

Adelina: Quem pensa que é para me tratar assim?

Pibe: Sou o ca.brão que vai limpar o sebo ao seu marido e que a dona contratou, por isso não me venha com mer.das.

Adelina: É melhor esquecermos tudo (tenta-se levantar mas Pibe agarra na mão).

Pibe: Onde pensa que vai? Sente-se! (Adelina volta a sentar-se). Vamos esclarecer uma coisa, este negócio não tem volta atrás. Mesmo que não faça o serviço, quero a massa. Ou quero que eu vá chibar tudo á móina?

Adelina: Vamos acalmar-nos, eu estou muito nervosa. Eu vou já levantar o dinheiro e entregá-lo.

Pibe: Ok, assim é que é bonitinho. O doutor vai lá estar?

Adelina: Sim, ele vai lá estar, não falta uma tarde. Eu depois apareço depois das sete para dar o alarme.

Pibe: Não, só vai quando eu lhe der sinal.

Adelina: Mas a maldita casa não tem rede.

Pibe: Apareça então quando quiser, se tiver que fazer o serviço à sua frente, faço. Tem mesmo a certeza que não está ninguém por lá?

Adelina: Tenho. Ele vai sempre só. Vive lá uma velha senhora, mas está fechada no piso de cima e já está choné. Se calhar até dá jeito para depois ser minha testemunha.

 

Salvador

Cansado de uma vida fausta, já tinha viajado o mundo e experimentado todas as sensações, Salvador procura agora novas emoções que o retirem do tédio da sua vivência abastada, onde tudo está sempre resolvido pela passagem eterna de muitos cartões de crédito dourados.

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Cena 7: Festa Vivi – Sala. Interior. Noite

Francisco e Nuno estão sentados num sofá com copos na mão. Salvador está de pé em frente a eles.

Salvador: Deixem-se disso, essa adrenalina é para bebés. É preciso coisas fortes, para speedar altamente.

Nuno: O que vais fazer, matar alguém para sentires uma adrenalina forte?

Salvador: Exactamente. (olha para a sala, que está vazia, ouve-se barulho no jardim)

Salvador tira uma pistola do bolso e encosta-a à cabeça de Francisco.

Salvador: Então?! Está carregada.

Nuno: O que estás a fazer?

Francisco: Pára, Salvador, por favor!

Nuno: Passaste-te?

Salvador: Nuno, disparo?

Nuno: Salvador, com isso não se brinca.

O suor escorre pela cara de Francisco, Nuno está estático com um olhar incrédulo, Salvador olha directamente para Franscisco e guarda a pistola. Começa a rir-se. Francisco levanta-se e agarra Salvador. Nuno tenta separá-los.

Salvador: Calma, era só uma brincadeira.

Francisco: Vai-te foder com a brincadeira.

Acalmam-se.

Salvador: O que eu queria mostrar é como podemos encontrar uma adrenalina verdadeiramente nova, a da morte.

Nuno: Mas vamos sair por aí a matar pessoas? Por amor de Deus, poupa-me!

Salvador: Não. Mas podemos sentir essa mesma adrenalina no olhar. Tu viste o olhar do Francisco? Nunca olhou assim, sentir que o fim podia estar próximo. Vamos fazer uns assaltos e curtir esse olhar nas pessoas. Sentir o quase cheiro da morte nas nossas veias.

Francisco: Isso não faz, andar a assustar as pessoas.

Salvador: Não sejas puritano, todos os dias assustamos pessoas. O pessoal que despediste na empresa do teu pai de um dia para o outro, o que lhe fizeste? Não lhe provocaste um susto de morte? Que tipo de olhar eles levavam quando saíram? Ao menos, o que eu proponho é uma brincadeira e no fim podemos soltar umas notas, dar uma chuva de dinheiro às vitimas. Vão ver que eles trocam logo o medo pelo cash.

Vivi: (entra na sala) O que é o que meninos estão a tramar?

Cena 8: Rua. Exterior. Noite

Francisco, Nuno e Salvador, mascarados, estão à volta de um sujeito. Salvador tem a pistola encostada à cabeça da pessoa

Salvador: Passa para cá a carteira!

Assaltado: Eu não tenho dinheiro nenhum, só vim passear um pouco.

Salvador: Ai, ai! Passa para cá a carteira ou levas já um tiro nos miolos.

Assaltado: Pronto, pronto!

O sujeito tira uma carteira e entrega-a a Salvador. Este atira-a para o chão.

Salvador: Não quero isso. Eu quero isto (e aponta a pistola ao centro da testa do assaltado, dispara, ouve-se um click sem disparo). Para já tiveste sorte.

O sujeito treme todo. Salvador estica a mão e Nuno passa-lhe um conjunto de notas. Salvador despeja-a na cabeça do assaltado.

Salvador: O teu prémio, rapaz.

Os 3 fogem. O Assaltado fica só caído no chão, coberto com algumas notas.

Cena 9: Rua. Exterior. Dia

Pibe caminha na rua para o seu carro. Quando se prepara para entrar sente algo. Vira-se. Tem uma pistola apontada à cabeça.

Salvador: Passa para cá a carteira!

Pibe: Ó meu, sabes o que estás a fazer?

Nuno e Francisco aproximam-se.

Salvador: Deixa-te de conversas ou vais fazer companhia aos anjinhos.

Pibe: Eu perguntei, não perguntei?

Antes que Salvador possa reagir, já tem também uma pistola apontada á cabeça. Os dois olham-se mutuamente, cada um com uma pistola apontada.

Pibe: Agora, se eu for não vou só. Queres arriscar, tens tomate para isso?

Salvador: (gagueja) Ó pá, já que estamos em igualdade de circunstância, vamos ficar pelo empate.

Pibe: Empate? Nunca! Nesta vida é ganhar ou perder. Temo, meu menino, é que o teu jogo já acabou. Nem balas deves ter nessa porra. Vamos experimentar, disparamos ao mesmo tempo.

Salvador: (baixa a arma) Pronto, levas a melhor. Isto era só uma brincadeira.

Pibe: Já sou muito crescidinho para brincar. Gosto mesmo é de uma tusa a sério.

Pibe empura Salvador contra o carro.

Salvador: (grita) Fujam!

Nuno e Francisco fogem.

Pibe: Agora vamos brincar nós, nem imaginas quanto. Entra aí!

Salvador entra na bagageira.

Cena 10: Jardim da Mansão. Exterior. Anoitecer

O carro de Pibe aproxima-se da casa. Pára antes do portão. Pibe entra no jardim e caminha para a casa.

Cena 11: Bagageira. Interior. Anoitecer

Salvador dentro da bagageira tenta sair. Ouve-se um barulho forte. Salvador dá voltas e voltas dentro da bagageira.

Cena 12: Jardim da Mansão. Exterior. Anoitecer

Salvador sai da bagageira do carro, que está virado ao contrário já dentro do jardim da casa. Salvador meio atónito tenta colocar-se pé. Olha aterrorizado à sua volta. Corre para o interior da casa.

Cena 13: Jardim da Mansão. Exterior. Anoitecer

O carro de Adelina pára junto ao portão da casa. Ela sai, repara no carro de Pibe parado um pouco mais à frente. Sobe as escadas que vai dar á porta de Amélia.

Adelina: Boa tarde Dona Amélia, por acaso viu o Dr. Gustavo?

Amélia: Não vi.

Adelina: Ficamos de nos encontrar aqui, mas eu bato á porta e ele não responde. Ainda tem a chave?

Amélia: Tenho aquela da porta que liga por dentro. Entre.

Cena 14: Corredor da Mansão. Interior. Anoitecer

Adelina e Amélia caminham pelo corredor que liga à parte debaixo da casa.

Amélia: Temos que nos despachar. Vai ser hoje, a grande tragédia. Tudo vai acabar.

Ouve-se um grande estrondo a casa treme. Adelina grita e corre pela casa. Abre a porta da sala, quando o marido, ainda vivo, lhe aparece por trás, ela grita ainda mais.

 

Mafalda

Os seus dias estão muito azedos. Acha sempre que tudo lhe corre mal. Depois do divórcio, em que ela apanhou o marido com uma adolescente na sua própria cama, nunca mais conseguiu um equilíbrio com o mundo. Vive em rota de colisão com todas as pessoas, especialmente com o seu filho Ricardo. Em vésperas de uma viagem profissional vai levar o seu filho para a casa dos avós.

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Ricardo

Filho de país divorciados, tenta tirar partido dessa situação criando imensos problemas à sua volta para chamar a sua atenção. Como compensação tem um mundo material a seus pés.

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Cena 15: Parque. Exterior. Dia

Mafalda conduz o carro. Ricardo segue no banco de trás, a jogar com a PSP

Mafalda: Podes tirar o som a essa coisa? Já não suporto tantos pis pis.

Ricardo: Tu nunca suportas nada. Se é o computador é porque é o computador, se é a televisão é porque é a televisão, o mundo para ti tinha que ser todo mudo.

Mafalda: Se tivesses tanta astúcia nos estudos como tens para dares respostas parvas, não tínhamos os problemas que temos.

Ricardo: Já cá faltava a escola! Se tu tivesses mais calma éramos todos mais felizes.

Mafalda: Ricardo, não me dês respostas tortas que eu paro o carro e dou-te um par de estalos.

Ricardo: (baixinho) O namorado dá-lhes com os pés e eu é que aguento.

Mafalda: O que disseste? Sabes que detesto que fales para dentro. Nunca mais este miúdo tem maneiras. Mas que mal fiz eu a Deus para ter este calvário? (ouve-se um ruído no carro) Oh, não! Era só o que me faltava, um furo.

Ricardo: Pelos vistos fizeste muito, pois o calvário está a aumentar.

Cena 16: Parque. Exterior. Dia

Mafalda entra por um portão dos fundos da casa de Gustavo.

Ricardo: Ó mãe, tens a certeza que não era melhor tentarmos mudar o pneu ou chamar alguém? Esta casa parece assombrada.

Mafalda: Andas a ver muitos filmes, é o que é. Bom, se não ajudarem pelo menos podemos telefonar.

Ricardo: A não ser que eles também tenham as baterias descarregadas como alguém que eu conheço.

Ouve-se um grande estrondo.

Mafalda: Meu Deus, o que terá sido?

Mafalda e Ricardo contornam a casa para ver o que se passa. Ricardo vai frente; de repente, começa a correr.

Ricardo: (grita) Foge mãe, foge!

Mafalda agarra no braço de Ricardo, bate num porta furiosamente, a porta abre-se e eles atiram-se para dentro da casa.

 

Henrique

Camionista, vive uma vida de constante mutação. Cidades e mais cidades são o seu território, quase família. A família, essa cada vez mais longe, não pela separação dos quilómetros, mas porque cada vez mais a voz de cada um se ouve menos. Sabe que mais dia menos dias ouvirá, está tudo acabado.

Resta-lhe uma grande paixão, a Ópera. Quando para o camião nas grandes cidades, não procura a folia nem o descanso, como a maioria dos seus colegas, mas sim os grandes espectáculos que pudessem estar em cartaz. Desta vez, o levantar uma carga estava a complicar-lhe um espectáculo no S. Carlos.

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Cena 17: Parque. Exterior. Dia

Henrique pega nuns papéis que o cliente lhe entrega.

Cliente: Tenha muito cuidado com a carga, olhe que é mesmo muito perigoso conduzir isso. Mas também não vá muito devagar, tem que fazer a entrega ainda antes do fim da tarde, senão já não está ninguém para a receber.

Henrique: Pode ficar descansado, já estou habituado. Também não me posso demorar muito porque tenho que estar às 9.30 no S. Carlos.

Cliente: S. Carlos?

Henrique: Sim, vou ver o Rigoletto outra vez.

Cliente: Nunca imaginava que o meu amigo fosse a uma ópera.

Henrique: Porquê, por ser camionista? Acha que tenho que gostar de Quim Barreiros?

Henrique olha o camião e sobe.

Cena 18: Estrada. Exterior. Dia

Henrique conduz. Ouve o Tannhauser de Wagner. Relembra (flashback) algumas palavras da sua mulher em discussão. Sobe o volume do som da ópera. Algo não perceptível atravessa-se de repente no seu caminho. Ele trava. Fundo negro. Ouve-se um estrondo.

Cena 19: Mansão. Interior. Noite (montagem de várias cenas)

Plano picado sobre o salão. Todos tentam desesperadamente comunicar com os telemóveis.

Gustavo: (ri-se) Não adianta, estamos só com o mundo!

Adelina: Deves ter sido tu que montaste aqui alguma coisa para não haver rede.

Alexandre: Tenham calma que alguém vai vir nos procurar.

Ricardo: Sim, mas primeiro vão ter que morrer alguns quantos. É sempre assim nos filmes. A minha sorte é que as crianças safam-se sempre.

Mimi: (grita, toda ensaguentada) Mamã, mamã, acho que tenho o nariz partido!

Gustavo: (aproxima-se da cara de Mimi e sussurra) Isso não é nada! Imagine o que seria se fosse a minha faca a deslizar suavemente por aí (lambe um pouco do sangue da cara de Mimi).

Mimi: Mamã, começo a pensar que estou bem assim. Não sei se a operação é uma boa ideia.

Vivi: Alex, com este pesadelo todo acho que já mereço estar na sua coluna, bem no topo. Quem dos seus eleitos já passou por uma experiência assim?

Alexandre: Não sei Vivi, não sei. Olhe que quem provou os seus canapés na sua última festa não sei se não teve uma experiência de maior risco.

Pibe aparece e dispara sobre um manequim, aquele que representa a Vivi. A cabeça solta-se e rola no chão.

Mimi: Mamã, mamã!

Pibe: Vamos lá por ordem nisto, parece um galinheiro.

Ricardo: Eu diria que parece mais uma tourada.

Pibe: Não te armes em engraçadinho, senão és o primeiro a fazer companhia à boneca que perdeu a cabeça por me ver.

Mafalda: Se gastasse os tiros naquilo que está lá fora, talvez fosse melhor e não se perdia tempo.

Pibe: E que tal perdemos um pouco de tempo, só nós dois?

Gustavo: Mas de onde apareceu esta criatura agora? Será que hoje despejaram o circo em minha casa?

Pibe: Pergunte à sua mulherzinha e vai ver quem é o palhaço principal?

Salvador: Temos que fazer algumas coisas, não podemos ficar fechados aqui. Há que enfrentar as feras.

Pibe: Concordo, ó palhaço!

Pibe agarra em Salvador e antes que ela possa reagir atira-o pela janela.

Pibe: Estão a olhar para quê? Nunca ouviram que é necessário um sacrifício para acalmar a besta?!

Mafalda: (olhando para Mimi, com a cara ensanguentada) Engraçado, acho que a conheço de algum lugar.

Mimi: (mexendo na cara e espalhando mais o sangue) Não creio, deve ser das revistas.

Vivi: (olhando o molde do seu peito antes da operação) Quando sair daqui vou organizar o maior evento do mundo, a festa dos mártires.

Amélia: (grita) Mas acha que vai sair? Estamos condenados, eternamente condenados. Porque é que todos os caminhos os conduziram até aqui, hoje precisamente no momento da tragédia? Porque há um ponto para o qual estávamos todos destinados, o ponto final.

ESTRADAS DE

PAPEL

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Cena 20: Mansão. Interior. Noite (montagem das cenas de correria)

Gustavo corre atrás de Adelina com um bisturi na mão, depois de saber que ela encomendou a sua morte. Mafalda corre atrás de Mimi, quando finalmente descobre quem ela é. Vivi corre atrás de Alexandre com a prótese dos seus seios novos para que este valorize a sua acção. Ricardo e Amélia estão sentados a contemplar toda a histeria. 

Ricardo: Adultos! É por estas e por outras que eu compreendo bué o Peter Pan.

Porque todos os caminhos paralelos se encontram um dia

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Cena 21: Corredor da Mansão. Interior. Noite

Mafalda e Alexandre correm. São perseguidos por algo que provoca um barulho enorme com os seus passos. Caem. Ecrã negrão.

Cena 22: Abrigo. Interior. Noite

Salvador e Henrique estão abrigados num local apertado. Ambos estão ensanguentados.

Salvador: Acho que começo a curtir de novo umas ondas no Hawai. Isto do fim do mundo não é a minha praia.

Algo sopra ao lado deles. Ecrã negro.

O MEDO é apenas uma SOMBRA das nossas VERDADES

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SOMBRAS

do

MEDO

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    Uma pessegada que escrevi em 2009, nem sei bem porquê.

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