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Verbos com tempos enleados

Novembro 1, 2012

O que eu gostava mesmo era de foder.

Só por milagre ninguém deu entrada num hospital. Ainda que alguns pedaços de scones ficassem entalados na garganta quando ouviram semelhante frase, as velhas senhoras lá conseguiram empurrar o engasganço com uns goles mais forte do chá de cidreira. Não faltou, porém, quem derramasse um pouco da água quente tingida pelo aroma de umas folhas secas; pois, como é que podiam imaginar que Elvira soltaria uma frase daquelas em plena Versailles.

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Só podia estar a ficar esclerosada e a perder o tino com o que dizia. Felizmente que uma família brasileira, entre fotografias e conjugações na primeira pessoa do pretérito perfeito do verbo amar, invadia o som do ambiente; caso contrário, todos os presentes teriam ouvido semelhante despautério.

– Quando eu era nova ninguém me segurava – retomou Elvira. – O meu António não tinha descanso.

O que teria dado à mulher? Assumir, assim, intimidades à frente de todos, especialmente numa idade em que as lembranças de qualquer comportamento mais libidinoso estão sepultadas há muito, numa espécie de antecipação de todos os enterros que começavam a fazer a cada dia. Ainda se fosse um homem teria algum perdão, já se sabe que eles apenas amam quando o sexo é bom, mas uma senhora não lembrava o diabo, especialmente proferir aquele verbo de 5 letras que se espetam no ouvido como facas afiadas de pouca vergonha.

Bastaram 5 minutos para que todas tivessem saído. Não faltaram compromissos urgentes: netos para ir buscar à natação, ao ballet e ao karaté; parente para visitar, a doença não lhe dava descanso; medicamentos para tomar , só em casa, sentada no sofá, faziam efeito; e até criadas para lhes dar ordens – se ficam por contra própria, não fazem nenhum.

Apenas Elvira ficou a saborear o último scone e a acabar o chá; sabia que a tempestade da saída das suas amigas fora apenas um pretexto para que ela não se estendesse ainda mais na conversa – não faltaria muito, e poderia acabar a dar detalhes bem sórdidos sobre as suas aventuras de alcova, com palavras que nem o despudor dos tempos lhes ensinara.

Ao chegar a casa, Elvira viu António a arrumar a biblioteca; como sempre, tirava os livros todos e colocava-os ordenadamente nas estantes, por género e por autor, ficando tudo tal como estava antes da arrumação. Era sinal que estava nervoso. Elvira não estranhou.

– Então, quando é o raio da festa? – perguntou ele, sem desviar o olhar da pequena pilha de policiais da Agatha Christie, que ajeitava para que coubessem, direitinhos, na primeira fila da estante.

– Que festa? – Elvira fingiu não saber o assunto.

– Estás a ficar senil? A da tua amiga Gracinda e do chato do marido que tem a mania que é general, ainda que só tivesse chegado a tenente-coronel. Só de pensar em aturar aquela gente fico nervoso. Já não tenho idade para isso.

– Não te preocupes, não vai haver festa, nem essa nem a da Lurdinhas. Por uns tempos vamos ter descanso, ninguém nos vai chatear. Garanto.

António largou os livros e aproximou-se de Elvira. Pegou-lhe nas mãos e sorriu-lhe com o olhar.

– Que boa notícia, Elvira. Ficamos com o tempo só para nós.

– Anda, vamos fazer uma sesta.

– Agora, quase na hora de jantar?

– Um aconchego do corpo conforta, depois, melhor a comida.

Elvira deu-lhe a mão e levou António para o quarto. Mais do que o beijo de boa noite, era o ainda darem a mão que a fazia sentir o amor vivo.

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Bruno abriu a porta, chamou pela avó, mas não obteve resposta; tão pouco ela estava sentada no velho sofá a assistir à telenovela do fim de tarde, como era seu costume. Viu que os livros da estante estavam espalhados, mais uma vez. Atirou a mochila para o chão e procurou a avó na cozinha. Ela quase que não entrava nesse espaço – especialmente, depois de ter ateado fogo ao aquecer o fervedor com leite -, mas sempre podia estar lá a arrumar uns armários, a tirar e a voltar pôr enlatados fora de prazo.

– Vó, porque não respondes? – interpelou Bruno, depois de abrir a porta do quarto. – E que fazes aí deitada?

– Nada, apenas descansava um bocado; cheguei há pouco da rua.

– Anda, levanta-te, trouxe-te o jantar que a mãe fez.

– Eu não tenho fome, querido.

– Tens, tens que ter. Se não te trazemos nada, levas a vida só a comer doces das pastelarias e nada mais. Anda!

Elvira levantou-se e foi ter com o neto à sala, onde ele arrumava os livros espalhados na mesa.

– Vó, não estejas sempre a tirar os livros da estante. Eu sei que o avô é que tinha essa mania de estar sempre a arrumar os livros, mas tu agora não tens que o imitar em tudo.

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Elvira sentou-se à mesa; sabia que o neto lhe colocaria ali a merenda que trouxera para que ela comesse; fazia isso todas as noites. Enquanto ele não acabou a arrumação, colocou a fotografia do marido, o seu António, ao seu lado, para que ambos jantassem juntos, como sempre o fizeram durante 52 anos.

– Vó, não te agarres muito às lembranças – retomou o neto, quando lhe colocou uma pequena toalha de linho na mesa, à sua frente. – Eu sei que dói, mas tens que seguir a tua vida, viver o melhor possível. Felizmente que tens as tuas amigas que te convidam todos os dias e te tiram de casa, o que nos descansa muito.

Elvira sorriu, sabia que durante os próximos dias voltaria a ter todo o tempo só para o seu António. Aquelas paredes eram amigas e conseguiam trazê-lo sempre.

– Sabes, o que eu gostava mesmo era de comer.

Escrito há algum tempo, andou perdido até hoje.

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2 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Novembro 1, 2012 7:15 pm

    As coisas que andam por aí perdidas, um dó de alma, neste caso literalmente. Diferente da maioria dos outros, realista , triste e reconfortante ao mesmo tempo.
    Maria

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