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50

Março 18, 2013

50 caixas.

50 caixas todas diferentes, coloridas, com padrões diversos a fazerem lembrar cortinados rústicos do antigamente, tempos em que a pobreza gostava de se ornamentar à janela.

Olhei para elas e fiquei com medo de começar. Não era fácil a tarefa; não sabia se o que desejava guardar caberia ali, em tão pouco espaço. É certo que muito do que pretendia encaixotar fora previamente esfacelado ou tolhido com o tempo; mais apertão, menos apertão, talvez conseguisse enfiá-los a todos, um a um.

Abri as portas de meia dúzia de armários – seria bonito também serem 50, mas não, casarão para albergar tamanho escaparate é coisa de folhetim ou de gente nobre, o que, bem vistas as coisas, é quase o mesmo, já que a realidade, em ambos os casos, mora longe – onde estavam guardados. Ali estavam eles, amontoados, alguns com bastante pó, à espera que lhes desse destino.

Sem grandes cogitações – o pensamento desamarra, por vezes, o coração e este embaralha-nos as ideias, amolecendo as vontades – peguei, um a um, e coloquei-os nas 50 caixas, sem nenhum critério; atendendo a razão da empreitada, qualquer uma servia. Que interesse teriam os tons azuis esmeralda ou uns quadrados coloridos à Mondrian para despachar aquilo que me atormentara durante toda uma vida?

Depois de encaixotados, desci os 50 degraus – poderiam ser 49 ou 51, talvez até 63, mas imaginei, que naquele dia seriam 50, dimensionando, assim, a escada ao tamanho da minha ilusão – e coloquei as primeiras caixas na carrinha que alugara previamente. Engraçado, a matrícula da viatura era 50-CQ-50; o destino também brincava comigo; ou então, a minha alucinação era completa. Subi e desci as escadas várias vezes até ter todas as caixas na carrinha; se tivesse utilizado o elevador, por certo, acabaria a tarefa menos cansado, mas, enfim, precisava de alguma expiação para abafar o nó que me consumia.

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Com o carregamento feito, fiz-me à estrada. Percorri 50 Kms – desta vez não precisei de imaginar ou arredondar, o conta-quilómetros não me deixava mentir – e parei; estava num local deserto, junto ao mar, numa falésia. Levei as mãos à cabeça, afaguei o pouco cabelo que ainda tinha e escutei uma canção um pouco deprimente – pudera, fora eu que a colocara no leitor de CD – de um outro tempo. Morrer um pouco a cada dia, cantavam; pois, era isso mesmo. Aquele momento de autocomiseração funcionou como uma espécie de oração; com as pessoas de pouca fé é assim, fazem preces de qualquer parvoíce.

Sem mais meditações destrambelhadas, saí do carro e fiz de uma certa raiva, que começava a brotar, a força que necessitava para findar a tarefa a que me propusera. Uma a uma atirei-as ao mar; sem pensar, sem penas, sem sentir – frio como águas que as engoliam. Assim que lancei a última caixa, parti em grande velocidade. A poeirada da estrada que levantei correu o pano final; qualquer tentativa de olhar saudoso ou de pranto, a vê-las a serem levadas, ou tragadas, pelas águas, foi enterrada.

Cheguei a casa, despi-me e deitei-me. Mais leve – há solidões que flutuam -, esperei a morte daquele e de todos os outros dias; seguramente mais de 50, espero. Adormeci e nem sequer sonhei com as caixas e o seu conteúdo; ainda bem, coçar a perna que se amputou é o pior dos tormentos.

Bem longe, um pescador chegava a casa carregado de 50 caixas; umas a desfazerem-se, outras em bom estado, encharcaram o chão da garagem onde ele as pousou. Estava a mulher a desenrolar a sua retórica pelo estado alagado do pavimento – já não basta trazeres lixo para casa, agora tens que fazer este patinheiro todo, depois sobra para mim, a escrava que, como sempre, vai limpar tudo –, quando ele começou a abrir as caixas que encontrara no fundo do mar. Durante 50 segundos contemplaram a descoberta, sem dizer palavra.

– Muitos deles já não estão em bom estado – referiu o pescador, por fim. – Mesmo assim, achas que ainda nos podem dar algum dinheiro? Hoje em dia, há quem precise muito disto.

A mulher rondou as caixas, espreitou bem para cada uma delas e disse:

– Desengana-te homem, quem é que nos vai comprar sonhos? Ainda se fossem uns bons sonhos, coisa de gente culta e endinheirada, mas estes, tão idiotas, não haverá quem lhes pegue; se não houve até agora. Olha, mete na lareira, sempre devem dar uns bons 50 minutos de calor.

10 frases que não abalaram o mundo, mas que o tornaram mais engraçado

Março 11, 2013

Quem sabe, faz. Quem não sabe, ensina. E quem não sabe ensinar? Faz listas de avaliação. Pois, não se trata de um trocadilho com a famosa frase que põe a educação de rastos – bem ao jeito do que muitos fazem sem a dizer -, mas antes de uma apreciação sobre as eternas listas do AFI (American Film Institute) que resolveu levar a vida a eleger os mais disto e os mais daquilo.

Uns senhores, que já não têm nada que fazer, especialmente críticos que nunca nada fizeram, resolvem reunir-se e toca a eleger os mais importantes filmes, nesta e naquela categoria. Há sempre uma regra não escrita: quanto mais antigo melhor – que isto do pó faz bem às películas, pensam eles.

Bom, mas vamos ao que interessa, ou seja, à lista com as 100 melhores frases do cinema.

Todos nós, uma vez outra – porque a inspiração falha ou porque nos queremos armar em engraçadinhos cultos –, já ecoámos uma frase da sétima arte para ilustrar determinada cena da nossa vida. Normalmente, buscamos as mais famosas, que é para o receptor não fazer figura de parvo e pensar que estamos a citar Kant. Ora, nesta lista o critério não foi bem esse, das frases orelhudas, pois se virmos bem, apenas 1 das ditas famosas (May the Force be with you) faz parte do top ten.

Se quiserem ver a lista completa, podem consultar Aqui. Eu apenas vos trago o top 10. Mas não é um top 10 qualquer, pois, além da retórica famosa e supra americana, trago um enquadramento bem luso, ou seja, como essas velhas frases poderiam ser ditas aqui, por estas bandas, e neste novo tempo.

1 – Clark Gable (Rhett Butler) in Gone with the Wind

"Frankly, my dear, I don’t give a damn."

– Francamente, minha querida, estou-me nas tintas!

Encostado na cadeira, ele tentava abstrair-se de tudo o que se passava. Foi em vão. O seu assessor entrou no gabinete de um modo efusivo, como sempre, e despejou-lhe em cima da secretária as edições do dia de vários jornais.

– A situação está complicada – disse o assessor.

O Ministro permaneceu em silêncio. Há muito que não faltava barulho da populaça contra a sua governação, mas ele tinha aprendido a baixar o ruído e a seguir em frente. Não ia ser agora, que meia dúzia de manchetes sensacionalistas o iam fazer tremer.

– O povo está todo na rua – continuou o assessor. – Esta última manifestação colocou quase meio milhão de pessoas na rua. Ok, temos que dar algum desconto, mas, mesmo assim, é muita gente. Senhor Ministro a situação está a ficar insustentável. Qualquer dia não vai ser possível aguentar isto. Da próxima vez temos o país inteiro na rua, inclusive os nossos.

Francamente, meu caro, estou-me nas tintas! – respondeu o Ministro. – Um líder não se verga perante as ameaças. O meu caminho tem a luz perante a escuridão da multidão.

2 – Marlon Brando (Vito Corleone) in Godfather

"I’m going to make him an offer he can’t refuse”

– Eu vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar

Por detrás da maquete, Gaspar olhava com atenção aquela reprodução, em ponto pequeno, do seu projecto. A sobrevivência da sua construtora estava dependente de ganhar aquela importante obra. Muitos milhões estavam em jogo. Mas um maldito concurso público impedia de ter já garantida a sua execução.

– Acho que pusemos uns milhões a mais no caderno de encargos – disse o engenheiro responsável. – Isso pode ser fatal para nós. Já sabe que nos tempos que correm o factor de baixo custo é determinante nos concursos. Não vejo porque este presidente da câmara vá ser diferente.

Eu vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar! – respondeu Gaspar. – Como já devia saber, os concursos públicos não se decidem nos cadernos de encargos, mas naquilo que eles podem vir a representar para as duas partes.

3 – Marlon Brando (Rhett Butler) in On the Waterfront

"You don’t understand! I coulda had class. I coulda been a contender. I could’ve been somebody, instead of a bum, which is what I am."

– Tu não entendes! Eu poderia ter classe! Eu poderia ser um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou.

No alto do seu fato de corte italiano, ele olhava aquele pesadelo que se abatera a seus pés: mesmo no meio daquela torre envidraçada, onde outrora se fizeram grandes negócios da alta finança, onde se discutia compras e fechos de empresas, no meio de fumaças de bons cubanos, onde se jogou a roleta das acções milionárias, mesmo ali, abrira-se um buraco enorme, que esventrava completamente a sua edificação bancária.

Como uma autêntica bomba, que num descuido ele próprio fabricara, um enorme petardo financeiro rebentara com a sua organização, abrindo uma enorme e profunda cratera, que atravessava toda a sua estrutura e a punha em risco de ruir. Ao olhar através dela, conseguia ainda ver o que restava do seu império, apenas folhas a voar pelo ar e empregados aos gritos, que tentavam salvar alguns bens, antes da possível derrocada final. Pobres criaturas aquelas, que julgam que um emprego, onde ganham uns míseros cobres para entupirem a sua estúpida vida de classe média, é coisa que valha a pena salvar.

– Senhor Administrador, os homens para começar a reparação já chegaram – avisou a secretária.

Lá fora, um batalhão de funcionários do Estado preparava-se para começar a cobrir o buraco com os euro-tijolos. Não seria solução, mas sempre dava para o pavimento se aguentar durante uns tempos.

O banqueiro, sentiu um murro no estômago, ao saber que aqueles, contra quem sempre tinha combatido e sobre os quais tinha exercido toda uma série de malabarismos para não lhe impedirem os bons negócios, eram afinal os seus salvadores. Era como se fosse obrigado a comer no prato que sempre cuspira.

– Deixe lá, senhor Administrador – continuou a secretária, – afinal vai ficar tudo resolvido. Dentro em breve vai estar aí outra vez na mó de cima, a fazer grandes negócios.

Tu não entendes! Eu poderia ter classe! Eu poderia ser um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou! – respondeu o banqueiro. Mas depressa lhe passou a crise de auto estima; ao começar a caminhar no novo chão dos euro-tijolos estatais sentiu-se seguro e pronto para novos voos.

4 – Judy Garland (Dorothy Gale) in The Wizard of Oz

"Toto, I’ve got a feeling we’re not in Kansas anymore."

– Toto, eu tenho a sensação de que não estamos mais no Kansas

Com pouco dinheiro no bolso e no cartão, o corte no orçamento familiar tinha sido brutal com o despedimento da mulher e  o congelamento do seu próprio ordenado, não esperava gastar muito tempo naquele espaço. Apenas ia entrar com o filho, comprar uma camisola interior em promoção, para oferecer à mulher, e desaparecer imediatamente.

Quando entrou no centro comercial, ficou surpreendido com a imensa multidão que circulava de um lado para o outro, cheia de sacos e saquetas. De onde tinha saído aquela gente toda, que parecia viver para além da crise?

Tó, eu tenho a sensação de que não estamos mais em Portugal – disse o pai, perante o olhar confuso do filho.

5 – Humphrey Bogart (Rick Blaine) in Casablanca

"Here’s looking at you, kid."

– Está a olhar para ti, pequenota.

Raios, não sei se é do filme, pelo qual nutro uma certa embirração, se é pela estupidez da frase, não consigo lembrar-me de nada. Ao menos se fosse a outra frase – Play it again, Sam! – que, apesar de nunca ter sido dita no filme, dava para congeminar alguma coisa. Agora um está a olhar para ti, pequenota – cum raio! Isto sugere o quê? Conversa de pai de natal em centro comercial ou processo de Casa Pia?! Ná! Esta não sai.

6 – Clint Eastwood (Harry Callahan) in Sudden Impact

"Go ahead, make my day."

– Vai em frente, alegra-me o dia.

De pé, no parapeito da janela do 12º andar, com uma pistola na mão, apontada à cabeça por ele próprio, e com frasco de comprimidos na outra, pois não queria deixar de fora nenhuma forma de pôr um ponto final a tudo, estava perto de encontrar um fim. A carreira estúpida que fizera, as decisões que tomara, a família que arranjara, tudo lhe parecia demasiado negro para continuar.

Mesmo a um passo, a um tiro e a uma dose de escrever o capítulo final, esperava, ainda, que alguém lhe desse uma abraço longo e o arrancasse daquela posição. Foi por isso, que, quando ouviu a janela do lado abrir-se e aparecer nela, debruçada, a sua mulher, sentiu uma pequena alegria de alívio invadir o seu corpo

Vai em frente, alegra-me o dia! – disse ela num tom muito seco.

7 – Gloria Swanson (Norma Desmond) in Sunset Boulevard

"All right, Mr. DeMille, I’m ready for my close-up."

– OK, Mr. DeMille, eu estou pronta para o meu close up.

– Ó meu, não fiques aí parado! – gritou um dos colegas assaltantes para um outro que estava estático no meio do armazém. – Começa a carregar as caixas.

Mas Fábio não ouviu. De repente, toda aquela parafernália do assalto, que tinha preparado meticulosamente nos dias anteriores, tinha deixado de fazer sentido. Queria lá saber dos LCD de não sei quantas polegadas que havia que carregar. Mais do que ter um ecrã para ver, o importante era estar dentro dele. E Fábio estivera.

Como que encantado, com aquela câmara de vigilância, que acompanhava os seus gestos, Fábio permanecia estático a olhar o olho electrónico, que parecia ter uma ligação afectiva com ele. Fazia-lhe lembrar outros tempos, em que tinha sido um verdadeiro protagonista com as câmaras. Fechado dentro de uma casa, aqueles pequenos objectos de filmagem, tornaram-se não só o seu elo de ligação com o mundo, pois transmitiam as suas imagens aos quatro ventos televisivos, mas também o motor para o seu sonho de fama. Agora ali estava ele, outra vez, a ser captado pelas câmaras. Será que por detrás delas estaria novamente Mila Oliveira, a apresentadora que tanta conversa lhe dera em tempos, como se fossem íntimos, mas que logo, depois da saída da casa, depressa se esquecera dele?

OK, Srª Mila, eu estou pronto para o meu close up! – disse ele, aproximando-se do olho-de-peixe electrónico, para que melhor captassem a sua imagem. Ainda estava assim, nessa posição congelada, quando a policia apareceu. Não se importou, afinal, pensou ele, eram só os seguranças que o iam acompanhar até à entrada no estúdio para a sua consagração. Mas na penitenciária, em que permaneceu durante um largo tempo, apenas foi um entre muitos.

8 – Harrison Ford (Han Solo) in Star Wars

"May the Force be with you."

– Que a Força esteja convosco.

Não lhe apetecia nada levantar-se. Enfrentar a rotina cinzenta daquele emprego não era o pior. Aquilo que o afligia era pensar que um dia destes dias poderia ter uma arma apontada à sua cara. Divertia-se imenso com essas cenas nos filmes, mas só saber da mais pequenina das hipóteses de isso lhe acontecer um dia, fazia-o entrar num processo de tremuras quase epilépticas.

A mãe bem o tentava tranquilizar, era o seu papel, mas também vivia numa agonia. Afinal, todos os dias havia notícias de bombas assaltadas nas redondezas. Não era isso que ela queria para o seu filho, ter uma profissão de risco. O alto custo dos combustíveis, os locais isolados dos postos e o facto de trabalharem durante a noite levava a que fossem um isco fácil para os assaltantes.

Mesmo a custo, lá se arranjou para entrar ao serviço. Antes de partir, olhou com uma tristeza de medo os familiares que ficaram em casa, como se estivesse a partir para uma comissão de guerra algures numa terra distante. Mas não, apenas ia fazer mais um turno de caixa na sua bomba de gasolina.

Que a G-Force esteja contigo! – bendisse a mãe, ao pobre filho, enquanto lhe aconchegava o cachecol.

9 – Bette Davis (Margo Channing) in All About Eve

"Fasten your seatbelts. It’s going to be a bumpy night."

– Apertem os cintos. Vai ser uma noite trepidante.

O Estúdio estava numa agitação. Faltavam poucos minutos para o programa começar.

Depois de uma época desastrosa em termos de audiência, esperava-se agora um autêntico milagre com o novo reality show. Mais do que escarafunchar os podres de cada um e exibi-los ao som de variedades, mais do que fechar anónimos num espaço e apreciar voyeuristicamente os seus comportamentos pavlovianos, mais do que fingir que se criam novas vidas de sonho, apresentava-se agora um novo limite do entretenimento real, o encontro com a morte. Doentes terminais, vinham à televisão mostrar os seus últimos dias, os seus derradeiros sonhos, as suas dores finais. Haveria mesmo interrupção da emissão para transmitir a sua morte em directo.

Uma providência cautelar de uma série de associações de defesa dos direitos humanos estava em risco de rebentar. Lá fora, uma minoria de pessoas manifestava-se contra semelhante aberração televisiva. Lá dentro, dos lares, uma maioria de pessoas aguardava ansiosamente o primeiro programa e, talvez, a primeira morte. Era necessário carpir a dor dos outros, para tornar a nossa mais leve.

Com todo esse cenário, a noite avizinhava-se arrasadora, nomeadamente, naquilo que era o mais importante, o share.

Apertem os cintos. Vai ser uma noite trepidante! – gritou o director de programas, pouco antes do momento zero para ir para o ar.

10 – Robert De Niro (Travis Bickle) in Taxi Driver

"You talkin’ to me?"

– Estás a falar comigo?

Bandeirinhas e música de fanfarra. Mais um grande empreendimento inaugurado. Centenas de postos de trabalhos criados. Uma grande e inovadora aposta, o primeiro grande parque de atracções português. Animais pintados de todas as cores dividiam-se por vários pavilhões. O ministro ia distribuindo sorrisos, abraços e beijinhos a todos os que se cruzavam com ele. Era uma pessoa aberta e afável. Queria falar com todos, com o seu povo.

Na atracção das arábias, um dos camelos relinchou quando passou a comitiva.

Está a falar comigo? – questionou o Ministro ao ouvir som do camelo.

E estava mesmo. Passaram uma boa parte da tarde numa conversa animada. Dizem as mais línguas que foi convidado para assessor.

*****

Algumas traduções foram opções minhas, não sei se estarão muito de acordo com o sentido verdadeiro, dado que não sou um expert na matéria.

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Texto escrito em 2008; triste sina esta de passado 5 anos e as palavras serem actuais  

Diário de um idiota (9)– Alucinações

Março 5, 2013

Sempre que vejo na TV uns ilustres senhores, do alto da sua riqueza, tecer comentários sobre a pobreza que necessitamos abraçar para nos salvar, imagino-os a serem sodomizados por uma equipa de rugby. Ainda assim, pornografia por pornografia, prefiro a clássica.

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Garganta Funda

Fevereiro 24, 2013

O jornalista estava fora de si: nunca pensara que a sua fonte dissesse tudo aquilo.

É certo que tinha à sua frente uma das peças principais do caso que estava a investigar; mas, assim, sem quase nada pedir, ser-lhe revelado tudo, com todos os pormenores, inclusive os mais escabrosos, era coisa que não contava. Sempre imaginou que ela iria rodopiar nas oratórias, produzindo uma retórica rendilhada que nada adiantaria.

– Quer acrescentar mais alguma coisa? – perguntou o jornalista, em jeito de remate, apenas para poder fechar o seu caderno de notas; tinha o suficiente com tudo o que ouvira.

– Não, penso que já tem bastante – respondeu a fonte. – Agora, tal como estava combinado, vai enviar-me um mail a colocar-me questões sobre o que, aqui, lhe contei. Depois, eu enviarei um outro, a referir que nada tenho a dizer sobre o assunto, e o que tinha já o fiz em sede própria. Publicará esta resposta na íntegra no seu artigo, certo?!

garganta

Sem mais palavras, despediram-se; nem um aperto de mão selou aquele momento, apenas um “boa tarde”, seco, encerrou o encontro.

Depois, encaminharam-se para o quarto, despiram-se e abraçaram-se na cama. As línguas soltaram-se, tomaram conta do momento e abriram caminho pelos corpos. 

Cria Corvos, Queria Histórias

Janeiro 22, 2013

 

Tenho um terrível defeito: gosto de histórias onde acontecem coisas. Não sei porquê, é defeito meu certamente, mas ler coisas em que a diferença entre o primeiro e o último capítulo resulta apenas no belo tricô gramatical e literário da genialidade do autor, não me apraz muito.

Assim, por vezes, tenho muita dificuldade em entrar dentro de uma certa nova ficção, seja escrita, seja cinematográfica, plataformas criativas que – não obstante irem beber aos clássicos, dizem sempre – enredam todo um conjunto de urdiduras existencialistas, expondo mais os novelos das inquietações do autor do que as linhas das personagens.

Acontece frequentemente, depois de ler um livro, sentir que gostei muito da escrita, mas ficar com aquela sensação de: sim, e depois?

Ok, o tipo (não é muito elevado designar assim a personagem principal, mas pronto, eu também, a nível de escrita, sou baixinho, baixinho) até podia andar amargurado com a vida, sem família, sem mulher para amar, apenas um engate de ocasião (sim, porque os heróis modernos nunca são país de família, com criançada aos berros e a ter que dar um estalo no mais novo porque lhe estragou o telemóvel), mas será que, ao menos, não conseguiam pô-lo a descobrir uma falcatrua, fugir da polícia, matar a vizinha acidentalmente, só porque queria dar uma traulitada no cão que não se calava, coisas assim, para uma pessoa se ir entretendo e ver como tudo evolui?

Não, são páginas e páginas, muito bem escritas, em que o homem inicial e o homem final estão rigorosamente no mesmo sítio, descontando as angústias pelo meio e uma série de personagens que vêm salpicar a narrativa mas que nem aquecem nem arrefecem. Muitas vezes, uma ideia que poderia dar um bom conto estica-se para romance. Um amigo meu, menos dado a enlevos semânticos, costuma dizer que andam a encher chouriços para darem um ar mais soberbo à cosa. Um outro meu amigo, mais desbocado, arruma logo o assunto, dizendo:

– Esses gajos não pinocam, depois não conhecem a vida e ficam, para ali, a fazer festinhas nas palavras, à falta de melhor. Dessem eles umas valentes pinocadas e verias como a escrita tinha outra lisura, era um despacho. Alguma vez, viste um fodilhão ser chato?

Resta-me acrescentar que este meu amigo reduz tudo na vida ao mínimo denominador sexual comum, ou seja, tudo passa pela cama, até as palavras. Não sei se será aparentado de Freud.

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Mas voltando à minha ladainha de gostar de enredo nas histórias, apesar de defeito meu, como já disse – a repetição também é uma forma de encher chouriços -, fico feliz quando vejo que os ditos clássicos, sempre tão invocados pelas altas esferas, escreviam romances com uma estrutura bem folhetinesca. Pois é, Eça, Camilo, Tolstoy, Victor Hugo (sem ser o Cardinali), Hemingway,  e por aí fora, no meio do enlevo literário rasgavam grandes histórias, que evoluíam capítulo a capítulo até um clímax final, retratando assim as épocas pelas acções das personagens e não pela reflexão em elipse do pensamento do autor.

Este terrível defeito acompanha-me desde miúdo. Lembro-me, inclusive, de ainda jovem, quando não gostava do final de uma série na TV, apanhar um caderno e rescrever aquilo tudo à minha maneira; ou então, quando gostava muito, escrevia para continuar a história que findara e da qual sentia um certo luto  – provavelmente, por menos, já muita gente se deitou num divã do psiquiatra, mas eu, como não posso viver acima das minhas possibilidades de saúde mental, faço-me distraído.

Assim, esta mania de querer que outros me contem histórias com alguns acontecimentos, também a apliquei nas minhas escritas; sim, porque eu não sou como muitos, que exigem dos outros a santidade e depois, por detrás das cortinas, são uns pecadores de primeira – quer dizer, a metáfora não foi lá grande coisa, pois pecado é quase o meu tipo de sangue (RH Pecaminoso, seria bonito), mas acho que dá para entender.

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Mesmo nas pequenas historietas que vou publicando por aqui, quer tenham 77 palavras, quer 7700, faço questão que entre o primeiro parágrafo e o último decorra um certo desenvolvimento, especialmente que a parte final desminta a inicial, embora isto seja mais porque eu sou um bocadinho mauzinho (eu avisei do RH) e gosto de mostrar um rebuçado para depois dar uma colher de pimenta. 

E a onde leva este fraseado todo – daqui a pouco estou eu a tricotar palavras em ponto cruz – com que vos brindo? A presentear-vos como mais um tipo de prosa deste escrevente.

Desta vez, perdi o tino, e trago um romance – Cria Corvos -, ou qualquer coisa parecida. Estando eu mais próximo do cordel do que do fio de nylon da alta literatura, atirei-me de cabeça a uma espécie de folhetim popular, baseado em pequenas histórias que se vão ouvindo ao longo do tempo como sombras dos lugares por onde passamos, e construí uma narrativa campestre em que só falta estender a toalha no chão e ouvir o gado pastar. Pode uma simples aldeia esconder mais acontecimentos escabrosos do que o Pentágono e a Casa dos Segredos juntos? Pode.

1corvos

Dada a sua extensão, está a residir numa página lateral deste blogue designada Romance. Claro que não coloquei a obra toda, basta, o que basta de padecimento. Olha-me este, pensa que alguém vai ler uma coisa incompleta! Bom, apenas editei a 1ª parte pois esta consegue ser lida como um macro conto ou mini romance, visto a linha principal da narrativa ser (quase) conclusiva.

Sem grandes revisões, apenas a de um olhar disléxico, atiro-me de cabeça com esta exposição. É quase como ir nu para a varanda; só espero não apanhar nenhuma pneumonia nem que passe alguma donzela pudica e comece aos gritos. 

Unidos até que o Bolo nos separe

Janeiro 13, 2013

Em tempos, dizia-se que o casamento era como andar de metro, quem estava fora esperava ansiosamente que chegasse, e quem vinha dentro desesperava para poder sair.

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Os tempos mudaram e não sei se a malta que está cá fora quer mesmo entrar no comboio das profundezas; tenho para mim, que muitos, quando vêm a carruagem se aproximar, são capazes de assobiar para o lado, sair da estação e ir a pé. Claro que os mais palonços acabam por ficar e, com a confusão da hora de ponta, levam semelhante empurrão que acabam caidinhos lá dentro sem saber.

Os que vão dentro, porque vivemos em tempos modernos, já não esperam nem pelo fim da viagem nem pela estação certa para sair, puxam a alavanca de emergência e atiram-se da janela. Felizmente que foram aparecendo leis que facilitam essa saída rápida pela janela, em que os vidros foram substituídos por aquelas placas de gelatina utilizadas nos adereços cinematográficos, para não magoar, dizem; cá para mim, facilita apenas a saída, mas não ampara a queda depois no chão, que, normalmente, é sempre bem dura.

Sinceramente, acho que esta metáfora do metro não é lá grande coisa. Será que não se pode arranjar uma viagem diferente, como passear de barco? Ao menos, quando saltassem borda fora, caíam ao mar, amparava-se a queda e ficavam logo no seu habitat natural: mar de dívidas; mar de preocupações; mar de novos tormentos familiares; etc.

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Assim, voltando ao casamento propriamente dito, e continuando a maldita metáfora de transportes, eu preferia ir mais pela colisão de tráfego; afinal, não dizem que os pombinhos vão iniciar, juntos, um mesmo caminho? Ora, todos sabemos que, quando 2 veículos se esmurram um no outro, é porque ambos, os camelos condutores, pensaram que tinham um só único caminho; assim, para mim, o casamento, o tal dia inesquecível, é apenas o momento em que 2 belos popós, apelidados de pombinhos, resolvem chocar de frente.  

Como qualquer acidente forte, é necessário quem arbitre e quem testemunhe. Para GNR matrimonial lá temos as Igrejas e as Conservatórias, a tirar as medidas da travagem e a registar os nubentes automobilísticos, para que depois, no futuro, não digam que não bateram e que o culpado é sempre o outro. Como uma autoridade precisa sempre de alguém que comprove os factos, chamam-se, então, as testemunhas para dizerem também de sua justiça, naquilo que é conhecido pela Boda.

Pois é ali, nesse evento lindo, que começa o segundo grande acidente, para não dizer choque em cadeia: ser convidado para assistir à colisão, perdão, à cerimónia e à sua celebração. Eis, então, o grande drama.

Devia haver uma espécie de atestado médico para podermos faltar a uma cerimónia de casamento, tipo: eu, dr não sei quantos, declaro que o também não sei quantos, por motivos de doença momentânea, mas altamente contagiosa, não poderá comparecer no evento tal.

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Durante muito tempo fui a casamentos sempre na esperança que no momento X alguém dissesse não – isto de ver muita telenovela é o que dá, – mas, para meu desalento, tal e qual como os condutores teimosos que acham que têm sempre razão, insistiram em dizer sim. Desisti, hoje em dia, na falta do atestado médico, tenho sempre uma tia em estado terminal no outro lado no país que, por coincidência, prometeu dar o último suspiro, precisamente, na data da boda. Porquê?

Tudo começa com um convite em papel sofisticado e acaba numa fatia de bolo. Pelo meio cai-nos o céu em cima; bom, se não for o firmamento, pelo menos umas toneladas de parentes distantes e de cardápios indigestos vão-nos atormentar durante todo esse sacro dia.

À pala de celebrar a felicidade de uns pombinhos, como se a felicidade deles dependesse do número de vítimas concentradas – ao jeito de qualquer clube Sado Masoquista -, somos atirados para uma arena colorida e cheirosa, mas em que nunca percebemos quem é o touro e o toureiro. Pelo sacrifício que normalmente sinto, devo estar mais para o lado do animal ensanguentado do que para o lado do senhor de vestes apertadinhas e brilhantes – de sabrinas e tudo, que figurinha! Acho mesmo que, quando dou as últimas beijocas parentais e me dirijo ao carro, já com uma maldito ardor no estômago e a precisar urgentemente de uma água das pedras, ainda sinto no lombo o ardor das farpas que me cravaram durante toda a temporada que durou a faina casamenteira. Não sei se tiveram tempo de cortar o rabo e a orelha, mas o buxo sim, porque a maldita comida parece que não tem espaço para se bronzear na sua praia digestiva.

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Anda uma pessoa a fazer dietas, a seguir à risca as recomendações médicas – olha o colesterol, tem cuidado com as diabetes, não te esqueças dos triglicerídeos -, e zás, durante aqueles momentos, dá-nos uma espécie de amnésia geral e toca a enfardar como se tivéssemos sido náufragos numa ilha deserta, daquelas que nem água tem. A memória alimentícia só é recuperada mais tarde quando, depois de alargar calças, cintas e soutiens (para não deixar a outra parte de fora, como se só a ala masculina enfardasse), começamos, normalmente já em casa, à procura de uns sais que nos liberte daquela maldita tempestade que se passa entre o estômago e o lobo frontal, local onde parece que nos enfiaram uma orquestra a afinar instrumentos.

Porque é que se come tanto, se no final já sabemos que vamos ficar enfartados e mal dispostos? Qual o prazer de regar três fatias de pão-de-ló de ovos-moles com quatro flutes champanhe, se depois precisamos de água das pedras para amainar a fera que se instalou? Eis um dos grandes mistérios, se não do universo, dos banquetes certamente.

 

imagePara verem como eu tenho razão, que isto de casamentos e convidados é muito mais que uma assombração – é um desfile completo de zoombies em dia de Halloween –, convido-os a ler mais uma das Cenas Cortadas do Filmezinho das Nossas Vidas. Baseado em factos verídicos, alguns meus, outros de conhecidos, um desfile de acontecimentos em forma de conto, embrulhado com as velhas personagens da série: o casal Pedro e Paula, o seu pequenote Miguel, a cunhada dopada, a sobrinha mimada, as sogras, a complacente e a rezingona, e por aí fora.

Para evitar internamentos de urgência, e não me alongar mais em considerações metafóricas de humor pós-moderno, que o que vem aí é longo e doloroso, o conto reside na página Cenas deste blogue, logo aqui ao lado. Deixem as pipocas de lado, talvez uma garrafa de oxigénio será o melhor acompanhamento.

Os números de 2012

Janeiro 5, 2013

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um excerto:

600 people reached the top of Mt. Everest in 2012. This blog got about 10.000 views in 2012. If every person who reached the top of Mt. Everest viewed this blog, it would have taken 17 years to get that many views.

Clique aqui para ver o relatório completo