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Lua de Mal

Outubro 7, 2012

Abriram a porta do quarto de hotel e entraram. Traziam com eles o desejo quente dos amantes, incendiado pelo rastilho do cheiro cálido das temperaturas tropicais. Olharam um para o outro e falaram a mesma língua: era urgente amar os corpos.

Faziam 25 anos de casados, muita coisa mudara desde o dia em que enlaçaram as vidas, no entanto, ainda sentiam que o sangue lhes fervia de vontades. A idade, ambos a romperem os 50, amansara os ímpetos, é certo, mas agora era tempo de os soltarem, quais feras amestradas de circo devolvidas à selva.homeboaboa-envsrcboawebsitesite_medialovers-triptych_1

Não desfizeram as malas; sem nada dizer, tomaram um bom banho para que a pele ficasse depurada para o sentir das bocas, das mãos e dos sexos. Depois, vestiram-se bem: uma boa roupa engrandece a nudez.

Já donos de umas vestes adequadas ao momento – ela com um vestido preto justo, em que um longo decote mostrava ligeiramente os ombros e dava brilho a um bonito colar de pérolas; ele com uma simples camisa azul-marinho, de uma marca italiana, e umas calças bege de corte aprimorado -, olharam-se e abraçaram-se. Um beijo selou o momento.

Passado algum tempo rolavam, na cama, a fúria de um sexo feito como se a juventude, por milagre, ali tivesse encarnado. Só por pudor ninguém se queixou no hotel dos gritos e gemidos que estalaram no ar; nunca se interrompe o canto dos amantes.

Horas depois, uma certa paz voltou ao hotel; os amantes repousavam o eclipse do prazer.

Amantes_de_Outono

Ele, cansado, adormecera, não lingando à jovem que navegava pelos canais de televisão – os hotéis tinham sempre o mundo todo condensado no ecrã. A rapariga que encontrara horas antes no bar do hotel, depois de ter saído do quarto, não fora difícil de engatar, já estava cansada de fingir beber uma caipirinha enquanto fazia olhinhos aos homens que vagueavam por ali, voltar a casa sem ter conseguido um cliente complicava-lhe as contas da noite.

Ela, num outro quarto, olhava o jovem deitado ao seu lado, que fingia um sono por não saber como sairia dali. Também, o pobre rapaz não tinha muita experiência com aquelas coisas; nunca lhe passara pela cabeça que, ao estar a trabalhar uns gráficos no computador, lhe ia aparecer uma mulher madura, num vestido preto, que, pousando as mãos no teclado, dissesse: – Então, um rapaz como tu, não tem coisas bem mais interessantes para fazer?

Pela manhã, o velho casal reencontrou-se. Sorriram e abraçaram-se.

– Foi bom? – perguntou-lhe ela.

– Muito – respondeu ele. – E para ti, também foi bom?

– Sim, sabes que sim.

Tomaram o pequeno-almoço num terraço sobre o mar. Apesar de ainda ser cedo, beberam champanhe e brindaram; brindaram a 25 anos de amor.

Não teria passado mais de uma hora após aquele momento de catálogo de agência de viagens, e já eles abandonavam o hotel; tinham um voo logo pela manhã.

AMANTES_net

Chegaram a casa já de noite; cansados, evitaram o jantar – a executiva ainda servia bons repastos -, e sentaram-se apenas no sofá a ver televisão. O peso da fadiga levou a que adormecessem, juntos, um sobre o outro, de mão dada, e nem dessem por uma pequena notícia que alinhava a parte final do serviço informativo:

  • um jovem funcionário do FMI e uma prostituta apareceram mortos, ambos com um corte na garganta, em quartos contíguos de um hotel de luxo, numa qualquer ilha tropical.
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4 comentários leave one →
  1. Outubro 7, 2012 4:00 pm

    Safa!!!
    Você não mostre isto aos seus vizinhos assanhados.
    Não vá dar-se o caso de eles também não gostarem de escritores com bons ouvidos.

    • Bau P permalink*
      Outubro 7, 2012 4:22 pm

      🙂 🙂 🙂 presumo que não têm tempo para passarem os olhos por escritas maradas

  2. Maria permalink
    Outubro 7, 2012 6:38 pm

    Gostei mas entristeceu-me. Não o final, mas a inevitabilidade de não conseguir manter a chama acesa , seja que for o tempo que tenha passado. Acredito que é possível se uma das partes não se satisfazer com pouco, é adivinhar qual…

    • Bau P permalink*
      Outubro 7, 2012 7:26 pm

      Mas a chama continua acesa, só que à maneira deles, 🙂

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