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O que a terra há-de comer

Dezembro 30, 2012

Não me mates, que eu sou pequenina. Foi com esta frase que Fátima invadiu a sala, onde o marido e os dois filhos sossegavam o final de tarde à espera do jantar.

– Não, desta vez é muito grave, ele vai matar alguém – continuou ela. – Temos que chamar a polícia.

– Por amor de deus, mulher! Pára com isso – respondeu Augusto, enquanto continuava a dedilhar, epileticamente, o comando da televisão. – Andas a ver muitos filmes.

– Telenovelas, pai, a mãe só vê telenovelas, ela não sabe o que é um filme – acrescentou Fábio, sem levantar os olhos da consola portátil onde jogava.

– Não te armes em parvo, Fábio Augusto – disse Fátima ao filho. – Anda, vais mas é lavar as mãos, que daqui a pouco vamos jantar.

– Então, não vamos primeiro tratar da menina morta do vizinho?

– Vocês brincam, mas passa-se ali qualquer coisa. No outro dia, no meio de uma berraria ele dizia, daqui não sais, nunca, jamais verás a luz do dia. Ontem, no meio de um relambório, que eu apanhei a meio, dizia, chegou a hora, vais morrer e com muita dor. Por detrás daquelas paredes, está a acontecer algo muito grave.

– Devias era tratar do jantar, em lugar de andares a ouvir por detrás das paredes – resmungou Augusto, enquanto saltava de canal, em centésimos de segundo. – Eu sabia que esta ideia de comprar vivenda geminada não ia dar bom resultado, acabamos por ficar com o mesmo problema dos apartamentos, a ouvir tudo o que se passa, sem a vantagem de ter um condomínio para nos tratar do telhado.

– Olha, meu caro, estamos no século XXI e eu não sou a escrava Isaura. Levanta o cuzinho do sofá e vem para a cozinha tratar do jantar, já que estás com tanto apetite. Ou ainda pensas que vives no tempo da tua mãezinha, em que o teu pai estava sempre, ó Celeste traz-me isto, ó Celeste faz-me aquilo?! Eu aqui preocupada com uma tragédia e tu armado em macho latino. Poupa-me.

– Tu não vês que o homem pode estar a ver um filme com a televisão alta.

– Filme? Sim, claro, falavam num inglês puro, e o que chegava por detrás das paredes eram as legendas. Ou tu achas que há filmes portugueses com estes enredos?

– Sei lá, podia ser uma das tuas telenovelas.

– Não sejas parvo, eu sei o que anda a dar. Aquilo é ao vivo; a maioria das vezes, o que ouço, é a voz dele, noutras é uma mais esquisita, assim mais fininha.

– Não será cisma tua? Tu nunca gostaste do homem, mesmo antes de ouvires essas assombrações. Embirraste com ele desde o primeiro dia.

– Claro, sempre o achei esquisito. Tem dias em que é simpático, faz conversa e tudo, tem outros em que mal diz bom dia. Isto não é coisa de pessoa acertada; até parece que são dois.

– Como o Smigel, my precious – rematou Fábio, largando a consola e fazendo trejeitos com a voz e as mãos, aludindo a uma personagem do Senhor dos Anéis.

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– Deixa-te de parvoíces, Fábio. Dez anos e já com tantas piadinhas, só tu não teres a quem sair; o teu pai e a família dele sempre acharam que eram os reis da comédia, pena não terem ido para a televisão, sempre ganhavam mais algum do que na padaria; então este ano é que vai ser o bonito, a terem que declarar tudo.

– E tu para enleares conversas és uma primeirinha – contra-ataca Augusto -, ora consideras sobre o mais terrível dos crimes, ora aligeiras sobre a vida empresarial. E depois ainda dizes que o vizinho é bipolar.

– E não é? Até na maneira como se veste, uns dias parece um executivo, outros dias quase que parece um sem-abrigo. Ali há qualquer coisa que está mal; até o nome não bate certe. Tu já viste alguém da idade dele chamar-se Bruno? Bruno é para quem tem vinte ou trinta anos, agora um cinquentão, sim, porque ele é muito mais velho do que nós, tinha lá esse nome. Nessa altura, seria Fernando, João, Manuel ou coisa assim, mas nunca Bruno. Só pode ser inventado.

– Pois a mim, parece-me um quarentão bem enxuto, um bom borracho – acrescentou Cláudia, continuando a pintar unhas, coisa que estivera a fazer desde o início, sem se perturbar com os desenvolvimentos da conversa.

O comando até escapou das mãos de Augusto; a sua menina, a sua Cláudia Sofia, de dezasseis anos, que ainda até há bem pouco tempo fazia birras com as Barbies, estava agora com uma postura de lascívia sobre o vizinho. Será que já se teria passado algo entre eles? Será que naquelas tardes em que ficava sozinha em casa, estivera bem acompanhada? Será que estava a pintar as unhas para ele?

– Ouve lá, para que estás a pintar as unhas dos pés, se é inverno e andas bem calçada? – interrogou Augusto.

– É para mostrar na festa onde não me deixaste ir – respondeu Cláudia, a ironizar o facto do pai não a ter deixado ir à festa de passagem de ano, naquela noite.

– Isso é que era bom, um bando de pirralhos fechados numa casa, sem adultos. Havia de ser o bonito. Ainda não tens idade para essas coisas. Tu já meteste conversa com o vizinho?

– Eu? Não, além do bom dia, boa tarde, quando o encontro.

– Não quero grandes conversas com ele. A tua mãe tem uma certa razão, ele é muito estranho. Se calhar até temos que fazer alguma coisa, mas agora vamos jantar, depois pensamos nisto.

– É, vamos encher primeiro a barriguinha e depois tratamos da menina morta – rematou Fábio.

No entanto, ninguém deu importância ao comentário do elemento mais novo; era o momento de preparar a última refeição do ano. Tempos houve em que a festejaram num bom hotel com a restante família; mas agora, a vida não estava fácil e a família andava um pouco tresmalhada, já bastara a noite de natal, em que todos fizeram o favor de se harmonizar.

– Fábio, não te volto a chamar – disse Fátima num tom já irritado, perante a teimosia do filho mais novo em não comparecer à mesa. – E tu, Cláudia, bem que te podias ter ajeitado um pouco, lá por comermos em casa não tens que estar em pijama nesta noite.

– Sim, mas as unhas ela não esqueceu. Ainda tenho que perceber porque pinta as unhas no inverno – acrescentou Augusto.

– Deixa lá as unhas e abre a garrafa do vinho. Fábio Augusto, eu vou aí e ficas sem uma orelha.

Mas Fábio permaneceu quedo junto à janela; via algo que o intrigava.

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– Venham cá ver, depressa! – disse ele, por fim. – O vizinho está no jardim com uma pá e arrastar um saco.

Ainda a frase não estava terminada e já Fátima voava para a janela; o que levou à queda do copo de vinho, que o marido acabara de encher, e a uma tonalidade tinta no bacalhau com natas.

– Ai que horror! Ele matou a menina e agora vai enterrá-la – proferiu Fátima, quase em estado em choque, as suas suspeitas confirmavam-se, tudo o que ouvira por detrás da parede do quarto, não eram fantasias suas, aquele homem tivera alguém refém, assassinara-o e, agora, preparava-se para o enterrar no quintal.

Os restantes companheiros de mesa, pai e filha, levantaram-se e correram para janela.

– Estão a ver, agora está a cavar o buraco – continuou Fátima. – Ali, naquele saco, está a menina que ele matou.

– Como podes ter tanta certeza? – inquiriu Artur, ainda duvidando que pudesse estar a presenciar um crime tão escabroso, daqueles que apenas conhecia por ler em jornais manhosos quando ia ao barbeiro.

– Não sou parva, sei juntar as coisas, eu ouvi-o dizer que não escapava e depois também ouvi aquela voz a implorar que não a matasse porque era pequenina. Que mais poderia ser? Que mais poderia ele estar a enterrar? O aparelho de televisão.

– Ora, até que nem seria má ideia, com toda a merda que dão.

– Sempre espirituoso. Vai mas é telefonar para o 112, que o bandido tem que ser apanhado com a boca na botija.

– Não era melhor apagar as luzes ? – sugeriu Fábio. – Lá fora está escuro e ele ainda nos vê. Depois aparece aqui com um machado na mão e mata-nos a todos.

– Meu deus, que filmes é que esta criança anda a ver para ter semelhantes ideias? – Fátima levou as mãos à cabeça. – Mas tem razão, apaguem as luzes.

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Apagaram as luzes. Augusto pegou no telefone e ligou para o 112. Como as suas explicações não estavam a ser entendidas – não era fácil denunciar que o vizinho estava enterrar alguém no quintal -, Fátima arrancou-lhe o telefone da mão para ser ela a esclarecer tudo.

– É assim, ainda há pouco ouvi uma menina a implorar que não a matassem, eu bem disse, que se passava alguma coisa, mas aqui em casa ninguém me leva a sério, acham que é tudo fantasia minha, mas já no outro dia ele gritara a alguém que a iria matar. Eu escutei isto porque no meu quarto ouve-se tudo o que se passa do outro lado; sabe, hoje em dia fazem umas construções de porcaria que nem paredes de jeito têm. Agora, mesmo na hora do jantar, foi para o jardim com um saco grande e começou a abrir um buraco. Ora diga lá o que é que tudo isto pode ser? Só pode estar a enterrar o crime.

Fátima forneceu o endereço e desligou. Aproximou-se da restante família que continuava à janela a ver o vizinho abrir o buraco.

– O gajo tem um rabo giro – comentou Cláudia ao ver o vizinho dobrado a cavar.

Augusto deixou de se preocupar com a menina que estava a ser enterrada para se inquietar com a sua; o que se passaria com aquela miúda, apenas dezasseis anos e já só pensava em sexo, tinha que fazer alguma coisa, a continuar assim ainda lhe aparecia em casa grávida de um marmanjo qualquer, cheio de percings e tatuagens; pior, ainda se enroscaria com o vizinho, o criminoso e acabaria assassinada; felizmente que a polícia estaria a chegar e o tipo seria preso para sempre, quer dizer, por alguns anos, que por cá não havia prisão perpétua, o que era pena, pois crimes como aqueles, matar uma criancinha indefesa, só apodrecendo na prisão, ou então pena de morte, como se faz nalguns países mais avançados nestas coisas.

Ivo chegou ao carro da polícia com os hambúrgueres, as bebidas e as batatas fritas que seriam o jantar dele e do colega; mais tarde, se houvesse tempo, abririam a garrafa de champanhe numa escapadela ao café dos pais.

– Despacha isso, que daqui a uns minutos nem tens tempo nem vontade de comer – avisou Albano, assim que o colega entrou no carro. – Recebi agora uma chamada que, a ser verdade, nos vai dar um reveillon de primeira. Ao que parece, há suspeita de um tipo ter despachado uma miúda e agora estar a enterrá-la no quintal.

– Foda-se, que história macabra! Quem contou uma merda dessas?

– Agora mesmo, da central. Parece que as testemunhas são uns vizinhos que ouviram as súplicas da criança e agora estão a ver, da janela, o tipo a enterrá-la.

– E vamos entrar assim, sem mandado nem reforços?

– Flagrante, não é preciso mandado, ainda por cima é no quintal.

Bruno acadimava a terra com a pá quando os dois polícias irromperam, de pistolas em punho, pelo quintal.

– Quieto! – gritou um deles. – Largue a pá, de imediato!

– Mas o que é isto, alguma brincadeira parva? – perguntou, Bruno, completamente surpreendido, a última coisa que esperava era uma entrada da polícia na sua propriedade, assim, sem mais nem menos.

– Isso é o que vamos ver – respondeu Ivo, estático, de pistola apontada, enquanto o seu colega se aproximava de Bruno. – Coloque as mãos atrás da cabeça.

Ainda antes de qualquer outra interpelação, já a família vizinha estava no quintal.

– Agora vão ver se eu tinha ou não razão – começou por dizer Fátima.

– Por favor, retirem-se, que isto não é para brincadeira – ordenou Albano.

– Fui eu que denunciei este malvado, tenho direito de estar aqui, até porque vocês são apenas dois e ele ainda vos escapa.

– Minha senhora, nós estamos de arma na mão e isto pode correr mal; não é local para estar uma família e muito menos crianças.

– Mas qual a razão desta palhaçada toda? – retomou Bruno.

– O que tem enterrado aí? – inquiriu Ivo.

– E o que têm a ver com isso? Não posso fazer o que quero no meu quintal?

– Não complique. O que enterrou aí? – insistiu Albano – Quer queira, quer não, nós vamos verificar.

– Não têm esse direito, precisam de um mandado do juiz; eu sei dessas coisas.

– Não precisamos, pode crer que não precisamos; e se precisássemos, não sairíamos daqui até ele chegar. Agora decida como quer passar o resto da última noite do ano.

– Enterrei aqui uma parte de mim mesmo, apenas isso. Sou eu que está aí, debaixo da terra.

– Smigel, eu não disse? – comentou logo Fábio.

– Para piorar saiu-nos um paranoico. A coisa pode ser mais complicada. Vou pedir reforços – disse Ivo.

– Gémeos, afinal eles são dois, irmãos gémeos – concluiu Fátima. – Por isso ele era tão diferente de um dia para o outro. Ai meu deus, que ele matou o irmão.

– Não ligue – disse Cláudia a Ivo, de quem se aproximou, demasiado, na opinião do pai. – Isto são telenovelas a mais.

– Mas não era uma menina? – perguntou Albano, a coisa começava a ficar com enredo a mais para o seu gosto.

– Sim, dizia que não queria morrer porque era pequenina, mas a voz apesar de não parecer a dele, não era muito infantil. Se calhar o irmão tinha algum problema, na intimidade gostava de se sentir mulher. Por isso ele matou-o, por não conseguir enfrentar que o seu irmão, igual a ele mesmo, era gay. Aliás, uma das conversas que escutei ele dizia, não posso olhar mais para ti, é como se olhasse para um espelho estragado, cuja única solução é destrui-lo.

– Nunca falaste dessa, do espelho – reparou Artur.

– E eu podia lá contar tudo o que ouvia, só disse aquilo que era mais importante e, mesmo assim, não me levavam a sério, se não fosse o Fábio, que não desfazendo é muito esperto, tem a quem sair, ter visto ele carregar o corpo no jardim, ainda estavam a gozar comigo. Sabem lá as coisas esquisitas que ouvi nos últimos tempos, ainda ontem ele gritava que antes que a semente ruim medrasse havia que a desfazer para que ninguém olhasse a cor do pecado. Ah, não, não é o irmão gémeo, é a filha. Ele deve ter tido uma filha com uma irmã, uma relação incestuosa e agora matou-a. Realmente, no início vinha cá uma rapariga que até era parecida com ele, devia ser a mãe da criança.

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– Vamos parar com isto, que já está a ficar com filmes a mais. Meu amigo há duas formas de resolvermos tudo: ou algemo-o, esperamos pelos reforços e reabrirmos o buraco; ou o senhor, voluntariamente, cava de novo, e mostra-nos o que escondeu.

– Puta de vida! – comentou Bruno, enquanto apanhava a pá para começar a cavar. – Vamos lá acabar com esta merda.

Com a raiva como motor, em pouco minutos retirou toda a terra que cobria o objecto enterrado. Surgiu um saco preto, grande, com tamanho suficiente para conter um corpo de criança.

Quando Albano deitou mãos ao plástico negro e lhe fez um rasgão, o seu coração quase que lhe saltava pela boca; por muita experiência que tivesse, não estava preparado para ver um corpo de uma criança morta e esfacelada. Assim, foi com alívio que verificou a existência de folhas e mais folhas de papel, uns CD e algumas velhas disquetes.

– Afinal, parece que a criancinha assassinada é apenas um monte de lixo – disse Albano, feliz pelo achado.

– Se calhar é papelada de uma grande fraude – rematou, de imediato, Fátima. – Se calhar, ele é mais um daqueles que nos arruinaram e pelos quais estamos a pagar o bom e o bonito.

– E por que raio ele não queimava tudo, para que havia de enterrar as provas? – contra argumentou Augusto.

– Porque precisa disso para extorquir dinheiro, tu não vês que ele não é peixe graúdo? – explicou Fátima, como se conhecesse tudo ao pormenor. – Mais tarde, quando tudo acalmar, e a justiça nada fizer, ele vai apresentar toda esta papelada aos verdadeiros tubarões e sacar mais dinheiro. Claro que os tubarões, para recuperarem o dinheiro que pagaram, vão fazer nova falcatrua, e lá vamos nós pagar de novo o pato.

– Eu não acredito, afinal temos a razão do buraco das finanças públicas enterrada no nosso quintal, quer dizer, no dele, mas é quase a mesma coisa.

– Tu e as tuas piadas, só tu não seres Ribeiro, acham-se todos muito piadéticos. Se ele enterrou isto, algum problema tem.

– A senhora tem razão – interveio Ivo. – Temos que ver bem o que está aí. Ninguém no seu perfeito juízo enterra folhas de papel e discos. Provavelmente deve conter informação importante, provas de um outro crime.

– Vocês querem parar! – gritou Bruno. – Chega de tanta alucinação.

– Então explique a razão de tudo isto – pediu Albano.

– Simples, são escritos meu; é tudo o que escrevi ao longo da minha vida. Coisas que eu achava que seriam boas, mas que não passam de maus exercícios literários. Conservar isto para quê, para me atormentar ainda mais? Antigamente, escrevia para não enlouquecer, mas agora quero enlouquecer para não escrever. Quero arrancar essa parte de mim e enterrá-la, no sentido literal, que de metáforas já me chega as merdas que escrevi.

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– Mas podia cremar essa sua parte que quer destruir, dava menos trabalho, e agora não estávamos todos especados, cheios de frio, num quintal a poucos minutos da meia-noite – Cláudia interrompeu o seu silêncio.

– E aquelas vozes, a menina a dizer que não queria morrer? – voltou atacar Fátima, pouco satisfeita com o desfecho.

– Minha senhora, era eu a rever o texto em voz alta; claro que faço sempre um pouco de drama, para não tornar a tarefa aborrecida. Contentes? Será que posso voltar à minha vida normal; que eu saiba não é crime enterrar escritos.

– Bom, não estaria tão seguro. Por certo, deverá existir um regulamente qualquer que impede as lixeiras particulares; e o que meu amigo estava a fazer era, pura e simplesmente, criar um aterro pessoal, sem licenciamento.

E, de um momento para o outro, o tema deixou de ser crianças assassinadas, nem sequer fraude financeira, mas a mania de haver leis para tudo e para nada, que impediam as pessoas de serem livres. Até a família, outrora denunciante, acabou por tomar partido do vizinho, se ele queria enterrar a porcaria que escrevia, tinha esse direito; entre ser lixo numa livraria e ser lixo num quintal, era preferível esta última, sempre se poupavam os olhos de muitos.

Mais uns minutos, depois de convencerem os polícias que tudo fora um engano, a família e o vizinho ex-assassino estavam todos a comer um bacalhau requentado – venha até lá casa, não vai fazer a passagem do ano sozinho – e a esperar a chegado do novo ano; apesar de frustrado, sempre tinham um escritor como vizinho, era coisa para contarem no emprego.

– Eu sempre disse que a má literatura só atrapalha – disse Albano ao sair do carro, para se dirigirem ao bar dos pais do Ivo. – Vamos é comer as passas que daqui a pouco não faltarão bêbados para nos enguiçar a noite. Com um bocado sorte ainda apanhamos outra maluca com alucinações literárias a dizer que os vizinhos estão a conceber um plano para destruir o país.

Inicialmente era uma ideia para uma curta-metragem, depois acabou estrugido num conto. 

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Dezembro 31, 2012 8:11 am

    Ninguém é bom juiz em causa própria uns sobrevalorizam, outros desvalorizam em demasia. É um conto triste,ninguém morre de véspera, só o peru, continuo à espera… :), bom ano.

    • Bau P permalink*
      Janeiro 1, 2013 8:37 pm

      Não é triste, acabam todos a comer bacalhau com natas tinto 🙂

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