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De que temos medo quando temos medo?

Agosto 16, 2012

Fugimos do medo como o diabo da cruz, mas nunca deixamos de olhar para ele, não porque o queremos despistar, mas apenas para ter a certeza que nos persegue, que não foi embora. Porquê? Porque o homem sem o medo não existia.

É o medo que nos impede de cair no abismo. Ok, é uma frase pretensiosa, mas foi o que se pôde arranjar.

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Começamos bem pequeninos, a ter medo do papão; depois ele cresce connosco e vai mudando de formas. Seja ele

o lobo mau que quer comer meninas de vermelho – deve ter andado a visitar muito site de lingerie manhosa;

o T-Rex que é mau como as cobras, assim os efeitos especiais o permitam;

os zombies atolambados que mais parecerem ter saído de um grupo de rock dos anos 70;

os comunistas que comem crianças com cornflakes;

até mesmo um Deus irado que está pelos cabelos com os desvarios que andamos a fazer;

o certo é que o medo, não nos deixa paz, ora em sonhos, ora quando açoitamos a realidade, ele aparece para nos manter sossegado, e saber que daquela da linha para a frente não passamos, que ficamos cordeirinhos até à próxima diabrura.

E se não existisse o medo, conseguia o homem sobreviver? Talvez não, passado que é dos carretos, isto já tinha ido pelos ares. Basta lembrar os tempos da guerra fria: se os ianques e os sovietes não tivessem os glúteos apertados, o certo é que tinham carregado em todos os botões das bombas nucleares – qual desesperado que, na hora h de gravar o documento, o computador crasha e resolve carregar em todas as teclas – esta coisa tinha explodido toda, qual fogo-de-artifício em arraial minhoto; assim, com muitas luzinhas como vemos nos filmes.

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E precisamente por falar em filmes, o recém-estreado Uma Casa na Floresta, vem precisamente agarrar esta problemática pelos cornos, isto para ser meiguinho e não dizer que agarrou o bicho por umas partes mais baixas.

Um filme de terror tem o objectivo de nos excitar o medo, assim como um filme porno tem a função de nos excitar a libido. É certo que na ânsia de tanta excitação, por vezes o caldo entorna-se e o pessoal fica apenas com o entusiasmo de uma aula de bordados dada pelo Pacheco Pereira. De uma forma geral os filmes de terror – e os eróticos também – são primários, pouco elaborados e ao fim de 5 minutos já vimos tudo.

Assim, Uma Casa na Floresta, ainda que partindo do velho cliché de um grupo de jovens numa casa isolada, consegue subverter esses mesmos lugar-comuns através da sua sobre-exposição – numa espécie de 2012 do terror – e levar o medo até ao limite do impossível: a nossa sobrevivência (e mais não digo, para não spoilar). O que faz dele um filme de terror inteligente, divertido – sim, porque o pessoal diverte-se a ver sofrer os outros – e com um final bastante original.

De que temos medo quando temos medo? Que o medo nos abandone e que fiquemos mais próximos do fim; do vazio.

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Agosto 16, 2012 9:31 pm

    Muito bem descrito, sem dúvida que o medo serve de protecção e previne situações potencialmente perigosas. No entanto, por experiência pessoal, posso acrescentar que o pior medo é ter medo do dito. Não sei como explicar isto mas é uma sensação terrível por que passei há uns anos. Seria medo do futuro, da incerteza, mas acorda-se com medo do medo. Sobre filmes de terror, compreendo quem gosta da adrenalina que provocam, mas dispenso. Bom texto.

    • Bau P permalink*
      Agosto 16, 2012 9:37 pm

      Também não sou apreciador de filmes de terror, daí ter gostado deste, porque precisamente aponta outros contornos para o medo, com todas as alegorias desvairadas que este tipo de narrativa permite, claro. O futuro é sempre o medo maior, talvez por isso tentamos retardá-lo, por um lado, e confortá-lo, por outro.

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