Skip to content

O Papel da Memória

Setembro 16, 2012

Quem nunca desejou um dia, por um momento, esquecer tudo?! De repente, todos os relevos da vida a ficarem esmagados numa simples e lisa página em branco que, aos poucos, ganharia as cores transparentes dos contornos mudos do passado. 

523720_295632520535603_616078666_n

João já passara por muitos desses momentos clamados em desespero, mas nunca pensou que pudesse viver algum.

Ao descer os degraus daquela velha escadaria, sentiu uma enorme dor na cabeça. Parou imediatamente. Como se tivesse a despertar de um sonho sobressaltado, João não sabia o que estava a fazer ali, como fora lá parar, nem sequer quem era a sua própria pessoa; parado no meio da rua, com as mãos na cabeça, permaneceu, assim, durante largos minutos, perante a indiferença dos transeuntes que seguiam no seu passo calmo de Domingo, sem ligar àquela estranha figura perdida.

– Sente-se bem? – perguntou, por fim, alguém, ao vê-lo a deambular pela rua, como se estivesse num estado de hipnose.

João não respondeu, apenas o olhou fixamente com ar assustado. As palavras que pretendia dizer esbarravam num novelo confuso de ideias. Percebia as perguntas mas era incapaz de construir uma resposta lógica, talvez por não ter matéria para formar pensamentos; se nem sabia quem era, como poderia ele dizer se estava bem? O que seria aquilo de se sentir bem? Para saber, precisava também de ter a ideia do que era sentir, coisa que ele, no momento, também desconhecia. O passado diluíra-se completamente naquele imenso cinzento de nada que o abraçava desde há alguns minutos.

111119cr01

Por fim, as pessoas começaram a prestar atenção àquela heteróclita personagem que caminhava sem sentido, não porque a cidade não estivesse cheia de criaturas estranhas, mas porque não era normal uma pessoa daquela idade ir pela rua como se estivesse drogada; sim, drogado, porque se fosse apenas bêbado andaria com um certo desequilíbrio; o que não era o caso, seguia hirto, seguro nos passos, mas num rumo completamente labiríntico de avanços e recuos em sintonia com o seu olhar alucinado de perdido. Apesar da estranheza, nada fizeram: para quê preocupar-se com semelhante figura? Seria, afinal, mais um louco, e a cidade já tinha tantos.

Um chiar de pneus quase ditou o fim de tudo. João escapou por pouco.

– Quem sou eu?  – proferiu ele, por fim, num grito assustador como se tivesse arrancado a voz à mais profunda das ressonâncias.

111211cr01 (1)

A ambulância seguia no seu frenético e estrepitoso percurso.

– Olha, mais um – comunicou o enfermeiro ao condutor, depois de ter recebido via rádio um outro pedido de socorro.

– Mas onde é que isto vai parar? – respondeu o condutor, enquanto prestava atenção ao cruzamento, ia passar com o vermelho e todo o cuidado era pouco, havia sempre um distraído sem ligar ao som da emergência.

João deixara de ser um caso isolado. Naquela tarde fria e chuvosa de domingo, que todos julgavam calma – com as pessoas apenas a saírem para votar e a regressar depressa para casa –, começavam a ser detectados vários casos de amnésia repentina. Ainda que também tivessem surgido situações semelhantes dentro de casa, era maioritariamente no meio da rua que algumas pessoas cortavam a ligação com o seu passado e ficavam perdidas no tempo presente, sem saber para onde ir e o que fazer. Aos hospitais começavam a chegar os primeiros casos da enfermidade do esquecimento.

Paranóia colectiva; foi, assim, a primeira explicação. Vários especialistas inundavam os noticiários na tentativa de elucidar a razão de tão misterioso acontecimento, mas só quando verificaram que a patologia se estendia já a várias cidades e a umas largas centenas de pessoas num curto espaço de tempo, é que foi dado o sinal de alarme: uma epidemia de amnésia estava em curso. Origem? Desconhecida.

Claudia-Rogge-Camouflage-I-2007-full

Quando a estranha doença deixou o cidadão comum e começou a afectar figuras públicas, nomeadamente políticos, assumiu-se de vez a pandemia da tragédia. O pânico veio a seguir. Não se sabe se com medo de ficarem contaminadas, se à espera da sua condenação divina – mais tarde ou mais cedo o castigo acabaria por chegar –, as pessoas começaram a ficar em casa, passivas e em silêncio. O país, com elas, adormeceu num falso sono litúrgico, em jeito de reino amaldiçoado de um qualquer conto infantil; se a imagem do passado estava à beira de se apagar, não havia, então, porque construir a do futuro. O próprio presente consumia-se no esquecimento: ao haver cada vez mais gente afectada, as notícias começaram a escassear – os jornalistas não escapavam à epidemia – e com a sua ausência abriu-se o caminho à perda da noção de existência. Os jornais fecharam, as rádios passavam música contínua e as televisões apenas transmitiam programas enlatados, como se houvesse apenas um funcionário de serviço – um robusto de imunidades – que colocasse as cassetes e carregasse nos botões.

O país foi declarado de quarentena: ninguém entrava, ninguém saía. Forças multinacionais mantinham a ordem e o controlo nas fronteiras. Nenhum outro país queria ser contaminado com tão estranha patologia, em que toda uma população esqueceu quem era, o que fazia e o que queria ser.

As televisões do mundo inteiro, que começaram por informar com grande alarido a epidemia de amnésia, foram, aos poucos, esquecendo o estado clínico do território; outros acontecimentos conquistaram as atenções da venda de notícias, apenas quando surgia alguma situação caricata, fruto de comportamentos ridículos motivados pela falta de memória, voltavam a fazer referência ao assunto. Até que um dia, o caso voltou a ser notícia de abertura: uma equipa de cientistas descobrira a origem do mal.

Claudia-Rogge-ISO-100102

– Um vírus no papel – anunciou a pivot loura, de lábios brilhantes e rasgados. – Ao que parece, um estranho vírus que se alojou em determinados papéis provocou a pandemia de amnésia. Tudo começou com os boletins de voto naquele domingo de eleições, onde milhares de pessoas, depois de votarem, foram infectadas e começaram o processo de esquecimento acelerado. O mesmo vírus foi também detectado em muitos gabinetes ministeriais, o que levou a que quase todos os membros do governo, mesmo aqueles que escaparam ao vírus no voto, fossem infectados. Os cientistas afirmam que, apesar de ainda não ser conhecida a génese do vírus, ele não se propaga em todo o tipo de papéis; além dos já referidos, apenas no papel utilizado em alguns jornais e órgãos de comunicação social se encontrou também o vírus. Conhecida a origem da doença, falta agora descobrir a sua cura, mas sobre esta matéria, os cientistas ainda não têm nenhuma palavra a dizer.   

João tropeçou em várias pessoas caídas no corredor daquele hospital, onde as próprias paredes também já estavam votadas ao esquecimento. Um pequeno caos figurava naquele labirinto de espaços em que se perdia todos os dias. Na pouca memória que conseguira obter começavam a figurar os contornos de toda aquela área que ele percorria, sem rumo, desde há algum tempo; costumava fazer grandes caminhadas através dos longos corredores, como que a verificar o limite dos seus domínios. Num dos seus trajectos viu um gabinete que, normalmente fechado, tinha, naquele momento, a porta aberta. A curiosidade fê-lo entrar, talvez para alargar um pouco os limites do seu horizonte e ganhar, assim, novo território. Verificou que a desordem também reinava por ali; papeis e móveis estavam todos desarrumados, o que de imediato lhe tornou o ambiente familiar; o caos era das poucas imagens que nos últimos tempos conseguia reter. Aos poucos, tacteou os objectos que ia descobrindo, como que a aprender os seus códigos. Pegou numa caneta, olhou-a e gostou dela. Ao deixá-la cair verificou que ela fez um pequeno risco numa folha de papel. Achou piada.

Sentou-se à secretária, pegou novamente na caneta e fez com ela uns rabiscos na folha de papel. De repente – pensou que por magia –, começaram a sair figuras estranhas na sua escrita, um conjunto de caracteres esquisitos; para sua surpresa começou a entendê-los, eram palavras e conseguia ver significados nelas. À medida que a sua mão libertava palavras e palavras na folha, João começou a ler. O seu nome completo estava escrito; mais, a sua data de nascimento e a sua morada também já tinham visto a nova luz do dia. Assim, tudo aquilo que antes lhe parecia cinzento e frio ganhou calor com as cores das palavras.

Claudia-Rogge-Meutale-2006-full

Folhas e folhas foram preenchidas. João lia em voz alta como se declamasse. A História da sua vida começava finalmente a estar toda ali, na sua escrita e, ao mesmo tempo,  na sua memória que perdia, assim, aos poucos, toda a lisura cinzenta dos últimos tempos e ganhava de novo o relevo colorido do seu passado. Abriu a janela e decidiu pintar a paisagem.

Escrito em 2008, teima em manter uma certa actualidade.

Fotos de Tommy Ingberg e Claudia Rogge.

Anúncios
2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Setembro 16, 2012 7:04 pm

    Não tem estrelas que cheguem! Sabe quem poderia ter escrito isto, não sabe? Alguém muito especial para mim e para muitas outras pessoas.Muito bom , excelente. Parabéns.

    • Bau P permalink*
      Setembro 16, 2012 7:26 pm

      Muita gente o poderia ter escrito; se calhar já muitos escreveram algo parecido e muito melhor que eu. Apenas ficou a intenção de “metaforizar” esta amnésia que por vezes nos corrói.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: