Skip to content

Sei quem ele é, ele é bom rapaz

Novembro 27, 2012

Gestor do ano.

Aplausos; muitos aplausos. Ele levantou-se, apertou o casaco de fino corte, a respirar nome italiano, e dirigiu-se ao palco.

Foi com orgulho que pegou na pequena peça de acrílico – de um designer de excelência – e agradeceu a distinção. Soltou umas palavras em jeito de discurso – como era difícil aparentar espontaneidade numa coisa tão ensaiada, estivera durante toda a tarde na casa de banho, em frente ao espelho, a afinar as piadas –, fazendo o favor de reconhecer o trabalho da sua equipa, ainda que achasse que tudo se devia exclusivamente a ele, e regressou ao lugar.

Sentiu-se orgulhoso por ser considerado um gestor de excelência; também outra coisa não seria de esperar, fizera todo um grande trabalho na recuperação da empresa. Ainda há pouco tempo tudo parecia perdido – uma falência quase inevitável estava no ar – e agora, graças à sua brilhante gestão, o futuro era promissor: estavam à beira de liderar o mercado.

Os cumprimentos no final da gala foram muitos. Ele sorria, agradecia e mostrava um ar de pouca importância; a falsa humildade dava-lhe uma maior superioridade. Sim, ele era superior, sabia que estava acima de todos os que o rodeavam. Sempre fora um trabalhador exemplar, rigorosíssimo em tudo o que fazia. Eficácia e eficiência eram os seus apelidos.

A contragosto foi à festa que se seguiu, uma recepção para todos os vencedores e nomeados dos prémios de economia do ano. Já conseguira o que ambicionava. Agora era tempo de chegar a casa e partilhar tudo com o seu amor. Agarrar-se a ela -precisava de a ter nos seus braços, de enroscar-se e saborear o seu corpo – era o que lhe faltava para coroar a glória daquela noite.

Ela era o seu cais, onde afogava o frenesi dos seus dias. Depois de horas e horas de trabalho árduo, só o seu calor, a sua ternura quente e dócil lhe davam forças para continuar.

Queria-a mais do que tudo.

O desejo louco de a ter fazia com que a festa começasse a ficar insuportável. Chegar a casa era tudo o que ansiava.

– Então, já vais? – comentou um colega, quando ele já estava a vestir o sobretudo para sair. – Vejo que não perdes tempo para ir ter com aquela cabra.

Ele, a espumar fúria, agarrou o colega e encostou-o à parede.

– Ela não é uma cabra, ouviste? Não é uma cabra! – gritou-lhe junto à cara.

Tinha razão; não era mesmo uma cabra.

image

Mal entrou em casa, desenvencilhou-se da roupa e correu para o quarto que tinha na cave. Lá estava ela, no meio de um pasto improvisado, Ingrid, a sua ovelha querida.

Antes de se fundir nela, e matar o desejo que lhe consumia as carnes, mostrou-lhe o prémio. Ingrid nada disse, nem sequer um ligeiro balido emitiu. No entanto, ele sentiu que ela estava orgulhosa. Só podia estar. A sua lã estava mais macia do que nunca.

Ao ler esta notícia – Abuso de animais na Alemanha – foi quase impossível não delirar umas linhas sobre isto; foi superior a mim.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: