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77 Palavras

Dezembro 26, 2012

77 Palavras não são uma praga bíblica – do género, de só disporem de 77 palavras para comunicarem até ao resto da vida, sendo que, no dia em que proferissem a última, morreriam – nem tão pouco o refrão de uma canção encharcada em romantismo, para se cantarolar num bailarico de romaria. Não; é apenas o título e a regra mestra do blogue da Margarida Fonseca Santos (Aqui).

No blogue 77 palavras publicam-se histórias de todos, apenas com uma condição: têm que ter exactamente 77 palavras – há que ser coerente nestas coisas Sorriso.

Além da regra principal, existem desafios propostos pela Margarida para se construírem narrativas segundo um determinado modelo. Foi com base nestes desafios que entrei no jogo.

Assim, deixo ficar o meu pequeno contributo nesta brincadeira de palavras durante o ano de 2012.

***

Desafio:

Escrever um texto que acabe em: Que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata…!

BARATA

Era barata. Peguei nela e nunca mais a larguei. Vi que todos me olhavam de uma forma estranha. Quem se atrevia a semelhante coisa, especialmente naquele dia? Não liguei e continuei a minha caminhada, confiante.

Cheguei à caixa e paguei.

Só quando entrei em casa e aquela a quem já tinha batizado de Bárbara (uma gata negra como o breu) saltou para a prateleira dos cristais, entendi.

Que mais poderia esperar de uma sexta-feira 13? Era barata…!

***

Desafio:

Abrir um livro de que se gostasse muito ou que se estivesse a ler no momento. Procurar  uma frase ou parte de frase que, nessa página onde caiu, nos chamasse a atenção e que tivesse no máximo dez palavras (pode ter menos: cinco, três, oito…).

Escolhi “Não queres vir hoje comigo fazer amigos?" do Clube das Encalhadas da Catarina Fonseca.

Fazer Amigos

Madalena era bonita. Esperava por ela, todos os dias, à saída da escola; mas não lhe dizia nada. Espreitava-a, seguia-a, ao longe, até casa. Ensaiava com ela grandes conversas imaginárias.

Um dia, ela não saiu da escola; apareceu-me por detrás.

– Não queres vir hoje comigo fazer amigos? – disse-me Madalena, assustando-me.

Nada disse, fui com ela; os meus passos responderam que sim.

Naquela tarde passeámos até tarde; não encontrámos amigos para fazer, apenas nós. Casei com ela anos depois.

***

Desafio:

O Texto tinha que dar uma atenção especial a uma palavra que se adorasse, detestasse, que nunca se usasse ou que nos dissesse muito. Escolhi Liberdade.

Liberdade

Amava-a mais do que tudo. Por ela lutei, gritei, zanguei-me e até maltratei. Ela ouviu-me; veio tímida, de mansinho, e instalou-se. Aqueceu-me o sangue. Senti-me feliz por viver com ela.
De a ter sempre ao meu lado, quase me esqueci como era importante e única para mim. Triste, não chegou a partir, apenas me começou a ignorar e a tornar-se vulgar na mão dos outros. Desesperado, voltei a chamar o seu nome: Liberdade, porque te escreves assim?

***

Desafio:

Escolher duas palavras simétricas e desenvolver a história com ambas.

Perigo em Marrocos

Socorram! – alguém gritou. Pensei em perigo; por terras estranhas pensamos que há uma ameaça em cada esquina, como se a selva se abrisse assim que abandonássemos o nosso bairro.

Não me enganei: vi uma mulher a ser arrastada para um carro. Armei-me em herói – a cobardia também fica guardada no nosso bairro – e corri até ela. Olhei para o corpulento raptor e começou-me a passar a heroicidade.

Corta! Tirem-me esse anormal de cena – disse o realizador, naquela tarde quente em Marrocos

*** 

Desafio:

Palavras proibidas. Escrever uma narrativa que não incluísse as seguintes palavras “imprescindíveis” : não que mas pois como verbos: estar + ser

Cuidados de Coração

Ela veio sem muita conversa, sem nada explicar; sentou-se ao meu lado e convidou-me para dançar. Aceitei, gosto de mulheres sem medo de começar.

Pouco falámos, apenas dançámos; a música e o corpo têm língua própria para namorar.

No dia seguinte, passei na sua janela e assobiei para ela espreitar. Espreitou, olhou e convidou-me a entrar. 

Lá dentro, mostrou-me uma caixa, bonita de encantar. Abri-a: tinha um coração a saltitar. Ela sorriu e pediu-me para o cuidar.

***

Desafio:

Escrever uma história que contivesse diversas palavras que fossem anagramas. Escolhi: vales – selva – velas – Elvas – levas

Surpresas

Não sei se por montanhas ou vales, mas cheguei lá; um telefonema urgente pedira a minha presença. Abri a porta: era a selva. Tudo estava revirado, como se uma manada tresmalhada tivesse passado por ali. Será que me tinha enganado? Para ver melhor – a luz falhara – acendi duas velas. Sim, estava no rés-do-chão do velho prédio de Elvas, meu eterno conhecido.

Quando gritaram “surpresa” e acenderam as luzes, desmaiei.

Levas tudo tão a sério! – disseram-me no hospital.

***

Desafio:

A partir da imagem abaixo construir o micro-conto.

image

Sopa de estrelas

Leu a receita com atenção. Misturou todos os ingredientes – não fora fácil encontrá-los. Esperou uns minutos, mas nada.

Onde teria falhado? Colhera todas as estrelas que estavam penduradas no céu nessa noite, como pedia o receituário.

Mas agora, dentro do caldeirão, pareciam mortas; a sopa de estrelas que queria oferecer – para acender os corações – cheirava a sombra.

Desesperado, de mãos na cabeça, nem reparou que um vapor cintilante se espalhava, iluminando a alma de quem o sentia.

***

Desafio:

Arranjar uma frase (ou conjunto de duas/três frases) cuja ordem de palavras seja simétrica.

As palavras finais

Viver? Não tens nada; sim, nada tens, não viver

A campainha interrompeu a saída das palavras “é a única solução”. Custara-me imenso ter chegado aquele ponto; foram muitas horas a pensar como ia terminar, a sofrer as palavras finais, e agora um simples trrim atrapalhara tudo.

– Margarita, certo? – perguntou o rapaz, quando abri a porta.

Como podia ser tão estúpido e ter encomendado uma pizza, precisamente no momento em que fechava a frase final do meu romance.

***

Desafio:

Contar uma história a partir das seguintes palavras e respeitando a ordem: Leitão → rolha (cortiça) → almofariz → despertador →bola de ténis → vespa → papel. (o meu preferido)

Quero ser Doutor

Era uma vez um leitão que ansiava ser porco, mas o tempo andava devagar, parecia uma rolha que lhe tapava o almofariz do crescimento. Um dia, qual despertador, a campainha das ideias tocou; mais rápido que uma bola de ténis, mais sinuoso que uma vespa, voou até à cidade.

– Quero ser doutor, de papel passado – disse ele, quando, na universidade, lhe abriram a porta. – Tem que ser rápido, num dia.

Pura magia: ao sair já era porco.

***

Desafio:

Escrever a história partindo da imagem ou situação criada pelas frases abaixo:

Estão duas melgas à conversa: uma gorda e outra escanzelada.

A certa altura, o perigo chega. Que fazem?

Melgas modernas

Começou por evitar coisas que engordavam: espelhos, fotografias e balanças. Depois, insatisfeita, entrou nas dietas malucas. Ao fim de algum tempo, a melga Arabela ficou esbelta, ao contrário da amiga Felisbela que engordava a olhos vistos.

O pior foi quando, já escanzelada, capaz de desfilar no Moda Lisboa, começou a perder forças.

Faz como eu  – aconselhou Felisbela -, vai ao shopping, não falta gente com bom sangue.

Foi; engordou. Só não contou com o colesterol que ganhou. Morreu.

***

Desafio:

Para escrever a história primeiro há que procurar sete palavras respeitando esta regra: cada palavra nasce da última sílaba da palavra anterior.

Abandonados

Abandonados; expulsos. De repente, o sossego de anos foi-se. O ego, mais que esfrangalhado, sofrera um golpe profundo: como puderam ser tão pérfidos assim, despedir sem aviso prévio, sem indemnização? Era dose a austeridade alemã, sabiam disso, bastava ler os jornais, eles sempre tiveram a mania que mandavam no mundo, qualquer um.

Sem mais lamentações, pegaram nas suas coisas, olharam pela última vez o menino – tão lindo! – e, a vaca e o burro, disseram adeus ao presépio.

***

Desafio:

Fazer uma dedicatória a alguém (que se ama, se deteste, se venere, que mereça ouvir das boas, etc)

Amigos

Ainda mal chegara e já estavam ali, na sala: uns sorridentes, outros não; uns comentadores por tudo e por nada, outros não; uns vistosos, a mostrar as diversas cores da vida, outro não; uns revoltosos, a destilar as agruras do mundo, outros não. Todos simpáticos, afectuosos e vivos comigo; perfeitos.

Amigos.

Muitas festas, brincadeiras e revoluções são feitas naquele espaço de tempo em que nos encontramos.

Depois, a vida bate à porta, fecha-se o computador e adeus.

***

Desafio:

Descobrir quatro palavras obedecendo a esta regra – depois de escolher a primeira palavra, a segunda terá as letras da anterior, acrescentado algumas novas; a terceira mantém as letras da segunda, acrescentando mais umas; por fim, a quarta, que será a última, terá as letras da terceira, mais umas novas.

O Jogo

Assim não vale, protestou.

Tinha razão, o valete apresentado sobre a mesa era carta guardada na manga.

O outro não se incomodou com o protesto, sentiu-se valente, ganhara o jogo e isso era o mais importante. Sempre houvera batota nos jogos, desde o início, ambos sabiam disso.

Sem mais discussões, o resultado não era relevante – há muito que o perdedor fora definido -, levantaram-se e, na velha casa dos deuses, carregaram no botão vermelho que dizia: Terra Fim.

***

Desafio:

Simples: incluir o Natal na narrativa.

Cheiros

Abri a porta do quintal e a velha oliveira lá estava, com os seus ramos onde, há muito, pendurara um baloiço; voltei a voar naquele instante.

Procurei o tanque, mais afastado; ainda que rachado e vazio, vi-o cheio de água cristalina, a mesma que me ensinou a nadar.

Mais um pouco e até consegui ouvir o Piruças a ladrar.

Fechei a porta. Não há melhor máquina do tempo do que os cheiros da cozinha, especialmente no Natal.

***

Desafio:

Simples: incluir o Ano Novo na narrativa.

Tradição

O ano correra mal; o próximo seria pior.

Grandes males, grandes remédios. Assim, naquela noite, nada faltou: dozes passas numa mão e panela na outra; empoleirado numa cadeira; vestido de branco com cuecas vermelhas. Tradições a rodos, o ano só poderia ser excelente.

No entanto, no hospital – quando ele entrou com o coxis partido, por ter caído da cadeira com o engasgue das passas -, ao questionarem a razão do acidente, estranharam a resposta: tradição a mais.

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3 comentários leave one →
  1. Dezembro 26, 2012 8:50 pm

    Assim está um espanto! Boa!!!

    • Bau P permalink*
      Dezembro 26, 2012 9:57 pm

      Mas foram roubados à casa original 🙂

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  1. 77 Palavras – O Regresso | A Sombra das Imagens

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