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Uma Orgia ao fim da rua

Agosto 26, 2012

No que pensa uma mulher quando se apanha sozinha em viagem? Compras. E o que pensa um homem? Sexo. Não adianta negar, vem escrito nos genes; mal um gajo se apanha além fronteiras, liberto das amarras, só pensa em soltar a franga, que é como quem diz, abrir a porta ao Casanova que há em si.

Pedro escutou aquelas palavras e não ousou contrariá-las, não que concordasse com elas, mas rebater o seu amigo e colega Bernardo era uma tarefa inglória, especialmente quando ele vinha com as suas retóricas sexistas, bem exacerbadas; ainda mais agora, que o erudito tinha um blogue onde despejava as suas teorias de pacotilha sobre comportamentos.

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 – É por isso que eu arranjei um programa fantástico para a nossa ida a Barcelona – anunciou Bernardo. – Vai ser de arrasar.

– Vê lá no que nos metes, olha que eu quero paz e sossego – avisou Pedro, já a temer que se complicasse uma simples viagem profissional de 2 dias para assistirem a workshops chatos de marketing, reuniões em cadeia onde se tiravam conclusões muito engraçadas que, depois, se esqueciam de imediato quando se regressava a casa.

Bernardo, como sempre, tinha uma teoria sobre estes encontros profissionais: seriam uma espécie de recreio empresarial, onde os mais durões, chefes e afins, se exibiam nas brincadeiras, para mostrar que eram inteligentes, e obrigavam os mais fracos, os funcionários normalizados, a fazer parte da reinação; salva-se o joguinho quando havia algumas colegas tolhidinhas de boas, dizia ele.

– Aquilo vai se um aborrecimento completo. Eu estive a ver a listagem do pessoal participante e é uma grande seca; no nosso grupo estão dois alemães convencidos que mandam em tudo, ainda não lhes passou a mania do Fuhrer. Bom, então as gajas são uma miséria completa, desta vez os deuses não estão connosco, só vão três e duas delas, já as conheço, são uns autênticos estafermos. O melhor é tratar da nossa vidinha fora dali. Estive a ver umas coisas na net

– Eu não quero saber nem ouvir. Ainda me lembro da última cena que me arranjaste; por um triz, não acabei em cuecas num cocktail, tudo porque o menino baralhou as estações.

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Não tinha sido propriamente uma baralhação, mas sim uma partida que uma dinamarquesa fizera a Bernardo, por este ter passado todo o congresso, em Copenhaga, a assediá-la com doses maciças de charme lusitano. Assim, a loura escultural, cansada de o ouvir, disse-lhe que se ele realmente era ousado, então que aparecesse na festa onde ela ia naquela noite, evento muito especial em que o dress code seria apenas a possibilidade de ter no corpo uma única peça de roupa à sua escolha; enfim, modernices dinamarquesas. Claro que Bernardo, para não ser só ele a fazer uma possível figura de idiota, caso a coisa corresse mal, convidou o amigo para ir também. À hora marcada compareceram ambos no local marcado e, logo que passaram a entrada, começaram a tirar a roupa junto ao bengaleiro. Não fosse a empregada – dividida entre a completa estupefacção com o que via e um enorme ataque de riso – os ter mandado parar naquele striptease imprevisto, e eles teriam feito uma grande entrada, quiçá inesquecível em toda a Copenhaga, na apresentação do livro de um dos principais escritores dinamarqueses; Pedro, mais tímido, de boxers e Bernardo apenas com gravata, para arrasar logo à entrada, tinham, assim, previamente, definido o seu código de vestimenta.

Bernardo não ligou à provocação e continuou:

Mau-mau, mau-mau! Não te armes em pudico. Vais agora dizer que não gostavas de um pouco de folia? Conheço-te bem, sei que, apesar desse ar de sonso, estás sempre mortinho por uns caldinhos.

– Uma coisa é rambóia, outra coisa são os teus esquemas, que, com mais um pouco, ainda nos põem na primeira página de um pasquim qualquer; isto na melhor das hipóteses, porque a mais certeira, é acabarmos na esquadra da polícia por causa de uma escandaleira qualquer. Mas ok, diz-me o que andaste a congeminar.

– Qual é a tua maior fantasia?

– Porra, sei lá! Achas que no meio da análise desta pilha de contratos eu consigo reflectir sobre os meus desejos secretos? Poupa-me!

– Ok, poupo-te então ao confessionário. Sabes, eu já fiz muita cena, já pintei a manta de todas as maneiras, mas há uma coisa que nunca fiz e ando com a pulga a picar-me: participar numa orgia. 

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Pedro não caiu da cadeira, mas não deixou de entornar o copo de água num dos contratos; irra!, já tinha que ficar até mais tarde para compor aquilo.

– É isso pá, uma loucura total, chegar ali e tudo ao molho – reafirmou Bernardo, um pouco deliciado com a atrapalhação do amigo. – Já tratei de tudo. Estive a ver na net, há um site sobre um grupo em Barcelona onde nos podemos inscrever; marcamos a noite e pronto, aparecemos.

– Eu não quero acreditar que estejas a falar a sério. Já te imaginaste, realmente, numa coisa dessas, ainda por cima em época de doenças?!

– Ouve lá, andas a ver muitos filmes porno. Aquilo é quase inócuo, é mais mexer, reboliço e tal, do que fornicanço puro. Além disso, há uma coisa chamada camisinha, já ouviu falar?!

– Uma coisa na net!? Sabes lá onde nos podemos meter, tu não viste aqueles filmes de terror, tipo Hostel e coisas assim? Gajos que, em sítios desconhecidos, se deixam cegar pela tesão e depois acabam pendurados como porcos num talho.

– Deixa lá os filmes; aquilo pareceu-me ser coisa segura. Há uma pré-inscrição e tem lá a morada deles e tudo, pelo que vi é um grupo conhecido que costuma arranjar umas faenas destas.

– Bernardo Pimentel, sabes que mais? Cura-te!

Mas Bernardo não procurou nenhuma terapia; pior, levou adiante a ideia e inscreveu-se a ele e ao amigo na dita orgia. Como sempre, inventou todo os dados ao preencher o pequeno formulário electrónico; ainda que não inventasse, o resultado não seria muito diferente, pois, como tudo estava em catalão, não entendeu muito bem o que lhe era solicitado.

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Na viagem até Barcelona pareciam duas crianças excitadas com as aventuras que iam fazer nas férias; até Pedro, que rejeitara a ideia, mal se apanhou no avião, começou a ficar entusiasmado com a hipótese de experimentar toda aquela loucura.

Assim que chegaram ao hotel, o tom eufórico começou a desvanecer-se: havia confusão nas reservas e só tinham um quarto marcado; a situação piorou quando chegaram aos aposentos e viram que a cama era enorme, mas de casal. Não adiantou reclamar para a recepção, do outro lado só escutavam: completos, estamos completos.

– Começa bem, para quem vinha para a rambóia total com todas las chicas del pueblo, acabámos juntos, os dois mânfios, na mesma cama – desabafou Pedro, sentado num cadeirão, sem vontade de desfazer as malas.

– Deixa lá, amanhã arranjam-nos mais um quarto – sossegou Bernardo. – Além disso, também não era aqui que íamos fazer a festa.

– Era a última coisa que me apetecia, dormir contigo. Não vou fechar olho.

– Está descansado pá, mesmo que eu um dia virasse para o outro lado, não ia querer nada contigo; já que virava, ao menos queria coisa de primeira água – brincou Bernardo. – Não é por nada, mas não fazes propriamente o meu género.

Pedro sorriu; por um lado sentiu-se aliviado ao saber que podia ter uma noite serena, por outro ficou com o seu ego um pouco em baixo, não gostava de ser, assim, desconsiderado, ainda que não quisesse tais propósitos. Arrumaram depressa as coisas e fizeram-se à cidade.

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À saída do quarto, no corredor, esbarraram numa empregada da limpeza que, ao ver quem tinham saído da suite matrimonial, lhes lançou um sorriso maroto.

– Eu nem quero acreditar que estamos a passar por um casalinho – voltou a lamentar-se Pedro, no elevador, enquanto se olhava ao espelho e verificava se realmente não era de primeira água.

– Que ideia! Tu achas que alguém ia acreditar que um tipo como eu, podia andar com um fulano como tu?!

Mais um comentário assim e Pedro, quando regressasse a Portugal, tinha que iniciar sessões de psicoterapia em cadeia para desenterrar a auto-estima; no entanto, na rua, depressa virou as atenções para outro lado quando Bernardo lhe apresentou a sugestão da noite:

– Como temos que estar frescos para a sessão de trabalho amanhã de manhã, e depois finos para a grande festa da próxima noite, o melhor é fazermos uma coisa simples e regressarmos relativamente cedo. Vamos apenas jantar e pronto.

Pedro não queria acreditar no que ouvia: o seu amigo Bernardo a apresentar um simples e banal programa nocturno. Devia estar doente, por certo; ou será que afinal estava a ficar curado da sua enorme pancada de tarado sexual? Não, a patologia erótica mantinha-se: o jantar ia ser num restaurante coqueluche, segundo alguns guias da capital catalã, onde a comida, supostamente afrodisíaca, era servida por belas empregadas em topless e fio dental. 

– Vamos carregar baterias para amanhã à noite – justificou Bernardo, um pouco antes de chegarem ao restaurante. 

– Para quem vai ter que dormir na mesma cama, não sei se será boa ideia esta cena de arranjar excitação extra – disse Pedro, mais uma vez receoso com a ideia de ter que compartilhar a leito com um homem.

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O problema de Pedro com uma provável libido desgovernada ficou de imediato solucionado, assim que entraram no restaurante: aquela noite era ladies night; as supostas ardentes empregadas, em lingerie diminuta, tinham sido substituídas por uns matulões de bíceps insuflados e quase desnudados, apenas usavam uns boxers justos e curtos, de cetim lilás; já para não falar da clientela, ruidosamente feminina na sua maioria e alegremente masculina em minoria.

– Pelo menos não falta mulherio, pode ser que ainda nos toque alguma coisa – tentou consular Bernardo, perante o desalento e o incómodo de Pedro ao ver a forma como ia ser servido.

O problema é que se houvesse o tal toque, por certo, não seria da ala feminina, mas sim, de uma outra, mais alternativa, que, além de vibrar com o desfile dos empregados, fazia a barba todos os dias; afinal, dois tipos numa mesa, na noite em que o corpo masculino era a estrela, só podiam mesmo captar o olhar dos alegres congéneres, e nunca o das mulheres, que apenas os viam como mais um casalinho inacessível.

– Não percebo aqueles tipos, estão ali os dois de beijos e abraços, mas não param de olhar para nós – comentou Bernardo, já um pouco desconfortável com a investida à distância. – Não chegam um para o outro? Parece que ainda querem mais.

– Então, não eras tu que querias uma orgia? – ironizou Pedro. – Se calhar eles também. Será que não se inscreveram na mesma festa? Vê lá!

– Até podem lá estar, mas não vão faltar mulheres, eu vi umas fotos de festas anteriores no site.

– Fotos, mas os gajos publicam fotos? – perguntou Pedro, engasgando-se com um pedaço de beringela com queijo, que já lhe estava a custar passar na garganta pelo facto de ela vir montada numa forma fálica.

, devem ter tirado só algumas como exemplo, para as pessoas verem como aquilo é. Além disso, já te disse que o pessoal está todo nu, mas tem uma máscara.

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Se o jantar já estava a ser desconfortável, naquele momento ficou aterrador; Pedro não parava de pensar na festa, como é que ele ia andar nu no meio da multidão, de mascara ridícula na cara, com o risco de poder ser fotografado? Se um dia se soubesse de tudo aquilo lá para os lados das terras lusas, não só Paula, sua mulher, lhe punha a mala à porta, como a sua querida mãezinha dava entrada numa urgência hospitalar em estado terminal. No entanto, os pensamentos sinistros depressa lhe passaram – substituídos por outros de pânico – quando reparou que tinha quase uns glúteos espetados na sua cara; um empregado fazia uma dança especial com as ancas para as clientes da mesa ao lado e, num dos passos mais acrobáticos, espetou o seu traseiro de ginásio em direcção à mesa de Pedro.

– Ainda bem que estes gajos se depilam – observou Bernardo.

– Porquê, na tua primeira água não podem estar peludos?

– Engraçado, vejo que amofinaste com aquilo de não seres a minha primeira água.

Pedro não respondeu à provocação, sugeriu que fossem embora, estava com vontade de ir à casa de banho e a ideia de o fazer no restaurante assustava-o um pouco; não queria ter encontros imediatos de terceiro grau com a clientela masculina presente, ainda por cima num local onde se baixava as calças. Mas como a conta demorou e pressão urinária não sossegou, Pedro acabou por ir às instalações sanitárias daquele espaço.

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Entrou a receio; aparentemente não estava ninguém. Dirigiu-se imediatamente ao urinol. Quando estava a meio da sua libertadora função sentiu que a porta de uma cabine se abriu. Não olhou, tentou manter-se tranquilo, apesar de se aperceber que podia ser contemplado directamente naquela situação por quem estava nos lavatórios. Esse facto provocou nele uma certa contracção, dificultando-lhe o final do acto; por fim, com algum esforço chegou ao epílogo do alívio. Terminada a função, apertou as calças, voltou-se e dirigiu-se ao lavatório. Ficou para morrer. Ao espelho, estava uma bonita mulher a retocar a maquilhagem.

Perdon, tive que venir aqui  – disse ela. – La nuestra estava completa e yo aborde de me mear.

No problema – disse Pedro, aliviado e embaraçado, ao mesmo tempo, por a invasora ser uma mulher.

Vale, hoy somos todas chicas por aqui, non?!

Antes de sair, e depois de ter guardado a maquilhagem na carteira, a espanhola deu mais uma olhadela para Pedro:

Poes, en outra encarnacion, se te vienes al outro lado de la fuerza, llama-me. Es que estás mui bueno, hombre! Que malgastar, por Díos!

Bernardo estranhou a boa disposição com que Pedro voltou da casa de banho, mas nem perguntou a razão; melhor não saber.

Chegados ao quarto iniciou-se o processo mais complexo da noite: dormir na mesma cama. Sem terem combinado nada, adoptaram a mesma estratégia, dormir, cada um, junto à sua beirinha, no limite do abismo do colchão; assim, não havia o perigo de nem os hálitos se tocarem. Resultado: foi uma autêntica noite em que choveram homens no chão; pelo menos, assim pensaram os ocupantes do quarto de baixo, que passaram a noite a ouvir ora um, ora outro, a cair da cama. Tal foi o número de quedas – ao mínimo movimento do sono, iam pelo abismo abaixo –, que os hóspedes do quarto do piso inferior fizeram queixa, na manhã seguinte, na recepção pelo reboliço da noite. Mais uma vez, Pedro e Bernardo tiveram que levar com um sorriso maroto do concierge, que lhes pediu para serem discretos.

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Felizmente que era um novo dia e tinham um workshop pela frente. Durante as sessões poderiam ter anunciado as suas promoções a vice-presidentes que eles nada notariam, tal era o estado embrenhado dos seus pensamentos com a grande e explosiva festa que os esperava à noite.

Foi com alguma dificuldade que se livraram do programa cultural que a organização perspectivara para a noite: um jantar de comida catalã no El Mussol, com ida posterior ao teatro para assistirem a um dos muitos espectáculos de vanguarda que animavam Barcelona. Inventaram uma desculpa de um jantar com familiares a viver na cidade.

Os dois amigos resolveram despachar umas sandes à pressa, antes de irem para o famigerado evento. Pedro, num enorme estado de nervos, não soltou pio durante o jantar. Bernardo, pelo contrário, falava e falava sem parar, talvez, também, por estar nervoso.

De início, tiveram alguma dificuldade em encontrar a rua onde ia decorrer o grande evento, mas, ao fim de algum tempo, estavam numa ruela, mal iluminada e apertada, que ostentava na placa o mesmo nome que eles traziam anotado num papel.

– Achas mesmo que devemos entrar? – perguntou Pedro receoso.

– Ó pá, agora que chegámos até aqui, vamos até ao fim. Estamos os dois juntos, nada nos pode acontecer. Além disso, estamos em Barcelona, uma das cidades mais desenvolvidas do mundo.

– Promete-me uma coisa, se aquilo não estiver a correr bem para um de nós, saímos os dois, ok?

– Claro, isto só tem piada se estivermos bem os dois, e não um a fazer o frete só porque o outro quer lá estar. Camarada, vamos à luta?

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Riram-se, ajeitaram os casacos e tocaram à campainha. Um fulano de quase 2 metros de altura, com ombros mais largos do que a própria porta, atendeu-os, começando por lhes pedir a identificação. Confusão geral: Bernardo dera nomes falsos e não tinha nenhum documento que provasse a identidade criada na internet. Num espanhol meio confuso, bem tentou explicar que se tinha enganado nos nomes, o que enfureceu ainda mais o gorila, pois este gritou-lhes – num castelhano que eles se esforçaram para entender – que aquilo, apesar de meter sexo, era coisa séria e de responsabilidade. Com a confusão apareceu um outro sujeito, menos encorpado, que acabou por achar graça aos 2 portugueses a quererem participar no acontecimento, e, assim, deixou-os entrar; antes, obrigou-os a identificar e a assinar um papel em que assumiam ser por sua livre vontade que participavam no evento.

O segurança encaminhou-os para uma sala ampla onde várias pessoas se despiam. Bernardo e Pedro tiraram, de imediato, o retrato aos restantes participantes. Ficaram mais aliviados, a população masculina era maioritária mas havia, ainda assim, uma representação razoável e interessante do sexo feminino.

Despiram-se discretamente a um canto. Quando iam tirar a roupa interior, alguém lhes disse que, se quisessem, a podiam manter até ao início da orgia. Assim fizeram, havia que guardar bem o trunfo para o jogo a sério. Um outro tipo corpulento começou a distribuir máscaras para serem colocadas durante todo o acto. Pedro achou uma parvoíce colocar máscaras, agora que todos já tinham visto a cara um dos outros, mas, mesmo assim, colocou a sua; quando se olhou ao espelho, sentiu-se ridículo, estava uma espécie de Zorro em cuecas.

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– E se eu não conseguir ficar no ponto? – perguntou Pedro aflito, como uma criança pronta a desistir da brincadeira por ter a sensação de não saber jogar.

– Tarde demais para teres dúvidas existenciais, não achas?

– Não sei se com esta gente toda me consigo excitar, já viste a confusão que vai ser? Olha para o maralhal que está aqui?

– Não penses nisso. Entra na cena, vais ver que no meio daquele reboliço ficas uma fera. Além disso, ninguém te conhece para falar de ti. Relaxa, homem, relaxa!

O tempo para Pedro hesitar não foi muito: um tipo, vestido à guarda romano, começou a falar qualquer coisa, em catalão, enquanto outros dois, vestidos da mesma maneira, rodearam o grupo.

– Não estou a gostar disto – comentou Pedro ao ver as novas personagens com uns arpões de cabo grande na mão. – Para quem vem para uma coisa destas, ver aqueles gajos com paus pontiagudos na mão não anima muito.

Mesmo sem entenderem o que dizia, perceberam que o guarda centurião dava as instruções para o acto. Nas orgias podia ser tudo ao molho, mas, pelos vistos, naquela, havia mais regras do que uma coreografia da companhia nacional de bailado. Perdido por cem, perdido por mil, não se preocuparam mais e deixaram-se ir na onda. Primeira tarefa: tirar a ultima peça de roupa. Num instante, todo o grupo ficou pronto para ir a banhos em praia nudista. Pedro colocou as mãos à frente, ainda não estava na hora de mostrar o seu tesouro, queria impressionar apenas quando estivesse no ponto.

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O grupo entrou para uma sala, não muito iluminada, em que um enorme e redondo colchão cobria o chão. Subiram para a plataforma do amor, mas ficaram estáticos, como que à espera da ordem de partida, coisa que não tardou, pois o guarda romano, que, conjuntamente com outros dois, se colocou à volta do grupo, soltou uns vocábulos que deviam significar começar. Mal foi proferida a palavra de largada, todos os colegas sexuais começaram a movimentar-se num ritmo bastante espalhafatoso: eles apalpavam-se, eles rebolavam-se, uns por cima de outros, eles guinchavam; enfim, eles extasiavam-se. Pedro, um pouco tonto, olhava especado para tudo aquilo.

Mais do que prazer, parecem é que estão possuídos, pensou Pedro, enquanto tentava procurar Bernardo no meio da multidão, para ver como ele se comportava, mas este nem ligou ao olhar do amigo, pois já estava bastante empolgado com duas louras que lhe couberam como vizinhas.

Com alguma dificuldade, Pedro tentou abstrair-se e entrar no jogo; começou por procurar algum pedaço de carne que fosse bom para mexer, mas não via batel para chegar a terra firme. Por fim, avistou uma donzela deitada que lhe pareceu uma boa forma de começar, dobrou-se para chegar a ela mas, a meio da viagem, foi interrompido. Um grande, gordo e peludo rabo masculino quase se enfaixou na sua cara; sentiu um dilúvio de suores frios com a contemplação daquela paisagem tenebrosa a poucos centímetros dos seus olhos. Recuou de imediato. Enquanto ele desesperava, todo o resto do pessoal parecia bastante animado, pelo menos agiam como tal.

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Pedro acalmou-se e tentou fazer nova investida, agora que o proprietário do traseiro horribilis já se tinha desviado, mas voltou a ser suspenso na tentativa de acesso ao jardim das delícias: o braço de uma parceira, bem animada com a sessão, bateu-lhe na cara e fez saltar-lhe a máscara. O seu acessório de zorro depressa voou e foi cair no meio do entrelaçado de corpos. Que fazer? Pôr-se de cócoras à procura da sua peça de anonimato, jamais, num cenário daqueles, seria a morte do artista, era preferível mostrar a sua graça; assim, como assim, ninguém o conhecia.

À terceira foi de vez, conseguiu finalmente entrosar-se com o pessoal e lá se agarrou a uma espanhola que parecia eléctrica, tanto nos movimentos como nos gemidos. Mais do que deleite, Pedro tinha uma enorme vontade de rir com tudo aquilo. De repente, quando o seu corpo começava a evidenciar melhores sensações, sentiu-se a elevar, o chão parecia erguer-se. Bernardo tinha falado da explosão de prazer que seria uma coisa daquelas, mas daí chegar ao céu com tudo aquilo ia uma grande distância.

Ao céu não chegou, mas ao topo de um palco foi de imediato. Lá estavam eles, toda a orgia, bem no meio do palco, enquanto um conjunto de actores debitava falas para a plateia.

Pedro e Bernardo podiam ter pensado em tudo, inclusive que seriam esquartejados, mas nunca que a famosa orgia, onde se tinham inscrito, fosse apenas a perfomance de um grupo de teatro vanguardista catalão que levava à cena a peça A Orgia do Poder, e que, todas noites, recrutava anónimos, através da internet, para comporem o quadro que fazia parte do último acto, uma mistura de teatro pós-moderno com instalação humana.

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Meio cego com as luzes e aturdido com toda aquela movimentação, Pedro caminhou até à boca de cena para perceber o que se estava passar, mostrando-se, assim, como veio ao mundo, à plateia. O seu grande tesouro, no qual ele tinha imponente orgulho, ficou, naquele momento, reduzido a um autêntico pechisbeque quando vislumbrou o mar de gente a assistir. Os actores, temendo complicações, desviaram-no para não interromper mais a marcação. De boca aberta, engasgado no espanto, ele apenas se questionava: como era possível estar ali? O público também se interrogava porque razão só havia um soldado da orgia que não tinha máscara, especialmente o pessoal da primeira fila, colegas de trabalho do workshop sobre marketing que, no roteiro cultural da cidade, tinham escolhido ver aquela peça de vanguarda intelectual.

Oh my God! That one, isn’t Pedro, the guy of Portugal? – gritou uma das senhoras do grupo excursionista empresarial.

Aquilo que era uma orgia controlada, quase coreografada, transformou-se, de um momento para outro, numa confusão total. Pedro começou a saltar por cima de todos, na ânsia de sair dali, mas só sentia braços e pernas a prende-lo, como se estivesse a lutar contra um polvo gigante. Decidido a levar até ao fim a sua fuga, não hesitou em empurrar e calcar, inclusive nas partes menos próprias, quem se pusesse na frente. Assim, depois dos gemidos de prazer, passaram a ouvir-se berros de dor com asneiras, numa língua estranha, à mistura. Mal se livrou da teia labiríntica de corpos, tentou encontrar uma saída no palco, mas as luzes e uma encenação modernista impediam de a descobrir. Depois de deitar abaixo duas estatuetas e um cortinado de veludo vermelho, encontrou finalmente a saída do palco. Quando tudo já estava a ficar mais calmo, Bernardo emergiu do meio da pilha de corpos e saiu a correr atrás do amigo; afinal, pacto era pacto.

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Somente quando se apanhou no avião de volta, Pedro se sentiu aliviado; ainda nem queria acreditar no que lhe acontecera. Imagens em flash invadiam-lhe a mente. Tentou dormitar um pouco para esquecer tudo, especialmente os risinhos parvos que ouviu dos colegas do workshop no dia seguinte ao evento. O pessoal do avião quase que entrou em pânico quando ouviu um berro. Pedro, ao ter um pesadelo, gritara com toda a força como se houvesse bomba a bordo; sonhara com um traseiro grande, gordo e peludo a voar mesmo em cima se si.

Durante uns tempos, Paula estranhou o facto do marido não estar interessado em sexo; cismava que ele tinha arranjado uma espanhola.

Conto escrito em 2009. Em 2012, numa versão revista e encurtada, resolvi enviá-lo a um concurso de contos. Nesta altura, os jurados ainda devem estar a tomar chá de Tolstoi com bolachas de Borges.

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3 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Agosto 26, 2012 4:09 pm

    Diverti-me imenso a ler, muito bem “esgalhado”, não será uma palavra bonita mas gosto dela e acho que cai aqui que nem ginjas. A narrativa, como sempre, faz-nos visualizar a cena. 🙂

    • Bau P permalink*
      Agosto 26, 2012 4:31 pm

      🙂 Obrigado. Faz parte de uma série de contos que relatam as desventuras de um casal pos-moderno – Pedro e Paula -, nas suas pequenas coisas.

  2. Anónimo permalink
    Agosto 30, 2012 11:24 am

    eu bem te disse , que as férias te fazem mal, tás ou não tás com a veia de Eça de Queiroz (poeta ) , eu disse-te

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