Skip to content

77 Palavras – O Regresso

Julho 22, 2013

Uma desgraça nunca vem só. Já não bastava andar nesta casa a estragar o ar da literatura – e pôr os deuses da letras com arritmias  -, ainda vou poluir outros ambientes. Assim, deu-me para ir ao bonito blogue da Margarida Fonseca, 77 Palavras, e responder aos seus desafios, construir histórias com exatamente 77 palavras. A primeira experiência de 2012 já a publiquei aqui. Agora trago a segunda tranche, ou seja, as minhas respostas aos desafios do primeiro semestre de 2013. Como alguém disse, antes isto que andar metido na droga. 

Desafio:

Fazer com que cada frase da narrativa começasse por uma palavra do provérbio: Bom saber é o calar, até ser tempo de falar.

Cão’versas

Bom, a história não tem muito que contar

Saber tudo ou não

É coisa de pouco adiantar

O cão, como todos os dias, levantou-se e começou a ladrar

Calar a fome era coisa que não sabia fazer

Até que o dono acordava também (para não falar dos vizinhos) e lhe dava de manjar

Ser cão era fácil, latir para comer   

Tempo todo para preguiçar

De que adiantava pretender outro querer

Falar era coisa que nunca poderia alcançar.

image

Desafio:

A história tinha que ser sobre matemática.

33.333

Naquele país, se nada fizessem, quando nasciam tinham direito a 33.333 dias para viver. Se levassem a vida a sentir o sol, a olhar o mar, a levantar e ir trabalhar, a deitar e ir descansar, viviam cerca de 90 anos, simplesmente.

Mas podiam também ganhar ou perder dias: se amassem, se dissessem a verdade ou se ajudassem os outros ganhavam 3.333; se odiassem, mentissem ou fizessem mal aos outros perdiam 3.333.

O país desapareceu; morriam cedo.

Desafio:

O conto tinha que conter 11 frases de 6 palavras certinhas (66) + 3 frases onde se encaixam as outras que faltam (11).

O Falador

Era um homem sempre muito bem-falante;

Falava de encantar, todos o admiravam.

Ele chegava e as palavras voavam.

No ar, a sua oratória pairava.

Como chuva, o palavreado descia devagar.

As pessoas bebiam e sentiam-se instruídas.

Aquilo era homem de muito saber.

Devia ser um doutor estrangeiro, certamente;

Por cá, não havia gente assim.

Estranhamente, ninguém reparava que não falavam.

Olhavam uns para os outros, simplesmente.

Habituaram-se a calar;

Eram sábias as palavras.

Ignaros, mudos queriam ficar.

Desafio:

A história tinha que conter a célebre frase: Diga 33.

Trinta e três, mais coisa menos coisa

 

33 anos sem saber se partir, se ficar, se apenas morrer o tempo das coisas por começar.

33 dias a fingir que era feliz, porque estava escrito nas paredes, homem, é assim que tens que te sentir.

33 passos que empurrei para a frente, um palmo de chão que fosse, mas que, teimosamente, me arrastaram bem lá para trás, terra onde o que eu quis destalhou as sementes que não plantei.

Diga 33.

Não digo. Não direi.

Desafio:

A narrativa tinha que conter as palavras

passar, acontece, ralhar, contar, consolar, sítios, procurar, esquecer, aconselhar, connosco, atrapalhar, pacientes, frases, esquina, ombro e simples.

Como achei difícil, fiz duas.

Dose dupla

1 – Trampolim de letras

Frases que acontecem pelo simples passar dos dedos nas teclas.

Das palavras, emergem sítios, pessoas e tempos que brincam connosco, ora criando mundos, tolos, por certo, ora esquecendo esquinas que nos ralharam furiosamente.

Contam muito, contam pouco? Não interessa, nem me quero aconselhar; louco, tento apenas consolar a voz que me anda a falhar.

Paciente, mais do que um colo para me afogar, procuro um ombro para saltar o muro das coisas que, diariamente, me querem atrapalhar.

2 – Encontro

Naquela esquina, procurei-te todos os dias. Ensaiava frases simples para não me atrapalhar; todos sabemos que grandes oratórias têm pouco que contar, são apenas enleios de palavras para consolar a falta de ideias.

Paciente, via-te passar, perto, mas hesitava em me aproximar, receava que me pudesses ralhar.

Tímido, procurei ombro para me aconselhar. A sorte não nasce connosco, conquista-se, disseram-me.

Mas um dia aconteceu, esqueci os sítios onde te perdias, e avancei.

Gritei: volta para mim, vida!

image

Desafio:

Com 2 versos, de 2 poemas e autores diferentes, fazer o início e o fim da história.

Peguei no verso "Sentir tudo de todas as maneiras" do poema "Passagem das horas" do Álvaro de Campos, liguei-o com uma prosa atabalhoada minha e fechei com "como recém-saídas de um naufrágio de sangue" do poema "Aurora de Nova Iorque" do Garcia-Lorca

Corpo e Alma

Sentir tudo de todas as maneiras, não deixar um poro da pele, um fragmento da alma, sem respirar o encantamento do prazer, numa espécie de orgia moderna.

Os corpos oferecem-se, despudorados, na mesa do tempo; só a gula dos dias os pode salvar da tempestade que o espelho, teimoso, devolve.

As almas vendam os seus deuses – cegos esperarão – e deixam-se seduzir pelo esplendor da festa; fingem-se eternas ainda que desfeitas, como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

image

Desafio:

Pegar num livro de contos e procurar a última frase de um dos contos. Depois essa frase teria que ser escrita de trás para a frente no  texto.

Escolhi "Para acreditarmos que tinha nascido nova." tirada do fim do conto "Amargura para 3 sonâmbulos"– Gabriel Garcia Marquez, Contos Completos, da D. Quixote

Renascer

Fingiu-se nova como se o tempo não a tivesse visitado, como se tivesse nascido todos os dias. Tinha, dentro de si, um cansaço dolente, mas gritava uma força ao mundo capaz de mover montanhas; a dor era voz que escondia, pois encrespava-lhe o caminho.

Nem mesmo quando lhe diziam que já não morava ali, ela desistia de procurar abrigo naquela rua: alguma pedra daria jardim.

Felicidade, é preciso acreditarmos que o teu nome renasça para nos inflamar.

Desafio:

Escrever uma história em 77 palavras sem usar a letra A

Sonho em delírio menor


Sonhei fugir; correr sem limites, subir montes, romper muros, cingir nuvens.

Do términus pouco pensei, um sítio esquecido pelo mundo soou-me perfeito.

Pelo trilho, encontrei monstros sedentos de corpos, serpentes com o pior dos venenos, intempéries de nos engolir sem dó; nem mesmo vozes doces, com feitiços de nos escurecer, deixei de sentir. Todos venci, o medo morreu de esquecimento. 

Despertei; no fio de um livro. É bom ser herói. Crescer e morrer no delírio dos outros.

image

Desafio:

Primeiro que tudo, escrever uma frase que tenha entre 5 e 8 palavras. Depois, escrever as letras duas a duas, independentemente de fazerem ou não parte da mesma palavra e construir a história.

A Sombra das Palavras

A sombra do homem que sorri.

Uma frase que me tomou como um abraço. Primeiro, fiquei aconchegado, depois perturbado. Tanto, que gelei; não conseguia tirar os olhos da pedra.

Oh, não fiques assim, como bicho embalsamado – pediram-me, passado alguns minutos.

Porque estariam ali as palavras que eu escrevera há imensos anos, como resposta à acusação que não sabia sorrir? Afaguei-as, eram minhas.

A tremer, afastei as heras da campa e vi a foto: era eu, a sorrir.

image

Desafio:

Escrever um texto que tivesse,sensivelmente a meio, esta frase:

Afinal, era só um ovo de Páscoa…

AFINAL

Afinal, era dia e eu tomei a noite como certa, não porque a luz me cegasse, mas porque os sonhos esmorecem mais devagar no escuro.

Afinal, era o mar e eu pensei que tinha uma terra para lavrar caminhos; assim, sempre me afoguei ao andar.

Afinal, era só um ovo de Páscoa e eu cheirei Natal, como se a traição ao calendário lambesse as feridas do tempo.

Afinal, era mentira mas fingi que a verdade dormia comigo.

 

Desafio:

Um conto que, de alguma forma, fizesse o elogio da leitura:

E voou

Era uma vez um rapaz que queria voar.

Experimentou balões de criança, asas emprestadas, tapetes do oriente, até pelo vento se deixou levar. Mas não, nem um dedo do chão os pés ousaram levantar.

Triste, desistiu, teria mesmo que andar pela terra e apenas contemplar os pássaros no ar, que lá em cima mostravam postura de tudo reinar.

Um dia, leu um livro, dois, três, muitos sem parar. Levantou voo, tão alto que ninguém o conseguiu alcançar.

Desafio :

Escrever uma frase, ou duas pequenas, que utilizassem na íntegra e apenas 5 As, 5 Es, 5 Os, 3 Is e 3 Us.

AAAAA  OOOOO  EEEEE  III  UUU

Amores

Era um amor proibido, daqueles que são contra a natureza, que todos apontam.

Desde o primeiro dia, em que os seus olhares se cruzaram, eles sentiram que gostavam um do outro.

Sempre que a porta de um se abria, o outro espreitava só para ver se o via.

QUANDO SE CRUZAVAM, OS SEUS CORPOS IMITIAM ECOS DE PRAZER.

Um dia, libertaram-se e entregaram-se um ao outro.

Era bonito ver os dois, cão e gato, tão amigos.

Desafio:

Escrever um conto sobre a rádio

O Convidado

Mandou recado pela Alzira: faz jantar melhorado, põe-te bonita e ajeita as crianças, vou levar novidade.

Em casa, todos ficaram inquietos, quem seria o convidado especial, a lembrar domingo? Seria o Bispo, gente do Governo? Ou o António das Sortes, que partiu pobre e ficou rico na América?

O pai chegou sozinho. Colocou um embrulho na mesa e abriu-o. Era apenas uma caixa com botões e ruídos estranhos.

– Afinal, quem trouxeste? – resmungou o mais novo.

– O mundo.

Desafio:

Escrever um texto com base na fotografia das gotas de água.

Caminhos

Procurou o rasto dos dias felizes.

Uns disseram-lhe que seguisse os trilhos que pareciam terminar onde o sol se levantava; lá, voltaria a nascer. Outros aconselharam a voar até ao local onde o sol sorria; assim, poderia explodir de alegria. 

Apesar de saber que a felicidade estava ali, no sereno leito que a envolvia – bastaria um simples toque e as pequenas ondas amavam-na -, a gota de água preferiu a aventura da descoberta dos caminhos; desfazer-se ao nascer. 

Desafio:

O texto só poderia usar palavras de 1 ou 2 sílabas, nada mais

Vagas

O mar era forte, como sempre; o seu azul de aço punha na praia os restos do mundo.

Se ele traz, também pode levar.

Bom que era: as sobras do que dói irem para terras do outro lado do olhar, onde o sentir não vê a sua cor. 

Assim, pus todos num saco – os dias meus –, atei  e lancei ao mar os cacos do tempo; talvez dessem para um outro tolo os usar e com eles dançar.

Desafio:

A palavra Sim teria que aparecer 7 vezes no texto.

Sem

Sim, não há caminhos sem encruzilhadas

para nos perdermos e encontrarmos;

sim, não há luz sem a sua sombra

para desenhar a verdade escondida;

sim, não há palavras sem a ferida da página em branco;

sim, não há abraço sem a ausência do corpo que queremos encontrar; 

sim, não há amor sem a dor da solidão,

sim, não há juventude sem velhice para a corar.

Por que não?

Porque sim,

todo o princípio ama o seu fim.

Desafio:

Escolher 7 emoções e colocá-las por ordem alfabética no texto.

Arrumação

Andei à procura delas pela casa; não as encontrava. A mania de nunca prestar atenção onde deixo as coisas, dava nisto. Precisava de as encontrar.

Encontrei a alegria, esquecida, a um canto; senti compaixão. Depois, quase que tropecei na desilusão; estúpido, não reparei que era minha companheira. Acordei a esperança e a felicidade; ficaram surpreendidas, dormiam há muito.

Meti-as num saco, no frigorífico, para melhores dias. Só a tristeza ficou cá fora; era a dona da casa.

Desafio:

Escrever uma história em que todos os verbos, substantivos e adjectivos comecem por P, M, S ou R

Rebanhos

Mandei uma resposta simples por SMS. Preferi manter alguma surpresa. Sabia que muitas palavras podiam motivar perturbações sem sentido.

Ao penetrar no salão, todos sustiveram o respirar: queriam muito saber o que eu possuía para revelar ao mundo. Mantive o silêncio e, assim, persisti no suspense; senti prazer naquela maldade de reter as pessoas numa situação de pressão maior. Finalmente, proferi:

– Senhoras e senhores, preparem os pescoços. O sangue será o nosso sucesso.

E o programa principiou.

image

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: