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Aquilo

Setembro 28, 2012

Nunca pensara que uma coisa a pudesse assustar tanto assim, que, ao olhar, sentisse uma sensação de medo aterrador e de náusea repulsiva ao mesmo tempo; mas ali estava, sobre ela, sobre a cabeça dela, Aquilo, uma imagem horrível. Alice saiu a correr, aos gritos, pela rua fora, deixando cair e a rolar pelo chão as maçãs – caríssimas, por sinal – que acabara de comprar na única mercearia ainda existente no bairro.

– Malucas! – murmurou o merceeiro, enquanto se preparava para voltar a apanhar algumas das maçãs que rebolavam pela rua abaixo, mas depressa foi interrompido nessa sua intenção; olhou para o céu e viu Aquilo. Como homem, evitou dar gritos estridentes de medo – mesmo num momento de aflição, um homem tem que mostrar que é, verdadeiramente, homem –, mas o seu coração quase que saiu pelo peito fora e foi fazer companhia às maçãs rolantes. Esmagado pela imagem horripilante que pairava sobre ele, recuou e encostou-se à banca da fruta, que tinha montando em frente à sua porta, mas o seu peso avantajado, pelos anos sofridos e por muita cerveja ao final da tarde, deitou abaixo toda aquela montra exterior de produtos agrícolas decorada com preços de saldo, julgava ele, em papel amarelo. No meio do caos da fruta a deslizar pela via urbana, o merceeiro perdeu o pudor e saiu, também ele, a correr e aos berros pela rua fora, qual donzela assustada.

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Alarmados pelo alarido, as pessoas começaram a sair à rua. Por momentos ficaram estáticas e mudas ao ver Aquilo, terrível e esmagador, sobre as suas cabeças. Depois, como marionetas de fio embaraçado, começaram, em pânico, a correr de um lado para o outro, tontas, erráticas, numa berraria desafinada. Tentaram fechar-se em casa, janelas corridas, desaparecer nos carros – malditos motores que nunca pegam quando precisam –, ou simplesmente fugir em passo rápido para um outro local em que não se vislumbrasse semelhante coisa. Depressa se aperceberam que não adiantava, a imponência de Aquilo fazia com que pudesse ser visto em qualquer parte da cidade.

– Fábio Alexandre, corre! – gritou uma mãe à criança que, indiferente a Aquilo e a todo o acontecimento, apanhava as maçãs que, por magia, tinham vindo a desfilar para o seu o chão. Ainda conseguiu trincar uma, antes da sua mãe o quase ter atirado em voo picado para dentro de casa.

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Na tentativa de fuga, o choque entre os carros foi inevitável. Agora, mais do que o temor da ameaça que pairava sobre eles, era o pânico de estarem enjaulados dentro da chapa amolgada, sem possibilidade de fuga, sem forma de evitar que Aquilo os perseguisse.

Um polícia tentou iniciar manobras de resgate dos acidentados, mas também ele não resistiu quando Aquilo se aproximou mais. Contra todas as regras profissionais, recuou e fugiu, mas antes chamou reforços por rádio: era preciso um ataque urgente.

Finalmente um lugar. Vitória iniciou uma manobra complicada de estacionamento; ao fim de largos minutos conseguiu efectuá-la, não sem antes barafustar com todas as pessoas que, descontroladamente, corriam e lhe atrapalharam a dita manobra. Antes de sair, retocou a maquilhagem, tinha que estar bonita para a reunião, era preciso impressionar, ela era uma mulher de sucesso e não podia desiludir em nenhum pormenor, aliás, não sabia se aquele tom platinado de cabelo estava muito bem para a ocasião, loura, por vezes, tinha desvantagens quando se queria ser determinada. Nem mesmo quando puxou o espelho, para não errar no contorno do baton, reparou que nele estava também reflectido todo um invulgar caos urbano. Descontraidamente, abriu a porta do carro e saiu.

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– Parece impossível! – vociferou Vitória ao quase se despenhar no chão, por um dos seus belos saltos ter assentado numa das muitas inquietas maçãs que habitavam o solo. – Só pode ser praga, já não me basta passar o dia a comer isto para manter a linha e ainda tenho que levar com elas à saída do carro.

Mal teve tempo de se ajeitar – ficara um pouco descomposta com o desequilíbrio -, sentiu uma sombra gigante sobre ela, o que, quando olhou para cima, a levou a ficar estarrecida. Só naquele momento reparou que toda aquela gente à sua volta se comportava de uma forma estranha e histérica por causa de Aquilo. Não quis, não pôde ser diferente, tudo era demasiado aterrador para ficar ali; conjuntamente com o resto da população começou uma fuga errante. Os saltos não ajudavam, primeiro tirou os sapatos e correu descalça com eles na mão, depois, contra toda uma dor profunda de se separar daquelas peças de renome – assinadas em série por um nome esquisito da moda, que se fazia pagar a preços de ouro, como se calçado fosse alguma obra da renascença -, atirou-os para a berma, qualquer peso carregado diminuía ainda mais a pouca velocidade que conseguia atingir; afinal, aquelas horas todas passadas com o personal trainer não tinham ajudado em nada a sua forma física, felizmente que o rapaz era uma boa paisagem para ser ver e, assim, aliviar-lhe a vista dos finais tarde, antes de entrar em casa e aturar o paspalho que lhe consumia os dias – o amor quando reduzido a cinzas queima de tanto ódio.

Um sem-abrigo, habituado a ter o frenesim da cidade como sua manta, ignorava a histeria instalada e manteve-se apático, no seu sono compulsivo de esquecer os dias, até levar com um dos sapatos de marca na cara. Meio sorumbático, tentou perceber o que se passava, mas ficou confuso: um sapato de senhora, lindíssimo, viera aterrar até ele; maçãs e mais maçãs desaguavam nos seus pés. Será que estava a chover presentes? Mas do céu não vinham dádivas, apenas uma terrível criatura. Até ele, habituado a todas as alucinações desde há muito – perder a família num estúpido acidente de carro não fora fácil –, estava apavorado ao olhar para Aquilo. Pela primeira vez, desde há algum tempo, juntou-se à população e comungou com ela os mesmos actos: correr, tropeçar e gritar.

Sebastião, um executivo notável, inclinou-se para trás, na sua cadeira de pele, topo de gama, e congratulou-se consigo mesmo por ter fechado mais um negócio – também ele de excelência – em pouco instantes: com uns simples cliques, comprara, fechara e fundira uma série de empresas, fundos e participações, algures numas ilhas paradisíacas no outro lado do Atlântico. Para enganar o estômago, pegou numa maçã verde, que a sua querida esposa lhe colocara na pasta, ela, agora, andava com a mania que eles – o casal perfeito, digno de ser fotografado, na sua sala de decoração assinada, para uma revista de renome – tinham que ter uma vida saudável; enfim, coisas de uma mulher sem mais nada em que pensar, a não ser onde gastar o muito dinheiro que ele, esforçadamente, conseguia; felizmente que tinha os braços quentes de um outro corpo feminino, mais carnal e menos retórico, para o satisfazer noutros processos, também eles necessários à guarda da sua bela saúde. Ainda não dera a segunda trinca, junto à janela larga de uma torre envidraçada, onde se sediava a sua empresa de topo, quando se engasgou: mesmo ali, do outro lado do vidro, quase junto ao seu nariz, estava Aquilo. Era uma imagem demasiado aterrorizadora para que ele conseguisse engolir o bocado de maçã que, entretanto, com o susto, ficara entalado na garganta. A sufocar, sem conseguir pedir auxílio, Sebastião rolou no chão desesperadamente até ficar inerte; acabara, assim, por ser a primeira vítima da estranha assombração, ainda que ela nada tivesse feito, a não ser pairar do outro lado do vidro.

Em busca de protecção, muitas pessoas refugiaram-se na igreja: umas apenas para se ocultarem de Aquilo, como crianças debaixo da manta a esconderem-se do papão em noites de terror; outras para pedirem forças ao seu criador, de forma a enfrentarem o que viram naquela maldita tarde – quem diria que o abismo adviria do céu e não das profundezas como sempre fora vaticinado –, mas foi em vão: de súbito, o tecto da igreja, com belos frescos, ficou transparente e surgiu, assim de novo, sobre as suas cabeças, a sombra de Aquilo, ainda maior, mais vigoroso. Olharam para o padre, como que à procura de uma salvação, mas ele, qual homem de carne e osso, também não conseguiu resistir ao temor; com um telhado agora de vidro, não lhe restou outra alternativa senão fugir como todos os mortais.

Na praça, o local onde Aquilo se via melhor, um grupo militar de intervenção preparava-se para atacar. Às ordens do comandante iniciaram os disparos. Mal as primeiras rajadas saíram em direcção à criatura, os soldados começaram a cair. As balas, além de não trespassar o alvo, eram devolvidas, em ricochete, à origem.

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O Presidente, no seu palácio político, enclausurou-se numa pequena sala na cave. Não queria olhar Aquilo, pelo que lhe tinham contado não ia aguentar ver. Pensava numa estratégia: se não se conseguia arranjar a solução para o aniquilar, então tinha que encontrar uma forma de sobreviver a ele. Chamou os seus colaboradores para decidirem como se podia viver com Aquilo; como se podia arranjar uma forma simples de existência em que se ignorasse Aquilo? Na História não faltava quem tivesse feito pactos com o lado mais pérfido; é certo que acabaram por se dar mal, mas, entretanto, ganharam tempo e conseguiram salvar a pele. Enquanto lá fora, militares ensaiavam novas armas e a população, desesperada, continuava a fugir, o Presidente tentava arranjar uma solução, não para o eliminar, mas apenas para o contornar.    

  Uma cidade em estado de sítio, virada de pernas para o ar. Aquilo permanecia ali, estático, silencioso, sobre a urbe, como se a estivesse a iluminar.

Como aparecera aquela coisa que a todos amedrontava? De onde surgira aquele espelho gigante, com uma moldura barroca dourada, que devolvia, numa escala colossal, a imagem de cada um, fria, real, sem manipulações nem transfigurações? Apenas eles mesmos, em ponto grande, o retrato que ninguém queria ver. Habituados a ver a suas imagens reflectidas pela miopia da ordem dos costumes estabelecidos, era aterrador contemplar a real figura que cada um – todos – tinha no horizonte pacífico das suas existências.

Alheio a tudo, um casal desnudado, estendido numa pequena toalha no meio das dunas, enrolava os seus corpos numa coreografia lasciva de desejo intenso, executada na perfeição, como se tivesse sido treinada ao detalhe; tinham faltado ao trabalho naquela tarde para porem em dia as suas doutrinas de amantes. Depois de terem começado por trincar uma maçã, partilhada pedaço a pedaço na boca de ambos, depressa se envolveram em gestos lascivos de deslindar cada poro do mapa epidérmico do sexo.

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Talvez pelo facto do prazer ser a única linguagem que naquele momento decifravam, nem se aperceberam, num primeiro tempo, que o tal espelho colossal, de imagens desmedidas, também pairava sobre eles. Quando finalmente notaram a assombração que provinha do céu, riram-se e gostaram do que viram: uma grande imagem dos seus corpos, quentes e entrelaçados, como cordas de marinheiro, era mostrada dentro daquele rectângulo dourado; cada gesto, cada movimento impetuoso, era devolvido num detalhe exacerbado de dimensão. Esta situação não os assustou, pelo contrário, excitou-lhes ainda mais o desejo, o que levou a uma cadência acelerada dos movimentos corporais e, finalmente, a um clímax, tão profundo e magnânimo como a imagem descomunal que era reflectida. Os gritos, agora não de medo, mas de prazer magnificente, ecoaram por toda a praia e foram fortes demais para o espelho voador que, face a tão lascivos decibéis, se desfez em milhares de partículas sobre o mar.

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Nunca ninguém percebeu como Aquilo se pulverizou de um momento para o outro. Na cidade, tudo voltou ao normal, poucos ou quase nenhuns falam do que aconteceu e do que viram reflectido naquela tarde. A vida, para bem de todos, assim pensavam eles, confinou o seu ritmo banal. O preço das maçãs não parava de subir, estavam pela hora da morte; Alice – esquecida do desconcerto que tivera dias atrás, a correr pela rua abaixo – não se cansava de repetir aquilo.

Mais um escrito da safra de 2008, da colecção de Absurdos, que andou para aí perdido.

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