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2 – do Inspector tarado, quase na reforma –rascunhos

Junho 9, 2013

Existem três situações que fazem despertar em nós instintos pouco recomendáveis – esmurrar alguém é dos mais leves – quando toca o telefone, ou melhor, o telemóvel, dado ser este o objecto que nos acompanha sempre como se fosse a nossa alma moderna.

A primeira é a de cagar. Perdoem-me a palavra, mas defecar é coisa mais para se dizer no consultório, perante um doutor que mal levanta os olhos dos papéis onde escreve gatafunhos que ninguém entende, como se letras mal paridas dessem atestado de inteligência; e obrar ainda me soa pior, pois parece que fazemos castelos com os poios, o que se traduz numa imagem mais agoniante do que a palavra popular de cagar. Voltando ao tema, sempre que nos sentamos na sanita parece que há uma conspiração nas comunicações e zás, lá temos o trrim trrim (ainda tenho toque à antiga, que não há nada mais irritante do que levar com o refrão de uma música na moda sempre que alguém têm o telemóvel para atender) a deixar-nos entalados entre: o despachar o serviço, correndo o risco da coisa ficar mal resolvida – vou poupar-vos aos detalhes técnicos sobre o estado inconcluso -, para ainda atender; ou acabar os propósitos e depois ver quem telefonou, sabendo que já não há paz de espírito para um alívio em condições.

A segunda é a de foder. Mais uma vez não encontro palavra melhor; fazer amor é coisa de romance para mulheres, todos sabemos que, quando os corpos já estão numa luta pelo prazer, não há elevações românticas para se fazerem representar; copular é coisa para aulas de biologia, embora os meninos, entre risinhos, pensem no outro verbo mais forte e popular, e para documentários do National Geographic, que preferem referir o domínio do leão durante a cópula em lugar de dizerem durante a foda – percebe-se o porquê, o almoço de domingo em casa da avó ia ficar destalhado, com a velha a ter taquicardias sempre que o neto mais novo repetisse, até à exaustão, foda, foda, foda, o termo que ouvira no documentário, enquanto lhe enfiavam umas colheres de sopa pelas goelas abaixo. Mas adiante, estar a montar alguém, e o desgraçado do telemóvel tocar precisamente no momento em que estamos mais entusiasmados, é algo capaz de nos pôr o coração ainda em estado mais acelerado do que o da avó ao escutar o despautério do neto perante a cópula do leão. Por mais que se eleve o nível de abstração, ficamos logo desconcentrados. Claro, não vamos interromper o acto para atender, mas depois, por muito esforço que se faça, já não conseguimos o mesmo enlevo – a cabeça fica ligada a outro fusível que não o da tesão. E um homem, das duas uma: ou quer acabar aquilo o mais depressa possível para ver qual é o fogo que nos querem comunicar, levando, depois, com as ventas da parceira durante as próximas duas semanas, por termos sido tão despachadinhos; ou tenta continuar o acto como se nada fosse, embora saibamos que nada volta a ser como dantes, o trrim trrim fica-nos a martelar e, por muito que se mande umas estocadas fundas, nunca mais nos vimos – já ela fingiu três vezes o orgasmo e olha-nos com aquele ar de quem nos diz que esgotou toda a imaginação de gemidos para esse dia, e nós nada.

A última situação é a de estar a ver uma jogada fabulosa, daquelas que vai dar golo por certo – apesar das asneiras todas que se dizem ao ver futebol, é interessante que se consegue referir este assunto sem dizer nenhuma –, o telemóvel toca, uma pessoa atende, pensa que consegue falar sem tirar os olhos do ecrã, mas depois, do outro lado da linha, vem sempre uma novidade do género, o gajo que estávamos a vigiar vai fugir para o estrangeiro, ou então, o juiz arquivou o processo do big boss, pior ainda, o teu filho engravidou a vizinha do 5º esquerdo, aquela mosca morta que parecia ir para freira. E o que acontece? A bola entra e nós, como estamos cegos com a luz das palavras que nos incendiaram a cabeça, perdemos o golo do ano; nem a desgraçada da repetição nos consola, é como comer pizza requentada.

Assim, estava eu a ter uma relação sexual – quantas palavras não se poupavam se fosse mais brejeiro e dissesse estava a foder, mas pronto, também não quero que fiquem com a ideia que sou um burgesso – com a Odete quando o telemóvel tocou; logo naquele dia! Não era a primeira vez que ia para a cama com ela; não, o nosso caso já durava há mais de 3 meses.

Tudo começou quando tive que resolver o caso de um moinante da noite, dono de uma discoteca de má fama, que foi morto por atropelamento. Precisei de ir à seguradora falar com o perito algumas vezes – havia suspeitas que o atropelamento não fora tão inocente quanto isso -, para trocar umas ideias, as provas recolhidas pela polícia não tinham sido muito claras; nada melhor do que falar com quem tem que desembolsar dinheiro, pois a verdade é esmiuçada até ao tutano. Odete era a secretária do departamento de peritagens e recebeu-me muito bem. Não bastaram mais de três visitas, e convidei-a para tomar café numa esplanada da Foz; ela aceitou. Por sorte estava um vento de morder cães e ficámos enregelados. Nada melhor do que o frio para se acabar a beber chá bem quente em casa dela. Claro que nesse fim de tarde não se passou nada, não sou propriamente um Casanova, ainda que alguns, por piada invejosa, digam que sim. O chá trouxe à baila uma torneira enguiçada – que pingava e não a deixava dormir – e acabei por voltar lá, para ser o seu picheleiro de estimação. Na terceira vez que passei a soleira da porta, já acabei enrolado com ela na cama. Um divórcio desastroso e o facto de nunca mais ter tido homem, levou a que bastassem duas ou três insinuações no sofá para ter a boca dela a afogar-se na minha e as suas coxas a esfregarem-se em mim.

Mas naquela noite, apesar de ser como muitas outras, em que inventara à família mais uma investigação complicada para depois me perder em algumas horas de sexo com Odete, era uma foda diferente – desculpem, mas é mais forte do que eu, é a palavra certa para o acto certo -, pela primeira vez ela tinha-me deixado comê-la à canzana. Não vou entrar em detalhes sobre a dominação da posição, a imagem derivada dos canídeos a afogarem o cio é mais do que suficiente.

Odete não era propriamente uma mulher púdica, apesar de ter sido casada só seis anos, não impunha barreiras no sexo; foi com grande surpresa que logo na segunda vez me fez um bom broche – outra palavra certa, pois sexo oral lembra conversa sobre ramboias que se dizem ter sem nunca se fazerem, e felação soa a operação cirúrgica, já para não armar ao fino e dizer fellatio, que mais parece nome de estilista italiano de sapatos -, mas nunca me deixou penetrá-la por trás, dizia que lhe fazia lembrar sexo anal, coisa que achava nojenta. Apesar de lhe explicar que não era a mesma coisa, ela não se convencia. Não que o tivesse contado, mas imaginei que fosse trauma com o ex-marido. Só podia ser. O gajo, num momento em que a abraçara por detrás, devia ter invadido, a sangue frio, o orifício mais à retaguarda e a coitada foi apanhada com a dor da surpresa.

Naquele dia, ela, por fim, acedeu; começámos deitados, meio de lado, eu por detrás, com calma, com todo o jeito do mundo, com a mão dela a acompanhar a penetração, para verificar o caminho certo; até que eu a levantei para que, finalmente, ficássemos na dita posição atribuída aos canídeos.

Estava eu – e espero que ela também – no melhor da festa quando o telefone tocou. Bem que tentei não dar importância, bastar-me-iam umas estocadas mais fortes e a sessão terminava; mas como queria que ela também saboreasse o momento, era a sua primeira vez naquela posição e eu, feito parvo, achei que tinha que ser bonito, não podia ser um cabrão qualquer que a montava e me vinha logo. Contive-me, estaria mais uns minutos assim e depois voltaria à posição de missionário – gostava de saber quem foi o raio do padre que baptizou semelhante propósito – para a abraçar e a beijar toda; terminaríamos em grande, a sufocar-nos um ao outro, como ela gostava.

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E o telefone que não parava de tocar.

Só tinha uma alternativa, ou arrematava a função de imediato, ou esfumava-se tudo; até ela estava a ficar irritada. Vim-me; ela deve ter fingido que se veio para não me deixar ainda mais furioso – achava que eu só me sentia realizado quando era em conjunto, desconhecendo que os homens também fingem, e muito, no que dizem sentir.

Atendi. Tinham matado uma criada à facada num solar perto do Porto e queriam que eu, Arménio Salgado, fosse lá para tomar conta do acontecimento. Já não me bastava o orgasmo acelerado, tinha que levar com mais um caso de homicídio.

Raios partam o triste fado, logo agora que queria meter os papéis para a reforma – antes que o governo vomitasse uma nova lei que me obrigasse a vir trabalhar de algália -, atiravam-me para um caso que parecia tirado de uma novela mexicana; nunca vi nenhuma, mas sempre que aparece um disparate completo na vida de alguém, dizem isso, como se o folhetim sul-americano tivesse uma espécie de conta-corrente com o burlesco. Senão, vejamos: uma criada morta no seu quarto, mas alguém ainda tem criadas internas?; e assassinada à facada num solar, mas o palacete era onde, junto às torres do Aleixo? Por amor de deus!

Segundo capitulo de uma novela policial narrada pela vítima, pelo criminoso e por um inspector muito especial:

Da Criada penada, do Inspector tarado e do Cabeleiro que via coisas

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One Comment leave one →
  1. Anónimo permalink
    Junho 9, 2013 6:04 pm

    LINDO!!! 🙂

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