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50

Março 18, 2013

50 caixas.

50 caixas todas diferentes, coloridas, com padrões diversos a fazerem lembrar cortinados rústicos do antigamente, tempos em que a pobreza gostava de se ornamentar à janela.

Olhei para elas e fiquei com medo de começar. Não era fácil a tarefa; não sabia se o que desejava guardar caberia ali, em tão pouco espaço. É certo que muito do que pretendia encaixotar fora previamente esfacelado ou tolhido com o tempo; mais apertão, menos apertão, talvez conseguisse enfiá-los a todos, um a um.

Abri as portas de meia dúzia de armários – seria bonito também serem 50, mas não, casarão para albergar tamanho escaparate é coisa de folhetim ou de gente nobre, o que, bem vistas as coisas, é quase o mesmo, já que a realidade, em ambos os casos, mora longe – onde estavam guardados. Ali estavam eles, amontoados, alguns com bastante pó, à espera que lhes desse destino.

Sem grandes cogitações – o pensamento desamarra, por vezes, o coração e este embaralha-nos as ideias, amolecendo as vontades – peguei, um a um, e coloquei-os nas 50 caixas, sem nenhum critério; atendendo a razão da empreitada, qualquer uma servia. Que interesse teriam os tons azuis esmeralda ou uns quadrados coloridos à Mondrian para despachar aquilo que me atormentara durante toda uma vida?

Depois de encaixotados, desci os 50 degraus – poderiam ser 49 ou 51, talvez até 63, mas imaginei, que naquele dia seriam 50, dimensionando, assim, a escada ao tamanho da minha ilusão – e coloquei as primeiras caixas na carrinha que alugara previamente. Engraçado, a matrícula da viatura era 50-CQ-50; o destino também brincava comigo; ou então, a minha alucinação era completa. Subi e desci as escadas várias vezes até ter todas as caixas na carrinha; se tivesse utilizado o elevador, por certo, acabaria a tarefa menos cansado, mas, enfim, precisava de alguma expiação para abafar o nó que me consumia.

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Com o carregamento feito, fiz-me à estrada. Percorri 50 Kms – desta vez não precisei de imaginar ou arredondar, o conta-quilómetros não me deixava mentir – e parei; estava num local deserto, junto ao mar, numa falésia. Levei as mãos à cabeça, afaguei o pouco cabelo que ainda tinha e escutei uma canção um pouco deprimente – pudera, fora eu que a colocara no leitor de CD – de um outro tempo. Morrer um pouco a cada dia, cantavam; pois, era isso mesmo. Aquele momento de autocomiseração funcionou como uma espécie de oração; com as pessoas de pouca fé é assim, fazem preces de qualquer parvoíce.

Sem mais meditações destrambelhadas, saí do carro e fiz de uma certa raiva, que começava a brotar, a força que necessitava para findar a tarefa a que me propusera. Uma a uma atirei-as ao mar; sem pensar, sem penas, sem sentir – frio como águas que as engoliam. Assim que lancei a última caixa, parti em grande velocidade. A poeirada da estrada que levantei correu o pano final; qualquer tentativa de olhar saudoso ou de pranto, a vê-las a serem levadas, ou tragadas, pelas águas, foi enterrada.

Cheguei a casa, despi-me e deitei-me. Mais leve – há solidões que flutuam -, esperei a morte daquele e de todos os outros dias; seguramente mais de 50, espero. Adormeci e nem sequer sonhei com as caixas e o seu conteúdo; ainda bem, coçar a perna que se amputou é o pior dos tormentos.

Bem longe, um pescador chegava a casa carregado de 50 caixas; umas a desfazerem-se, outras em bom estado, encharcaram o chão da garagem onde ele as pousou. Estava a mulher a desenrolar a sua retórica pelo estado alagado do pavimento – já não basta trazeres lixo para casa, agora tens que fazer este patinheiro todo, depois sobra para mim, a escrava que, como sempre, vai limpar tudo –, quando ele começou a abrir as caixas que encontrara no fundo do mar. Durante 50 segundos contemplaram a descoberta, sem dizer palavra.

– Muitos deles já não estão em bom estado – referiu o pescador, por fim. – Mesmo assim, achas que ainda nos podem dar algum dinheiro? Hoje em dia, há quem precise muito disto.

A mulher rondou as caixas, espreitou bem para cada uma delas e disse:

– Desengana-te homem, quem é que nos vai comprar sonhos? Ainda se fossem uns bons sonhos, coisa de gente culta e endinheirada, mas estes, tão idiotas, não haverá quem lhes pegue; se não houve até agora. Olha, mete na lareira, sempre devem dar uns bons 50 minutos de calor.

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Março 19, 2013 1:49 pm

    Li e chorei, ainda não deitei fora as minhas caixas atafulhadas dos sonhos perdidos. Espero que alguns tenham ficado no fundo de uma gaveta, se renovem e se realizem. Seria demasiado triste se assim não fosse. É apenas um conto maravilhoso, espero. Adorei, claro.

  2. minda permalink
    Março 26, 2013 10:33 am

    bp… sonhos é coisa que NUNCA se deita fora… por mais que os encaixotemos e joguemos ao mar, por mais que quem os olhe os ache idiotas, por mais que nós mesmos os achemos desse modo e os queiramos negar, eles estao-nos colados a pele e a alma… serão eternamente nossos… mudarão? certamente…. ficarão mais ocultos e subtis? certamente, também… mas se teimamos em viver, e em viver para além da vida através da escrita… SONHAMOS!

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