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Como uma virgem tocada pela primeira vez

Julho 1, 2012

Ele sorriu; e ela foi atrás. O rapaz tinha bom aspecto, era novo, todo ajeitadinho num fato escuro de bom corte – coisa de gente fina -, com uma camisa engomada na perfeição – alva como a pureza que ela carregava – e uma gravata luzente. Seria homem de confiança, bem ao gosto da sua avó, que achava que só um homem de fato e gravata era pessoa de decência, pois todos os outros, com roupas abandalhadas – bastava uma camisa desabotoada para ser um vândalo – estariam apenas dispostos às maiores indecências libidinosas, especialmente roubar as virtudes à sua querida neta.

Ela, como donzela encantada com a flauta do sorriso, seguiu-o pela loja, largando, assim, umas sandálias coloridas, com uns saltos de desmaiar qualquer alpinista, que lhe estavam a piscar o olho; e ainda bem, se chegasse a casa com um calçado daqueles, a avó faria mais um escândalo com semelhante galderice para os pés, coisa pouco apropriada para uma menina que se queria pura até ao casamento.

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Quando saiu da loja, ele lá estava na esquina, com o mesmo sorriso. Ela hesitou se lhe havia de dar troco, nos dias de hoje o perigo espreita em qualquer lugar, especialmente nas esquinas das boas lojas de nome internacional. Que fazer? Ele tinha um ar tão limpinho para ser um violador ou outra coisa má; até mesmo para vendedor – daqueles que se colam ao nosso nome como uma lapa – o fato estava bom demais, inclusive jurava que vira um igual ainda há pouco no piso 3 de Moda Homem, na secção das grandes marcas. Estava num local público, de dia, cheio de gente – neste país parece que ninguém trabalha, costumava rabujar a sua avó sempre que ia algum local e via uma multidão -, ele não lhe podia fazer mal.

Ela sabia que a vida não era muito parecida com as páginas dos romances de cordel que costumava ler, mas também não estava escrito em lado nenhum que não o pudesse ser; afinal, os autores tinham que ir buscar a inspiração a algum canto da realidade, nem que fosse nas prateleiras esquecidas de um sanatório. Assim, se as suas heroínas literárias encontravam os seus príncipes como por artes de mágicas, nem nos melhores números de ilusionismo do circo de Monte Carlo havia tanta surpresa, porque não podia ela ter o mesmo destino; até porque a teimosia de ser demasiado racional, fez com que, aos 28 anos, ainda não tivesse encontrado o homem certo para a levar ao altar.

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A camuflar o receio, aproximou-se do cavalheiro misterioso e, antes que ela lhe pudesse retribuir o sorriso, ele ofereceu-lhe uma flor. Nem o melhor anúncio publicitário se lembraria de semelhante gesto, pensou ela ao receber a rosa, mas por acaso até se lembraram, sim, porque ele não era homem para perder tempo em cogitações românticas e o assunto já tinha que estar demonstrado em algum lugar. Sem grandes concertações, passados cinco minutos estavam a tomar um café e uma água natural – beber café àquela hora da tarde é noite sem fechar olho, justificou-se ela ao pedir um líquido tão puro quanto si mesma – na esplanada mais próxima.

A conversa correu da melhor forma, apresentaram-se e galantearam-se. Ele disse que era economista, ela ficou fascinada, e a avó também ficaria, sempre acharam, as duas, que eram pessoas muito inteligentes, que sabiam tudo do mundo, falavam um alfabeto raro, os das percentagens – tudo se resumia sempre a uma percentagem, numa espécie de código de inteligência -, e conseguiam passar horas a dissertar sobre aquela coisa que mais lembrava nome de ave exótica: PIB. Ela referiu que trabalhava numa grande empresas de transportes, sem detalhar que vendia bilhetes de comboio, um homem como aquele não se podia espantar logo à primeira, pois havia de querer mulher com mais sofisticação laboral; um dia, se o caçasse, contar-lhe-ia os pormenores e a importância de vender com rigor um bilhete para Coimbra B, que também dava para A.

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Ele disse-lhe que ela muito bonita, que irradiava uma luz que quase o cegara no primeiro momento que a vira. Ela disse-lhe que ele era um exagerado mas que gostava disso, especialmente quando sorria. Ele disse-lhe que a queria voltar a ver. Ela disse-lhe que ele não pensasse que ela era uma qualquer, que ia com o primeiro que aparecia. Ele disse-lhe para não se preocupar, que ela tinha desenhado no rosto a sua candura. Ela disse-lhe que também o queria voltar a ver. Os joelhos de ambos, por debaixo da mesa, ao tocar-se, também disseram muita coisa.

Durante várias tarde voltaram-se a encontrar na esplanada.

Ele, como homem grande das finanças, tinha o horário por sua feição, coisa de gente importante.

Ela, por causa do seu turno, tinha muitas tardes livres; felizmente que o sindicato fora firme nas negociações, senão, agora, e por causa da opressão de uma administração, não podia dar azo àquele arrebate romântico que lhe calhara por sorte. Logo ela, que sempre fugira dos comunistas – a avó bem rezava para que a neta não se perdesse ao trabalhar num antro tão vermelho -, dever-lhe, a eles, aqueles momentos tão extasiantes: não havia encontro que não tivesse um presente, uma flor, um livro ou até um poema escrito no guardanapo de papel que acompanhava a nata que ele comia todos as vezes com o café.

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Mas as tardes – e especialmente os afagos, tímidos e repentinos, na mãos – sabiam a pouco. Precisavam de estar mais à vontade, no tempo e no espaço. Assim, numa sexta à tarde – que a avó dedicava à novena pelas almas perdidas da rua, sim, porque as do mundo os outros que cuidassem -, ela convidou-o para ele ir lá a casa, estava na hora de ganharem outra intimidade.

Ainda não estavam as palavras do recado digeridas – que o facto de ele ir lá a casa não pensasse, qual cãozinho perante o osso, que poderia avançar, que era mulher pura, que tinha o sonho de casar virgem e não ia desistir dele -, e já ela lhe abria as calças, perante o espanto completo do convidado.

– Há muita coisa que se pode fazer sem se perder a pureza – disse ela, antes de baixar a cabeça em voo picado e aterrar com a boca sobre o sexo dele.

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Ele empurrou-a delicadamente, libertando-se do ataque, ajeitou as calças e pôs-se de pé. Depois, da mesma forma pausada e calma com que lhe falava dos PIBes e das percentagens, disse-lhe que também era homem sério e, se acertassem caminhos no futuro, também queria ficar intacto na pureza até ao dia do casamento.

Ela pediu desculpas e fingiu ficar contente com a postura dele. No entanto, ficou desconfiada, homem que se resguardasse muito das tentações do prazer tinha coisa: ou queria casamento só para disfarçar, pois os seus arrebates estariam mais para calças semelhantes, e isso não seria bom, acabaria a ser esposa bibelot enquanto ele partiria a loiça com a rapaziada do bairro e arredores; ou tinha lá aqueles complexos malucos que um tal Freud falou, de ver em todas as mulheres a representação da mãe, e isso não seria bom, ainda acabaria esfaqueada numa banheira qualquer.

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Apenas com um beijo na testa, ele despediu-se e saiu. Cá fora – sem se aperceber que algumas janelas do bairro tomavam notas para o enredo da próxima novena das almas perdidas, um homem daqueles, com um carro daqueles, a entrar com uma moça em casa numa hora como aquela, só podia ter perdição aos molhos -, ele sacou do telemóvel, última geração, e fez um telefonema:

– Alvo ok, local ok. Podem avançar.

Ela nem teve tempo de gritar. Primeiro, ao ouvir passos, enquanto folheava uma revista sentada na sanita, ainda pensou que a avó tinha poucas perdições para expiar nessa tarde e, assim, regressara mais cedo; mas não; nem as cuequinhas puxou para cima quando três matulões lhe entraram pela casa de banho adentro e lhe taparam a boca. Foi mesmo assim, descomposta, que a levaram numa caixa grande de cartão e a meteram dentro de uma furgonete que dizia, em letras gigantes: Euro Transportes – Mudanças e Entregas. Talvez por isso, as janelas do controlo aéreo da perdição desligaram o radar: algum frigorífico novo teriam encomendado, depois ainda se queixavam que havia crise.

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Ele carregou o corpo dela, ainda desmaiado, com algum esforço; não era fácil carregar com o corpo de uma donzela – que já devia ter feito uma boa dieta – pelo monte acima, no meio de todos aqueles pedregulhos. Poderia ter feito tudo de helicóptero, tinha orçamento para tal, mas quis cumprir o ritual à boa maneira antiga. Assim, quase a desfazer-se com o calor, ele aproximou-se da boca do vulcão e atirou-a; não sem antes lhe dar uma beijo suave nos lábios, em jeito de agradecimento. Desceu do monte, de imediato, sem qualquer contemplação, a não ser um rápido sinal da cruz no momento em que corpo estaria a ser engolido pelo vulcão.

Mais abaixo encontrou a comitiva.

– Senhor Ministro, missão cumprida – anunciou ele.

– Tem a certa que ela era virgem? – interrogou a dito Ministro.

– Absolutamente.

– É preciso muito cuidado, o vulcão Mercados é muito esperto e não engole qualquer coisa.

– Fique descasando, senhor Ministro, que o bicho vai ficar satisfeito e não nos voltará a incomodar tão depressa.

– Não seja ingénuo, mal faça a digestão desta já vai querer outra, eu conheço muito bem este tipo de vulcões. Não se esqueça que eu trabalhei na sua construção. Trate, desde já, de procurar outra virgem.

Ele sorriu; e ela foi atrás. Quem não achou muita piada foram as sobrinhas, depois de verem que a sua velha tia-avó deixara a missa a meio para sair atrás de um homem; logo ela, que se vangloriava de ter toda uma vida casta.

 

Ilustrações de Pascal Campion

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4 comentários leave one →
  1. Maria Bruno permalink
    Julho 1, 2012 6:10 pm

    Acho muito original a descrição, os pormenores tão terra a terra do pensamento das personagens. Um estilo muito apelativo e pessoal :).

  2. Anónimo permalink
    Julho 27, 2012 11:34 am

    unh… acho que as que ele encontrava eram todas falsas virgens… (senão v~e a ligeireza com que lhe abriu o calçame…)

    pois se o mercado não ficou satisfeito e continua a atacar….

    que dizes? concordas?

    • Bau P permalink*
      Julho 29, 2012 6:38 pm

      sim, e a virgens já não são o que eram, e depois os mercados não se cansam em exigir sangue novo 🙂

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