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Fascinante Humilhação

Agosto 20, 2012

Ao som dos primeiros acordes, dois conjuntos de 6 belas bailarinas, envoltas nuns coloridos e acetinados conjuntos de top e short – reduzidos ao mínimo centímetro têxtil comum, o necessário para taparem os poros mais indecentes, susceptíveis de chagar a moral vigorosa dos videntes –, descem uma pequena escadaria cenográfica e iniciam uma coreografia mecânica enquanto soltam um playback bem sorridente, como se fossem peças de um anúncio barato de dentífricos de segunda escolha:

– Humiliation, it’s a fascination!

Após a repetição exaustiva do refrão solitário, e na marcação certa, elas param, hirtas como manequins de montra, numa pose provocante em que reforçam o espectro dos seus largos sorrisos. Ouve-se uma voz em off:

– Senhoras e senhores, convosco Cláudio Guilherme.

O apresentador desce a mesma escadaria, exaustivamente colorida e luminosa, coloca-se entre as assistentes bailarinas, agradece os aplausos do público, vigorantes e comandados, e dirige-se a uma das câmaras com um, não menos resplandecente, sorriso:

– Bem-vindos a mais uma edição do Fascinante Humilhação, um concurso onde ser humilhado é uma tentação. Além dos eternos 15 minutos de fama, cada concorrente pode levar ainda valiosos prémios, tanto maiores quanto a humilhação a que se sujeitar. Para tal, contamos com o já famoso Humilhómetro, o objecto que irá medir o tamanho da humilhação a que os nossos candidatos se vão sujeitar. E por falar em concorrentes, onde estão os nossos sortudos de hoje?

Aplausos. Uma senhora, bem desenvolvida no peso e tímida no sorriso, entra por uma porta iluminada e encaminha-se para uma das três cadeiras destinadas aos concorrentes. A voz off reaparece:

– Maria do Carmo Silvestre, 51 anos, separada e com três filhos. Maria do Carmo casou cedo, aos 19, e desistiu de uma carreira para se dedicar aos filhos e ao marido. Durante mais de 20 anos, viveu apenas para a família, fazendo de tudo para que nada lhe faltasse; e não faltou, inclusive um peso exagerado que, aos poucos, foi ganhando, por não cuidar de si. Baleia, vaca e monstro foram alguns dos bonitos apelidos que teve que ouvir, entre risadas, ao longo de tempo. Há 5 anos, o marido, apreciador de linhas mais finas, resolveu procurar outros pesos, ricos em curvas generosas, e partiu com uma colega de trabalho, mais nova em 15 anos e em muitos quilos. Agora, os filhos, já independentes e bem colocados, praticamente não a visitam. Maria do Carmo é uma mulher só, mas será que isso é uma boa humilhação?

– Será que é? – interroga também o apresentador. – Humilhómetro, diz de tua justiça!

O público dedilha furiosamente as suas impressões num pequeno aparelho electrónico, sente-se importante naquela tomada de decisão – como é boa esta coisa da democracia directa, em que basta carregar num botão. Em função dos votos, aparece no ecrã a pontuação de 63. Aplausos.

Entra o segundo concorrente. Vem com um andar um pouco descoordenado.

– António Manuel Lopes, 48 anos – anuncia a voz off. – Vendedor de automóveis, casado e com 2 filhos. Sempre se achou um grande profissional, mas os seus patrões mais recentes não acharam o mesmo e acabou por ser despedido 2 vezes nos últimos 3 anos. Sem trabalho e com uma idade já adiantada para o mercado de trabalho, António não consegue encontrar de novo emprego; talvez por isso, encontrou na bebida o único refúgio. No entanto, quem não achou piada neste novo gosto foi a mulher que o deixou, levando consigo os filhos. É mesmo caso para dizer, Fascinante Humilhação?!

Nova efervescência do público, é tão bom expiar os seus dias tristes através daquele sufrágio moderno em que a pândega da amargura dos infelizes está ali mesmo, a seus pés, num simples deslizar dos dedos. Novos pontos no ecrã, desta vez 77.

– Carlos Maria de Oliveira, 39 anos – apresenta a voz off quando entra o terceiro elemento. – Desde pequeno foi sempre uma criança especial, gostava mais de brincar com bonecas do que com bolas. Na escola, por ter um jeitinho especial, era gozado por todos; agressão verbal e física, com alguns espancamentos pelo meio, não lhe faltaram. Nunca fez grandes amigos. Não escolheu a carreira que quis porque o seu pai achava que designer não era coisa para um homem, tirou apenas um curso de Gestão onde foi um dos melhores alunos. Mesmo sem vocação é um bom profissional, no trabalho todos se aproveitam dele para lhe pedirem coisas; ao não ter constituído família está sempre disponível para qualquer emergência e não tem horas para trabalhar. No entanto, no momento certo, nunca o reconhecem para uma promoção pois poderia dar uma má imagem da empresa. Recentemente, foi espancado por um grupo anónimo ao sair de um bar gay onde, pela primeira vez, tentava entrar para ter uma ideia como era o mundo que, desde sempre, lhe colaram à pele.

Sem a mesma fúria dos anteriores – a este, ainda que não o confessassem, até nem achavam mal que o tivessem achincalhado algumas vezes, é gente esquisita que anda a pôr o mundo de pernas para o ar –, o público despejou electronicamente as suas comoções. O terceiro concorrente obtém apenas 58 pontos.

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– Preparem-se, o desafio seguinte vai ser difícil – esclarece o apresentador, enquanto deixa o centro do palco e se junta ao grupo de concorrentes, sentados em 3 cadeiras coloridas alinhadas num dos extremos do cenário televisivo. – Mas antes de avançarmos no jogo vamos ver se algum de vocês quer, desde já, apresentar o Joker. Relembro que o Joker, uma humilhação surpresa e desconhecida da produção que os concorrentes, num acto de grande coragem, revelam aqui ao vivo, permite duplicar, triplicar ou quadruplicar os pontos na prova humilhante em que for apresentado. Neste caso, o desafio que tem pela frente consiste numa dança em que vão estar nus a dançar com um animal: a Maria com uma vaca, o António com um porco e o Carlos com uma jibóia. Querem então apostar?

Maria do Carmo não acha o desafio difícil e quer apresentar, já ali, o seu Joker, a sua humilhação escondida:

– É que… – diz ela timidamente, – descobri recentemente que tenho um cancro.

Aplausos, muitos aplausos. O Humilhómetro dá-lhe a ponderação máxima de 4 vezes. Com este bónus, se a dança com a vaca corresse bem, tinha quase garantida a vitória.

– Ninguém diria, gorda como está. Grande Surpresa! Muito bem jogado, é um jocker muito bom – comenta o apresentador. – António quer apresentar o seu?

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António quase não levanta a cabeça, o álcool já ingerido, para aguentar mais uma vez a realidade que lhe caíra em sorte, dá-lhe uma certa sonolência, e acena que não. Carlos, em contrapartida, quer também ali jogar a sua oportunidade e revelar o seu jocker:

– Apesar de tudo o que dizem de mim, ainda sou virgem.

Risos na plateia. O próprio apresentador lança uma valente gargalhada.

– É quase surrealista! – observa Cláudio. – Então o meu amigo levou a vida toda a ser gozado por andar enrolados com homens e nem sequer provou um? Essa é demais!

Não obstante o riso geral da plateia, Carlos não consegue mais do que a ponderação de 2 vezes no joker.

Quando se preparam para se despir e começar as danças com animais, António, um pouco a cambalear, chega-se perto de Cláudio e, numa voz um pouco empastelada, diz:

– Eu… eu quero o jocker… agora.

– Ó homem, decida-se – responde o apresentador um pouco contrariado. – Vá lá, diga então o que tem para nos apresentar!

– Eu sou… um assassino!

– Ena, essa é forte, mesmo muito forte, vai estourar com todas as escalas. Assassino de quem?

– Seu!

Apesar dos movimentos desconexos, António saca a pistola do casaco e abate o apresentador, que tomba, num gesto seco, no palco.

Primeiro silêncio, depois aplausos, imensos aplausos!

Mais um conto da colectânea “A Pornografia das Ideias”, escrito lá pelo ano de 2008.

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2 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Agosto 20, 2012 10:48 am

    Pois, está excelente, durante a leitura “vi” um determinado apresentador e não está tão longe da realidade como parece, com jeito e se os deixarem um dia chegarão a algo parecido.
    Maria

    • Bau P permalink*
      Agosto 20, 2012 10:58 am

      Acho que vai chegar a pior; temo. 😉

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