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Cenas

Unidos até que o Bolo os separe

Unidos até que a morte vos separe; é vaticinado aos pombinhos.

No entanto, é todo um conjunto de pessoas aos molhos – que naquele momento de enlevo matrimonial adquirem formas estranhas, não só pelas farpelas rebuscadas que envergam, como também por tudo o que devoram – a ficar muito mais que unida, eu diria quase colada, até ao fim da festa matrimonial. A estes, apelidados de convidados, não vai ser preciso a morte para os separar, bastam umas pequenas fatias de bolo ressequidas para zarparem todos lá para o final da noite.

***

Pedro abriu o envelope e lembrou-se de imediato da antiga expressão da sua avó – mais valia ter partido uma perna – proferida quando ela era confrontada com uma situação para a qual fora empurrada contra a sua vontade.

Más notícias: era um convite de casamento. Pior do que isso, era um convite duplo, uma prima de Pedro casava com um primo de Paula.

– É muito azar para uma mulher só! – vociferou Paula ao saber da notícia, depois de ter arrancado o envelope das mãos de Pedro, para verificar com os seus próprias olhos o destino que lhe coubera em sorte. – Isto só pode ser praga, levarmos com a família inteira em dose dupla. Todas as primas e tias, que não vemos há séculos e que já não sabemos quem são, vão estar ali a dobrar, como se tivéssemos bebido uns copos valentes. Devia haver uma lei que proibisse duas famílias cruzarem-se mais do que uma vez.

– Mas não é tudo. A cerimónia religiosa é numa capela que fica a 60 kms da quinta onde vai ser a festa – informou Pedro.

– O quê, os convites já vêm com GPS?

– Engraçadinha, fui à net ver onde ficava essa tal capela da Sr.ª da Graça de Vimunde. Vai ser uma estafa ir buscar a noiva ou noivo, andar até à capelinha e seguir em caravana ruidosa até ao repasto. Mais um pouco e fazemos a volta a Portugal em bicicleta. Não sei o que lhes deu na cabeça para tal.

– Olha, o que eu sei, é o que me vai dar na minha: vamos dizer que não podemos ir, e pronto. Estou lá agora para ir gastar dinheiro em roupa; sim, porque isto com família a dobrar, além de ser dose de cavalo, não se pode arriscar em levar uma farpela já usada, ficaremos na maldição das línguas por mais de três gerações.

– Mas não achas que pode parecer mal? É que dizes não a dois lados ao mesmo tempo.

– Melhor ainda, matamos 2 coelhos.

Mas não mataram; pelo contrário, foram caçados. Pouco tempo depois, estava Genoveva, mãe de Pedro, a telefonar para pedir boleia, a sua irmã fazia muita questão que ela fosse e não lhe queria fazer essa desfeita:

– Ainda por cima, o desbocado do teu tio diz que vai ser um assombro de um casamento, que vai ficar na história. Sempre quero ver o exagero dele.

Pedro bem tentou argumentar que Jorge, seu irmão, poderia levá-la, mas não adiantou, porque era precisamente no carro dele que a noiva seguiria até à igreja, logo não havia lugar para Genoveva.

– Pois, é o que dá ter um carrão saído na farinha Amparo – disse Paula, referindo-se ao facto de o cunhado ter ganhado um Mercedes CLK, último modelo, num concurso qualquer de um hipermercado –, todos querem fazer vistão no popó. Ok, vamos lá enfrentar as feras!

– Há aqui um problema matemático que ninguém viu – referiu Pedro depois de a mãe desligar. – Nós somos 3, com a mãe 4, só sobra 1 lugar. Ora se o Jorge vai levar a noiva, a Sara e a Bárbara têm que saltar nesse trajecto. E para onde vão? Para o nosso carro, o que faz 6. Não dá.

– Ai não dá, não! E não é por uma questão matemática. Aguentar o Miguel e a Bárbara, fechados no espaço mínimo de um carro durante 60 kms, a implicarem um com o outro, com a Sara a ficar  histérica, não vai ser um tormento, vai ser uma tragédia e das gregas. Não sei se chegaremos primeira à boda, se a um hospital com a tua cunhada com uma nova overdose de lexotans.

– Por falar em hospital, tu não tens uma operação qualquer para fazer, uma coisa simples, mesmo que seja um sinalzinho para tirar? Era uma boa altura, na semana do casamento, um internamento. Olha, até uma lipo-aspiração te pago, se for preciso.

– Ouve lá, tu estás a dizer que eu estou gorda?

Pronto, a conversa acabara de descarrilar com a introdução do factor peso na semântica; foi preciso, depois, muito salto-mortal em mimo para que Pedro apagasse a imagem com que inundara o espelho de Paula em frente à balança. Quem ficou contente nessa noite foi Miguel que, sem sabor como, pôde comer todas as batatas-fritas destinadas à mãe.

***

A escolha do vestuário estava a ser pacífica, os homens da casa já estavam despachados – o fato preto de Pedro servia para todas as ocasiões e numa criança qualquer coisa ficava bem -, Paula estava de namoro, quase noivado, com um vestido numa boutique de bom gosto e sapatos não faltavam no armário; tudo isto até ela saber que uma cunhada ia vestida pela coqueluche da moda nacional e que outra ia levar peças assinadas por um italiano difícil de soletrar. Estavam abertas as hostilidades.

A partir daquele momento, para Paula, no seu léxico fashion, só havia vocábulos diabólicos de Prada para cima; tal a forma como fumegou com a escolha da indumentária, poder-se-ia dizer que entre ela e o inquilino das profundezas enxofradas passou a haver uma afinidade quase siamesa. Perante tal alvoroço, a fazer pactos infernais, Pedro bem tentou amenizar, que era só um casamento numa parvónia qualquer.

– Por isso mesmo, vou ser esmagada como uma barata maltrapilha. Sabes como é que são aquelas línguas, sempre prontas para ferrar, ainda por cima a dobrar; se aparecesse de uma forma simples, quando olhassem para mim diriam logo, coitada, é uma professoreca qualquer, enfim, está simpaticazinha para ir dar aulas; enquanto sobre as outras – as outras eram as suas cunhadas -, vão dizer, olha que bem que elas estão, parecem umas estrelas, são as senhoras engenheiras, ainda que uma nem exerça, tem lá disposição para tal, e a outra, além das misturas de lexotans que mete no buxo, nunca na vida deve ter manipulado um único químico.

– Deixa lá, a ver muitas das obras que andam por aí da alta moda, a única impressão que elas vão meter é à passarada quando se passearem no meio de um campo.

Mas Paula não se convenceu com aquela ironia sobre espantalhos e, enquanto não arranjou uma peça de arrasar, não sossegou. Com o dinheiro que acabou por gastar estava proibida de ir aos saldos ou a qualquer outra sessão de compras durante os próximos 20 anos.

***

Apesar de todo o festival à volta da compra do vestido de Paula, até que a cena do casamento não estava a correr muito mal, pensou Pedro; ali estavam eles, à porta da casa da noiva, sem grandes chatices durante a viagem. Na verdade, Sara e Bárbara – não tinham vindo com eles e como Genoveva continuava a ser uma ocupante do seu carro, teriam que encontrar uma outra solução para o transporte da cunhada e da sobrinha no percurso até à igreja e ao local da festa, precisamente quando o seu irmão ficaria com o Mercedes da farinha Amparo ocupado; a matemática e o código da estrada estavam do seu lado.

Ao saírem do carro, o tom escuro do céu e uma certa ventania anunciava chuva.

– Casamento molhado é casamento abençoado – comentou Pedro.

Paula não deve ter sentido grandes abençoamentos; com as suas sedas abertas, começava a ter algum frio. Não estava só, a maioria das mulheres presentes, a sair dos carros, apesar de ainda se estar num Primavera bem tímida, também ostentavam ombros e ombros à mostra, como se todas tivessem sido contaminadas por uma epidemia têxtil tropical. Qualquer uma delas estava pronta para dançar num terraço de um bom hotel nas Caraíbas, numa noite de luar cálido, e não para esperarem por uma noiva quase que no meio da serra, em pleno mês de Abril, que desde sempre se disse que traz águas mil. Atchim foi mesmo o som mais ouvido.

Quando entraram em casa, começaram os cumprimentos da praxe: olha quem ele é; ai está tão crescido; ainda ontem era um miúdo e hoje já está aqui com um filho; é isto que nos faz velhos. As frases foram acompanhadas de beijos e beijinhos, alguns bastante estridentes, que depois, perante o embaraço dos pais, seriam limpos rapidamente pela geração mais petiz.

A mesa de boas-vindas, apesar de serem 11.30, e de o casamento ser seguido de almoço, tinha todo o tipo de salgados, incluindo umas boas tranches de leitão.

– Não percebo porque é que põem sempre todos estes salgados a esta hora da manhã, que enjoo! – referiu Paula ao olhar os pratos de leitão e de coxas de frango assado, não contando, porém, que a sua ala masculina já se alapara a um pratinho com leitão, para o Pedro, e croquetes, para o Miguel; nem sequer a pisadela que ela deu a Pedro evitou que ele saboreasse o leitão.

– Sabe-se lá a que horas se vai almoçar – justificou-se Pedro. – Além disso, não comi nada de manhã e estou com uma fome que nem te conto.

Mas contou com todas as letras. O jejum de Pedro não se deu muito bem com a gordura da pequena espécie suína e, passado algum tempo, ele estava extremamente maldisposto; tanto que se viu obrigado a sentar, enquanto Paula tentava providenciar uma água das pedras. Nesse entretanto – enquanto esperava a salvação para amainar o desgraçado do leitão que andava numa revolução na sua barriga -, ele reparou num pequeno miúdo, mais novo do que Miguel, que, no canto da sala, trincava refastelado umas boas coxas de frango. O problema é que a gordura do pedaço de carne já escorria pela sua bela fatiota, um fatinho azul celeste com uma camisa aos folhos, e começava a emprestar-lhe uma outra tonalidade menos cerimoniosa. Cá para mim, as alianças ainda vão cheirar a frango assado, pensou Pedro no meio da sua má disposição.

Paula não lhe apareceu propriamente com água das pedras, mas, sim, com a querida Ermelinda – uma tia-avó ainda toda rija, que tinha a mania das infusões, daí a alcunha de Linda das Ervinhas -, que lhe trazia um chávena de chá.

– Toma meu filho, que vai fazer-te bem. Este não é propriamente para as más disposições, é mais para os nervos. Estive a fazê-lo para dar um pouco à Daniela, já sabes como são as noivas, todas nervosinhas, mas mal não te faz, tudo o que faz bem à ansiedade faz bem ao estômago, porque é aí que se alojam os nervos.

Pedro agradeceu e começou a beber uma chávena bem grande, almoçadeira, do bendito chá, quase até à última gota; quase, porque, antes que ele saboreasse o último gole, ouviu-se um forte grito lá de dentro, o que o levou, com o susto, a entornar o resto do líquido no seu precioso fato; felizmente que era escuro.

– Ai, foi a minha menina! – gritou também Ermelinda, de uma forma menos estridente, correndo para o interior da casa a fim de ver com os seus próprios olhos o que se passava com a noiva, ao ter gritado daquela maneira.

Mas ainda ela não tinha passado a porta que ligava a sala à zona dos quartos, ouviu-se um outro grito bem forte, desta vez não tão agudo. Todos se interrogavam o que se estaria a passar e de quem seria este novo grito. A dúvida de autoria do último foi prontamente esclarecida quando um rapaz, com um penteado todo despenteado a gel, entrou na sala e voltou a soltar um grito igual. Imediatamente, um outro rapaz, de cabelo ainda mais esquisito, apareceu para o tentar acalmar, abanando-o com as mãos.

– A minha obra, a minha obra! – gritava e chorava o primeiro rapaz. – Ficou completamente arruinada.

– Tem calma, Bruno, vais ver que tudo se compõe – acalmava o outro, continuando a abaná-lo.

De repente, o petiz do fatinho anteriormente azul celeste apareceu disparado e a fazer valer a sua garganta infantil, seguido de Daniela, já vestida de noiva e lavada em lágrimas, que o perseguia à volta da mesa. Todos puderam ver que o vistoso e rodado vestido branco pérola ostentava agora, na sua superfície acetinada, umas grandes nódoas de gordura em forma de mão. O menino das alianças, depois de se ter consolado com as coxas de frango, dera um abraço à sua madrinha, Daniela, como prova do grande amor que sentia por ela; sentia-se muito feliz por lhe ter sido confiada tão nobre missão no altar.

– Eu nem sei o que te faço! – gritava a noiva, o que assustava ainda mais o miúdo e provocava nele um choro maior. No entanto, mesmo no meio de tamanho desgosto, ele, qual atleta olímpico, não se deixava apanhar.

Bruno, o estilista do vestido, amigo de Daniela, que estava agora a lançar-se na moda – após ter feito um curso de design têxtil, algures num politécnico do interior -, e que fora um dos autores gritos, ao ver as nódoas, ajoelhou-se aos pés da sua obra para contemplar a dimensão da tragédia e fazer a avaliação dos estragos. O amigo do estilista procurava consolar a noiva, que, naquele momento, bebia mais uma chávena de chá da tia Ermelinda – com aquela já era a terceira que bebia, os nervos de uma noiva são difíceis de amainar.

O anjinho das alianças foi retirado em ombros – num choro constante pela sapatada que levara, entretanto -, não porque a sua faena fosse do gáudio geral, mas porque precisava de ser enviado para uma missão de emergência: ir a casa substituir o fato azul celeste por um outro igualmente vistoso, um disfarce de marajá do último carnaval que, tirando o turbante, também ficaria bem.

***

Depois daquele atentado ao maior património cultural de uma noiva, o vestido, e da sua recuperação – umas pregas criadas à última hora, a fazerem subir o vestido e a deixarem ver umas rendas por baixo; por sorte tinham sobrado uns metros do véu, não há nada como estilismo moderno -, o cortejo seguiu, finalmente, para a igreja, com um atraso bem significativo.

– Olha, eu vou de boleia com a Cândidinha – informou Genoveva já fora, no terreiro em frente à casa. – Assim sempre podes levar a Sara e a Bárbara, escusam de ir no carro de alguém que não conhecem muito bem.

Pedro e Paula ficaram em pânico, o que mais temiam, ter o Miguel e a Bárbara fechados no carro, ia acontecer. Pedro duplicou o pavor, pois temia também pela segurança da sua mãe; ir com a tia Cândida, que resolvera tirar a carta e começar a conduzir aos 60 anos, não era boa ideia.

– Não tenhas medo meu filho – sossegou a tia Cândida, a mexericar as chaves do carro para provar que era uma autêntica condutora -, que eu ando sempre devagar. Vamos nós as 3, eu, a Veva e a tia Ermelinda, as três velhas da vida airada.

Sem aceitarem qualquer alteração ao planificado, dirigiram-se as três, no meio de grandes risadas para o Fiat Punto de Cândida.

– Ó Candidinha, será que ainda chegamos a tempo de ouvir o sim? – brincou Ermelinda.

Entre risada, foram as últimas a arrancar para não atrapalharem o trânsito do cortejo matrimonial, comitiva que seguiu o seu longo e pausado percurso em direcção à distante e esquecida capela – a ermida apenas fora escolhida por ter sido o local onde, há cerca de três anos, os pombinhos se conheceram num outro casamento de amigos comuns.

O grande acontecimento com as nódoas no vestido serviu para que os primeiros quilómetros fossem animados e não houvesse grandes incidentes na viagem entre os dois pequenos primos. Todos riam do sucedido e o Miguel fazia perguntas, disto e daquilo; o pai ia respondendo de uma forma bastante expositiva para ocupar o tempo, quanto maior fosse explicações mais quilómetros de quietude se ganhavam.

– Mas ó pai, porque é que estavas com medo que a avó fosse com a outra velhota no carro?

– Porque ela não tem carta há muito tempo e já tem uma certa idade.

– Então achas que os velhotes não podem conduzir?

– Não é isso, todos podem conduzir, mas ela tem carta há pouco e a experiência é importante.

– Mas se fosse nova não dizia isso.

– Claro, porque as pessoas novas têm mais reflexos e uma maior capacidade de aprendizagem. Conduzir tem muito de reflexos…

– O que são reflexos?

– É uma reacção rápida do corpo a um estímulo?

– E o que é um estímulo?

– Olha, quando eu te vou dar uma sapatada tu normalmente tapas-te, não é? Como sabes que te vais doer tens o reflexo de te proteger, reagiste a um estímulo que é a dor que prevês que vais sentir.

– Este meu pai sabe tudo! Ó pai como é que sabes tanta coisa?

– Sabes, o teu pai antes de tu nasceres tirou um curso intensivo – meteu-se Paula na conversa. – Fartou-se de estudar muito para ter o diploma de pai.

– Ó pai e se chumbasses?

– Se calhar não podia ser pai – respondeu Pedro. – Olha, lá teria, então, que ser mãe.

Gargalhada geral.

– Que piadético – disse Paula, fingindo-se amuada. – Se trabalhasses mais em lugar de andares mails com anedotas; essa já é velha.

E tudo corria bem até Bárbara começar a dizer que queria fazer xixi.

– Ó tio, eu estou tão aflita.

– Bárbara, agora não dá, estamos numa estrada com muito movimento.

– Mas eu já não aguento.

– Aguenta, que já não falta muito – tentou sossegar Pedro, mesmo sabendo que ainda faltavam uma boa dezena de quilómetros.

– Não vai dar, não vai dar.

Mijona, tinha que ser a mijona! – gozava Miguel.

– Parvo! Ó mãe, ele está a fazer pouco e eu não posso mais.

– Miguel, está calado! – ralhou Paula, já que Sara ficou muda, a tentar concentrar-se para não entrar em stress.

– Tio, se não parares, eu faço aqui mesmo.

– Bárbara, fecha as pernas, que ali mais à frente eu paro.

Nem ela fechou as pernas nem ele parou mais à frente; foi logo ali. Um semáforo ocasional levou a que o carro parasse; Bárbara não esperou mais um minuto, abriu a porta do carro, atravessou a estrada e, em alta correria, agachou-se por detrás do separador do outro lado. No entanto, foi gato escondido com rabo de fora: como era pequena e o separador era alto, ao aninhar-se ficou visível a sua posição de cócoras por quem estava parado na fila de trânsito. Em tempos modernos, as pessoas, especialmente as mais jovens, já não sabem rir só no momento, precisam também de rir depois; vai daí, todos a apontar os telemóveis para registar o momento. Pedro barafustou contra a falta de educação daqueles paparazzi de trazer por casa; nem reparou que o seu pequeno Miguel também registava a situação da prima com o telemóvel do pai, um gadget topo de gama no qual ele, Pedro, tinha muito orgulho.

O sinal passou a verde, todos apitavam, mas havia que esperar pela pequena Bárbara, que muito segura e aliviada caminhou para o carro; e lá foram, todos contentes a caminho da capela da Sr.ª da Graça.

– Ó mãe, ele está a tirar fotografias às minhas pernas – queixou-se Bárbara da continuação de Miguel na sua arte de repórter.   

A cena continuou durante uns largos minutos, até que um berro maior de Bárbara, ao ver um vídeo no telemóvel que o primo ostentava, complicou mais a cena:

– Ó mãe, ele filmou-me a fazer xixi!

Mas nessa altura já ninguém ligou ao assunto: Sara procurava desesperadamente a caixa dos Lexotans na mala, tinha que acalmar os nervos que já davam saltos mortais dentro de si; Paula olhava a paisagem ao som de uma música do Mp3 do filho, só assim os deixara de ouvir e podia ficar um pouco em paz; Pedro tentava concentrar-se para conseguir aguentar a sua vontade de urinar, mas estava a ser difícil, a bexiga parecia que rebentava.

– Não dá mais, vou ter que parar – anunciou ele. – Agora sou eu que tenho que parar.

– Ó Pedro, pára num sítio onde também eu possa ir – pediu a cunhada. – Preciso urgentemente de uma casa de banho.

Avistaram um café de beira de estrada. Pedro nem hesitou, parou o carro e correu para lá. Como entrou tão aflito dentro do café, nem precisou de abrir a boca, a senhora por detrás do balcão apontou-lhe uma porta ao fundo. Quando entrou, procurou o interruptor para acender a luz, mas não encontrou; estava numa casa de banho moderna em que a luz se acendia por um sensor. Ao fim de alguns segundos, felizmente que tudo se iluminou, ele já não aguentava mais. A pressão era tanto que não havia tempo para procurar botão, fechos e aberturas, era mesmo baixar calças e boxers e já está. O problema é que no momento em que se ia aliviar a tal luz moderna foi-se e tudo voltou à escuridão dos tempos antigos. Não estivesse com uma fatiota de casamento e teria soltado toda a sua pressão urinária em qualquer lado, caísse onde caísse; mas não se podia aventurar a fazer uma coisa dessas, a probabilidade de molhar as calças era muita. Assim, começou a mexer-se um pouco para ver se a luz se acendia, mas ela teimava em continuar na idade nas trevas. O limite para que nascesse ali um lago aos seus pés estava prestes a ser atingido. Pedro numa derradeira tentativa levantou os braços e começou a agitá-los, como se tivesse a fazer uma onda no futebol. As calças caíram-lhe aos pés mas ele continuou, naquela dança do homem nu da cintura para baixo, a pregar aos céus por um momento iluminado.

A porta abriu-se. Um homem, corpulento, entrou e a luz acendeu-se; ficou especado ao ver Pedro de mãos no ar, como se tivesse a dançar um vira, nu da cintura para baixo, a olhar também espantado para ele. Como em qualquer situação constrangedora entre dois homens, tossiram e cada um foi para seu lado.

Quando Pedro chegou ao carro ainda Sara não regressara. Calou o ocorrido, não estava com paciência para ser o bobo da corte o resto da viagem. A cunhada apareceu pouco tempo depois:

– Também estava mesmo à rasquinha. Não sei o que nos deu.

– Mas eu sei – respondeu Paula -, são os chazinhos da tia Ermelinda. Que mais podia ser?

– Mas não fui só eu que tomei? – perguntou Pedro, enquanto arrancava com o carro.

– Não, quando eu te fui buscar a água das pedras, a Sara e a Bárbara também tomaram na cozinha.

– Ela disse que era bom para os nervos, e eu gosto de atacar logo antes de eles me atacarem a mim – justificou Sara, já com a voz um pouco lenta, tinha aproveitado a ida à casa de banho para tomar 2 lexotans.

– Bom, se foi do chá, sabe-se lá quem mais estará aflitinho a esta hora – disse Pedro, antes de arrancar.

***

A noiva. Daniela lutava contra uma vontade enorme de ir à casa de banho.

– Pai, eu não posso entrar na igreja assim – informou Daniela, já a cruzar as pernas.

– Ó filha, aguenta um pouco, quando chegarmos à igreja, fazes.

– Mas ó pai, aquilo é uma capela antiga, nem casa de banho deve ter.

– Tem que ter, senão a ASAE já a tinha mandado fechar – brincou Jorge, enquanto conduzia, para amenizar a conversa.

– Ó Jorge, não digas parvoíces que eu estou que não posso.

– E o que queres que eu faça?

– Pára-me aí em qualquer lugar.

– Não posso, aguenta um pouco.

– Não dá, eu vou fazer xixi pelas pernas abaixo. Depois das nódoas só me faltava agora uma mancha de urina no vestido.

– Vá lá, concentra-te na tua cerimónia.

– Não, pára! – ordenou Daniela ao ver um local onde podia satisfazer a sua necessidade. – Já sei o que vou fazer.

Jorge parou o carro e Daniela saiu a correr, sem esperar por ninguém, em direcção a um edifício antigo com ar de pouco trato. Era um posto da GNR.

– Desculpe, eu preciso de ir à casa de banho – disse Daniela, no meio de uma sala de entrada, a um guarda, que se encontrava por detrás da secretária.

Este demorou algum tempo a responder, ainda estava a pensar que tudo aquilo era alucinação: ver ali, uma noiva especada no meio do posto, a pedir para ir à casa de banho.

– Mas aquilo não tem condições – respondeu ele timidamente.

– Não interessa, para o que é serve perfeitamente. Por favor!

Bolas! Ainda agora tinha vindo de um curso de formação sobre formas de actuação perante a população civil e nunca lhe explicaram como fazer numa situação destas. Mas por que raio não acompanhara os colegas à ocorrência de um cavalo à solta no meio de uma estrada? Sobrava sempre para ele as situações mais complicadas, já não lhe bastava a história da velha que, no ano passado, o fizera passar por parvo, ao tê-lo trancado na cave onde ele procurava um animal selvagem que ela denunciara – não fosse o telemóvel e prontidão dos colegas e ainda hoje lá esteva -, tinha agora uma noiva em desespero urinário. Com algum constrangimento indicou-lhe uma pequena porta ao fundo, debaixo de uma vão de escadas.

Daniela tentou entrar, mas o espaço pareceu-lhe muito pequeno para tanto volume de vestido e véu. A situação complicou-se quando olhou para o chão e viu um pequeno lago; mesmo assim, não podia voltar para trás, a sua bexiga não aguentava mais, agora só tinha que decidir em que parte ia agarrar, no vestido ou no véu? Foi aí que teve uma ideia.

– Ó sr. Guarda, podia chegar aqui – pediu ela.

Ele foi a tremer, pelo andar da carruagem já sabia que dali não sairia grande coisa.

– Olhe, como isto está um pouco molhado, podia segurar no véu enquanto eu faço o xixi?

Por muito que se deitasse a sonhar, nunca ia imaginar que um dia estaria ele, ali no posto, a segurar o longo véu que desaparecia na frincha da porta, onde, por detrás, estava uma noiva que, de vestido quase à cabeça, se aliviava da pressão que umas chávenas de chá lhe tinham provocado. Ele, só pedia a Deus que os seus colegas não chegassem mais cedo e assistissem àquela cena, ali em directo e a cores, de um homem fardado e bem volumoso no abdómen a segurar o véu como o menino das alianças; quanto muito, ele contaria mais tarde uma versão bem romanceada, à sua maneira.

***

A paragem de Pedro para alívio urinário teve uma consequência não muito agradável: perderam o cortejo matrimonial e, assim, teriam que chegar à bendita capela navegando sozinhos.

– Isto não tem problemas, eu estive a ver, é sempre em frente.

Mas não era. Ainda mal tinham andado umas centenas de metros e já surgia um cruzamento pela frente com uma rotunda, em que nenhuma das vias seguintes parecia estar em frente àquela de que eram provenientes.

– Miguel passa-me aí o telemóvel, que isso tem GPS – pediu Pedro, depois de ter parado o carro, todo orgulhoso por, assim, ir mostrar as maravilhas da sua nova aquisição. – Sempre valeu a pena o dinheiro gasto neste brinquedo.

Falou antes de tempo. Por muito que tentasse accionar as milhentas opções do telemóvel de última geração, não conseguia obter a direcção daquela que acabara de ser despromovida a maldita capela no seu vocabulário, uma ermida no meio do monte.

– Ou não li bem as instruções ou então o cruzamento é novo – justificou ele.

– Pois, pois, muito me admirava que isso funcionasse – comentou Paula. – Então essa do cruzamento ser novo é um mimo, aquelas paredes ali até já têm musgo. Não será melhor perguntar?

Pedro quase que se sentiu insultado: se antes de ter um aparelho GPS nunca perguntava, como poderia agora fazê-lo; tentou mais um pouco, mas nada. Irritado, atirou com o telemóvel.

– Bom, eu acho que deve ser por ali, o pavimento da via parece ser igual. O que é acham?

Paula encolheu os ombros, como quem dizia, lavo daí a minhas mãos.

Uns quilómetros mais à frente avistaram uma pequena igreja do lado direito, a que se acedia por uma estrada em mau estado. Um grande conjunto de carros estava parado à sua porta.

– Estás a ver? Os meus palpites nunca falham.

Pararam o carro. Avisaram Sara que tinham chegado, para que ela começasse a acordar do seu sono embalado a lexotans. Apesar de todo o esforço, ela não conseguiu uma postura totalmente hirta, pelo que teve que ir pelo braço de Paula.   Assim, subiram as duas a escadaria, agarradas uma à outra, como se viessem de uma grande noitada de copos, e entraram na igreja. Como os reflexos de Sara não estavam totalmente recompostos, já dentro da capela continuou a dar passadas como se ainda estivesse a subir escadas, o que provocou algum barulho e a atenção de todos, inclusive do padre que parou a homilia. Envergonhados, tentaram sentar-se de imediato, situação que não foi fácil, pois Sara, ao não dominar bem os tais reflexos que Pedro tão bem explicara anteriormente, acabou por cair, como um corpo morto, no banco, o que provocou um enorme estrondo, com a madeira a ressoar o seu peso no chão, e novamente uma onda de atenção reprobatória.

– Ó mãe onde estão os noivos? – perguntou Miguel, enquanto eles se acomodavam no banco.

Ficaram para morrer. No lugar, onde devia estar o par de pombinhos pronto a começar uma nova vida, figurava uma outra entidade que terminava a sua: uma urna ladeada de flores.

Ainda com maior estrondo do que aquele com que entraram, apressaram-se a sair.

– Parece impossível, já nem os mortos respeitam. Era o que faltava ver, duas piruas engalanadas num funeral como se estivem num casamento.

– E bêbadas, e bêbadas!

Foram alguns dos comentários.

Quem olhasse para um dos carros parados junto a uma pequena igreja, ao lado de um cemitério, acharia estranho ver cinco pessoas a rir compulsivamente num local como aquele. O certo, é que ninguém conseguia proferir a mínima sílaba, a estranha figura que tinham acabado de fazer era superior a qualquer palavra que estivesse em mente.

Um casamento esperava por eles, agora que um funeral já estava aviado.

***

Os deuses resolveram brincar naquele dia. Depois de um convite duplo de casamento; depois de umas impressões digitais infantis terem posto uma noiva à beira de um ataque de nervos, e quase a cometer o primeiro infanticídio na história das mulheres de branco pérola; depois de umas pressões bexigais terem posto a noiva e parte do acompanhamento à beira de um ataque urinário; depois do longo caminho para uma capela perdida se ter esfumado; depois de um funeral se ter atravessado pela frente; depois de berros, birras e alguns lexotans, ali estavam eles perdidos de riso com todo o aquele teatro matrimonial que lhes tinha caído em cima. Que mais lhes poderia acontecer? Muita coisa, os deuses estavam danados para a brincadeira.

Retomaram o caminho e logo a época de boa disposição foi encerrada, abrindo-se uma outra: a do onde se tinha enfiado o maldito casamento, que ninguém mais lhe pôs a vista em cima? Nem mesmo a serena Cândidinha, na sua condução caracol, passava por eles. O melhor era telefonar para alguém.

– Onde está o telemóvel? – perguntou Pedro, ao não encontrar o seu brinquedo de estimação.

– Está aqui, papá – respondeu Miguel, entregando-o ao pai.

Ele tinha sido máquina fotográfica e de filmar; ele tinha sido leitor de Mp3; ele tinha sido TV-móvel; ele tinha sido internet; ele tinha sido aparelho de GPS; ele tinha sido tudo. Tanta excelência que, mal Pedro marcou o número e carregou na tecla de chamar, o telemóvel, exausto de solicitações, pediu desculpas e desligou-se por ter a bateria fraca.

– Eu não acredito que essa geringonça, que faz tudo, só lhe falta estrelar ovos, não faça aquilo que supostamente devia fazer, um raio de um telefonema – comentou Paula, num tom de pouca paciência.

– Miguel, que tiveste tu a fazer? Eu carreguei esta porcaria antes de vir. Isto não é para brincar, é um aparelho muito caro – ralhou Pedro, meio furioso, meio encabulado, pela partida do seu brinquedo maravilha.

– Olha, se fosse mais barato já tínhamos o caso resolvido – continuou Paula. – Eu estou farta de dizer, nesta coisa dos aparelhos o melhor é comprar o mais simples de acordo com o que se precisa deles. Mas não, os homens entusiasmam-se com todos os extras e programazinhos idiotas e zás, é pagar mais para depois ser o que se viu, só atrapalham.

– Nem me fales nisso – interpelou Sara, que tinha ficado bem acordada com o ataque de riso à saída do funeral. – Por causa dessas manias, o Jorge comprou uma máquina de lavar toda sofisticada, só lhe falta falar. Aquilo é luzinhas e apitos por todo o lado, parece uma nave espacial. Ela pesa a roupa, ela avalia a sujidade, ela analisa os tecidos, depois decide cientificamente o programa mais indicado. Só que o indicado é sempre uma eternidade. E contrariá-la? Parece que tem vida própria. É quase necessário um curso superior para a desprogramar. Com tudo isto, nunca consigo pôr o raio de um programa simples para lavar a roupa normal, que nunca está muito suja. Olha, preciso tomar calmantes sempre que me aproximo dela.

Tu precisas sempre de tomar calmantes, pensaram todos, incluindo as crianças.

– Paula, empresta-me aí o teu – pediu Pedro.

– Meu? Achas que com uma bolsinha assim trazia telemóvel?

– E tu Sara?

– Também não trouxe.

– Se abrissem as vossas lindas bolsas, ou lá o que é essa coisa, são capazes de ter aí uma farmácia inteira, mas o maldito telemóvel ficou em casa.

– Então o Mr. Hércules não trazia o Ferrari dos telemóveis? – atacou Paula.

Mesmo sem direcção, lá seguiram, na esperança de avistar uma ermida à beira da estrada.

***

– Eu não aguento mais andar aqui como uma tontinha. Pára aí, que eu vou perguntar! – ordenou Paula, tirando o cinto de segurança.

Pedro parou logo que avistou gente nas imediações, quando ela tirava o cinto já não adiantava argumentar, mais uns metros e corria-se o risco da mulher se atirar pela janela fora; se bem que, com a tormenta que se abatia por ali, não seria má ideia de todo, pensou Pedro.

Paula saiu do carro e dirigiu-se a um senhor que, em cima do tractor, lavrava o campo.

– Desculpe, sabe dizer-me onde fica a ermida da Srª da Graça?

O homem parou o tractor, com o barulho do motor não teria ouvido o que aquela estranha mulher, toda janota, lhe dissera. Nessa altura, Paula reparou que uma criança, que se levantara, estava também no veículo agrícola.

– Disse alguma coisa, minha senhora?

– Sabe onde fica a ermida da Srª da Graça?

– Aqui perto?

– Sim, acho que sim.

– Nunca ouvi falar.

– Mas acho que é para estes lados.

– Essa é boa! Olhe que eu nunca ouvi esse nome.

– Pronto, desculpe, boa tarde.

– Espere aí um bocadinho, que eu vou ver – disse ele, enquanto pegava numa pasta preta que estava ao seu lado. Retirou de lá um computador portátil e ligou-o. – Isto agora demora um pouco a arrancar, sabe aqui o sinal não é muito bom. Mas eu vou já aqui ao gugli e procuro.

Paula estava de boca aberta: a revolução tecnológica tinha chegado aos nabos, que era a cultura que ela vislumbrava nesse campo.

– Sabe, eu trago isto para ir vendo o tempo e as notícias aqui no campo. Dá jeito!

– É, é! – interrompeu a criança. – É mas é para veres poucas-vergonhas na internet, que em casa a avó não te deixa. Julgas que eu não sei?!

Fez-se, então, silêncio até o homem encontrar alguma coisa na pesquisa, qualquer comentário adicional poderia desembocar num incentivo à violência infantil.

– Ah, a Capela das Alminhas?! Pelo outro nome não a conhecia, aqui na terra todos lhe chamam Capelas das Alminhas. Mas olhe que já vêm mal, deviam ter virado lá atrás no cruzamento.

– Eu não te disse? – atacou Paula, mal entrou no carro. – No cruzamento devíamos ter virado para o outro lado, mas tu e os teus palpites!

– Eu não acredito! Eu perguntei e ninguém disse nada – barafustou Pedro, arrancando de supetão com o carro a fim de fazer inversão de marcha.

– Mas olha que eu também me palpitava o outro caminho – acrescentou Sara, sem se lembrar que no momento da escolha ela já dormia o sono dos ansiolíticos.

– Mulheres, sempre a mesma coisa, na altura própria ficam caladas e depois é que vêm dizer que se devia ter optado por outro lado. Por amor de Deus, digam logo o que pensam, não venham com prognósticos no fim do jogo.

– Sim, mas se tu não tivesses sido tão convencido, como qualquer macho a desbravar caminho, terias parado, perguntado e depois decidido. Mas não, têm a mania que perdem a virilidade por perguntar uma direcção.

– Não vires o bico ao prego, o certo é que eu perguntei-te e tu não nada disseste.

A conversa acesa lá seguiu, com cada um a atirar achas sobre a fogueira do comportamento de homens e mulheres, sempre com a chama das culpas em lume vivo. Uma autêntica barulheira que foi interrompida por uma simples frase de Bárbara, proferida quando passaram sobre um riacho de águas podres e um mau cheiro invadira a viatura.

– Esta coisa dos puns é mesmo misteriosa, não é?

Gargalhada geral. Acabou com a discussão acalorada e permitiu uma boa disposição até chegarem ao local pretendido.

***

Desta vez entraram com cuidado; por via das dúvidas, só quando viram o par de noivos no altar ousaram avançar. Apesar do atraso, a cerimónia ainda não começara, apenas tinham perdido aquela entrada triunfal da noiva, ao som de uma marcha engasgada, e a espera vencida do noivo, que está sempre com um ar de criança posta de castigo junto ao altar.

Com todas as confusões do vestido manchado, a cerimónia estava atrasada e o padre furioso; tanto que se recolheu na sacristia e pediu que só o chamassem quando a noiva estivesse no sítio certo. Assim, já com noivos e padrinhos nas marcações certas, e todas as velas afastadas, não houvesse um descuido e criar-se ali mais um momento fogoso para a noiva, o padre reentrou na zona do altar.

– Olha , chegou o palhaço! – comentou, naquele preciso momento em que há um micro segundo de silêncio, uma criança, ao colo da avó, pouca habituada a cerimónias religiosas e a vestes de personagens eclesiásticas.

Por um lado, havia um riso contido de todos os presentes, excepto da avó – que queria um buraco para se enfiar, a si e ao seu petiz, que nunca sabia estar calado, tal e qual como a mãe, sua nora, que tinha uma língua afiada -, por outro, uma expectativa enorme em ver como é que o padre iria reagir, já que ele era conhecido por ter um feitiozinho um pouco especial, que é como quem diz, fervia em pouca água.

– Caros irmãos – disse o padre, mas foi interrompido pelo riso sufocado dele próprio. Tentou acalmar-se e retomar o discurso, mas logo na primeira sílaba voltou a ter um ataque de riso. Pediu desculpas, mas continuou a rir.

Apenas Daniela suspirava e desesperava com mais um momento burlesco. Todos os presentes, incluindo noivo, acompanhavam o padre naquela jornada de riso compulsivo que se tornara num autêntico processo em cadeia, embora alguns, porque não ouviram a qualificação circense do petiz, riam apenas por ver rir os outros.

– Pronto, agora que já tivemos este momento hilariante, inspirado na voz dos inocentes, vamos retomar a cerimónia – disse o padre, tentando pôr um ar mais sério. – Aos operadores de câmara presente, não se esqueçam de enviar isto para os apanhados, que é o costume.

– Ó sr. Padre isso era antigamente, agora põe-se no youtube – esclareceu um jovem que empunhava uma mini câmara, e que achava que tinha acabado de registar o seu best view.

Mais um outro percalço e Daniela terminava o dia numa urgência hospitalar a comer à dentada as margaridas silvestres do seu boquet. Num dia que se queria marcante pela importância romântica, todas as situações ridículas pareciam querer unir-se para lhe estragar aquela data única. A sua sorte é que, pelo adiantado da hora, o próprio padre resolveu fazer uma versão compacta da cerimónia e, ao fim de poucos minutos, estava o eterno sim solto no espaço e as alianças no dedo; até o pequeno das coxas de frango entrou e saiu de cena com uma velocidade maior do que um esquilo a roubar nozes. Ora vamos lá despachar a coisa, que esta gente está com fome. 

Enquanto noivos e padrinhos se dirigiram para as assinaturas protocolares – que isto de casamentos, mesmo com uma aura divina, convém registar bem as coisas no papel, não vá haver alguma confusão daqui a alguns tempos e ser preciso depois encontrar o nome dos culpados -, o resto do pessoal resolveu sair para o átrio da igreja, aguardando um outro momento de protocolo matrimonial: as fotografias.

Claro que nesse compasso de espera, é então cumprido um outro ritual: o dos cumprimentos aos familiares que ainda não se tinham visto, especialmente àqueles que já não se enxergavam há muito:

– Olha o Pedrinho, que crescido que está! Um homem feito! – normalmente falam sempre como se estivessem a falar com crianças, mesmo que o Pedro estivesse quase com 40 anos e levasse pela mão uma descendência já com algum crescimento. 

– Ah, a nossa Paulinha está uma mulher! Mas estás bonita, filha, com boas cores, mais cheiinha – pronto, com a alusão a volumes corporais, esta prima em 2º grau estava arrumada, ficaria na lista negra de Paula para sempre.

– Pedro, não te lembras de mim? Sou a Elsa, costumávamos brincar juntos. Era tão giro, eras sempre o meu namorado. Sim senhor, o tempo a ti só te fez bem, estás muito melhor – com um cumprimento tão provocador Elsa era mais uma a entrar para a lista negra de Paula que, a continuar assim, no fim do casamento seria maior do que a própria lista de convidados.

– E quem é este menino tão lindo? Deixa-me ver, com esta cara marota só pode ser filho do Pedro. É, não é? Dá cá um beijinho à prima velha – e vai rol de beijinhos cantados, daqueles bem sonoros e um pouco húmidos, que as crianças limpam de imediato. 

A seguir, e porque as malditas fotografias oficiais nunca mais saíam, vieram as outras, as fotografias sem máquina, um velho ritual em que, à distância, se olha as pessoas e se comenta, de uma forma clínica, como estão vestidas e a sua vida mais reservada:

– A filha da prima Alice parece uma alface, será que não têm espelhos em casa, coitada da criança! Só folhos, só folhos, melhor seria vir de vermelho e com castanholas, ao menos já tínhamos sevilhanas para logo.

– Bolas, a mini-saia daquela loura está o máximo… é a Tânia?… Ainda é nossa prima?… Chiça, que prima! Eu digo-te uma coisa, ela estava na primeira fila, não sei se o ataque do padre foi pela boca do puto ou se pelos nervos das pernas que tinha à sua frente; parece um porta-aviões.

– É o Paulo Lobo, ainda é nosso parente. Olha, é um bom conhecimento, parece que está bem relacionado no Governo. Dizem que se inscreveu no partido e que já arranjou um bom tacho; pelo caminho tratou de fazer também um bom casamento. Não há nada como jogar logo em dois campeonatos ao mesmo tempo. Nunca deu para nada mas safou-se bem na vida.

– A Mafalda, não te lembras? Tem a mania que é intelectual, nem sei como veio ao casamento, uma festa tão povo. É pianista clássica, faz uns concertozecos por aí, não muitos, porque também não é grande coisa; acho que ao menos sabe distinguir as teclas pretas das brancas. Não se lembram? Já encontrámos no funeral do avô. Olha sempre para os outros com o nariz no ar, como se tomasse Chopin com flocos ao pequeno-almoço.

– Não olhem, mas aqueles dois que ali estão a conversar junto ao BM, são os que andam enrolados um com outro. O que é engraçado é que os casais são muito amigos entre si. Não vês a mulher dele, está ali a conversar com o marido dela. Se calhar fazem swing.

A chegada de um Fiat Punto, em marcha lenta, acabou por interromper aquela revisão cáustica da matéria dada familiar. Com um estilo muito cândido, o carro parou, dando, assim, lugar à saída de 3 simpáticas senhoras lavadas em lágrimas; de riso. Os 2 casais, Pedro, Paula, Jorge e Sara, aproximaram-se.

– Já estava a ficar preocupado – disse Pedro.

– Eu não te disse para não te preocupares – respondeu Cândida, parando o riso. – Eu, cá no meu ritmo, chego sempre e em segurança. Olha, os noivos já entraram?

– Entraram? Eles já casaram.

– Deixem lá meninas, perdemos um casamento mas ao menos fomos a um funeral, isto como assim, já não há grande diferença.

Voltaram a entrar dentro do carro, não conseguiam estar de pé com o novo ataque de riso.

– Estou a ver que a viagem, ao menos, foi divertida – comentou Paula, suspeitando do que se teria passado.

– Ai, minha filha, tu nem imaginas – disse Genoveva, enquanto saía de novo do carro. – Então não é que esta patarata enganou-se no caminho e fomos parar a outra igreja! Bom, como vimos muitos carros, estávamos convencidas que era ali. Entrámos, o padre já estava a pregar, fomos por ali dentro para nos sentarmos nas primeiras filas. Olha, quando eu chego lá à frente e vejo a urna, dou um grito, pus aquela gente toda em sentido; ainda pensaram que o morto tinha ressuscitado. Bom, mas a Cândidinha não se desmanchou, esperou que o padre terminasse a missa de corpo presente, deu os pêsames aos familiares e só depois é que viemos embora.

– Então, assim ninguém deu por nada – justificou-se Cândida.

– Ah, pois não! – rematou Ermelinda. – É por isso que eu não ouvi alguém dizer: depois de duas bêbedas só faltava mesmo três velhas tontas.

Noutra altura, Paula e Sara explicar-lhes-iam quem eram mesmos as duas supostas bêbadas, mas agora era tempo de fotografias a sério; os noivos iam sair.

Assim que os pombinhos puseram o pé na rua foram inundados com o primeiro prato gastronómico da boda: o arroz de rosas. Umas senhoras, que aparecem sempre não se sabe de onde, com travessas em prata nas mãos, atiraram uma mistura de arroz com pétalas de rosa à passagem do casal nubente. A sorte foi que quase toda a gente já se encontrava na rua, caso contrário, poderia haver ali tragédia e da grande; ainda assim, os mais atrasados, os padrinhos que ficaram a pagar os custos de toda aquela cerimónia, ao saírem, lá fizeram o pequeno número de patinagem artística em cima do arroz no chão. A madrinha da noiva, esteve mesmo em risco de ter 5.9 pontos num salto pirueta com espargata, não fosse o braço do marido, ao qual ela deitou a mão com toda a pujança; tanto terá sido a força, que levaria largos dias, e umas boas caixas de pomada, para que a nódoa negra no braço dele passasse à história. 

A sessão fotográfica. Como um autêntico manual de matemática, são feitas todas as combinações possíveis: padrinhos só com noivos, padrinhos com a família, pais dos nubentes, tios de um lado, tios de outro, primos todos, primos casados, primos solteiros, amigos dos copos, amigas da noiva, candidatas ao bouquet, família avulsa; e por aí fora, até às eternas e românticas fotos a dois. No jardim, na rocha, a olhar o lago dos patos, que nesse momento se esconderam e não quiseram ser starlets por uns instantes, a entrar para o carro, tudo tem um encanto diferente para ser fotografado. A salvação da longa espera foi que, na altura das fotos íntimas, o pessoal, não querendo estragar o momento, colocou-se em fuga rumo à quinta onde seria o repasto; afinal, já eram quase 3 horas e a maioria não tinha comido leitão.

***

Os convidados chegam sempre ao local do almoço e copo-de-água – uma quinta que em tempos fora local de faina agrícola mas que agora, com os donos falidos e dados a outras lavouras urbanas, estava reconvertida em mansão de eventos – mais famintos do que lobos em pleno nevão; sabendo desse pormenor, os empregados estavam alinhados, qual exército em dia de parada, à entrada com diversas bandejas de vários aperitivos que desapareciam à velocidade luz. Assim, não só matavam os ratinhos do estômago, que na altura já eram mais ratazanas de dimensões gigantesca, tipo mutantes submetidas a radioactividade em banda desenhada, como também impediam os convivas de entrar no salão principal onde ia ser servido o banquete; era necessário a chegada dos verdadeiros protagonistas, os noivos, para que fossem abertas as portas e dado o tiro de partida para as hostilidades comensais.

O que era uma solução completamente estudada, como se um verdadeiro guião tivesse sido escrito, transformou-se num problema como por artes mágicas: enquanto estavam todos a devorar uns canapés, mais estilizados do que o vestido da própria noiva, Miguel e dois coleguinhas do festim – porque as crianças ao fim de 5 minutos já têm irmãos de armas – entraram na sala do banquete, toda cheia de arranjos e arranjinhos, e resolveram trocar as etiquetas que identificavam os convidados nas mesas.

– Paulinha, ainda não vi a tua mãe – referiu uma das primas naquele compasso de espera com sabor de aperitivos.

E não ia ver, Deolinda, ao receber o convite, avisara, de imediato, a filha que não ia:

– Não estou para isso. Arrastar o teu pai, cada vez mais patarata e com todos os problemas que tem com a alimentação, meter-me nuns sapatos apertados e passar um dia inteiro a comer que nem uma faminta, a aumentar o meu colesterol, para depois chegar a casa mal-disposta a tomar sais de fruto, não, não é para mim. Ainda por cima, nesse casamento levamos com as famílias a duplicar. Olha, eu pago só para não ter que aturar algumas das tuas primas, imagina se me calhavam na mesa.

Boa opção que ela tomara, pois, caso tivesse ido, a probabilidade de sentar com a tal prima seria mesmo muita; ela e todos os outros. Passado algum tempo, após a chegada dos noivos, estava instalada a confusão: famílias totalmente divididas, com um elemento em cada mesa, pessoas que não se suportavam lado a lado, e ainda outros que nem um simples lugar encontravam. Estava instalado o caos nas etiquetas que assinalavam os lugares, tão lindas, com os nomes debruados numa moldura floral dourada. 

– Eu não me sento ao lado da Etelvina, nem que a vaca tussa – barafustava Adelaide, uma parente de Paula. – Depois do que ela me fez, só se eu não tivesse vergonha na cara.

– Isto é do piorio! Nem sequer tenho um lugar marcado – protestava Mafalda, a pianista clássica, num tom solene. Alguém, mais descarado, disse-lhe que, se calhar, o dito lugar era mesmo sentada ao piano, assim não lhe faltava sitio para pousar o copo e o prato, mas ela fingiu que nem ouviu.

– Já viste Pedro, o destino voltou a juntar-nos – insinuou Elsa ao ver que ele estava no lugar ao seu lado.

O chefe de mesa, à beira de um ataque de nervos, chamou de urgência todos os empregados para exigir uma explicação, mas ninguém lhe conseguia dizer nada, tudo estava perfeito até àquele momento. A noiva, que conseguira manter-se queda, perdeu, de um momento para outro, toda a compostura que lhe era exigida e começou a berrar – isso mesmo, gritava que nem uma desalmada – pelo chefe de mesa para lhe exigir, de imediato, uma solução para a confusão. Não era fácil; o crime fora perfeito, até o painel, com o mapa das mesas e os nomes, colocado à entrada, desaparecera.

– Isto foi praga, só pode ser – dizia a mãe da noiva. – Não há nada que não aconteça à minha Daniela.

– Se foi mãe, se foi! – respondeu a noiva, já abandonada pelo marido, que tentava meter uma certa ordem no caos. – Cá para mim foi da Elsa, que sempre se andou a atirar ao Ivo. Já viu como ela está divertida com isto tudo. Onde é que eu que estava com a cabeça quando a convidei?

Paula apressou-se a concordar de imediato com a prima, talvez na esperança que a matadora de serviço desse dia fosse expulsa, qual pecadora, do paraíso; sempre que se aproximava dela sentia mais libido no ar do que num barco de marinheiros ao atracar depois de muitos meses em alto mar.

Quando o chefe apareceu, ao fim de uns bons vinte minutos, com um print da lista original, já o pessoal, à boa maneira portuguesa, se tinha ajeitado e, de uma forma ou de outra, estava sentado com uma certa calma, até porque a maior parte das senhoras já não se aguentava em cima dos sapatos. Assim, a distribuição protocolar acabou por ficar no tinteiro.

Felizmente que o serviço era bom e depressa começou a fazer a entrega de todos os itens do faustoso cardápio ao domicílio das mesas. Durante uma hora houve uma certa mudez na sala. 

Podem fazer todas as dietas do mundo, ter todas as recomendações médicas, mas, chegados ao banquete do evento, os convidados são varridos por uma amnésia geral, onde todas as novidades gastronómicas são devoradas em alta velocidade. Podem até dizer que é  só para petiscar, simples provar, mas aquele servir-se ligeiramente significa sempre, lá no fundo, encher bem o prato.  Assim, ao fim de algum tempo, os nós das gravatas soltam-se, as cintas das velhas tias começam a dar de si e a corrida às águas das pedras inaugura a sua maratona.

Por causa do atraso significativo da cerimónia, o fim de almoço e o início do copo-de-água foi quase em simultâneo. Levantaram-se, então, das mesas enlaçaradas de lado para se dirigem para outras em que os laços se multiplicavam pelos cestinhos disto e daquilo. A forma desenfreada com que atacaram a nova orgia de degustação fazia lembrar a participação na etapa final de uma espécie de triatlo olímpico gastronómico. Vejamos: a primeira prova fora a dos salgadinhos volantes, comidos a um ritmo de 1 croquete, 1 canapé e 1 mini vol-au-vent em 45 segundos; a segunda prova trouxe 5 pratos quentes e 3 saladas, devorados em 1 hora e 25 minutos; estava agora a última etapa – com dezenas de sobremesas, queijos e frutas, tudo com mariscos à mistura – que dispunha de uma duração maior, teria largas horas de actuação, com intervalos dançantes para descansar os músculos maxilares e pôr os outros em acção; a entrega das medalhas seria feita com a cerimónia oficial do corte do bolo de noiva.

– Comer assim é animalesco – comentou Paula, enquanto punha no prato trouxa-de-ovos, pudim abade-de-priscos e uma fatia de um bolo com recheio de leite condensado. – Não havia necessidade!

– Pois não, minha filha – concordou mais um parente, desta vez a tia Lídia. – Eu tenho estado a conter-me imenso, só como um bocadinho de nada.

Pois! Ela comera um bocadinho do nada, mas apenas nos momentos em que outros a observavam.

A tia Lídia tinha um estranho conceito de dieta – não se sabia o seu digno autor, talvez algum doutor conceituado – em que a comida só engordava realmente se fosse vista a ser engolida; tudo o que ela devorasse às escondidas ou quando ninguém reparasse, era perfeitamente inócuo, quase extra light. Digamos que, dentro dela, da tia, as calorias eram um pouco exibicionistas, só se alguém as visse é que elas se excitavam e actuavam. Assim, quando a queria Lídia metia à boca uma boa colherada de mousse de chocolate especial, enriquecida com leite condensado, rum e nozes, as calorias abriam uma espécie de gabardina e esperavam que alguém reparasse nelas; se isso não acontecesse, elas ficavam frouxas e tristes como as colegas solitárias de um produto da linha zero. Por isso, mais tarde, quando todos, já fartos e exaustos da orgia comensal, andavam aos pulos nos diversos bailinhos, talvez para queimar outro tipo de calorias, não exibicionistas mas voyeurs – ficavam super excitadas logo que viam o organismo de cada um -, ela, a tia Lídia, rondava secretamente a mesa buffet e, qual espia sofisticada em camuflagem, depenicava aqui e ali sem ninguém ver. Quer dizer, pensava ela que não viam.

***

Não se sabe se pela força do que fora ingerido, se por uma outra força estranha, vinda de uma estranha galáxia, quase todas as mulheres começaram uma dança particular, ainda antes do baile: coxear, soltar as presilhas, esfregar os pés, tirar ligeiramente o pé do sapato; pequenas coreografias que todas apresentavam e lhe davam um certo andar especial, como se fossem bailarinas de um bailado contemporâneo. As mais velhas – normalmente, já pouco interessadas no ar sofisticado que a modernidade feminina tem que apresentar, bem pelo contrário, assentes em aragens bem práticas da vida – vinham com os eternos sapatos suplentes mais confortáveis; então, foi vê-las, num corrupio para os carros a trocar de sapatos. As mais novas, muito mais heroicas, aguentaram-se estoicamente em cima daqueles tacões que, com mais um pouco, provocavam vertigens, durante toda a festa; doridas, mas belas como sempre.

– Tantas horas dentro de uma sapataria e depois é sempre a mesma coisa – comentou Pedro ao ver Paula a soltar um pouquinho o pé de dentro do sapato e a fazer um ai de alívio.

– Está calado, já não me basta a dor de pernas e pés que tenho, senão estar agora a aturar as tuas piadas parvas. Vou sentar-me aqui sossegadinha até vir o maldito bolo, e que ninguém me venha pedir para dançar, leva tampa de imediato.

Engano dela; já se sabe que, mal a música começa com a eterna valsa para os noivos abrirem, são sempre as mais desesperadas com os pés que recebem os primeiros convites para dançar, agravado pelo facto da solicitação ser feita, quase sempre, pelos clássicos pés de chumbo da família. Paula lá rejeitou o convite de um tio, já pouco equilibrado, e de um primo, com o qual costumava brigar na infância, situação, aliás, que lhe apeteceu trazer de novo à ribalta quando ele insistiu, repetidamente, na dança.

– Ó Pedro, tens que vir dançar comigo – propôs a insinuante Elsa, o que, apesar do olhar reprovador de Paula, teve aceitação.

Qual pés inchados, qual quê, ao segundo convite de Elsa a Pedro – colorido com os primeiros acordes de uma música bem romântica -, Paula agarrou de supetão o marido:

– Agora não, que ele vai dançar comigo, afinal, esta é uma das nossas músicas preferidas – esquecendo, assim, que a dita canção fazia parte da sua lista de embirrações pessoais; só de a ouvir uma pessoa fica quase diabética, de tão melosa que é, costumava dizer ela.

Enquanto não viu Elsa bem divertida com um outro parente – se Deus não estivesse distraído podia ser que ela saísse dali quase casada, ou pelo menos com a periquita sossegada -, Paula não largou o pé de dança; até um twist, que ela detestava por lhe causar enjoos, foi contemplado. 

Nos casamentos modernos a escolha das músicas já está previamente definida, para dar, assim, um ar de bom gosto. No entanto, mesmo que se comece com a eterna valsa, seguida de uns ritmos bem swingados e alguns sons de Glen Miller, o certo, é que lá para o meio da noite, a pedido de várias famílias, são os ritmos mais popularuchos que acabam por fazer a festa: o famoso comboio de convidados, todos agarradinhos uns a seguir aos outros, a desfilar ao som de uma brasileirice qualquer, não pode faltar.

Mafalda, a pianista clássica, estava em estado de choque; apesar de todas as negas, não teve outro remédio senão entrar na roda em que se dançava o baile dos passarinhos. Muito Chopin, muito Mozart, mas lá teve que bater as asas com os braços, agachar-se lentamente, com o rabiosque a dar a dar, por sinal com alguma dimensão, e bater umas palminhas. Pior do que se sentir naquela figura, era ver o tipo de pessoas que dançava semelhante coisa: pesados, muito pesados, quase que rebentavam quando se agachavam; suados, mas todos risonhos e de boca aberta. Ela jurou mesmo que ainda vira um pedaço de camarão preso num dente cariado de um dançante sorridente à sua frente.

– Ou muito me engano, ou depois desta dança a Mafalda vai fazer um retiro num mosteiro gregoriano, para expiar semelhante pecado musical – alguém comentou.

Quem não precisava de um retiro, eram a tias Ermelinda e Cândida, pelo contrário, mais um pouco e estavam num cabaret; de um momento para outro, tinham sido dotadas de uma super energia que as fazia não parar. Os convidados estavam espantados com a desenvoltura das senhoras, uma septuagenária e uma octagenária, nos ritmos de dança. Até na pausa da orquestra, o frenesim delas não parava; riam, andavam de um lado para o outro, metiam-se com os convidados.

– Tu achas que elas estão com os copos? – perguntou Pedro.

– Eu nunca as vi beber nada de especial a não ser laranjada – respondeu Paula. – Minto, já beberam um chá da Ti Ermelinda, que ela mandou fazer aos empregados com umas ervinhas que tinha na mala. Ela até me veio oferecer a mim por causa das pernas, mas eu, depois da cena da manhã, não quis arriscar.

– Cá para mim, as velhas estão drunfadas; então a tia Cândida nem se fala, ela que é uma molengona, não pára. 

  Não parou mesmo; pelo contrário, foi preciso parar, sim, a música, porque, ao abrir a segunda parte do baile com o You can leave your hat on, a tia Cândida, depois de atirar o lenço que tinha ao pescoço para a assistência, seguia toda embalada para abrir a blusa.

– Por amor de Deus, vejam lá o que é que elas tomaram – pedia Genoveva. – Com esta coisa das ervas, que a Tia Ermelinda anda sempre a encontrar, qualquer dia arranjam problemas. Elas já não têm idade para aquela energia toda; ainda lhes dá uma coisinha.

– Bom, para corolário de tudo o que me aconteceu, só faltava mesmo o INEM aqui à porta a tentar reanimar duas velhas – disse a noiva, que também estava parva com a pujança das suas tias.

Foi preciso acalmá-las um pouco para se perceber o que se estava a passar.

– É apenas o meu chá da boa disposição, foi assim que o baptizei – justificou-se Ermelinda. – São umas ervas que uma comadre me deu, que o filho dela trouxe do estrangeiro. É uma maravilha, toma-se aquilo e parece que renascemos. Havias de ver quando vão lá as minhas amigas e eu lhe ofereço o chá, é uma reinação durante a tarde toda.

– Onde é que tem a tal planta? – perguntou Pedro.

– Plantada lá no quintal.

– Ó tia arranque isso de imediato antes que arranje problemas com a polícia. Olhe o que eu lhe digo, isso não é boa coisa – recomendou Pedro, imaginando já a pobre tia a ser algemada, como um traficante qualquer, por ter uma plantação proibida de erva.

Depois deste aviso sossegaram um pouco, especialmente porque tomaram mais um chá, mas desta vez calmante. Só não ficaram completamente quietas, porque depois iniciaram uma outra dança: a correria para a casa de banho.

– Ivo, meu irmão, quero deixar-te aqui um grande agradecimento – com estas palavras começou aquele que também é um ícone de qualquer casamento: o bêbado que faz brindes por tudo e por nada, especialmente quando esconde, quase sempre, uma paixão secreta pela noiva. – Obrigado por seres meu amigo, mas também parabéns, não só por este dia, mas por levares quem levas. A Daniela é um autêntico tesouro, que qualquer homem queria conquistar…

E com uma voz um pouco pastosa lá continuou o discurso, cheio de hipérboles proporcionais ao álcool, o que começou a embaraçar um pouco os destinatários com semelhante prosa declamada. Felizmente que apareceu uma outra personagem típica dos bêbados dos casamentos – o homem das piadas brejeiras e das anedotas já com barbas, que provoca sorrisos amarelos e desconfortáveis – e interpelou o brinde como mais uma das suas intervenções de humor duvidoso.

– Não canses o noivo com tanta prosa, senão logo à noite para dar duas tem que levar um amigo com ele.

Daniela riu-se muito, não porque achasse piada, aliás a anedota era bastante imprópria, mas porque calou o outro Zé dos Brindes que, com mais umas palavras acaloradas sobre a sua pessoa, criaria um reboliço com o seu marido pintado de fresco.

Como sempre, o piadético de serviço acabou por fazer parelha com uma outra personagem do teatro matrimonial em dia de boda, o cantador, e começaram um daqueles momentos que ninguém entende, mas todos fingem ser divertido: os gargarejos fadistas. 

Farta de tantos momentos dignos de uma caderneta de cromos, Daniela resolveu atirar o ramo para que as moças casadoiras o apanhassem. Em tempos modernos, foi difícil arranjar quórum para tal quadro; a não ser umas miúdas ainda bastantes infantis, ninguém ocupava a arena. As tias, num intervalo de casa de banho, lá andaram a pescar quem elas achavam que estava na altura de dar o sagrado nó, sim, que esta juventude está perdida e não quer compromissos, há que lhe dar um empurrão ou fica tudo encalhado a viver em casa dos pais.

– Vai, que aquilo não queima – disse Paula a Elsa, dando-lhe um delicado mas forte empurrão, para que, assim, ela seguisse em velocidade supersónica para o centro do jogo; ainda que Paula não acreditasse naquele número de apanhar o bouquet, achou que não lhe faria nada mal e sempre podia ser que aquela sua rival, emergida sabe-se lá de onde, desamparasse a loja, que é como quem diz, desencalhasse e deixasse o Pedro em paz. Já se sabe, um homem com dez anos de casado saliva assim que vê a porta da juventude reabrir, especialmente quando vê uma fechadura chamada Elsa a entregar-lhe a chave – Pedro, temos que trocar de telemóvel, agora não vamos perder o contacto; os bons amigos não se podem perder.

Daniela jurou que não o atirou com força. Elsa jurou que nem tocou nele. O certo, é que o ramo, que saiu disparado das mãos de Daniela em direcção, bem delineada, a Elsa, acabou por fazer novo voo até à mesa do copo-de-água e foi cair mesmo no meio de prato de mariscos, onde apenas jaziam umas solitárias antenas dos ditos. Todos suspiraram de alívio, o ramo fizera um trajecto rasante sobre o bolo dos noivos mas nada acontecera. Puro engano; logo a seguir se viu que a simpática boneca de polietileno, vestida de noiva, com a traulitada do ramo voador, se tinha enterrado por completo no creme do bolo, deixando o pobre noivo boneco bem solitário, quase viúvo, no topo daquele castelo de pastelaria. 

– Isto que acabe depressa, com os nervos com que estou, eu vou-me a ela e arranco-lhe os cabelos todos – disse Daniela irritada com mais um acontecimento, pois para a novia tinha sido Elsa quem dera um safanão no ramo e feito com que ele fosse aterrar na mesa; e não estava longe disso.

Ainda que não tivesse sido propositadamente, Elsa, ao ver que lhe ia aterrar em cima aquele karma casamenteiro, que poderia pôr um fim nos seus bons dias de folia solteirona, resolveu dar-lhe – muito subtilmente, com um pequeno toque – mais uns momentos de liberdade voadora, o que o fez encetar, ao dito objecto, novo caminho até ao aeroporto dos doces e salgados.

– O melhor é voltar a pôr a música para animar isto – sugeriu o pai da noiva, temendo que ainda tivesse por ali um número de wrestling feminino, inaugurando, assim, um novo género de combate: a luta da noiva com a rival, em vestidos de gala, onde a lama a seria substituída por cremes pasteleiros.

O último dos típicos cromos de um casamento é o bailarino adormecido: qual Cinderela, bebe um pouco mais e vira um autêntico Travolta dos matrimónios; nova ou velha, magra ou gorda, casada ou solteira, nenhuma escapa à fúria do dançarino de serviço. O mulherio, já cansado, quase que começou a ter taquicardia sempre que o via aproximar: um suposto primo – ninguém sabia muito bem de onde vinha aquele parentesco -, baixote e anafado, que não desistia de fazer convites para passos arriscados. O problema maior nem era ir dançar, mas sim a ginástica acrobática que se precisava fazer para o acompanhar; mais uma pirueta daquelas e a probabilidade de se ficar com uma luxação era imensa.

Somente, quando se fez silêncio para se cortar o famigerado bolo de noiva, momento que todos anseiam, pois constitui a senha para a muita amada saída, é que ele, o bailarino ininterrupto, parou, limpou o suor e se dirigiu para a multidão que, de copo e prato na mão, esperava ansiosamente por uma fatia.

***

A pequena noiva de polímero sintético, depois de ter sido submetida a uma operação de limpeza, já estava de novo ao lado do seu amado de plástico, bem lá no alto, à espera que uma faca especial, suportada pelas mãos entrelaçadas do casalinho, também a desesperar por partir rapidamente, começasse o ritual de dividir o seu território em fatias. 

– Ao menos este é fofinho, não é aquela coisa seca que se costuma comer – referiu D. Genoveva, procurando uma cadeira para se sentar enquanto começava a saborear a sua fatia.

– Sim, este tem creme de ovos-moles, o que o torna mais suculento e húmido – concordou Paula. – Pedro, não queres? Prova um bocadinho.

– Não quero, estou enjoado, o leitão não me caiu bem.

– Também tu não aprendes. Depois da cena da manhã, cabe na cabeça de alguém que à tarde se volte a comer leitão? Ainda pode cima no meio das sobremesas.

– Não foi bem assim.

– Pois não, acho que te vi com um prato cheio de bocados de leitão e cheese cake ao mesmo tempo

– Ilusão tua. Ao menos se tivesse aqui o chá da tia Ermelinda.

– Nem me fales nisso, senão lá voltamos a ter a dança das casas de banho.

E não é que a dança voltou?! Não pelas propriedades diuréticas e inofensivas das ervinhas de Ermelinda, mas porque umas teimosas bactérias – talvez porque fizessem parte da tal praga encomendada por uma solteirona desconsolada – resolveram invadir os ovos do creme que recheou o bolo de noiva e, passado algum tempo, começaram a sua época balneária nos estômagos de cada um. Assim, como se estivessem num parque aquático, os ditos microrganismos mauzinhos resolveram fazer grandes mergulhos e escorregadelas nos tobogans intestinais, provocando uma saída em alta velocidade nas piscinas de apoio, vulgo casas de banho; isto para os que conseguiam lá chegar, porque devido à afluência daquela época balnear houve mesmo quem desaguasse em lugares pouco recomendados. Algumas bactérias, mais radicais, resolveram fazer uma saída apoteótica, escolheram o tubo vertical para serem injectadas para o exterior, saindo assim, ironicamente, pelo mesmo local por onde entraram.

Apesar de já haver poucos convidados no recinto, as casas de banho depressa se tornaram no espaço mais popular, a fazer lembrar um arraial minhoto em dia de concerto de Tony Carreira. Se ao princípio ainda havia uma certa compostura no acesso à tribuna mais desejada, depressa tudo aquilo se transformou na selva do desenrasque-se quem puder, do não empurre senão leva um estalo.

  – Ó minha senhora, olhe que aqui é a casa de banho dos homens – referiu um rapaz, ao ver irromper efusivamente, por ali adentro, uma conviva toda desalinhada já de sapatos na mão.

– Ó homem, no estado em que as coisas estão acha que é altura para sexismo? Saia-me da frente, antes que eu perca a compostura de vez.

E perdeu mesmo. Logo que a porta de um cubículo se abriu, ela e ele disputaram, aos empurrões, o acesso ao dito espaço; um salto agulha, enfiado num sítio menos próprio, valeu-lhe a ela o prémio da entrada. Consta que, passado algum tempo, voltaram a encontrar-se e, em nome de tão glamorosa recordação, iniciaram namoro.

Como muito dos convidados – tal e qual uma pistola que dispara e avisa o momento da partida – se retiraram logo depois da abertura do bolo, a sua dança bacteriana começou à beira da estrada, primeiro nos cafés que lhe foram aparecendo, depois na dita beira mesmo, porque não havia tempo a perder e a hora não era de grandes selecções imobiliárias.

***

Quando Jorge, irmão de Pedro, e Nuno, irmão de Paula, entraram, como cavalos doidos, por um pequeno café adentro, a dona recolheu-se de imediato pois, perante tal alarido, pensou que era um assalto; tantas vezes dava na televisão, que um dia lhe havia de calhar a ela. Desesperados, abriam e fechavam portas à procura da casa de banho, por um pouco não se foram aliviar na arrecadação. Ainda a meio da procura estouvada, entraram Genoveva, Paula e Susana, mulher de Nuno. Mais discretas, perguntaram à senhora, que por detrás do balcão tentava marcar nervosamente o número da GNR, onde era a casa de banho.

– Ah, casa de banho? Já podiam ter dito, em lugar de andarem para aí aos pinotes feitos duas baratas tontas – respondeu ela com alívio. – É ali, mas eu tenho aqui a chave; anda por aí muita gandulagem e depois vão para lá fazer asneiras.

No alto do seu peso e da sua idade avançada, a senhora procurou calmamente as chaves e deslocou-se, em passo arrastado e lento, para o local das casas de banho, a fim de as abrir.

– Desculpem lá, mas esta minha perna não ajuda. Sabem, tenho aqui uma espondilose que me consome; dia para dia, estou pior. O doutor bem que me quer operar, mas eu tenho muito medo, é que o meu falecido pai, que Deus o tenha, ficou-se numa mesa de operações e eu não quero a mesma coisa para mim. Já não faço cá grande coisa mas, mesmo assim, isto precisa de mim, que os meus filhos não querem saber nada do café; só querem é o dinheiro que ele dá para estourarem em noitadas com mulheres; ainda por cima, elas agora são pior do que eles, não os largam, são umas atrevidas, e já se sabe homem quando lhe cheira a saia subida perde o tino.

Se por acaso eles, os clientes acidentais, tivessem poderes de extraterrestres, naquele momento a pobre senhora doente, estaria a levar com 5 raios supersónicos no corpo, um por cada alien aflito, de forma a ficar desfeitinha numa papa verde, sobrando apenas a desejosa chave que ela agitava na mão. Eles estavam no limite de transformar o local num cenário perfeitamente dantesco, pelo menos em termos olfactivos, e ela nunca mais completava nem o discurso nem o trajecto. Por fim, lá chegou e abriu as portas, primeiro a das senhoras, depois a dos senhores.

– Só pode entrar uma de cada vez – disse ela para as mulheres. – Vocês homens têm mais sorte, podem entrar juntos, afinal é tudo homem não é, não faz mal.

Eles pensaram que lhes tinha saído a lotaria, entraram os dois de rompante e procuram 2 sanitas. Para sua desolação apenas havia uma e um estreito e alto urinol, o que em princípio não resolvia a questão; apenas em princípio, porque no fim resolveu mesmo. Jorge ainda hoje não percebe como alcançou semelhante acrobacia, mas o certo é que conseguiu sentar-se em cima do urinol altaneiro e sentir-se, assim, o homem mais feliz do mundo.

– Ou outra casa de banho ou faço aqui no meio do café! – foi o ultimato que Paula fez à dona do mesmo.

Funcionou, passados uns minutos estava nas traseiras, num cubículo, junto a umas grades de cerveja, a sentir-se no paraíso do alívio. Depressa desceu dos campos celestiais e entrou nas profundezas de um novo inferno, por mais que olhasse não vislumbrava um pequeno cm2 de papel à sua volta. Os poucos lenços da sua carteira também já tinham ido, Miguel andava sempre a assoar-se. Dado o improviso do espaço, também ela teve que improvisar; começou por tentar descolar os rótulos das malditas garrafas de cerveja, mas não foi solução, além de ter verificado o fora de prazo, rompiam-se facilmente. Felizmente que se lembrou que, antes de entrar, vira uma pequena corda com alguma roupa estendida. Qual espia de romance policial, saiu sorrateiramente do cubículo e roubou, num gesto rápido, duas peças, aparentadas de pano de cozinha, do estendal, para que, assim, se completassem os desígnios higiénicos. Paula só queria sair dali o mais depressa possível e tomar nota do local para nunca mais pousar naquelas redondezas durante toda a sua vida e próxima reencarnação; cheirava-lhe que ficaria por ali uma avantajada dona de café que a iria a amaldiçoar para toda uma eternidade.

Pedro e Sara, junto aos carros, vigiavam as crianças que dormiam, e riam-se com todo aquele cenário que lhe passara ao lado, graças ao leitão e aos lexotans a vontade de comer bolo fora nula; faziam parte do lote dos sortudos. Os azarados estavam espalhados pelas mais estranhas casas de banho e campos das redondezas; pior ainda, os verdadeiramente amaldiçoados estavam a caminho do hospital por apresentarem um quadro clínico mais grave, já pouco adequado a semânticas humorísticas. Foi o caso de noiva que, em lugar de apanhar um avião para Varadero, apanhou boleia da tal ambulância do INEM, que ela tanto anunciara, para o hospital mais próximo.

***

– Isto não foi um casamento, foi um pesadelo em noite de insónia – disse Paula, deitada no sofá, enquanto Pedro descia dos quartos, depois de ter ido deitar Miguel.

-Podes crer, nunca vi nada assim. Uma coisa o tio tinha razão, foi mesmo um casamento de assombro; ficará na História.

Ficou mesmo. Veio em tudo o que era jornal: 42 pessoas, provenientes de um casamento, deram entrada no hospital por intoxicação alimentar.

– Sabes – disse Pedro, – acho que comia qualquer coisinha.

Só a fraca força de Paula a impediu de lhe atirar uma almofada à cara.    

Pela madrugada, quando todos já dormiam, Pedro saboreava um bom prato de ovos mexidos, acompanhado com água das pedras; aquela agitação toda dera-lhe cá uma fome!

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