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Conversas Enleadas

Agosto 23, 2012

– Dizias o quê?, antes de quase me entornares a cerveja com esse teu esbracejar.

– Que o governo é uma merda; tanta, que até já entorna cerveja.

– Mas dizes isso de todos os governos. Para ti, ainda estão a subir a escada para tomar posse e já são uma merda.

– E são. Há algum que se aproveite? São todos iguais.

– É governo, eu sou contra. Isso cheira-me a Anarquismo.

– Anarquismo, que palavra! O que é isso? A mim cheira-me mais a uma doença própria das Anas, do que as pessoas que são o contra o governo, a menos que essas pessoas se chamem Ana.

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– Mas essa postura de estar sempre contra o poder é o que define os anarcas.

– Olha, o que define os anarcas é andarem a pintar as paredes com frases parvas.

– Algumas até são bem engraçadas, com muito sentido de humor.

– Bom, se tivesses que pintar um muro com mais de 20 metros perdias logo a vontade de rir.

– Por acaso tu já tiveste?

– Sim, e até tenho trauma com essa cena, por isso é que não posso ver ninguém pintar paredes com piadas e bonecada parva. Se depois tivessem que estar à estorrina do sol, a caiar os muros, perdiam a inspiração toda.

– O que te aconteceu?

– Um belo dia, o muro da minha tia Ernestina apareceu pintado com uma frase contra o Sá Carneiro, e a mulher ficou possessa. Pior, cismou que eu tinha alguma coisa a ver com aquilo e obrigou-me a pintar o muro à hora da sesta. Já não me bastava ter uma tia com o nome de Ernestina, ainda tive que pagar por um pecado que não fiz. Sabia lá eu, com dez anos, quem era o Sá Carneiro e o que o homem andava a fazer.

– E o que escreveram?

– Sá Carneiro caloteiro, o povo está primeiro, voa até ao inferneiro.

 Inferneiro?image

– Devia ser só para rimar. Sabes como é, nada como uma rima para uma boa palavra de ordem entrar no ouvido, a coisa com umas sílabas finais sonantes deve escorregar melhor. Deviam querer dizer inferno, mas lá acharam que não rematava bem. No inferno fiquei eu, durante três tardes, a pintar aquilo, só porque me ri com o palavreado. A mulher ficou pólvora quando viu semelhante coisa, era uma devota do homem, um santo que descera à terra para acabar com os comunistas. Bom, então quando ele morreu no inverno seguinte é que foi o bonito: a minha tia Ernestina cismou que a frase do muro tinha sido uma premonição e que a casa estava assombrada por comunistas mortos.

– Imagino os comunistas mortos, assim uns zoombies com foice e martelo, cheios de tinta vermelha, a pintar os muros.

– Olha, foi uma desgraça, a partir dali nunca mais ficou boa. Passou os últimos tempos num sanatório a conversar com a alma do Sá Carneiro.

– Coitada, já não lhe bastava ser Ernestina, ainda tinha que acabar destrambelhada.

– Destrambelhado fiquei eu, que podia ter herdado umas massas da velha e, assim, não lambi nem um tusto; foi preciso vender tudo para pagar as despesas da doença.

– Agora percebo o teu trauma, por causa de uns anarquistas marados foi-se-te a herança.

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– Pois, é o que dá a falta de sexo. Aquela minha tia era solteirona, nunca teve homem. E já sabes, mulher quando tem falta de peso destrambelha logo da cabeça: ou lhe dá para imaginar coisas e serem umas chatas; ou então ficam azedas e levam o tempo todo a atormentar a vida aos outros. Não vês a nossa colega, a Luísa Brito?

– Nem me fales, é uma histérica, especialmente agora que chegou a directora. Ainda não se fechou a porta da reunião, e já está aos berros, que isto tem ser assim e assado, para dar numa de grande executiva, que merece o lugar, que por se mulher não é uma fraca. Não sei em que manual é que ela leu que ser dirigente implica ter pelo na venta, ainda que no caso dela desde sempre o teve.

– Sei, mas isso é porque tem falta de peso em cima; andasse bem comida e passavam-lhe as determinações hiperativas de gestão moderna. Dizem que é o homem quem gosta mais de sexo, que pensa nisso em cada 5 minutos, mas é nelas que se nota a fominha.

image – Mulher é um bicho complicado, se não têm ficam azedas, se têm demais ficam alteradas; é que o excesso, também as desconcerta. É muita pressão, só pensamos nisso, dizem elas. Depois, não faltam as dores de cabeça. A minha passa a vida com enxaquecas.

– O quê, isso é para dizeres que tens muita pedalada e a tua mulher não aguenta? Podias ser mais directo: eu, apesar dos meus quarenta, ainda sou um grande macho.

– Não é isso; bolas, tu sabes como elas são. Primeiro que uma pessoa chegue a Cascais, tem que lamber a marginal toda.

– Essa do lamber…

– Sentido figurado, homem. É preciso muitos beijinhos, muito namoro, muita elevação romântica, quando uma pessoa só quer mesmo é despachar o assunto. Mas pronto, se no final chegarmos a Cascais e comermos um bom marisco, até não nos importamos com todas as paragens pelo caminho para ver a paisagem. Agora, quando uma pessoa já vai em Oeiras e depois tem que regressar a casa, porque estão cansadas para ir a Cascais, que a viagem lhe faz dores de cabeça, é um desespero. Uma pessoa fica com vontade de sair porta fora e ir comer a Sesimbra uma boa caldeirada com a primeira que aparecer.

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– Sim, essas dores de cabeça, de costas e mais não sei o quê, são muito típicas. Mas o desvario é pior nas gajas que andam com fome; ou lhes dá para ficarem histéricas, como já disse, ou então para ter alucinações, sejam elas com almas penadas ou com doenças. Tu já viste que algumas gajas parecem um cardápio de doenças ambulantes?

– Ui, se uma pessoa diz que lhe dói um dedo, elas já tiveram isso e dez vezes pior.

– Digo-te uma coisa, eu se fosse médico e me entrasse uma gaja dessas, cheias de tremores aqui e acolá, dizia-lhe: ó mulher, vá dar umas valentes fodas que isso passa.

– Até me admira que não as papasses logo ali no consultório, como terapia.

– Ó pá, eu sou um profissional. Sabes que mais, o destrambelho não é só coisa de mulheres; no mundo, se o pessoal fodesse mais, isto não andava tão fodido. Achas que alguém, depois de uma boa sessão de prazer, está com paciência para fornicar os outros? Olha aqueles gajos, que estão lá naquelas torres envidraçadas, a foder os países com rankings e mais não sei o quê, cheio de gráficos a subir e a descer, tu achas que se eles tivessem boa cama, que não fosse com umas putas quaisquer, depois de snifarem umas linhas de coca, teriam disposição para cálculos marados em folhas de Excel? Até a nossa alemã mais querida: tem mesmo trombas de quem não fode desde a viagem de finalistas, depois de ter caçado um colega bêbado até cair, daqueles que podiam estar a foder uma porta e pensavam que era a Claudia Schiffer.

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– Mas a nossa estimada colega, a Luísa, chegou a ser casada, não chegou? Embora nunca lhe conheci melhor feitio do que aquele, de achar que todos são burros, que só ela é que é iluminada.

– Acho que esteve junta com um colega de faculdade, mas nunca casou. Nessa altura, ela era ainda uma simples secretária e o gajo já começava a bolir dentro de algumas empresas, tachos que o partido lhe arranjou. Ao que sei é um incompetente de merda, mas consegue galgar bem as ondas da política.

– Ai, então foi por isso que ela chegou a directora, logo vi.

– Capaz, se ele estava bem metido, é natural que ela também conhecesse os meandros, embora, no meio das gritarias que faz, nunca lhe ouvi uma ideia política.

– Nem política, nem de coisa nenhuma, ela agarra em duas ou três coisas que lhe sopraram e zás, toca de as gritar, como se outros fossem surdos de inteligência. Há que mostrar que é competente, que não subiu por causa do partido nem do homem.

– Eu até nem me importo de ser mandado por mulheres, mas o que me chateia é que elas, mal chegam ao poleiro, conseguem ser mais cabras do que os homens; parece que são obrigadas a disputar o campeonato da cabrice para mostrar que são competentes.

– Se forem muito bonecas, devem achar que o pessoal pensa que elas subiram na horizontal. O que, na verdade, até nem é de todo mentira, há por aí muito bom caso assim.

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– Sim, mas não foi o caso da Luísa, por certo. Um estafermo daqueles não conseguia subir sequer um degrau por se enrolar com alguém.

– Sabes lá, há gajas muito mal-amanhadas que depois na cama são um estouro. Olha perto de mim há um tipo, todo bem-apessoado, que largou a mulher, um autêntico avião, e juntou-se com uma gaja de susto, feia como a noite. Porquê? Só pode ser pelas cambalhotas.

– Sim, há gajas que não se dá nada por elas e depois são umas feras entre lençóis. Uma vez conheci uma tipa, teria para aí os meus 20 e pouco anos, uma francesa que veio passar férias lá à terra com um emigrante qualquer. Era, assim, um bocado para o feia, muito sardenta, escanzelada, mas já sabes, comer uma francesa naquela altura era uma medalha. Bom, só te digo, a gaja fazia uns broches como ninguém.

– Isso é porque na altura a fominha era muito.

– Olha que não, eu até já namorava. Digo-te mais, a minha miúda também estava comigo, lá na terra dos meus avós.

– És um javardo, então, levas a namorada a passear à terra e depois comes a francesa.

image – Não te armes agora em santinho, sabes bem que naquela idade o pessoal come tudo o que se põe na mesa. Por acaso, foi uma cena dos diabos, a francesa começou a rondar-me, a fazer joguinhos atrevidos, só que não havia meio de ficarmos sós; felizmente que num domingo houve uma coisa que me assentou mal, sempre que como coentros fico para morrer, e fiquei em casa, enquanto o resto do pessoal foi para a missa. Não sei como é que ela soube, mas ainda o padre não devia ter começado a lengalenga do costume, um chato, e já a sirigaita me entrava porta adentro. Com o calor que estava foi mesmo dentro da velha salgadeira da minha avó, que além de ser fresca, toda feita de mármore, também era grande, dava para uma pessoa se esconder e não ser visto; ainda me aparecia alguém, para aí o meu avô, que, quando começava a ficar podre com as balelas do padre, saía porta fora e deixava a missa meio. O homem, não o meu avô, o padre, levava a missa toda a descascar nas pessoas da vila, também devia ser mais um com problemas de sexo, embora isso é o mal deles todos.

– E a francesa, como te safaste?

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– Mulher de outras terras, mais evoluída, fez o serviço e zarpou, sem dizer água vai. Mas voltou a aparecer; arranjei uma forma de ir passear, todos os dias, bem cedo, junto ao ribeiro, para caçar pássaros; ela, depois ia ter comigo. Aquilo é que foi. Ainda hoje sonho com a francesa. Nunca vi coisa assim. Normalmente uma mulher quando brinca com o nosso sexo é mais para nos agradar, sabem que a malta grama bastante, do que propriamente por vontade e prazer dela; mas a puta da francesa não, ajoelhava-se e parecia que ficava possuída.

– Não estarás tu a fantasiar com a Garganta Funda?

– Porra, nunca vi o filme. É como te digo, mais do que se lhe pudesse fazer a ela, até nem tinha grande corpo para tal, nunca vi umas mamas tão delambidas, o que lhe dava mesmo prazer era estar ali agarrada ao mangalho como uma maluca. Estás a ver, o sonho de qualquer homem, quietinho, de pé, ou deitado no restolho, e ela ali a brincar que nem uma leoa. Claro que chegava a casa sem passarada nenhuma, mas em contrapartida o passarinho ia todo contente.

– E a tua namorada, não desconfiava?

– Desconfiava? Andava toda contente, quando vinha do ribeiro, eu era todo miminhos com ela, só beijinhos, sesta enroscadinhos um no outro.

– Estou a ver a ver a cena. Nada faz mais feliz uma mulher do que um gajo infiel. Chega a casa e todo ele é carinho, conversa, não a deixa ficar a falar sozinha, diz-lhe que sim a tudo; e elas felizes. Ai, se elas soubessem que quando o seu eterno sapo vira príncipe é porque ele já a fez ou está para a fazer!

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– Mas tudo isto para te dizer que tens razão, há gajas que, mesmo não sendo grande coisa, depois dão grandes cambalhotas. Mas ainda assim, a Luísa Brito não me parece. Só para quem gosta de sargentos na cama; olha, se fosse comigo eu perdia logo a tusa, só de olhar. Tu já viste como ela se veste?

– Sim, nunca se sabe se vai para uma reunião, se para uma casa de alterne.

– Foda-se, não sei quem é que meteu na cabeça das gajas que para serem sexys têm que se vestir como putas. Não há pachorra. Um gajo, quando quer putas, vai elas, não as precisa de ter em casa.

– É a velha história dos homens quererem uma dama na sala e uma puta no quarto.

– Homem, isso é uma música, e bem foleira, por acaso.

– Sim, mas elas pensam que é verdade.

– Mas quem é que lhe mete essas merdas na cabeça? Devem ser essas revistas de gaja, todas cheias de ideias parvas para elas serem mulheres de sucesso, tanto nos negócios como em casa, que levam a vida a explicar-lhes o orgasmo como quem estuda o manual de instruções da máquina de lavar.

– Sim, tantos programas e botões sofisticados, para depois se pôr a funcionar no programa mais curto e económico, que a vida não está para mais.

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– Eu quando vou ao dentista, não sei porquê mas os consultórios só têm revistas de gajas, como se os homens não fossem lá, mas dizia eu, quando lá vou e fico na seca dou uma vista de olhos naquilo. Dizem cada coisa sobre nós. É mesmo de quem viu uns episódios do Sexo e a Cidade e agora acha que o que aquelas galdérias faziam, nada, além de se enrolar com gajos e fazer compras, também serve para as mulheres portuguesas. Então sobre os homens é que é o lindo, ficaram convencidas que somos como os paspalhos dos filmes, que são apenas personagens escritas por gayzolas, e toca de lhe dar conselhos parvos sobre a forma de nos seduzirem. Aquela coisa de se porem provocantes para reacender a chama só complica, a malta fica logo a pensar qual a galdéria que elas nos fazem lembrar. Juro, quando vejo a Luísa, tento imaginar como se sentirá um gajo normal quando a tenha que levar a um restaurante que não seja a tasca da esquina. Por vezes, quando ela nas reuniões aparece naqueles preparos, imagino o que malta das empresas pensará: que vão apresentar um projecto ao Elefante Branco.

– Deve haver quem goste. Olha, o Guilherme é capaz de gostar. Agora andam sempre juntos, até já os vi chegar os dois no mesmo carro, pela manhã.

– Esse? Só se for para fazerem crochê juntos, deve ser um panasca de primeira.

image – Achas? Ele é assim meio esquisito, mas daí a afirmar isso ainda vai muito. As iludências aparudem muito, sabes?!

– Até pode ser, mas de um gajo que sabe fazer pato confitado espera-se o quê?

– Confitado, e o que é isso?

– Vês, achas que gajo que é gajo sabe uma coisa dessas: confitado. No outro dia, ele estava a falar sobre isso, que tinha feito um pato confitado numa cama de não sei quê, eu até fiquei burro. Imaginei logo um pato com umas fitas nas pernas, assim tipo perú no natal. Mas não, ele fez questão de me explicar, depois de ver a minha cara de burro a olhar para um palácio, tintim por tintim, como se confita aquela coisa. Nem me peças para repetir, porque não entendi merda nenhuma. Agora, ainda achas que ele anda a montar a Luísa? A não ser que seja ao contrário, ela a montá-lo a ele.

– Só porque confita não quer dizer que se enfeite.

– Ai não! A mim não me engana. Troca receitas, não gosta de futebol e já leu a merda de todos os livros. Até mete nojo, não se pode falar de não sei quem, que já leu, que tem uma obra espectacular. A leitura já é coisa de mulheres, que gostam de fantasiar com as letras a porra da vida que não têm, mas pronto, sempre há gajos mais intelectuais; agora ser uma biblioteca ambulante é que não tem nada a ver com homem. O tipo até sabe quem é James Joyce, não se cala com isso, sempre a falar do homem.

– E quem é, a última contratação do Manchester?

– Sei lá, deve ser um escritor, acho eu. Pelo nome mais parece um primo do James Bond. Perante isto tudo, achas o quê? Só pode ser gayzola. Vê lá, o gajo até é doido por sushi.

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– Bom, isso do sushi deixa muitas dúvidas, aquilo é mesmo acepipe de gaja. Mas não sei, eu nestas coisas não gosto de levantar falsos testemunhos; a menos que os tipos afirmem ou que eu os veja atracados a outro, nunca afirmo.

– Bom, daqui a pouco estás a dizer que é preciso ir ao notário para se insinuar que um gajo é maricas. Há coisas que se vêem logo.

– Olha, um primo do meu primo, que era assim todo esquisito, todo florzinha…

– Engraçado, nunca ninguém tem um primo, um irmão, um sobrinho, um filho que é gay, é sempre tudo primo do primo, amigo do amigo, vizinho do vizinho. Até parece que os tipos nascem de geração espontânea.

– Não, neste caso é mesmo primo do meu primo, não me é nada, se fosse dizia, que aquilo não se pega, acho eu. Mas escuta, o rapaz, lá na parvalheira, todos achavam que era panasca, não saía, só se dava com meninas, gostava de ver telenovelas, essas coisas. Passava os dias em casa de uma vizinha, que tinha uma filha da mesma idade e com a qual havia uma grande amizade. A rapariga até namorava, mas ninguém levava a mal que o panasca passasse lá o dia inteiro, a ver televisão e a fazerem bolos. Sabes o que aconteceu? Toda a gente à vontade com ele sozinho com as duas mulheres, mãe e filha, pois o pai, militar da GNR, andava lá para o Kosovo ou coisa do género, e o gajo zás, emprenhou as duas.

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– O quê?

– Sim, o dito gayzola fodeu as duas, sabe-se lá se juntas ou se em separado, e emprenhou-as.

– Se calhar foi outro, e depois ele ficou como tansinho de serviço.

– Não, não, foi ao contrário. Quando mãe e filha apareceram grávidas, os pais foram o marido e o namorado da filha. O problema é que a mãe do namorado, que não gramava a futura nora, fez questão de pôr tudo em pratos limpos. A senhora era filha de um coronel do exército, daqueles todos emproados da academia, e ter um filho, neto único de um oficial superior, a casar com uma filha de um sargento da GNR era coisa que lhe estava entalada. Não sei que conversa é que ela teve com o filho, se andou a fazer cálculos quantas vezes e quando é que ele montou a namorada, mas o certo é que exigiu uma prova de paternidade assim que a criança nascesse, não queria entregar as suas quintas em Ponte de Lima a qualquer uma. A rapariga grávida, entalada com a possibilidade do teste confessou que o pai da criança era o vizinho amaricado. Com todo o escândalo, quem depois exigiu o teste foi o GNR ao regressar lá do Kosovo, e quis para as duas, mãe e filha. O homem deve ter feito as contas e achou que não era normal que, após 9 meses depois de ter partido para a missão, a criança teimasse em não nascer; mais um pouco e nascia com 10 meses. Segundo o que me disse o meu primo, o gajo que diziam panascas montou uma pastelaria, casou com a filha e aperfilhou a criança da mãe, e vivem felizes os cinco.

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– Foda-se, que folhetim, mais parece aquela merda das telenovelas em que todos são filhos, primos e netos uns dos outros.

– É como te digo, nunca podemos dizer que um gajo só porque é amaneirado atraca de proa.

– Não vais fazer desse caso a generalidade.

– Não, só para te dizer que o Guilherme pode andar a comer a Luísa, mesmo que goste sushi e saiba fazer um pato confitado. Aliás, o Fernando ainda outro dia me disse…

– Não venhas com tretas do Fernando, sabes que esse gajo é pior do que as mulheres no que diz respeito em dar a língua.

– Sim, parece uma comadre, mas…

– Comadre? Nem numa gaja eu vejo semelhante coisa de andar sempre a falar da vida dos outros; o gajo sabe tudo sobre todos, é uma autêntica porteira e das boas.

– Realmente ele posto a falar da vida dos outros, não se cala, sabe tudo.

– Foda-se, bota saber nisso. É um cansaço sempre a falar deste e daquele, parece que não tem outro tema de conversa. Olha, e se mandámos vir mais uma cervejita, que tenho a boca seca.

– Bora, amanda aí mais duas!

Rascunho de uma coisa que ainda não sei muito bem o que é.

As ideias atiradas ao ar são de personagens, não do autor – a bem dos meus pecados.

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4 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Agosto 23, 2012 2:07 pm

    Soberbo! Nada como as raízes para espevitar ainda mais a criatividade. 🙂 Maria, pois claro!

    • Bau P permalink*
      Agosto 23, 2012 2:09 pm

      já estava escrito antes da raízes; aqui só foi polido, se é que uma coisa destas pode ter polimento 🙂

  2. Maria permalink
    Agosto 23, 2012 11:28 pm

    Não consigo responder ao seu comentário faço um novo. Embora o Bau pareça vulgarizar os seus escritos, eles são tudo menos vulgares e mereciam mais atenção. Hoje ouvi uma entrevista a uma ex atleta que publicou um livro de contos que poderá ser do mesmo género, ou não, mas fiquei curiosa. Não recordo o nome, tenho apontado e o título é Havia. Não posso
    aumentar a lista mas pareceu-me interessante e fiquei com ideia que alguns contos serão dentro do seu estilo, ou seja, diferentes e originais.

    • Bau P permalink*
      Agosto 24, 2012 10:17 am

      Cara Maria, agradeço como sempre as suas bonitas palavras, mas eu não vulgarizo nem desvalorizo, aquela coisa afiada que é a realidade encarrega-se de o fazer; e se não há publicação é simplesmente porque eles, os ditos escritos, não cumprem os mínimos olímpicos da qualidade e do interesse editorial. Por isso fico noutro campeonato 🙂

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