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Tentativa de Conto de Natal – ou outra parvoíce qualquer.

Dezembro 23, 2012

Pela sua mesa de consoada já tinham passado muitas pessoas, algumas delas apenas porque queriam a fraternidade de uma mesa farta, mas este ano, ele reservava um lugar especial, o único na mesa vazia, para um convidado muito particular: a morte, a sua própria morte.

Ao lado de um copo, meio cheio, de um tinto Barca Velha, colheita de 1999, repousava o frasco de barbitúricos, a chave para que tão ilustre convidado entrasse, se sentasse à mesa e comungasse com ele todas os manjares com que encenara aquela consoada. Não quis que faltasse nada, ainda que fosse o último momento, a última ceia, e que o apetite não abundasse, não hesitou em encomendar na confeitaria mais famosa todas as iguarias típicas de uma noite como aquela.

Enquanto saboreava os leves aromas a violeta, baunilha e cedro do líquido vermelho vivo oriundo do Douro, que naquele momento se despertava após 3 horas da abertura da garrafa, pensava como poderia ser o seu convidado: seria a tal luz branca ou aquela carcaça de capa e capuz com a uma gadanha na mão? Pouco importaria a imagem, fora ele a enviar o convite e não podia, agora, armar-se em esquisito.

Sabia que, após o encontro com tal ilustre personagem, todos aqueles prazeres que o acompanhavam no último momento iriam desaparecer, assim como o palco que os metia em cena. Não se importou muito, afinal, há algum tempo que tudo aquilo o sufocava e se definhava dia para dia; o emprego, a casa e a família eram apenas miragens de uma vida que fora, num passado recente, um autêntico festival de sucesso.

Um som estranho, vindo lá de dentro, interrompeu os seus pensamentos já um pouco turvos, não se sabe se da jóia duriense, se do primeiro comprimido que tomara. Pelo barulho, pressentiu que era alguém. Quem seria? – se a porta da rua não se abrira e ele estava sozinho em casa. O convidado esperado? Mas ainda era cedo, e uma simples pílula não poderia provocar a sua entrada extemporânea. Ou será que o maduro néctar dos deuses tinha acelerado o encontro?

Ainda todas essas dúvidas desfilavam aos saltos na sua mente e já tinha um vulto no meio da sala, apenas iluminado pela luz duma lareira quase morta. Deu para perceber que não vinha vestido de branco, nem tinha um objecto cortante na mão; pelo contrário, quando a luz se acendeu, iniciativa do intruso, pôde verificar que as vestes eram vermelhas, bem encarnadas. Um pai natal, meio desajeitado, olhava para si com um ar ainda mais espantado do que o seu. Como podia aquilo estar a acontecer? Há muito que deixara de acreditar em fantasias natalícias, e ninguém sabia que ele permanecera sozinho em casa, para que de repente lhe viessem fazer uma visita.

– O que faz aqui? – perguntou o Pai Natal, um pouco atrapalhado.

– O que faz aqui, digo eu – respondeu Eduardo, enquanto se levantou, repentinamente, em direcção ao seu convidado clandestino.

– Não tinha que estar fora, lá para a sua terrinha?

Eduardo não respondeu e, como começou a não gostar da presença recém-chegada, tentou apanhar um instrumento de ferro da lareira, mas foi interrompido por um gesto repentino do Pai Natal, que lhe apontou uma pistola.

– Quieto! Nem mais um gesto!

Imaginara tudo para aquela noite, mas nunca que teria especado na sua sala, perante ele, um Pai Natal – por sinal pouco anafado, contrariamente ao exigido – com uma arma na mão.

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– Mas isto é alguma brincadeira de mau gosto? – tentou Eduardo fazer conversa. – Aviso desde já que não estou com paciência para brincadeiras. Absurdos na minha vida não me faltam.

– Absurdo é o meu amigo ter ficado aqui sozinho a curtir não sei o quê e a estragar o meu trabalho.

– Trabalho, mas que trabalho?

– Ó meu, além de sorumbático natalício és tão idiota que ainda não percebeste que vim gamar a tua casa?

– Mas como se atreve?

– Como me atrevo? Porquê, é preciso licença para assaltar? Ó pá, um assalto é isso mesmo, entrar sem ser convidado, capice?! Mas pouca treta, que isto já tem conversa a mais, não vim propriamente fazer um tete à tete com maníacos das consoadas. Bom, já que estás aqui, passa para cá os cartões e os códigos, que assim sempre arranjo dinheiro vivo de imediato.

– Nem morto.

– Mau, mau, mau! Esta cena já me está a pôr com comichões, e quando fico assim, o meu dedo fica nervoso e sai disparo na certa.

O Pai Natal aproximou-se e encostou a pistola à cara de Eduardo. Fez-se algum silêncio.

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– Vá em frente, alegre a minha consoada! – pediu Eduardo. – Estive toda a noite à espera disto. Pensava que iam ser uns comprimidos malditos, mas se tiver que ser um tiro tudo bem. Então, não tem coragem? Que espécie de pai natal é você, que nem sabe entregar uma prenda a um pobre desesperado?

O Pai Natal perdeu a paciência e deu com a coronha da pistola na cara de Eduardo, o que, além de o deitar pelo chão, lhe fez soltar o sangue do nariz.

– Ai, que dores! – gritou Eduardo. – Você é doido? Olhe o que fez, vou ficar com o nariz partido.

– Ainda há pouco estava a pedir a morte e agora está aí feito mariquinhas. Não me diga que quer ir para o outro mundo com o nariz direito?

– Quero uma coisa rápida, não quero sofrimento. Já me basta a vida.

– Ai, coitadinho, não quer sofrer! Estes ricaços querem sempre viver com anestesia. Passam a vida a explorar os outros mas depois não aguentam quando as coisas lhe correm mal. O seu sofrimento é apenas uma birrinha burguesa perante os que verdadeiramente sofrem.

– Era o que me faltava, além do vermelho da coca-cola tinha que me calhar um pai natal bolchevista.

– O primeiro aviso já o teve, agora deixe-se de cantilenas e passa para cá o que te pedi, antes de avançar para o belo recheio que anda por aqui.

– Ó homem para que quer cartões, se eu não tenho dinheiro nenhum? Estou arruinado, ainda não percebeu? Do pouco que me restou, a minha distinta mulher ficou-me com ele e pôs-se a andar. Até esta maldita casa vai para as mãos dela.

Chiça, são mesmos totós! Estes gajos encantam-se com essas louras boazonas armadas em tias, habituam-nas a bons vícios, boa roupa, grandes carrões, a não fazerem nenhum, depois é o que dá, ficam depenados. Gaja tem que ser amarrada logo ali, desde início, senão, quando se dá por ela, já nos comeram as papas na cabeça. Mulher é um bicho muito sabido.

– Pelos vistos, de bolchevista a marialva foi um segundo.

– Piadético, o man! Vá levante-se e faça-me um visita guiada pela sua gruta, vou começar a encher o saco.

– Não tem vergonha de vir assaltar disfarçado de pai natal?

– Quer melhor do que isso? Quem desconfia, se vir um pai natal a entrar por uma janela?! Até ficam todos contentes por verem que aqui vive uma família querida, que faz o numerozinho do velho barbudo para a criançada. Se ficar aflito para entrar na janela, até uma escada me emprestam.

– Mas não tinha que ser pela chaminé? É por aí que, supostamente, o Pai Natal costuma entrar.

– Ai, que porra! Continuas com essas piadas e estás aqui, estás a levar outra.

Eduardo levantou-se e voltou a colocar-se à frente do Pai Natal.

– Vá, ainda não fez o seu trabalho, dispare essa treta! Se me deixar vivo eu vou contar tudo à polícia.

– E vai dizer o quê, que um pai natal encheu o saco em sua casa? Ó amigo, quem sabe se não é a sua casa o tal armazém do pai natal.

– Mas tem medo de quê? Está aí com essas coisas, mas não é capaz de fazer uso dessa arma. O que é a vida de outro para si, especialmente quando essa vida nada vale?

– Bom, o melhor é eu bazar antes que isto se complique. Esta cena começou a correr mal desde princípio, e eu não estou para aturar um burguês maníaco-depressivo. Ainda me passo dos cornos e tenho que lhe enfiar um tiro nos ditos do gajo.

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O Pai Natal afastou-se de Eduardo para fazer a retirada daquela vivenda, outrora por si desejada, não deixando, no entanto, de controlar os movimentos do proprietário pelo canto do olho. Já se tinha cruzado com muito doido na sua vida, mas aquele pareceu-lhe que superava tudo; desejar a sua própria morte na noite de Natal, numa noite onde se pretende celebrar a vida, não lembrava a ninguém; mesmo ele, a assaltar que fosse, celebrava a vida, a sua vida, de se desenrascar e seguir em frente.

Uma raiva invadiu Eduardo – não sabe se por ter tido um intruso na sua noite especial, e lhe estragar o encontro, se por o invasor não ter a bravura de completar aquilo que ele próprio já tinha perdido a coragem de fazer – e voou sobre o Pai Natal, que não teve tempo de se defender. Rolaram os dois no chão. Ouviu-se um tiro.

De mãos na cabeça, Eduardo não queria acreditar. Um homem vestido de pai natal estava caído no chão da sua sala e o encarnado do seu traje começava a ser inundado por um outro tom mais vermelho: o sangue que emergia duma ferida provocada pela bala que tinha sido disparada, acidentalmente, durante a briga dos dois homens.

– Mas o que faço agora, meu Deus, o que faço?! – gritou Eduardo em pânico.

– E que tal se chamasses o 112? – sugeriu a vítima, que entretanto pareceu voltar a si.

– Está bem, sente-se bem?

– Estou uma maravilha, levei um tiro no bucho e estou catita!

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Eduardo procurou desesperadamente o telemóvel e marcou o número de emergência. Ninguém lhe atendia. Os poucos funcionários de serviço não deviam ter mãos a medir perante os excessos daquela noite. Esperou mais um pouco para insistir. Entretanto, pegou num guardanapo, de linho bordado, e colocou-o, pressionando, sobre a ferida para tentar estancar o sangue.

– Não me deixe morrer! – pediu o Pai Natal, enquanto agarrava nas mãos de Eduardo, numa tentativa de também fazer pressão.

– Claro que não. Irónica esta vida, ainda há pouco pedia a minha morte e agora só peço que ela não venha para si.

– Se calhar fez mal o pedido e ela enganou-se na morada.

– Tudo me corre mal na puta da vida – voltou a lamentar-se Eduardo.

– Pare com isso, sabe lá o que é correr mal a vida; sabe lá o que é lutar todos os dias para não acabar caído. Vocês os ricaços, à mínima coisa, fazem logo um drama. Não vê que a vida foi feita para vocês, tudo vos é servido em bandeja de prata mesmo quando comem tremoços. Queria a morte, mas quem acabou caído? Eu! Ainda por cima diz que lhe corre mal a vida.

– Não fale, que está a fazer esforço.

– Olhe, esqueça os gajos do INEM e leve-me ao hospital.

– No meu carro?

– Não está à espera que eu tenha as renas lá fora, pois não?

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Eduardo fez uma insistência para o 112, mas voltou a não obter resposta. O sangue continuava o seu caminho até ao exterior. A melhor solução era arrastá-lo para o seu carro e levá-lo ao hospital, que nem era muito longe. Durante o percurso, tentou manter conversa com o pai natal ferido, que seguia deitado no banco detrás, mas depressa viu que não havia resposta; inconsciente ou morto, ele permanecia mudo.

Perante tanto sangue, no hospital, foi, de imediato, arrancado para uma maca que desapareceu num longo corredor. Eduardo ficou a tentar dar os dados na recepção, mas nada podia dizer, nada sabia, apenas dera um tiro no pai natal, notícia que correu, num ápice, pelo hospital inteiro e levou a que, aos poucos, fossem aparecendo funcionários para ver o tipo que abatera o homem das barbas brancas mais famoso do mundo. Um deles, ainda sussurrou ao ouvido de Eduardo, “para a próxima faça o serviço completo, atire também naqueles altifalantes que passam musiquinhas irritantes de natal”, mas ele não estava com disposição para humor negro àquela hora.

Já estava a polícia – entretanto chamada ao local – a tomar conta da ocorrência, quando apareceu um médico, não trazia boas notícias:

– Infelizmente o homem que entrou vestido de pai natal não resistiu aos ferimentos e acabou por perder a vida.

O mundo não só desabou sobre Eduardo, como caiu imediatamente pela ribanceira abaixo: a morte, afinal, viera mas escolhera a pessoa errada. Ainda estava com as mãos agarradas à cabeça, a tentar organizar o caos dos pensamentos, quando uma outra personagem do hospital irrompeu e trouxe novas renovadas:

– O Pai Natal desapareceu!

Olharam todos uns para os outros, sem saber o que dizer. O polícia, que ainda tinha esperanças de passar por casa e comer umas rabanadas com a família, começou a ver o seu panorama nocturno complicado; depois de um homicídio ao pai natal, tinha, agora, um fantasma em fuga.

– Quando voltei para o cobrir, ele já não estava lá. Já vi nas salas ao lado e nada. O estranho é que não há vestígios de sangue pelo chão para se poder seguir. Evaporou-se!

Instalou-se o caos: o hospital, um pouco debilitado de quadros naquela noite, revolvia tudo à procura de um suposto pai natal em fuga, por sinal cadáver segundo laudo médico; mas nada, nem uma pista. Como Eduardo não conseguira fornecer os dados à entrada e o processo não fora concluído, nem sequer havia registo – a funcionária ficara encravada com o sistema informático, tinha campos obrigatórios, que os engenheiros cismaram que eram para ser preenchidos, mas nos quais não podia pôr nada porque o relator não tinha elementos; bem que não devia ter trocado com a colega, ela é que tinha jeito para os computadores, era uma rapariga nova, com cabeça fresca para modernices -, a vítima não existia.

– Bom, se não há registo de entrada, se não há vítima, não estamos aqui a fazer nada – disse o polícia, a procurar resolver a sua vida, especialmente a tentar criar uma brecha na noite para ainda abrir os presentes com o filho nessa noite. – Vamos todos à nossa vida que o maluco do pai natal deve andar por aí bem vivinho da Silva.

– Como é meia-noite, foi fazer o seu serviço – comentou, em jeito de piada, um dos médicos presentes. – Não é um tirozeco qualquer que impede o pai natal de tornar as crianças felizes.

Depois de identificado, para prestar declarações posteriores, Eduardo retomou o caminho para casa; o hospital que resolvesse o mistério de o pai natal moribundo desaparecido. Agora já não queria estar só; já não queria encontros do outro mundo. A vida era demasiado estranha para ser interrompida, queria comungar o absurdo de todos os dias até ao fim. Para começar, arranjar companhia naquela noite.

Parou o carro em frente a um pequeno grupo de três pessoas, sentadas numa arcada de um prédio, eternos deserdados da noite, e convidou-os para irem cear com ele. Loucura não faltava na vida daquela gente, por isso aceitaram o convite doido de um estranho e foram. Comeram, beberaram, riram-se e, sem presentes, trocaram vivências durante quase toda a noite, como se fossem íntimos, amigos de uma vida.

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De manhã, quando Eduardo se levantou não estava ninguém em casa; os seus convidados, que permaneceram o resto da noite no calor da sala, por certo, já teriam ido. Tinha razão, eles partiram mal a madrugada despertara. Tentou arrumar um pouco a desordem instalada na noite anterior mas depressa perdeu a vontade, ao olhar mais atentamente a sala viu que faltavam objectos no seu lugar habitual. Uma certa nudez invadira aquele espaço, muita coisa desaparecera, muita coisa fora remexida; apenas a árvore de natal, colorida e luminosa, permanecia segura e intacta.

Eduardo soltou uma enorme gargalhada e saiu para a rua respirar aquele dia frio e soalheiro que se lhe oferecia pela janela.

– Feliz Natal! – desejou ele ao primeiro transeunte de uma rua quase vazia.

Escrito em 2007 (?), começou por ser um rascunho para uma peça de teatro e acabou nisto; triste sorte.

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Dezembro 23, 2012 4:49 pm

    O que posso dizer? É o meu conto de natal preferido de sempre, obrigada e olhe… Boas Festas ! 🙂

    • Bau P permalink*
      Dezembro 23, 2012 6:59 pm

      Sinceramente, eu achava que já o tinha publicado (estou a ficar velho), mas depois procurei e nada, Por isso o coloquei. Obrigado e Boas Festas, Maria.

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