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Um homem não é de ferro, o capitalismo também não e o cinema muito menos

Maio 26, 2013

 

Proletários de todos os filmes, uni-vos!

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Se um extraterrestre resolvesse apreciar algumas sociedades apenas pelas obras publicadas e pelos filmes que produz pensaria que a sociedade americana seria uma espécie de OMO comunista: Marxista mais Marxista, não há!

Todos sabemos que a organização da sociedade americana está assente numa única pedra, o Capitalismo. Resta saber se as águas que banham essa pedra, de tão agitadas que andam, qualquer dia não a corroem e ainda teremos as esquinas das diversas Wall Streets todas a banhos, como se elas próprias fizessem parte de um blockbuster de Verão.

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Bom, se há um sistema baseado no capitalismo terá que haver alguém que o alimente, neste caso o capitalista. Sabemos, pois vem em todos os manuais marxistas, cujo best-seller é um tal de Capital, que os capitalistas são gente que exploram o seu semelhante, na medida em que não sendo detentores dos alicerces de qualquer sociedade, o trabalho, retiram deste a mais-valia, hoje conhecida popularmente como lucro, e põem-na ao serviço, não da colectividade, mas sim do seu próprio bem-estar individual, isto mais coisa menos coisa, talvez para menos do que para mais.

Ora se virmos qualquer filme americano, o que é encontramos sempre? O capitalista como o mau da fita, como o tipo que explora todos e que inclusive não tem escrúpulos de mandar contratar qualquer gangster ou grupo terrorista para despachar quem tiver imbuído de ideais de fraternidade social. Nem Lenine nem Karl Marx chegaram tão longe. Vamos a exemplos.

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Lembram-se do filme uma Mulher de Sonho, com o tibetano Richard Gere e a sorridente Júlia Roberts? O que acontecia, era que o homem andava a comprar empresas falidas, para as fundir, despachar os trabalhadores e depois vendê-las novamente, já muito mais magras, mas mais valiosas. Mau, este capitalista! Mas o que aconteceu?

Eis que apareceu uma linda meretriz – daquelas que mesmo a minha avozinha que ia à missa 3 vezes por dia convidaria para tomar chá e, por certo, com quem quereria casar o neto – que, além de andar a fazer compras no Rodeo Driver, resolveu dar numa de bolchevista, talvez inspirada no Soviet Chic de Versace, e convenceu o rapaz a ter pena dos trabalhadores. Claro que antes ainda o convidou para umas voltas e banhos no jacuzzi, que isto já se sabe, um homem, mesmo inspirado pela nossa senhora da boa(zona) vontade proletária, não se convence de qualquer maneira.

O certo é que o Capitalista mau ficou bom, fez uma trapaça nos outros capitalistas maus, e houve um final feliz: para ele, que ganhou uma Cinderela cheia de curvas, e para o pessoal trabalhador. É o que se pode chamar um autêntico sindicalismo de glamour Se a CGTP ou a UGT tivessem, assim, as pernas da Júlia e o imaginário dos argumentistas de Hollywood neste momento a Ministra da Educação e Mário Nogueira já estariam numa ilha tropical a beber Margaritas e os profes portugueses estariam todos felizes a comer perdizes (piada requentada de 2008)

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Wall Street, o filme, não teve um final tão feliz para o Capitalista Michael Douglas, que também queria fundir – no fundir é que este o ganho –, pois não teve redenção e ficou mau como as cobras até ao último momento. Moral da história, foi pró anjinhos das grades e na paz do senhor ficaram os trabalhadores das companhias de aviação, onde trabalhava o pai do protagonista que safou tudo. Digamos que aqui, a coisa não foi limpa; cheirou a um certo socialismo nepotista, paisagem que nos é familiar.

No filme Iron Man, mais uma vez Karl Mark baixou sobre os argumentistas. Ora vejamos, tínhamos um menino rico capitalista, dono de um império que fabricava armas, que só queria o lucro e destruir tudo o que fosse para aumentar o seu mercado, mas que um dia viu a luz, neste caso a sombra de uma caverna e resolveu desistir de tudo, não queria fabricar mais armas. Dedicou-se a causas mais nobres, construir um modelito em ferro que o levasse a ficar assim, como uma espécie de Madre Teresa com acabamentos de M. Tatcher; ou seja, bom com os pobres e os oprimidos mas duro como o aço na queda e sempre pronto para um arraial de porrada.

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Não importa se esta decisão do capitalista, agora bom, era mais uma das suas excentricidades, nem que milhares de trabalhadores fossem para a rua porque a fábrica fecharia. Ele agora é bom e está ao lado dos oprimidos, isso é que é importante. Mas estes devaneios só podem sair de um capitalista Old Money, filhinho do papá, com tiques de BE, porque os New Money, como suaram as estopinhas para lá chegar e não tiveram nenhuma herança que lhe facilitasse a vida, vão resistir – não largam o osso – para segurar a fábrica. Logo o que vamos ter? Um capitalista regenerado, de porte aristocrático, e um capitalista igual a si mesmo, novo-rico e ambicioso, que depois de ter sido ele a fazer o império para o menino do papá, não o quer largar, nem que para isso tenha que se associar aos ainda mais maus, uma gente lá dos Orientes. Assim, eis que surge, qual tragédia grega, uma luta entre iguais, pseudo-pai e pseudo-filho a disputarem a sua criação. Ainda dizem que o cinema comercial é pimba. Isto é Shakespear e do bom! Otelo de aço!

Assim, não deixa de ser interessante que o país anfitrião de todos os capitalismos, encerre nos seus filmes sempre uma moral anti-capitalista. Andará por ali uma má consciência recalcada? Ou será que o socialismo é mais fotogénico, como história de encantar fica sempre melhor na fotografia?

Ó Papão sai de cima do telhado e deixa dormir o menino descansado!

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Por vezes já nem sei se são os filmes americanos que precisam de medos, se são os próprios americanos que não sabem viver sem eles.

Na história original do Iron Man o tipo despachava Vietcongs. Agora anda às cabeçadas com pessoal com ar de taliban.

Depois da guerra-fria o que seria do cinema sem a Al Quaeda e Associados?

Em tempos cheguei a pensar que, afinal, os americanos gostavam do comunismo só para terem enredo nos filmes de acção. Quando caiu o muro devem ter ficado num pranto, como órfãos – em quem vamos malhar agora?

Felizmente, ou infelizmente, a História arranjou-lhe sucedâneo à altura, e o terrorismo de cunho islamita tornou-se no herdeiro dos grandes vilões comunistas. Por vezes, temo que muito do que aconteceu na nossa História recente tenha sido inspirado em muitos filmes de baixa categoria. Woddy Allen disse, inclusive, no 11 de Setembro, que apenas decalcaram o imaginário dos blockbusters de Verão.

Mas será que os americanos precisam de ter só um papão no cinema, ou precisam de ter sempre uma paranóia para expurgarem os seus próprios medos, para não falar dos mercados?

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No filme Iron Man, a determinada altura, quando ele já está bonzinho e a malhar nos maus, ele luta contra o seu próprio armamento, pois os terroristas estão armados com os produtos que ele mesmo tinha fabricado. Ou seja, quem combate a América utiliza também as armas que a América lhe vende. A brincar, a brincar, penso que é este o grande dilema da corrida ao armamento e dos eternos conflitos internacionais. A indústria de armamento, por ser poderosíssima, e estar nas mãos de privados, precisa de mercado para escoar produto, e o seu mercado chama-se Guerra. Penso que é fácil de entender. Resolver é que vai ser mais complicado. Quanto vale num PIB este negócio? Muito.

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Não precisamos de Capitalistas Arrependidos, isso é nos filmes, mas precisávamos de governantes que olhassem o problema de frente e, sem medos, disciplinassem e controlassem essa indústria. Há áreas em que o liberalismo tem que ficar à porta, mesmo quando a casa em questão tem o nome de economia de mercado.

Caso contrário, vamos levar a vida a inventar papões. Podem dar muito jeito aos filmes, mas, confesso, na vida real atrapalham um pouco.

Sexo? Só depois do casamento!

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Apesar da personagem principal do filme Iron Man ter alguma piada e alguma originalidade, em relação a outro tipo de heróis – o tipo é cretino, irreverente e não lhe foi dada nenhuma força especial, a não ser a sua inteligência – não consegue, no entanto, escapar ao eterno cliché amoroso da paixão impossível ou não consumada.

C’um raio! Porque será que estes super-heróis nunca podem ser felizes no amor? Há sempre qualquer coisa que se atravessa e nunca os deixa consumar. Começamos a ficar um pouco cansados.

Não venham dizer, que é para criar suspense, para ansiarmos muito  que aconteça algo. Está mais que provado que nos filmes de sexo com muita conversa o pessoal acelera logo o DVD para passar à frente a alta literatura e chegar aos finalmente, por isso não venham com essa do encher chouriços.

Li uma vez, se não li passo a ler, que um tipo que tem uma loura brasa a atirar-se a ele constantemente e não faz nada, pois pára sempre no último momento, não é cavalheiro nem é tímido, é apenas gay.

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Sobre os heróis não ponho a mão no fogo, até porque não fui eu que os inventei, mas sobre os argumentistas tenho algumas dúvidas, ai tenho, tenho! Será que pelo facto da donzela nunca acabar nos lençóis do herói não aportará por ali nada de recalcado, do género, se eu não o posso ter, a ele, com bíceps tão bons, não vai ser a tipa, ranhosa, que o vai desfrutar?!

Escrevam eles um dia uma história com um super-herói que goste de sexo alternativo e vão ver como não haverá pruridos com a consumação, ou muito me engano, ou ele nos primeiros 30 minutos já vai estar na caminha com o louro que é mordomo.

Vamos lá gente, já não há paciência para tanta castidade. Mesmo que sejam super-qualquer-coisa, eles têm direito ao amor e, melhor, à carne. Um homem não é de ferro, certo?!

Texto escrito em 2008, a propósito da estreia do Iron Man.

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One Comment leave one →
  1. Anónimo permalink
    Maio 26, 2013 12:44 pm

    🙂 Muito bom!! Continuo à espera do livro , de contos, ou o que for…
    Maria

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