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Unidos até que o Bolo nos separe

Janeiro 13, 2013

Em tempos, dizia-se que o casamento era como andar de metro, quem estava fora esperava ansiosamente que chegasse, e quem vinha dentro desesperava para poder sair.

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Os tempos mudaram e não sei se a malta que está cá fora quer mesmo entrar no comboio das profundezas; tenho para mim, que muitos, quando vêm a carruagem se aproximar, são capazes de assobiar para o lado, sair da estação e ir a pé. Claro que os mais palonços acabam por ficar e, com a confusão da hora de ponta, levam semelhante empurrão que acabam caidinhos lá dentro sem saber.

Os que vão dentro, porque vivemos em tempos modernos, já não esperam nem pelo fim da viagem nem pela estação certa para sair, puxam a alavanca de emergência e atiram-se da janela. Felizmente que foram aparecendo leis que facilitam essa saída rápida pela janela, em que os vidros foram substituídos por aquelas placas de gelatina utilizadas nos adereços cinematográficos, para não magoar, dizem; cá para mim, facilita apenas a saída, mas não ampara a queda depois no chão, que, normalmente, é sempre bem dura.

Sinceramente, acho que esta metáfora do metro não é lá grande coisa. Será que não se pode arranjar uma viagem diferente, como passear de barco? Ao menos, quando saltassem borda fora, caíam ao mar, amparava-se a queda e ficavam logo no seu habitat natural: mar de dívidas; mar de preocupações; mar de novos tormentos familiares; etc.

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Assim, voltando ao casamento propriamente dito, e continuando a maldita metáfora de transportes, eu preferia ir mais pela colisão de tráfego; afinal, não dizem que os pombinhos vão iniciar, juntos, um mesmo caminho? Ora, todos sabemos que, quando 2 veículos se esmurram um no outro, é porque ambos, os camelos condutores, pensaram que tinham um só único caminho; assim, para mim, o casamento, o tal dia inesquecível, é apenas o momento em que 2 belos popós, apelidados de pombinhos, resolvem chocar de frente.  

Como qualquer acidente forte, é necessário quem arbitre e quem testemunhe. Para GNR matrimonial lá temos as Igrejas e as Conservatórias, a tirar as medidas da travagem e a registar os nubentes automobilísticos, para que depois, no futuro, não digam que não bateram e que o culpado é sempre o outro. Como uma autoridade precisa sempre de alguém que comprove os factos, chamam-se, então, as testemunhas para dizerem também de sua justiça, naquilo que é conhecido pela Boda.

Pois é ali, nesse evento lindo, que começa o segundo grande acidente, para não dizer choque em cadeia: ser convidado para assistir à colisão, perdão, à cerimónia e à sua celebração. Eis, então, o grande drama.

Devia haver uma espécie de atestado médico para podermos faltar a uma cerimónia de casamento, tipo: eu, dr não sei quantos, declaro que o também não sei quantos, por motivos de doença momentânea, mas altamente contagiosa, não poderá comparecer no evento tal.

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Durante muito tempo fui a casamentos sempre na esperança que no momento X alguém dissesse não – isto de ver muita telenovela é o que dá, – mas, para meu desalento, tal e qual como os condutores teimosos que acham que têm sempre razão, insistiram em dizer sim. Desisti, hoje em dia, na falta do atestado médico, tenho sempre uma tia em estado terminal no outro lado no país que, por coincidência, prometeu dar o último suspiro, precisamente, na data da boda. Porquê?

Tudo começa com um convite em papel sofisticado e acaba numa fatia de bolo. Pelo meio cai-nos o céu em cima; bom, se não for o firmamento, pelo menos umas toneladas de parentes distantes e de cardápios indigestos vão-nos atormentar durante todo esse sacro dia.

À pala de celebrar a felicidade de uns pombinhos, como se a felicidade deles dependesse do número de vítimas concentradas – ao jeito de qualquer clube Sado Masoquista -, somos atirados para uma arena colorida e cheirosa, mas em que nunca percebemos quem é o touro e o toureiro. Pelo sacrifício que normalmente sinto, devo estar mais para o lado do animal ensanguentado do que para o lado do senhor de vestes apertadinhas e brilhantes – de sabrinas e tudo, que figurinha! Acho mesmo que, quando dou as últimas beijocas parentais e me dirijo ao carro, já com uma maldito ardor no estômago e a precisar urgentemente de uma água das pedras, ainda sinto no lombo o ardor das farpas que me cravaram durante toda a temporada que durou a faina casamenteira. Não sei se tiveram tempo de cortar o rabo e a orelha, mas o buxo sim, porque a maldita comida parece que não tem espaço para se bronzear na sua praia digestiva.

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Anda uma pessoa a fazer dietas, a seguir à risca as recomendações médicas – olha o colesterol, tem cuidado com as diabetes, não te esqueças dos triglicerídeos -, e zás, durante aqueles momentos, dá-nos uma espécie de amnésia geral e toca a enfardar como se tivéssemos sido náufragos numa ilha deserta, daquelas que nem água tem. A memória alimentícia só é recuperada mais tarde quando, depois de alargar calças, cintas e soutiens (para não deixar a outra parte de fora, como se só a ala masculina enfardasse), começamos, normalmente já em casa, à procura de uns sais que nos liberte daquela maldita tempestade que se passa entre o estômago e o lobo frontal, local onde parece que nos enfiaram uma orquestra a afinar instrumentos.

Porque é que se come tanto, se no final já sabemos que vamos ficar enfartados e mal dispostos? Qual o prazer de regar três fatias de pão-de-ló de ovos-moles com quatro flutes champanhe, se depois precisamos de água das pedras para amainar a fera que se instalou? Eis um dos grandes mistérios, se não do universo, dos banquetes certamente.

 

imagePara verem como eu tenho razão, que isto de casamentos e convidados é muito mais que uma assombração – é um desfile completo de zoombies em dia de Halloween –, convido-os a ler mais uma das Cenas Cortadas do Filmezinho das Nossas Vidas. Baseado em factos verídicos, alguns meus, outros de conhecidos, um desfile de acontecimentos em forma de conto, embrulhado com as velhas personagens da série: o casal Pedro e Paula, o seu pequenote Miguel, a cunhada dopada, a sobrinha mimada, as sogras, a complacente e a rezingona, e por aí fora.

Para evitar internamentos de urgência, e não me alongar mais em considerações metafóricas de humor pós-moderno, que o que vem aí é longo e doloroso, o conto reside na página Cenas deste blogue, logo aqui ao lado. Deixem as pipocas de lado, talvez uma garrafa de oxigénio será o melhor acompanhamento.

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