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10 frases que não abalaram o mundo, mas que o tornaram mais engraçado

Março 11, 2013

Quem sabe, faz. Quem não sabe, ensina. E quem não sabe ensinar? Faz listas de avaliação. Pois, não se trata de um trocadilho com a famosa frase que põe a educação de rastos – bem ao jeito do que muitos fazem sem a dizer -, mas antes de uma apreciação sobre as eternas listas do AFI (American Film Institute) que resolveu levar a vida a eleger os mais disto e os mais daquilo.

Uns senhores, que já não têm nada que fazer, especialmente críticos que nunca nada fizeram, resolvem reunir-se e toca a eleger os mais importantes filmes, nesta e naquela categoria. Há sempre uma regra não escrita: quanto mais antigo melhor – que isto do pó faz bem às películas, pensam eles.

Bom, mas vamos ao que interessa, ou seja, à lista com as 100 melhores frases do cinema.

Todos nós, uma vez outra – porque a inspiração falha ou porque nos queremos armar em engraçadinhos cultos –, já ecoámos uma frase da sétima arte para ilustrar determinada cena da nossa vida. Normalmente, buscamos as mais famosas, que é para o receptor não fazer figura de parvo e pensar que estamos a citar Kant. Ora, nesta lista o critério não foi bem esse, das frases orelhudas, pois se virmos bem, apenas 1 das ditas famosas (May the Force be with you) faz parte do top ten.

Se quiserem ver a lista completa, podem consultar Aqui. Eu apenas vos trago o top 10. Mas não é um top 10 qualquer, pois, além da retórica famosa e supra americana, trago um enquadramento bem luso, ou seja, como essas velhas frases poderiam ser ditas aqui, por estas bandas, e neste novo tempo.

1 – Clark Gable (Rhett Butler) in Gone with the Wind

"Frankly, my dear, I don’t give a damn."

– Francamente, minha querida, estou-me nas tintas!

Encostado na cadeira, ele tentava abstrair-se de tudo o que se passava. Foi em vão. O seu assessor entrou no gabinete de um modo efusivo, como sempre, e despejou-lhe em cima da secretária as edições do dia de vários jornais.

– A situação está complicada – disse o assessor.

O Ministro permaneceu em silêncio. Há muito que não faltava barulho da populaça contra a sua governação, mas ele tinha aprendido a baixar o ruído e a seguir em frente. Não ia ser agora, que meia dúzia de manchetes sensacionalistas o iam fazer tremer.

– O povo está todo na rua – continuou o assessor. – Esta última manifestação colocou quase meio milhão de pessoas na rua. Ok, temos que dar algum desconto, mas, mesmo assim, é muita gente. Senhor Ministro a situação está a ficar insustentável. Qualquer dia não vai ser possível aguentar isto. Da próxima vez temos o país inteiro na rua, inclusive os nossos.

Francamente, meu caro, estou-me nas tintas! – respondeu o Ministro. – Um líder não se verga perante as ameaças. O meu caminho tem a luz perante a escuridão da multidão.

2 – Marlon Brando (Vito Corleone) in Godfather

"I’m going to make him an offer he can’t refuse”

– Eu vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar

Por detrás da maquete, Gaspar olhava com atenção aquela reprodução, em ponto pequeno, do seu projecto. A sobrevivência da sua construtora estava dependente de ganhar aquela importante obra. Muitos milhões estavam em jogo. Mas um maldito concurso público impedia de ter já garantida a sua execução.

– Acho que pusemos uns milhões a mais no caderno de encargos – disse o engenheiro responsável. – Isso pode ser fatal para nós. Já sabe que nos tempos que correm o factor de baixo custo é determinante nos concursos. Não vejo porque este presidente da câmara vá ser diferente.

Eu vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar! – respondeu Gaspar. – Como já devia saber, os concursos públicos não se decidem nos cadernos de encargos, mas naquilo que eles podem vir a representar para as duas partes.

3 – Marlon Brando (Rhett Butler) in On the Waterfront

"You don’t understand! I coulda had class. I coulda been a contender. I could’ve been somebody, instead of a bum, which is what I am."

– Tu não entendes! Eu poderia ter classe! Eu poderia ser um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou.

No alto do seu fato de corte italiano, ele olhava aquele pesadelo que se abatera a seus pés: mesmo no meio daquela torre envidraçada, onde outrora se fizeram grandes negócios da alta finança, onde se discutia compras e fechos de empresas, no meio de fumaças de bons cubanos, onde se jogou a roleta das acções milionárias, mesmo ali, abrira-se um buraco enorme, que esventrava completamente a sua edificação bancária.

Como uma autêntica bomba, que num descuido ele próprio fabricara, um enorme petardo financeiro rebentara com a sua organização, abrindo uma enorme e profunda cratera, que atravessava toda a sua estrutura e a punha em risco de ruir. Ao olhar através dela, conseguia ainda ver o que restava do seu império, apenas folhas a voar pelo ar e empregados aos gritos, que tentavam salvar alguns bens, antes da possível derrocada final. Pobres criaturas aquelas, que julgam que um emprego, onde ganham uns míseros cobres para entupirem a sua estúpida vida de classe média, é coisa que valha a pena salvar.

– Senhor Administrador, os homens para começar a reparação já chegaram – avisou a secretária.

Lá fora, um batalhão de funcionários do Estado preparava-se para começar a cobrir o buraco com os euro-tijolos. Não seria solução, mas sempre dava para o pavimento se aguentar durante uns tempos.

O banqueiro, sentiu um murro no estômago, ao saber que aqueles, contra quem sempre tinha combatido e sobre os quais tinha exercido toda uma série de malabarismos para não lhe impedirem os bons negócios, eram afinal os seus salvadores. Era como se fosse obrigado a comer no prato que sempre cuspira.

– Deixe lá, senhor Administrador – continuou a secretária, – afinal vai ficar tudo resolvido. Dentro em breve vai estar aí outra vez na mó de cima, a fazer grandes negócios.

Tu não entendes! Eu poderia ter classe! Eu poderia ser um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou! – respondeu o banqueiro. Mas depressa lhe passou a crise de auto estima; ao começar a caminhar no novo chão dos euro-tijolos estatais sentiu-se seguro e pronto para novos voos.

4 – Judy Garland (Dorothy Gale) in The Wizard of Oz

"Toto, I’ve got a feeling we’re not in Kansas anymore."

– Toto, eu tenho a sensação de que não estamos mais no Kansas

Com pouco dinheiro no bolso e no cartão, o corte no orçamento familiar tinha sido brutal com o despedimento da mulher e  o congelamento do seu próprio ordenado, não esperava gastar muito tempo naquele espaço. Apenas ia entrar com o filho, comprar uma camisola interior em promoção, para oferecer à mulher, e desaparecer imediatamente.

Quando entrou no centro comercial, ficou surpreendido com a imensa multidão que circulava de um lado para o outro, cheia de sacos e saquetas. De onde tinha saído aquela gente toda, que parecia viver para além da crise?

Tó, eu tenho a sensação de que não estamos mais em Portugal – disse o pai, perante o olhar confuso do filho.

5 – Humphrey Bogart (Rick Blaine) in Casablanca

"Here’s looking at you, kid."

– Está a olhar para ti, pequenota.

Raios, não sei se é do filme, pelo qual nutro uma certa embirração, se é pela estupidez da frase, não consigo lembrar-me de nada. Ao menos se fosse a outra frase – Play it again, Sam! – que, apesar de nunca ter sido dita no filme, dava para congeminar alguma coisa. Agora um está a olhar para ti, pequenota – cum raio! Isto sugere o quê? Conversa de pai de natal em centro comercial ou processo de Casa Pia?! Ná! Esta não sai.

6 – Clint Eastwood (Harry Callahan) in Sudden Impact

"Go ahead, make my day."

– Vai em frente, alegra-me o dia.

De pé, no parapeito da janela do 12º andar, com uma pistola na mão, apontada à cabeça por ele próprio, e com frasco de comprimidos na outra, pois não queria deixar de fora nenhuma forma de pôr um ponto final a tudo, estava perto de encontrar um fim. A carreira estúpida que fizera, as decisões que tomara, a família que arranjara, tudo lhe parecia demasiado negro para continuar.

Mesmo a um passo, a um tiro e a uma dose de escrever o capítulo final, esperava, ainda, que alguém lhe desse uma abraço longo e o arrancasse daquela posição. Foi por isso, que, quando ouviu a janela do lado abrir-se e aparecer nela, debruçada, a sua mulher, sentiu uma pequena alegria de alívio invadir o seu corpo

Vai em frente, alegra-me o dia! – disse ela num tom muito seco.

7 – Gloria Swanson (Norma Desmond) in Sunset Boulevard

"All right, Mr. DeMille, I’m ready for my close-up."

– OK, Mr. DeMille, eu estou pronta para o meu close up.

– Ó meu, não fiques aí parado! – gritou um dos colegas assaltantes para um outro que estava estático no meio do armazém. – Começa a carregar as caixas.

Mas Fábio não ouviu. De repente, toda aquela parafernália do assalto, que tinha preparado meticulosamente nos dias anteriores, tinha deixado de fazer sentido. Queria lá saber dos LCD de não sei quantas polegadas que havia que carregar. Mais do que ter um ecrã para ver, o importante era estar dentro dele. E Fábio estivera.

Como que encantado, com aquela câmara de vigilância, que acompanhava os seus gestos, Fábio permanecia estático a olhar o olho electrónico, que parecia ter uma ligação afectiva com ele. Fazia-lhe lembrar outros tempos, em que tinha sido um verdadeiro protagonista com as câmaras. Fechado dentro de uma casa, aqueles pequenos objectos de filmagem, tornaram-se não só o seu elo de ligação com o mundo, pois transmitiam as suas imagens aos quatro ventos televisivos, mas também o motor para o seu sonho de fama. Agora ali estava ele, outra vez, a ser captado pelas câmaras. Será que por detrás delas estaria novamente Mila Oliveira, a apresentadora que tanta conversa lhe dera em tempos, como se fossem íntimos, mas que logo, depois da saída da casa, depressa se esquecera dele?

OK, Srª Mila, eu estou pronto para o meu close up! – disse ele, aproximando-se do olho-de-peixe electrónico, para que melhor captassem a sua imagem. Ainda estava assim, nessa posição congelada, quando a policia apareceu. Não se importou, afinal, pensou ele, eram só os seguranças que o iam acompanhar até à entrada no estúdio para a sua consagração. Mas na penitenciária, em que permaneceu durante um largo tempo, apenas foi um entre muitos.

8 – Harrison Ford (Han Solo) in Star Wars

"May the Force be with you."

– Que a Força esteja convosco.

Não lhe apetecia nada levantar-se. Enfrentar a rotina cinzenta daquele emprego não era o pior. Aquilo que o afligia era pensar que um dia destes dias poderia ter uma arma apontada à sua cara. Divertia-se imenso com essas cenas nos filmes, mas só saber da mais pequenina das hipóteses de isso lhe acontecer um dia, fazia-o entrar num processo de tremuras quase epilépticas.

A mãe bem o tentava tranquilizar, era o seu papel, mas também vivia numa agonia. Afinal, todos os dias havia notícias de bombas assaltadas nas redondezas. Não era isso que ela queria para o seu filho, ter uma profissão de risco. O alto custo dos combustíveis, os locais isolados dos postos e o facto de trabalharem durante a noite levava a que fossem um isco fácil para os assaltantes.

Mesmo a custo, lá se arranjou para entrar ao serviço. Antes de partir, olhou com uma tristeza de medo os familiares que ficaram em casa, como se estivesse a partir para uma comissão de guerra algures numa terra distante. Mas não, apenas ia fazer mais um turno de caixa na sua bomba de gasolina.

Que a G-Force esteja contigo! – bendisse a mãe, ao pobre filho, enquanto lhe aconchegava o cachecol.

9 – Bette Davis (Margo Channing) in All About Eve

"Fasten your seatbelts. It’s going to be a bumpy night."

– Apertem os cintos. Vai ser uma noite trepidante.

O Estúdio estava numa agitação. Faltavam poucos minutos para o programa começar.

Depois de uma época desastrosa em termos de audiência, esperava-se agora um autêntico milagre com o novo reality show. Mais do que escarafunchar os podres de cada um e exibi-los ao som de variedades, mais do que fechar anónimos num espaço e apreciar voyeuristicamente os seus comportamentos pavlovianos, mais do que fingir que se criam novas vidas de sonho, apresentava-se agora um novo limite do entretenimento real, o encontro com a morte. Doentes terminais, vinham à televisão mostrar os seus últimos dias, os seus derradeiros sonhos, as suas dores finais. Haveria mesmo interrupção da emissão para transmitir a sua morte em directo.

Uma providência cautelar de uma série de associações de defesa dos direitos humanos estava em risco de rebentar. Lá fora, uma minoria de pessoas manifestava-se contra semelhante aberração televisiva. Lá dentro, dos lares, uma maioria de pessoas aguardava ansiosamente o primeiro programa e, talvez, a primeira morte. Era necessário carpir a dor dos outros, para tornar a nossa mais leve.

Com todo esse cenário, a noite avizinhava-se arrasadora, nomeadamente, naquilo que era o mais importante, o share.

Apertem os cintos. Vai ser uma noite trepidante! – gritou o director de programas, pouco antes do momento zero para ir para o ar.

10 – Robert De Niro (Travis Bickle) in Taxi Driver

"You talkin’ to me?"

– Estás a falar comigo?

Bandeirinhas e música de fanfarra. Mais um grande empreendimento inaugurado. Centenas de postos de trabalhos criados. Uma grande e inovadora aposta, o primeiro grande parque de atracções português. Animais pintados de todas as cores dividiam-se por vários pavilhões. O ministro ia distribuindo sorrisos, abraços e beijinhos a todos os que se cruzavam com ele. Era uma pessoa aberta e afável. Queria falar com todos, com o seu povo.

Na atracção das arábias, um dos camelos relinchou quando passou a comitiva.

Está a falar comigo? – questionou o Ministro ao ouvir som do camelo.

E estava mesmo. Passaram uma boa parte da tarde numa conversa animada. Dizem as mais línguas que foi convidado para assessor.

*****

Algumas traduções foram opções minhas, não sei se estarão muito de acordo com o sentido verdadeiro, dado que não sou um expert na matéria.

««««««

Texto escrito em 2008; triste sina esta de passado 5 anos e as palavras serem actuais  

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