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Em nome do Absurdo

Outubro 21, 2012

Flashes e olhos postos nele. Percorria aquele pequeno e recto caminho como se estivesse a mostrar a eloquência de uma representação de Shakespeare; mas não, apenas ia ali ao fundo e voltava, em passo acelerado – carregando as vestes que algum nome da moda concebera –, com um ar de quem lhe fora confiado uma missão de importância extrema.

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David sentia, assim, alguma nostalgia do tempo, curto, em que passeara pelas passerelles de Paris e Milão. Além do book, que folheava constantemente para reavivar as memórias, numa espécie de carburante de auto-estima, pouco restava dessa época em que fora modelo com uma certa projecção. Mas como o tempo arde depressa, num instante o seu look foi queimado e substituído por outros com um número de velas mais reduzido no bolo de aniversário; apesar de ainda estar inscrito numa agência, as solicitações rareavam cada vez mais. Os castings a que se submetia tinham sempre a eterna resposta: muito obrigado, não se enquadra no perfil que procuramos para este trabalho, talvez numa próxima.

Aparecer em palco todo nu, ou muito próximo disso, com um público em histeria a querer tocar-lhe, não era propriamente o que desejava profissionalmente; logo ele, que sempre evitara ir para a cama com determinadas pessoas para obter contratos, a submeter-se a semelhante exposição. Mas de igual forma – ter tentado evitar o assédio profissional não o impedira, em certas ocasiões e em nome de um contrato importante, de ceder e deixar que alguém desfrutasse um pouco do seu corpo -, levava-o, agora, a aceitar aquele papel bizarro. Ao longo do tempo e na sua profissão de modelo aprendera a lidar com a nudez, ela era frequente em muitos trabalhos, mas sempre num sentido mais reservado – feita em estúdio e com pouca assistência –, o que não acontecia naquele momento, onde se sentia completamente exposto e algo embaraçado com todo aquele universo, maioritariamente feminino, em delírio, a atirar dinheiro a seus pés.

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David estava atrasado para a sessão daquele dia; já lhe tinham ligado a dizer que a casa estava cheia e que o esperavam ansiosamente. A época de crise obrigara-o a vender o carro, pelo que ainda ia demorar algum tempo a chegar. O metro e os autocarros àquela hora estavam a abarrotar, desde que a gasolina chegara aos 3 euros os carros particulares quase tinham desaparecido do reboliço das cidades, no entanto, outro caos se instalara, o das pessoas em multidão a quererem deslocar-se nos transportes públicos. Não teve outra alternativa a não ser apanhar um táxi; o que pagaria pela viagem, praticamente, levar-lhe-ia todo o ganho daquela apresentação, mas, mesmo assim, tinha que chegar ao destino, caso contrário perderia o contrato.

Ainda não tinha avançado muito no trânsito quando o táxi ficou parado. Um grande grupo de pessoas impedia a passagem. Ao contrário do que primeiramente pensara, não era a confusão normal de pessoas a apanhar transportes públicos; era uma manifestação dos trabalhadores de mais uma empresa que declarara falência e fechara, a Letras, um grande grupo editorial.

A polícia carregava sobre os manifestantes.

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– Este país está demais – reclama o taxista. – Assim não vamos lá, todos os dias fecham não sei quantas. Daqui a pouco são mais os que não trabalham dos que ainda fazem pela vida. O pior de tudo é que, ao não fazerem nada, começam a atrapalhar os poucos que ainda fazem. Já para não falar da arruaça criminosa que provocam. Sabe? Se fosse eu que mandasse, punha-os todos num barco e mandava-os para uma ilha. Ao menos lá, se fizessem mal, era entre eles. Quando houvesse necessidade de emprego ia-se lá, buscar os que se precisavam. Assim, não andavam aqui a estragar a sociedade mais do que ela já está e ficávamos com as ruas limpas. Eu sei que é duro ouvir isto, mas é mesmo assim, entre estragar-se 2 casas de família e dar cabo só de uma, é preferível que seja só uma. Agora, desta forma, ninguém está bem, nem os que trabalham nem os que estão desempregados. Mas o que quer, estes governantes falam, falam, só que nunca fazem nada.

David permaneceu em silêncio; poder-lhe-ia falar no princípio da solidariedade social, mas achou que não ia adiantar nada, preferiu concentrar o seu pensamento na performance que ainda teria que fazer.

Quando chegou ao local, ao entrar pelas traseiras, ouviu o eco delirante de uma pequena multidão. Entrou no seu camarim improvisado, uma sala enorme atrás do palco, e começou a tirar a roupa; já não bastava o número que ia fazer, ainda tinha que se despir num local sem condições e onde estavam sempre presentes outras pessoas. Felizmente que nesse espaço havia pilhas e pilhas de livros, o que lhe permitia uma certa intimidade.

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Depois de colocar uma pequena tanga branca à volta da cintura, disfarçando assim a nudez completa em que se encontrava, dirigiu-se àquela que era a sua maquilhadora para preparar a entrada em cena, a sua presença em palco tinha que estar irrepreensível e convincente. Este processo também o incomodava, estar ali especado no meio da sala com uma mulher a percorrer algumas partes do seu corpo com um pincel não era tarefa fácil: era-lhe exigido um grande nível de concentração para que não sentisse a mínima aragem sensual naquele acto, nomeadamente quando ela, com a mão, ajustava algum make up na sua pele. Caso deixasse escapar algum prazer estaria em grandes dificuldades, pois, na situação em que estava, dificilmente poderia ocultar o que quer que fosse.

Em jeito olímpico, a pira no palco começou a ostentar uma chama bem forte. Aquele efeito especial era o sinal que o clímax da sessão ia começar e que David estava prestes a entrar em cena. Ao som de um arranjo musical imponente, extraído do Messias de Handel, David surgiu bem lá no alto, no topo do pavilhão, mesmo em cima do palco. Como uma ascensão invertida, ele desceu lentamente até ficar ali, no centro do palanque, quieto e crucificado. Música, chama e multidão ao rubro. Uma reincarnação de Cristo crucificado estava ali, bem próximo de todos.

– É ele, meus irmãos, é ele! – gritou Mateus, um dos pastores em palco, numa voz já rouca de tanto pregar naquele fim de tarde. – Os outros podem tê-lo lá nas suas igrejas em ponto pequeno e em madeira, mas nós, irmãos, na Igreja do Eterno Salvador temo-lo em ponto grande e em carne e osso. Apesar de Ele estar lá em cima, é aqui no nosso canto que Ele baixa para ser representado e se aproximar dos homens. Vinde irmãos, vinde até Cristo para lhe prestarem homenagem, para lhe mostrarem o vosso arrependimento e lhe entregarem parte da vossa impureza, só assim ele tornará cristalino o vosso caminho.

Digital Crucified

Com a cabeça de lado e fingindo-se adormecido, David pôde ver a pequena multidão, maioritariamente feminina, dirigir-se para o palco para virem até ele. Ao som de uma música arrebatadora, mas agora mais melodramática, as pessoas aproximavam-se, algumas num choro convulso, beijavam-lhe os pés e atiravam dinheiro para o pote de cobre sobre o qual a cruz estava colocada, como se ela emergisse dentro desse objecto dourado. Algumas dessas pessoas, em desespero, agarravam-se às suas pernas, o que lhe provoca um certo desequilíbrio; era necessário a intervenção da segurança para as afastar.

David evitava olhar para semelhante espectáculo, preferia concentrar-se noutros pontos do palco para se distrair, como a pira, que naquele dia emanava uma chama bem mais forte. Não percebia como é que os bombeiros autorizavam semelhante coisa; para piorar, o material de combustão não era nada seguro. Do alto da sua cruz, David podia ver alguns dos elementos daquela suposta igreja a introduzirem os livros na fornalha por detrás do palco, era necessário que a chama se mantivesse sempre acesa. Mesmo a alguma distância, pareceu-lhe ver queimar uma colecção completa de Enid Blyton. Doeu-lhe que Os Cincos, que ele adorara na sua infância, acabassem assim, a ser chama dum espectáculo tão sombrio.

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Quando tudo acabou, David, já vestido, dirigiu-se ao pastor financeiro para receber o seu cachet. Lá estava ele, ao telefone, por detrás das pilhas de livros, agora já mais pequenas.

– Tem que dar! – gritava o pastor, encarregue das finanças da Igreja, ao telemóvel. – A Letras também não ia dar e acabou por arder, ou melhor, ainda arde um pouco, pelo menos por aqui. Eu sei que a Livro Azul é um osso duro de roer, mas tem que ser nossa, é a última grande editora que nos falta fechar. Faz uma oferta de compra irrecusável, nestes tempos de crise não há accionista que resista. Já sabes que os livros são a nossa chama.

David recuou e só voltou a aproximar-se quando viu que ele  terminara o telefonema, não queria que desconfiasse que ouvira parte da conversa. O pastor retirou algumas notas do monte das oferendas e entregou-as:

– Toma lá rapaz. Mais uma vez estiveste bem. Tenho que dizer à Neide para te arranjar uma tanga maior. Olha-se para cima e vê-se tudo. Pode ser que algum mulherio até goste, mas c’um raio é preciso haver alguma decência; afinal, é Cristo que está aqui.

Mais um falso conto; mais uma passagem do mini-romance O Absurdo dos Dias, escrito em 2008. 

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2 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Outubro 21, 2012 9:54 pm

    Umas vezes aparece o meu nome, outras não, mas olhe, sou eu 🙂
    Adoro sempre ler os contos, uns mais que outros logicamente, mas é uma mistura de emoções, sobretudo pena que uma escrita tão original e diferente fique por aqui , meia abandonada, mais que meia talvez. Gostava que tentasse fazer mais alguma coisa por ela. Este conto é tudo menos vulgar, é excelente, é absurdamente excepcional. É evidente que não é o tipo de escrita para vender aos montes, considero que não é acessível ao gosto de toda a gente. Estou aqui a lembrar-me de alguém cuja escrita também tinha essa característica e acabou por ganhar um Nobel. Só começou a editar muito mais velho do que você é agora, por acaso. Tenho dito.

    • Bau P permalink*
      Outubro 22, 2012 6:54 pm

      Mesmo Anónimo sei sempre de quem é 🙂 E o meio abandono é um destino, o não meio fica assim repartido pelas pessoas que vão lendo e gostam. O tal destino é o capricho da realidade.

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