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Rosa Minguante

Novembro 20, 2012

– Um dia, eu vou comer esta cabrita.

Assim dizia – quando a mulher não estava por perto – ou pensava Manuel Alvarenga sempre que via passar, aos saltos, a pequena Maria da Purificação. Sentado na cadeira de baloiço, no alpendre da casa grande da roça Santa Isabel, salivava o desejo ao ver que aquela negrinha começava a apresentar formas de mulher – ainda parece que foi ontem que gatinhava aqui pela escadaria, sempre foi uma atrevida, nunca respeitou domínios de patrão, e já está quase no ponto; esta cabrita vai ser festa grande.

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Chamava-lhe cabrita, porque as correrias saltitantes e endiabradas faziam-lhe lembrar as pequenas cabras da quinta do seu avô, na metrópole, e não porque corresse no sangue da gaiata sementes de branco, pelo contrário, ela era bem negra, ao tom das gentes daquela terra;

aliás, Manuel nunca se envolvia com mulatas ou cabritas – não lhe faltava na roça fêmeas assim, mestiças de vontades brancas forçadas – , pois temia que, ao lhe desfrutar as carnes, pudesse estar a possuir ainda restos do seu próprio sangue; à quantidade de mulheres que ele já tombara, não faltariam por ali muitos bastardos que carregassem a sua semente,

(mesmo que não fosse homem de grandes romarias com Deus – isso era mais coisa para a sua mulher, que aspirava uma vizinhança de santa, e para o seu filho mais novo, que, sabe-se lá, era todo dado às mariquices da igreja, um dia deste teria que lhe pôr mão e ensinar-lhe os caminhos da tesão, o mapa dos verdadeiros homens -, não queria perder-se em semelhantes pecados de sangue destalhado).

Ainda que não o admitisse, a designação de cabrita que atribuía às miúdas a namorarem-se de mulher acabava por soar a uma marcação de gado quase pronto para ser abatido. Manuel, assim que notava a graça de uma das muitas meninas que enchiam a roça, começava a segui-la com o olhar; a escola que a sua mulher montara na propriedade, por detrás da casa grande, e o recreio onde a miudagem vinha brincar, permitia-lhe escolher e acompanhar o crescimento até ao dia em que ele as chamava ao armazém maior do café para, no escritório do encarregado, as tomar como suas.

Como um destino aziago que lhes coubera em sorte, elas, preparadas por suas mães – deitar com o senhor não era má sorte de todo, durante o tempo em que ela andava entusiasmado com os enlevos não faltaria arroz em casa -, limitavam-se a ficar nuas, caídas num velho canapé, encardido do tempo e dos fluidos que, por vezes, rolavam das partes, até ele se deitar em cima e começar a mexer-se como os animais do curral.

Antes de as fazer gritar, Manuel gostava de se despir completamente – bem ao contrário do que costumavam fazer os homens do seu tempo – e exibir o seu portentoso membro, como que a alardear a grande espada com que ia combater. Deus fora generoso ao dotá-lo com uma grande riqueza no sexo: não lhe bastara enche-lo de um sangue quente, sempre fervente de desejo – os seus mais de cinquenta anos ainda não lhe tinham abrandado os apetites e quase todos os dias tinha que saciar a sua vontade de ter um corpo quente, negro de preferência, para cheirar, morder e atravessar -, como também lhe dera um pénis de dimensões fora do comum – o homem deve ser arraçado de cavalo, comentavam, entre risadas, na roça (quem, já fora objecto das suas fúrias fingia apenas achar graça).

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Dona Isabel, senhora fina de Lisboa, e mulher de Manuel, também não achava graça aos trunfos do seu marido. Só de sentir aquela carne grande e quente – mais parecia coisa do demónio – encostada ao seu corpo durante a noite já a enojava, quanto mais ter que a ter dentro de si. Felizmente que o marido só a procurara para criar descendência, e como ela era de bons frutos, pouco mais de três vezes foram necessárias para que o seu ventre se iluminasse e fecundasse os dois filhos e a filha com que Deus lhe brindou os dias. E mesmo nesses momentos, quis luz apagada, subiu a camisa de noite rendada para cima e virou a cara para o lado, a baba dele a procurar a sua boca provocava-lhe vómitos. Assim, via como uma bênção as aventuras do marido com as amantes do Parque Mayer, quando estavam em Lisboa, e com as negras da roça, quando passavam temporadas naquelas terras quentes e húmidas como os infernos.

– Nem se sabe como esta mulher consegue entrar nas portas – ouviu um dia, entre risadas, numa loja fina da baixa; a fama do marido já era grande, mas ela pouco se importou, fez-se surda (uma senhora de sociedade não tem ouvidos) e seguiu o seu caminho, felizmente que o Senhor punha na terra almas perdidas, para satisfazerem os apetites animalescos dos homens, sua condição, e assim evitava que as pessoas decentes, mulher devotas e o bastião da família, tivessem que pecar no cumprimento das suas obrigações.

Na roça, longe dos ímpetos do marido, apenas as refeições e um pouco de fresco – quando havia – ao serão os juntava, D. Isabel perseguia os caminhos da sua mentora, uma santa com o mesmo nome que, em tempos distantes, acarinhara os pobres com pães e rosas. Claro que dispensava estar muito perto dos seus pobres – era uma gente que se dava como os animais, quer no mato, quer nas palhotas onde pernoitavam -, bastava aparecer na missa campal que mandava rezar nas datas importantes, ou então, quando nascia uma criança, ir ao pequeno armazém, ajeitado em enfermaria, ver as crias – os pretinhos são tão engraçados quando nascem – e dar-lhe nome de gente e da família de Deus:

– Credo, se eu não lhes ponho Conceição, Encarnação, José ou coisa do género, ficam com aqueles nomes amacacados. Até os apelidos, sempre que posso, mando o capataz ir registá-los com palavras bem portuguesas. Agora não percebem, mas um dia agradecer-me-ão.

Mas se a sua devota levava, aos pobres, pães que se transformavam em rosas, D. Isabel gostava de chamar os trabalhadores da sua roça – uma vez por semana escolhia qual era família contemplada – para lhes oferecer uma dose extra de arroz e um pano, do tamanho de um lenço, com uma rosa bordada; a sua santa havia de perceber.

Maria da Purificação – nome oferecido por D. Isabel – foi um dia também contemplada com o pano bordado; por achar graça à miúda, ou por temer um pouco a sua família, ofereceu-lhe uma peça maior, numa fralda foram bordadas duas rosas.

A cada dia que passava, Manuel sentia mais vontade de tomar a sua cabrita. Normalmente esperava que as formas de mulher estivessem bem definidas para se deitar com as raparigas marcadas, mas, desta vez, os peitos tardavam em crescer, apenas duas pequenas laranjas saltitavam na blusa rota e encardida, e as coxas continuavam um pouco escanzeladas, tardando em ficar robustas numa anca reboluda.

Se continuasse à espera, Maria da Purificação já devia contar com uns dozes anos – nunca se sabe muito bem a idade desta gente -, ainda a perdia; já notara que Jesus, um rapaz um pouco mais velho, andava entusiasmado com a miúda e até parecia haver um certo entendimento entre ambos.

Numa tarde quente, ao regressar a cavalo dos campos de café, sentiu que havia risadas numa das muitas cascatas que percorriam a roça. Desmontou-se do animal e aproximou-se do riacho. Por detrás da vegetação pôde contemplar que Maria da Purificação brincava, toda nua, com outra criança. Ao ver a água a deslizar pela pele negra, reparou que as formas já não eram tão infantis quanto ele pensava; a roupa e o andar desengonçado escondiam os traços de mulher que já ostentava.

– Amanhã, quando a patroa descer à cidade, leva-me aquela cabrita que costuma andar por aqui aos saltos, acho que é Purificação, ao armazém – ordenou Manuel ao capataz, assim que lhe entregou o animal para o desarrear.

– Patrão, olhe que não é boa ideia – respondeu o homem que, apesar de comandar os trabalhadores com mão de ferro, assim lhe era ordenado, não gostava muito daqueles preparos; mesmo pretos também eram filhos de Deus, e se os seus braços eram boa força animal para o trabalho, a sua alma devia merecer algum resguardo.

– O que queres dizer com isso?

– A rapariga ainda é muito gaiata, mal se aguenta nas pernas, e pode não aguentar. Toda a gente sabe que o patrão é um homem muito dotado, sabe como são estas coisas, espalham-se logo, e pode arrebentar com a rapariga.

– Ninguém te pediu a opinião, mas fica descansado que ela aguenta, piores do que ela já aguentaram. Vai guinchar que nem uma cadela, mas depois aguenta – disse Manuel, enquanto enrolava a ponta do bigode e lhe crescia a saliva na boca: os gritos das miúdas, quando ele as penetrava, excitavam-no muito; excitava-o saber que o seu portentoso material abria o caminho das carnes e o marcava como seu.

– O patrão é que sabe, mas quem o avisa seu amigo é. Olhe que a família dela não é coisa boa, aqui na roça todos a temem, dizem até que a avó é macumbeira e que já despachou uns quantos.

– E eu lá sou homem para acreditar nessas histórias da carochinha. O que me vai fazer, transformar-me em cobra? Trata tu de a trazeres que eu trato dos feitiços.

No outro dia, D. Isabel desceu à cidade para tomar chá com a mulher do governador, pôr a conversa em dia, falar das coisas bonitas da metrópole e lamentarem-se do trabalho doméstico pouco cuidado dos pretos – por mais que se lhes ensine, eles não aprendem, mas os culpados somo nós que insistimos em trazê-los para dentro de casa, quando, afinal, Deus os fez apenas para a labuta da terra.

Assim que a charrete desapareceu no portão grande, Manuel encaminhou-se para o armazém. O escritório ficava perto da casa grande e se a mulher estivesse em casa poderia ouvir a gritaria. Esperou que o capataz trouxesse a moça.

Maria da Purificação entrou arrastada pelo braço. Caiu no chão quando foi largada.

– Levanta-te e deita-te ali – ordenou Manuel, enquanto o encarregado fechava a porta. – Despe-te!

Maria da Purificação levantou-se, olhou-o de frente – ao contrário das outras que não ousavam levantar o olhar –, despiu o vestido roto e deitou-se. Sabia ao que ia.

Manuel verificou que, estranhamente, ela tinha cuecas – por debaixo do vestido era hábito não terem mais nada – e que ficara com elas vestidas.

– Tira isso!

Ela ignorou a ordem. Abriu bem as pernas para que ele visse os panos que lhe cobriam o sexo.

Manuel, furioso, interrompeu o desabotoar da camisa e avançou para lhe arrancar a irritante peça de vestuário. Quando ia rasgar o empecilho, reparou numa coisa que o inquietou: precisamente no sítio do sexo as cuecas tinham uma rosa bordada. Com o pano que lhe fora oferecido por D. Isabel, a avó fizera-lhe uma protecção das virtudes.

A coisa não estava a começar bem, aquela figura bordada pelas mãos de sua mulher perturbava-o e retraia-lhe um pouco os apetites. Antes que a coisa piorasse, arrancou aquele pano, dividido em 2 triângulos, das coxas da sua cabrita e atirou-o para o fundo do armazém.

Abriu-lhe as coxas. Retomou o seu despir, enquanto ela o olhava.

Ao contrário do que costumava acontecer, quando ficou completamente nu o seu material ainda não estava na sua pujança maior. Alguma coisa se estava a passar; normalmente, naquele momento, já o olhar das raparigas se assustava com o que se lhe oferecia à sua frente. Mas com aquela, apenas conseguia mostrar um pedaço de carne envergonhado. Resolveu atirar-se a ela; quando começasse a roçar-se nas carnes e a cheirar a sua negritude tudo se havia de inflamar.

Quando procurava a boca de Purificação para lhe cravar a sua, sentiu que uma palavra saiu de lá com grande ressonância. Não entendeu o vocábulo, devia ser um crioulo esquisito.

Tentou tapar-lhe a boca, mas ela não deixava de repetir a palavra, que parecia espetar-se na cabeça como uma faca.

Tentou esbofeteá-la para acabar com aquilo. Mas a mão ficou mole. Pior, sentiu uma sensação estranha nas partes baixas. Quando olhou, verificou que o seu objecto de maior orgulho mingara, encolhera tanto que parecia ter entrado para dentro.

Deu um salto para o meio do escritório. Arrancou o espelho que estava por cima de um lavatório, ao canto, e colocou-o em frente às partes: não era alucinação, o tamanho do seu outrora grande pau era agora um meio dedo mindinho; até os tomates desapareceram.

Vestiu-se e correu para a casa grande. Tomou um bom banho. Esfregou-se como se estivesse encardido de décadas. Nada. Por entre as pernas, quase nada tombava. O emaranhado dos pelos encobria o pouco que por ali estivesse; mais parecia passarinha de mulher.

D. Isabel estranhou que, ao chegar, o marido já estivesse deitado. Ai minha Nossa senhora, Santa Isabel, que as febres más já o apanharam; é o que faz andar sempre metido no meio dos pretos. Mais tarde ou mais cedo isto tinha que acontecer. Estas terras são o ventre do diabo; queimam por fora e por dentro. Chamem um doutor para lhe acalmar as febres. Manuel nada disse, nem mesmo contrariou o alvoroço das febres; o corpo, gelado, ficou quieto.

O primeiro navio a atracar ao largo levou-os para a metrópole. Manuel e Isabel abandonaram a roça – ainda que não tivesse febre nem outro mal-estar, nunca mais se levantou da cama até apanhar o barco.

Na capital, Manuel procurou os melhores médicos, mas estes pouco fizeram. Não encontraram nada de estranho, apenas viram um homem para quem a natureza fora muito pouco generosa marcando-o como um anjinho barroco.

Sem ânimo, Manuel não mais voltou à roça, o filho mais velho que continuasse o negócio. Ficou por Lisboa; ficou por casa. Matou as tardes sentado num cadeirão junto à janela, que lhe mostrava o Tejo e os barcos a partir para as terras quentes, ao lado da sua mulher que teimava em continuar a bordar toalhas de linho com lindas rosas.

Rascunhado para uma coisa maior, mas um tempo de espera numa sala de aeroporto transformou-o numa prosa mais curta.

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4 comentários leave one →
  1. Novembro 20, 2012 10:39 pm

    Bem, as palavras são poderosas…mesmo quando não as dizemos em alto e bom som! Bau, gosto disto!

  2. Anónimo permalink
    Novembro 21, 2012 11:08 am

    Muito bom, nu e cru, as palavras como bofetadas, amei.
    Maria

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