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E Depois do Adeus

Outubro 20, 2013

Se é a sombra que dá a verdadeira luz às imagens, e se por aqui isso foi feito com palavras ao longo de algum tempo, então, na hora de fechar a porta, corta-se no enleado das locuções e coloca-se a ilustração que melhor define o momento.  O pó virtual tratará de cobrir tudo; sempre se poupa em lençóis. Fim.

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Foto de Tommy Ingberg.

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77 Palavras – O Regresso

Julho 22, 2013

Uma desgraça nunca vem só. Já não bastava andar nesta casa a estragar o ar da literatura – e pôr os deuses da letras com arritmias  -, ainda vou poluir outros ambientes. Assim, deu-me para ir ao bonito blogue da Margarida Fonseca, 77 Palavras, e responder aos seus desafios, construir histórias com exatamente 77 palavras. A primeira experiência de 2012 já a publiquei aqui. Agora trago a segunda tranche, ou seja, as minhas respostas aos desafios do primeiro semestre de 2013. Como alguém disse, antes isto que andar metido na droga. 

Desafio:

Fazer com que cada frase da narrativa começasse por uma palavra do provérbio: Bom saber é o calar, até ser tempo de falar.

Cão’versas

Bom, a história não tem muito que contar

Saber tudo ou não

É coisa de pouco adiantar

O cão, como todos os dias, levantou-se e começou a ladrar

Calar a fome era coisa que não sabia fazer

Até que o dono acordava também (para não falar dos vizinhos) e lhe dava de manjar

Ser cão era fácil, latir para comer   

Tempo todo para preguiçar

De que adiantava pretender outro querer

Falar era coisa que nunca poderia alcançar.

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Desafio:

A história tinha que ser sobre matemática.

33.333

Naquele país, se nada fizessem, quando nasciam tinham direito a 33.333 dias para viver. Se levassem a vida a sentir o sol, a olhar o mar, a levantar e ir trabalhar, a deitar e ir descansar, viviam cerca de 90 anos, simplesmente.

Mas podiam também ganhar ou perder dias: se amassem, se dissessem a verdade ou se ajudassem os outros ganhavam 3.333; se odiassem, mentissem ou fizessem mal aos outros perdiam 3.333.

O país desapareceu; morriam cedo.

Desafio:

O conto tinha que conter 11 frases de 6 palavras certinhas (66) + 3 frases onde se encaixam as outras que faltam (11).

O Falador

Era um homem sempre muito bem-falante;

Falava de encantar, todos o admiravam.

Ele chegava e as palavras voavam.

No ar, a sua oratória pairava.

Como chuva, o palavreado descia devagar.

As pessoas bebiam e sentiam-se instruídas.

Aquilo era homem de muito saber.

Devia ser um doutor estrangeiro, certamente;

Por cá, não havia gente assim.

Estranhamente, ninguém reparava que não falavam.

Olhavam uns para os outros, simplesmente.

Habituaram-se a calar;

Eram sábias as palavras.

Ignaros, mudos queriam ficar.

Desafio:

A história tinha que conter a célebre frase: Diga 33.

Trinta e três, mais coisa menos coisa

 

33 anos sem saber se partir, se ficar, se apenas morrer o tempo das coisas por começar.

33 dias a fingir que era feliz, porque estava escrito nas paredes, homem, é assim que tens que te sentir.

33 passos que empurrei para a frente, um palmo de chão que fosse, mas que, teimosamente, me arrastaram bem lá para trás, terra onde o que eu quis destalhou as sementes que não plantei.

Diga 33.

Não digo. Não direi.

Desafio:

A narrativa tinha que conter as palavras

passar, acontece, ralhar, contar, consolar, sítios, procurar, esquecer, aconselhar, connosco, atrapalhar, pacientes, frases, esquina, ombro e simples.

Como achei difícil, fiz duas.

Dose dupla

1 – Trampolim de letras

Frases que acontecem pelo simples passar dos dedos nas teclas.

Das palavras, emergem sítios, pessoas e tempos que brincam connosco, ora criando mundos, tolos, por certo, ora esquecendo esquinas que nos ralharam furiosamente.

Contam muito, contam pouco? Não interessa, nem me quero aconselhar; louco, tento apenas consolar a voz que me anda a falhar.

Paciente, mais do que um colo para me afogar, procuro um ombro para saltar o muro das coisas que, diariamente, me querem atrapalhar.

2 – Encontro

Naquela esquina, procurei-te todos os dias. Ensaiava frases simples para não me atrapalhar; todos sabemos que grandes oratórias têm pouco que contar, são apenas enleios de palavras para consolar a falta de ideias.

Paciente, via-te passar, perto, mas hesitava em me aproximar, receava que me pudesses ralhar.

Tímido, procurei ombro para me aconselhar. A sorte não nasce connosco, conquista-se, disseram-me.

Mas um dia aconteceu, esqueci os sítios onde te perdias, e avancei.

Gritei: volta para mim, vida!

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Desafio:

Com 2 versos, de 2 poemas e autores diferentes, fazer o início e o fim da história.

Peguei no verso "Sentir tudo de todas as maneiras" do poema "Passagem das horas" do Álvaro de Campos, liguei-o com uma prosa atabalhoada minha e fechei com "como recém-saídas de um naufrágio de sangue" do poema "Aurora de Nova Iorque" do Garcia-Lorca

Corpo e Alma

Sentir tudo de todas as maneiras, não deixar um poro da pele, um fragmento da alma, sem respirar o encantamento do prazer, numa espécie de orgia moderna.

Os corpos oferecem-se, despudorados, na mesa do tempo; só a gula dos dias os pode salvar da tempestade que o espelho, teimoso, devolve.

As almas vendam os seus deuses – cegos esperarão – e deixam-se seduzir pelo esplendor da festa; fingem-se eternas ainda que desfeitas, como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

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Desafio:

Pegar num livro de contos e procurar a última frase de um dos contos. Depois essa frase teria que ser escrita de trás para a frente no  texto.

Escolhi "Para acreditarmos que tinha nascido nova." tirada do fim do conto "Amargura para 3 sonâmbulos"– Gabriel Garcia Marquez, Contos Completos, da D. Quixote

Renascer

Fingiu-se nova como se o tempo não a tivesse visitado, como se tivesse nascido todos os dias. Tinha, dentro de si, um cansaço dolente, mas gritava uma força ao mundo capaz de mover montanhas; a dor era voz que escondia, pois encrespava-lhe o caminho.

Nem mesmo quando lhe diziam que já não morava ali, ela desistia de procurar abrigo naquela rua: alguma pedra daria jardim.

Felicidade, é preciso acreditarmos que o teu nome renasça para nos inflamar.

Desafio:

Escrever uma história em 77 palavras sem usar a letra A

Sonho em delírio menor


Sonhei fugir; correr sem limites, subir montes, romper muros, cingir nuvens.

Do términus pouco pensei, um sítio esquecido pelo mundo soou-me perfeito.

Pelo trilho, encontrei monstros sedentos de corpos, serpentes com o pior dos venenos, intempéries de nos engolir sem dó; nem mesmo vozes doces, com feitiços de nos escurecer, deixei de sentir. Todos venci, o medo morreu de esquecimento. 

Despertei; no fio de um livro. É bom ser herói. Crescer e morrer no delírio dos outros.

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Desafio:

Primeiro que tudo, escrever uma frase que tenha entre 5 e 8 palavras. Depois, escrever as letras duas a duas, independentemente de fazerem ou não parte da mesma palavra e construir a história.

A Sombra das Palavras

A sombra do homem que sorri.

Uma frase que me tomou como um abraço. Primeiro, fiquei aconchegado, depois perturbado. Tanto, que gelei; não conseguia tirar os olhos da pedra.

Oh, não fiques assim, como bicho embalsamado – pediram-me, passado alguns minutos.

Porque estariam ali as palavras que eu escrevera há imensos anos, como resposta à acusação que não sabia sorrir? Afaguei-as, eram minhas.

A tremer, afastei as heras da campa e vi a foto: era eu, a sorrir.

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Desafio:

Escrever um texto que tivesse,sensivelmente a meio, esta frase:

Afinal, era só um ovo de Páscoa…

AFINAL

Afinal, era dia e eu tomei a noite como certa, não porque a luz me cegasse, mas porque os sonhos esmorecem mais devagar no escuro.

Afinal, era o mar e eu pensei que tinha uma terra para lavrar caminhos; assim, sempre me afoguei ao andar.

Afinal, era só um ovo de Páscoa e eu cheirei Natal, como se a traição ao calendário lambesse as feridas do tempo.

Afinal, era mentira mas fingi que a verdade dormia comigo.

 

Desafio:

Um conto que, de alguma forma, fizesse o elogio da leitura:

E voou

Era uma vez um rapaz que queria voar.

Experimentou balões de criança, asas emprestadas, tapetes do oriente, até pelo vento se deixou levar. Mas não, nem um dedo do chão os pés ousaram levantar.

Triste, desistiu, teria mesmo que andar pela terra e apenas contemplar os pássaros no ar, que lá em cima mostravam postura de tudo reinar.

Um dia, leu um livro, dois, três, muitos sem parar. Levantou voo, tão alto que ninguém o conseguiu alcançar.

Desafio :

Escrever uma frase, ou duas pequenas, que utilizassem na íntegra e apenas 5 As, 5 Es, 5 Os, 3 Is e 3 Us.

AAAAA  OOOOO  EEEEE  III  UUU

Amores

Era um amor proibido, daqueles que são contra a natureza, que todos apontam.

Desde o primeiro dia, em que os seus olhares se cruzaram, eles sentiram que gostavam um do outro.

Sempre que a porta de um se abria, o outro espreitava só para ver se o via.

QUANDO SE CRUZAVAM, OS SEUS CORPOS IMITIAM ECOS DE PRAZER.

Um dia, libertaram-se e entregaram-se um ao outro.

Era bonito ver os dois, cão e gato, tão amigos.

Desafio:

Escrever um conto sobre a rádio

O Convidado

Mandou recado pela Alzira: faz jantar melhorado, põe-te bonita e ajeita as crianças, vou levar novidade.

Em casa, todos ficaram inquietos, quem seria o convidado especial, a lembrar domingo? Seria o Bispo, gente do Governo? Ou o António das Sortes, que partiu pobre e ficou rico na América?

O pai chegou sozinho. Colocou um embrulho na mesa e abriu-o. Era apenas uma caixa com botões e ruídos estranhos.

– Afinal, quem trouxeste? – resmungou o mais novo.

– O mundo.

Desafio:

Escrever um texto com base na fotografia das gotas de água.

Caminhos

Procurou o rasto dos dias felizes.

Uns disseram-lhe que seguisse os trilhos que pareciam terminar onde o sol se levantava; lá, voltaria a nascer. Outros aconselharam a voar até ao local onde o sol sorria; assim, poderia explodir de alegria. 

Apesar de saber que a felicidade estava ali, no sereno leito que a envolvia – bastaria um simples toque e as pequenas ondas amavam-na -, a gota de água preferiu a aventura da descoberta dos caminhos; desfazer-se ao nascer. 

Desafio:

O texto só poderia usar palavras de 1 ou 2 sílabas, nada mais

Vagas

O mar era forte, como sempre; o seu azul de aço punha na praia os restos do mundo.

Se ele traz, também pode levar.

Bom que era: as sobras do que dói irem para terras do outro lado do olhar, onde o sentir não vê a sua cor. 

Assim, pus todos num saco – os dias meus –, atei  e lancei ao mar os cacos do tempo; talvez dessem para um outro tolo os usar e com eles dançar.

Desafio:

A palavra Sim teria que aparecer 7 vezes no texto.

Sem

Sim, não há caminhos sem encruzilhadas

para nos perdermos e encontrarmos;

sim, não há luz sem a sua sombra

para desenhar a verdade escondida;

sim, não há palavras sem a ferida da página em branco;

sim, não há abraço sem a ausência do corpo que queremos encontrar; 

sim, não há amor sem a dor da solidão,

sim, não há juventude sem velhice para a corar.

Por que não?

Porque sim,

todo o princípio ama o seu fim.

Desafio:

Escolher 7 emoções e colocá-las por ordem alfabética no texto.

Arrumação

Andei à procura delas pela casa; não as encontrava. A mania de nunca prestar atenção onde deixo as coisas, dava nisto. Precisava de as encontrar.

Encontrei a alegria, esquecida, a um canto; senti compaixão. Depois, quase que tropecei na desilusão; estúpido, não reparei que era minha companheira. Acordei a esperança e a felicidade; ficaram surpreendidas, dormiam há muito.

Meti-as num saco, no frigorífico, para melhores dias. Só a tristeza ficou cá fora; era a dona da casa.

Desafio:

Escrever uma história em que todos os verbos, substantivos e adjectivos comecem por P, M, S ou R

Rebanhos

Mandei uma resposta simples por SMS. Preferi manter alguma surpresa. Sabia que muitas palavras podiam motivar perturbações sem sentido.

Ao penetrar no salão, todos sustiveram o respirar: queriam muito saber o que eu possuía para revelar ao mundo. Mantive o silêncio e, assim, persisti no suspense; senti prazer naquela maldade de reter as pessoas numa situação de pressão maior. Finalmente, proferi:

– Senhoras e senhores, preparem os pescoços. O sangue será o nosso sucesso.

E o programa principiou.

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3 – do Cabeleireiro que via coisas – rascunhos

Junho 16, 2013

Foda-se, foda-se, foda-se! Como é que tudo isto pôde acontecer?

Cheguei a casa e parecia uma barata tonta. Abri e fechei portas a um ritmo avassalador. Nem sem sei como os vizinhos não se queixaram com tal barulheira. Felizmente que os meus velhotes tinham ido para a terra – aliás, agora não saiam de lá, a neta só queria ver as galinhas, esperta a miúda, o que ela não curte mesmo é ir para o infantário onde os pais a depositam todos os dias -, caso contrário tinha sido o bonito. Eu estava completamente histérico.

Como podia, de um momento para o outro, tornar-me num criminoso, matar uma mulher que não conhecia e sem saber a razão? Em jeito de alucinação, despertei com uma faca na mão, numa cama cheia de sangue – apesar do quarto ter pouca luz, vi vermelho por todo o lado -, sem saber como tinha chegado ali. Logo eu, que tinha o rótulo de ver e adivinhar coisas, estava completamente às escuras neste caso. Felizmente que me deu para zarpar dali, como um cavalo selvagem a fugir de ser caçado, voltar para a festa e desfazer-me da faca. A minha roupa, apesar de tudo, estava impecável, é o que dá andar sempre vestido de preto e ser perito em não me salpicar com tintas e outros afins.

Só me resta esperar que a polícia se perca ao investigar aquela a família, bem como todos os convidados; todos eles teriam, com certeza, melhores motivos para despachar a criada do que eu, pois foi a primeira vez que entrei naquela casa e nem o nome da mulher sabia. Até aqui o destino parece estar a gozar comigo: ela chamava-se Maria Benedita; eu chamo-me Benedito Emanuel. Como Maria não conta e o meu Emanuel também não – foi só porque quiseram dar um ar moderno à maldita ideia de me porem o nome do santo que nasceu no mesmo dia que eu, 31 de Março -, posso concluir que temos, ou tínhamos, que ela já se foi, o mesmo nome. Será algum sinal? Já não me bastava o fardo de carregar este nome, Benedito, toda a vida, para agora ter uma morta, por acaso mandada para o outro mundo por mim, com o mesmo nome. Felizmente que ninguém ligou esse pormenor, é que todos me conhecem por Ben ou Beni, nick name que me puseram na escola – depois de ser bem gozado com o outro do santo – para tornarem a coisa mais ligeira e, assim, não perderem muito tempo: ó Ben, anda cá para te esmorramos as fuças por seres tão totó; ó Beni, zarpa já daqui antes que leves um pontapé na peida.

Aliás, lá no salão, se a Sónia – a minha patroa, que nos dias bons apelidávamos de Sony e nos maus de blacktrinitron – dissesse, ó Benedito lava e corta aí o cabelo à Dona Alice, a mulher fugia e nunca mais lá punha os pés; pode algum cabeleireiro que se preze chamar-se Benedito? Claro que não; até o bendito santo deveria ter preferido ser outra coisa qualquer, como António, Francisco ou Vicente.

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Mas por que estou eu preocupado com o facto de a minha madrinha ter massacrado os meus pais com a célebre coincidência da nascença do santo – omitindo que a mãe dela também era Benedita e por isso queria afilhado com a mesma bênção -, quando tenho um problema bem mais forte entre mãos?

Tornei-me num criminoso; pior ainda, tornei-me num criminoso amnésico. Como se não bastasse a desgraça que me calhou por sorte, ainda veio com pacote especial: não saber o motivo.

Depois ter esvaziado um armário de bolachas – quando estou nervoso como sem parar, a minha mãe quando vier vai-lhe dar uma coisa ruim ao ver a despensa mais vazia do que prateleira em dia de liquidação total -, começo a pensar que não ter um motivo para matar a criada é uma vantagem; pelo que li, toda a investigação passa sempre por tentar encontrar o motivo do crime. Ora, eu não tenho. Não a conhecia, nunca ouvira falar dela, só pisei aquela casa uma vez – maldita hora! – e não tenho qualquer relação com as pessoas da família e da festa, a não ser lavar a cabeça – que o cabelo só podia ser cortado pela Sónia – da Mariana Almeida Lemos Barraqueiro (embora este último apelido não seja para pronunciar), a aniversariante.

Como tudo começou?

Bom, a Mani – esta coisa de todas quererem um diminutivo amoroso começa a ser enjoativo, mas quem sou eu para falar se também tenho um, só que no meu caso foi uma cena de salvação nacional – fartou-se de anunciar no salão que o pai comprara um solar – palacete na voz dela – sobre o Douro, muito perto do Porto, logo a seguir ao Freixo. Nas diversas vezes que lhe lavei a cabeça, ela contou-me todo os pormenores, que era uma casa de nunca mais acabar, que estava um pouco em ruínas, mas que o pai, homem da construção, ia pôr aquilo num mimo. Imaginei logo o bonito estado em que ficaria, a julgar como ela se vestia; apesar de carregar um nome com brasão do lado da mãe, o gosto tinha descaído todo para o lado do pai, o Barraqueiro.

– Ando assustadíssima – disse-me Mani, na penúltima vez que foi ao salão, enquanto eu lhe aplicava um shampoo caríssimo, que ela trouxera de Paris, mas que pela textura e espuma me parecia igual aos frascos de dois litros que comprávamos num armazém da Maia. – Afinal, parece que a família anterior, uns tais Ferreira Menezes, não vendeu o palácio – já tinha subido o nível da classificação do imóvel – por estar arruinada e não se entender nas partilhas.

– Ai não? – perguntei entusiasmado; foi das primeiras coisas que me ensinaram no salão, devemos sempre fingir grande interesse sobre os assuntos das clientes, como se aquilo fosse a coisa mais importante das nossas vidas, até uma simples comunicação que andavam a comer qualquer coisa que lhe faziam gazes devia merecer, da nossa parte, abelhinhas laborais do salão, uma tal comiseração, como se tivessem cancro e andassem a penar na quimioterapia.

– Não. Parece que a casa – descaiu-se e baixou o nível do património – está assombrada.

– Ai credo! – fiz um gritinho ligeiramente histérico, levando a mão ao peito; é certo sabido que as clientes esperam sempre dos cabeleireiros gestos amaneirados, ao que parece isso dá-nos pontos no raking da tecnicidade capilar; se formos mais machos, já não confiam muito, acham que teríamos mais jeito para barbeiro, que o corte não vai ser delicado, além de desconfiarem das massagens que lhe fazemos na cabeça, pois podem ter outras intenções; embora aí, não sejam muito claras, pois já tive algumas distrações, massajei-lhe o pescoço e os ombros com alguma malícia, e elas não se fizeram nada rogadas, pelo contrário, nesse dia a gorjeta foi maior. Cá para mim, deve bater naquele ponto das mulheres acharem que, mesmo maricas, se elas forem boas, também os gajos se rendem ao outro lado. Aliás, só isso explica que muitas casem com homens em que basta olhar para eles e vê-se logo qual o tipo de pernas que os tipos apreciam, do género bem peludas e musculadas de pontapés na bola, seguramente. Um dia destes, tenho que ver qual o melhor papel para fazer no salão.

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– Veja lá, Bem, o que nos havia de acontecer. O meu pai gastou uma fortuna na compra, outra na recuperação e agora viemos a saber isso.

– Mas como? Sabe que se fala muita coisa, só por falar.

– Há dias, apareceu lá uma das herdeiras, morava no estrangeiro, e não se despediu do palacete. A mulher ficou histérica. Primeiro porque não gostou da remodelação que fizemos, começou a dizer que destruímos a alma da casa. Eu, que não sou de ficar calada, disse logo, que ainda bem, era o que mais nos faltava ficarmos com as almas dos brasões antigos, agora era um novo tempo e se havia alma para morar ali era a nossa. Olhe, foi um rastilho, a senhora, de porte fino, que até estava a falar num tom aceitável, desatou aos berros, como uma louca, e a fazer-nos ameaças, que não sabíamos no que nos estávamos meter, que nos íamos arrepender por ter soltado toda as almas que viviam por ali, amansadas, entre as paredes que as ampararam ao longo dos séculos, que agora ficariam furiosas por termos destruído o seu mundo, como se as almas tivessem ali um condomínio.

– Até estou a ficar arrepiado – não estava, mas tinha que fazer o meu papel.

– Eu nem liguei muito. Afinal, todo aquele espectáculo era só porque mandámos abaixo uma fonte com um lago cheio de estatuetas já podres para fazer a piscina. Não foi por nada, mas era o local com melhor exposição solar. Só que depois, passados uns dias, começaram-se a ouvir ruídos estranho, até os trolhas, que são homens rudes, queriam ir embora. Não fosse o dinheiro que tinham que receber, eles partiam de imediato, mas já se sabe, até o medo tem um preço.

– Não ligue, são só sugestões.

– Ó Beni, nem parece teu, logo tu que tens esses poderes, a desmentires uma coisa dessas – interveio Sónia, para mal dos meus pecados, que, enquanto penteava uma cliente, estivera com ouvidos de tísica, coisa bem típica dela, escutava sempre tudo, mesmo quando se falava baixinho. – Tu é que devias ir lá, com os teus dons resolvias isso tudo.

E foi assim que eu desembarquei no solar dos Barraqueiros – a que eles continuaram a chamar Solar Dourado, por ser esse o seu nome anterior devido à grande porta principal de talha dourada que em tempo fora cartão-de-visita; também, com aquele apelido de família, a lembrar acampamento de refugiados, não havia pedra secular que resistisse se mudassem o nome. Por que fui? Porque no salão acham que eu tenho poderes especiais.

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Tenho? Não tenho. Apenas sei umas coisas, sou muito observador, e tenho uma certa queda para juntar pormenores que depois digo às pessoas numa versão mais romanceada – na escola sempre fui muito bom a redacções. Então, uma mulher que chega ao salão, apanha logo a revista de telenovelas, lê os resumos todos e depois vai ler os signos, só se pode concluir uma coisa: tem muita falta de sexo e, pior do que isso, sonha viver um novo amor, já que o paspalho que tem lá em casa não lhe liga nenhum. Depois, não me é difícil, ao lavar a cabeça, ou no corte – no pentear não dá, pois o raio do secador até ensurdece os pensamentos -, começar a falar-lhe dos problemas (claro que não lhe digo que ela tem falta de peso em cima, que não sou burro, pois isso é assunto que nunca pode ser abordado na negativa) e elas ficam abismadas como adivinho os seus íntimos.

Uma vez, uma cliente também andava aflita com uns passos que ouvia em casa a partir da meia-noite. Eu disse-lhe que podia ser alguém que não queria partir e encontrara na casa dela o porto de abrigo para ficar; o melhor seria puxá-la para fora. Devia estar inspirado nesse dia, para me ocorrer tal história, se calhar por ter visto um filme de merda, como tantos outros que via para matar o tempo. Bom, mas além de me ter deixado levar por uma imaginação pouco recomendável, resolvi dar uns palpites: disse-lhe que pusesse no jardim oferendas de comida – como fazem os Hindus aos seus deuses – e que fosse afastando o prato todas as noites, colocando-o cada vez mais longe. Ela assim fez e deixou de ouvir passos em casa. Lembrei-me de tudo isto porque achei que devia ser animal que se abrigara na casa, mas, se lhe começassem a pôr a comida longe, ele ganharia hábitos de pernoitar fora; claro que não contei a versão do animal, preferi a da alma penada. Foi um sucesso.

Como sempre me acharam esquisito, desde pequeno, a fama assentou-me que nem uma luva: o Benedito tem poderes especiais. Deixei-me levar; nunca tivera sucesso em nada – na escola era sempre dos piores, não porque fosse burro, mas porque estava sempre nas nuvens e não ouvia nada, aliás, por isso tirei um curso técnico-profissional de cabeleiro, sempre gostava mais de mexer nos cabelos do que nos fios elétricos ou em peças de aparelhos -, e agora, pela primeira vez, era melhor do que os outros.

Assim, na vez seguinte, em que a Mariana veio ao salão, convidou-me para a festa no solar. Não porque me tornasse íntimo, mas porque seria a sua atracção: um vidente para libertar o solar dos fantasmas. Devia estar habituada, em pequena, a ter sempre um palhaço para abrilhantar os seus aniversários. Desta vez quis novamente um: eu.

E que palhaço, acabei a ser o assassino de uma pobre criada sem saber porquê. Resta-me uma coisa: que a polícia não chegue até mim antes que eu descubra a razão que me levou a fazer semelhante acto tresloucado. Melhor: descobrir quem me levou a tal. É que eu, mesmo não sendo vidente, tenho uma sensação que alguém, sei lá de que maneira, me induziu a fazer o que fiz.

Segundo capitulo de uma novela policial narrada pela vítima, pelo criminoso e por um inspector muito especial:

Da Criada penada, do Inspector tarado e do Cabeleiro que via coisas

2 – do Inspector tarado, quase na reforma –rascunhos

Junho 9, 2013

Existem três situações que fazem despertar em nós instintos pouco recomendáveis – esmurrar alguém é dos mais leves – quando toca o telefone, ou melhor, o telemóvel, dado ser este o objecto que nos acompanha sempre como se fosse a nossa alma moderna.

A primeira é a de cagar. Perdoem-me a palavra, mas defecar é coisa mais para se dizer no consultório, perante um doutor que mal levanta os olhos dos papéis onde escreve gatafunhos que ninguém entende, como se letras mal paridas dessem atestado de inteligência; e obrar ainda me soa pior, pois parece que fazemos castelos com os poios, o que se traduz numa imagem mais agoniante do que a palavra popular de cagar. Voltando ao tema, sempre que nos sentamos na sanita parece que há uma conspiração nas comunicações e zás, lá temos o trrim trrim (ainda tenho toque à antiga, que não há nada mais irritante do que levar com o refrão de uma música na moda sempre que alguém têm o telemóvel para atender) a deixar-nos entalados entre: o despachar o serviço, correndo o risco da coisa ficar mal resolvida – vou poupar-vos aos detalhes técnicos sobre o estado inconcluso -, para ainda atender; ou acabar os propósitos e depois ver quem telefonou, sabendo que já não há paz de espírito para um alívio em condições.

A segunda é a de foder. Mais uma vez não encontro palavra melhor; fazer amor é coisa de romance para mulheres, todos sabemos que, quando os corpos já estão numa luta pelo prazer, não há elevações românticas para se fazerem representar; copular é coisa para aulas de biologia, embora os meninos, entre risinhos, pensem no outro verbo mais forte e popular, e para documentários do National Geographic, que preferem referir o domínio do leão durante a cópula em lugar de dizerem durante a foda – percebe-se o porquê, o almoço de domingo em casa da avó ia ficar destalhado, com a velha a ter taquicardias sempre que o neto mais novo repetisse, até à exaustão, foda, foda, foda, o termo que ouvira no documentário, enquanto lhe enfiavam umas colheres de sopa pelas goelas abaixo. Mas adiante, estar a montar alguém, e o desgraçado do telemóvel tocar precisamente no momento em que estamos mais entusiasmados, é algo capaz de nos pôr o coração ainda em estado mais acelerado do que o da avó ao escutar o despautério do neto perante a cópula do leão. Por mais que se eleve o nível de abstração, ficamos logo desconcentrados. Claro, não vamos interromper o acto para atender, mas depois, por muito esforço que se faça, já não conseguimos o mesmo enlevo – a cabeça fica ligada a outro fusível que não o da tesão. E um homem, das duas uma: ou quer acabar aquilo o mais depressa possível para ver qual é o fogo que nos querem comunicar, levando, depois, com as ventas da parceira durante as próximas duas semanas, por termos sido tão despachadinhos; ou tenta continuar o acto como se nada fosse, embora saibamos que nada volta a ser como dantes, o trrim trrim fica-nos a martelar e, por muito que se mande umas estocadas fundas, nunca mais nos vimos – já ela fingiu três vezes o orgasmo e olha-nos com aquele ar de quem nos diz que esgotou toda a imaginação de gemidos para esse dia, e nós nada.

A última situação é a de estar a ver uma jogada fabulosa, daquelas que vai dar golo por certo – apesar das asneiras todas que se dizem ao ver futebol, é interessante que se consegue referir este assunto sem dizer nenhuma –, o telemóvel toca, uma pessoa atende, pensa que consegue falar sem tirar os olhos do ecrã, mas depois, do outro lado da linha, vem sempre uma novidade do género, o gajo que estávamos a vigiar vai fugir para o estrangeiro, ou então, o juiz arquivou o processo do big boss, pior ainda, o teu filho engravidou a vizinha do 5º esquerdo, aquela mosca morta que parecia ir para freira. E o que acontece? A bola entra e nós, como estamos cegos com a luz das palavras que nos incendiaram a cabeça, perdemos o golo do ano; nem a desgraçada da repetição nos consola, é como comer pizza requentada.

Assim, estava eu a ter uma relação sexual – quantas palavras não se poupavam se fosse mais brejeiro e dissesse estava a foder, mas pronto, também não quero que fiquem com a ideia que sou um burgesso – com a Odete quando o telemóvel tocou; logo naquele dia! Não era a primeira vez que ia para a cama com ela; não, o nosso caso já durava há mais de 3 meses.

Tudo começou quando tive que resolver o caso de um moinante da noite, dono de uma discoteca de má fama, que foi morto por atropelamento. Precisei de ir à seguradora falar com o perito algumas vezes – havia suspeitas que o atropelamento não fora tão inocente quanto isso -, para trocar umas ideias, as provas recolhidas pela polícia não tinham sido muito claras; nada melhor do que falar com quem tem que desembolsar dinheiro, pois a verdade é esmiuçada até ao tutano. Odete era a secretária do departamento de peritagens e recebeu-me muito bem. Não bastaram mais de três visitas, e convidei-a para tomar café numa esplanada da Foz; ela aceitou. Por sorte estava um vento de morder cães e ficámos enregelados. Nada melhor do que o frio para se acabar a beber chá bem quente em casa dela. Claro que nesse fim de tarde não se passou nada, não sou propriamente um Casanova, ainda que alguns, por piada invejosa, digam que sim. O chá trouxe à baila uma torneira enguiçada – que pingava e não a deixava dormir – e acabei por voltar lá, para ser o seu picheleiro de estimação. Na terceira vez que passei a soleira da porta, já acabei enrolado com ela na cama. Um divórcio desastroso e o facto de nunca mais ter tido homem, levou a que bastassem duas ou três insinuações no sofá para ter a boca dela a afogar-se na minha e as suas coxas a esfregarem-se em mim.

Mas naquela noite, apesar de ser como muitas outras, em que inventara à família mais uma investigação complicada para depois me perder em algumas horas de sexo com Odete, era uma foda diferente – desculpem, mas é mais forte do que eu, é a palavra certa para o acto certo -, pela primeira vez ela tinha-me deixado comê-la à canzana. Não vou entrar em detalhes sobre a dominação da posição, a imagem derivada dos canídeos a afogarem o cio é mais do que suficiente.

Odete não era propriamente uma mulher púdica, apesar de ter sido casada só seis anos, não impunha barreiras no sexo; foi com grande surpresa que logo na segunda vez me fez um bom broche – outra palavra certa, pois sexo oral lembra conversa sobre ramboias que se dizem ter sem nunca se fazerem, e felação soa a operação cirúrgica, já para não armar ao fino e dizer fellatio, que mais parece nome de estilista italiano de sapatos -, mas nunca me deixou penetrá-la por trás, dizia que lhe fazia lembrar sexo anal, coisa que achava nojenta. Apesar de lhe explicar que não era a mesma coisa, ela não se convencia. Não que o tivesse contado, mas imaginei que fosse trauma com o ex-marido. Só podia ser. O gajo, num momento em que a abraçara por detrás, devia ter invadido, a sangue frio, o orifício mais à retaguarda e a coitada foi apanhada com a dor da surpresa.

Naquele dia, ela, por fim, acedeu; começámos deitados, meio de lado, eu por detrás, com calma, com todo o jeito do mundo, com a mão dela a acompanhar a penetração, para verificar o caminho certo; até que eu a levantei para que, finalmente, ficássemos na dita posição atribuída aos canídeos.

Estava eu – e espero que ela também – no melhor da festa quando o telefone tocou. Bem que tentei não dar importância, bastar-me-iam umas estocadas mais fortes e a sessão terminava; mas como queria que ela também saboreasse o momento, era a sua primeira vez naquela posição e eu, feito parvo, achei que tinha que ser bonito, não podia ser um cabrão qualquer que a montava e me vinha logo. Contive-me, estaria mais uns minutos assim e depois voltaria à posição de missionário – gostava de saber quem foi o raio do padre que baptizou semelhante propósito – para a abraçar e a beijar toda; terminaríamos em grande, a sufocar-nos um ao outro, como ela gostava.

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E o telefone que não parava de tocar.

Só tinha uma alternativa, ou arrematava a função de imediato, ou esfumava-se tudo; até ela estava a ficar irritada. Vim-me; ela deve ter fingido que se veio para não me deixar ainda mais furioso – achava que eu só me sentia realizado quando era em conjunto, desconhecendo que os homens também fingem, e muito, no que dizem sentir.

Atendi. Tinham matado uma criada à facada num solar perto do Porto e queriam que eu, Arménio Salgado, fosse lá para tomar conta do acontecimento. Já não me bastava o orgasmo acelerado, tinha que levar com mais um caso de homicídio.

Raios partam o triste fado, logo agora que queria meter os papéis para a reforma – antes que o governo vomitasse uma nova lei que me obrigasse a vir trabalhar de algália -, atiravam-me para um caso que parecia tirado de uma novela mexicana; nunca vi nenhuma, mas sempre que aparece um disparate completo na vida de alguém, dizem isso, como se o folhetim sul-americano tivesse uma espécie de conta-corrente com o burlesco. Senão, vejamos: uma criada morta no seu quarto, mas alguém ainda tem criadas internas?; e assassinada à facada num solar, mas o palacete era onde, junto às torres do Aleixo? Por amor de deus!

Segundo capitulo de uma novela policial narrada pela vítima, pelo criminoso e por um inspector muito especial:

Da Criada penada, do Inspector tarado e do Cabeleiro que via coisas

1 – da criada penada morta à facada – rascunho

Junho 2, 2013

Acordei morta, como se costuma dizer; ou seja, não acordei. Na boa da verdade, ainda acordei um pouquinho, pois o raio da dor ao sentir a faca a esfarrapar-me as entranhas fez com que eu viesse acima por breves instantes; mas não adiantou, o quarto estava escuro – nada vi – e a lâmina foi logo esbarrar em coisa vital, uns segundos e fui-me. Agora aqui estou, estendida na cama sem saber o que me aconteceu. É triste uma pessoa morrer e nem saber como; coisa única na vida e é-nos roubado o momento de a encontrar.

A culpa é do mordomo, pelo menos é a frase que se diz sempre. Não percebo a razão de tal dito, eu, que me fartei de ler livros policiais, nunca encontrei nenhum em que o assassino fosse o mordomo. Bom, com isto também não quero dizer que sou uma criada literata, do género: duquesa culta a passar por simples empregada para esconder um grande segredo. Não, apenas, durante um certo tempo – quando se avariou a televisão da cozinha e do meu quarto, na casa dos meus anteriores patrões, e o dinheiro já era pouco para qualquer arranjo -, assaltei a biblioteca que eles tinham e pus-me a ler os livros mais fáceis, claro, que outros havia em que se me ensarilhavam as ideias, coisa de doutores, ainda que naquela casa, ao que me constasse não havia nenhum, era mais gente de vinhas e vinhedos.

Mas voltando ao mordomo – que eu, mesmo morta, posta a enlear conversas, nunca mais me calo -, neste ponto tenho a certeza que não foi ele. Porquê? Porque, apesar de todas as vaidades da família para quem trabalho, ou melhor trabalhava, não existe mordomo algum; quer dizer, só se contar com o senhor Zé, que vem limpar a piscina, tratar do jardim, lavar os carros e ajudar-me a sacudir os tapetes, mas coitado ele é incapaz de fazer mal a uma mosca, está velho e não tinha força para me espetar a faca daquela maneira.

BLOOD KNIFE STAB

Uma coisa eu tenho a certeza: não saio daqui sem saber quem me despachou. Não sei para onde vou a seguir, nem o que me espera – chegou o momento de tirar as teimas com aquelas coisas todas do Criador, do Céu e do Inferno -, mas sem descobrir o autor de semelhante barbaridade ninguém me tira daqui; Deus pode esperar. Que na vida verdadeira, aquela que eu tinha até há bem pouco, não consigam descobrir o assassino é lá com eles, agora no meu eterno descanso – vamos lá ver se ele me é dado – não pode existir essa dúvida, seria um desassossego sem fim.

Não saio; nem que tenha que ficar por aqui, feito alma penada, como aquelas que se temiam lá na terra. Sim, porque eu, como qualquer boa criada tenho que ser da terra, não posso ser mulher da cidade, temos sempre que vir das berças com sotaque entranhado. Só que no meu caso, a terra é postiça; nasci em Massarelos, no Porto, mas fui nova para Monção, o meu pai era guarda-fiscal e foi prestar serviço em terras minhotas. Mesmo assim, eu não deixava de vir passar férias à cidade para não perder hábitos mais civilizados. O meu pai queria, quando eu fosse maior, que viesse estudar no Porto para ser doutora; mas o destino quis outra coisa, bom, e o meu pai também, pois ele bem o marcou com a decisão que tomou em me mandar a servir para uma quinta na Régua. Maldita a hora; se tiver tempo, ainda conto tudo o que se passou para ele me pôr a correr de Monção; agora só quero mesmo é saber quem foi o desgraçado, ou a desgraçada, que nestas coisas, lá por termos menos força, nunca podemos deixar as mulheres de fora, até porque se for por uma questão de motivos, elas têm sempre mais venenos para destilar.

Nem me posso ver ali estendida na cama, toda ensanguentada e, ainda por cima, descomposta; será que não há uma alma caridosa que me puxe a combinação para baixo? Uma morta, mesmo morta, é gente e merece respeito. Até o maldito polícia que está a começar a investigação, acho eu, não tira os olhos das minhas pernas; a continuar assim não vai prestar atenção nenhuma às respostas. Por exemplo, a Guidinha – uma tia encalhada, todas as grandes famílias têm uma, parece que faz parte das regras do apelido – começou por afirmar que não ouviu nada, e agora já está a dizer que só abriu a porta do quarto porque lhe pareceu escutar um gemido. Afinal, em que ficamos? Em nada, que o tal inspector – Arménio Salgado, sua graça – não tiras os olhos das minhas pernas e já despachou a Guidinha, para ela ir fazer o seu carpido fino – era como se fosse da família, vamos sentir tanto a sua falta, quem podia adivinhar um horror destes – na sala principal.

Haja paciência, e eu, como morta, tenho-a toda. Para já, não estou com pressa nenhuma; Deus pode esperar, até porque não devia ter nada preparado para me receber – não nos podemos esquecer que alguém roubou os dias que ainda me estavam destinados – e assim, sempre ganha tempo para dar umas ordens, nem que seja mandar limpar o cantinho onde a minha alma vai repousar.

Primeiro capítulo de uma novela policial narrada pela vítima, pelo criminoso e por um inspector muito especial.

Um homem não é de ferro, o capitalismo também não e o cinema muito menos

Maio 26, 2013

 

Proletários de todos os filmes, uni-vos!

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Se um extraterrestre resolvesse apreciar algumas sociedades apenas pelas obras publicadas e pelos filmes que produz pensaria que a sociedade americana seria uma espécie de OMO comunista: Marxista mais Marxista, não há!

Todos sabemos que a organização da sociedade americana está assente numa única pedra, o Capitalismo. Resta saber se as águas que banham essa pedra, de tão agitadas que andam, qualquer dia não a corroem e ainda teremos as esquinas das diversas Wall Streets todas a banhos, como se elas próprias fizessem parte de um blockbuster de Verão.

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Bom, se há um sistema baseado no capitalismo terá que haver alguém que o alimente, neste caso o capitalista. Sabemos, pois vem em todos os manuais marxistas, cujo best-seller é um tal de Capital, que os capitalistas são gente que exploram o seu semelhante, na medida em que não sendo detentores dos alicerces de qualquer sociedade, o trabalho, retiram deste a mais-valia, hoje conhecida popularmente como lucro, e põem-na ao serviço, não da colectividade, mas sim do seu próprio bem-estar individual, isto mais coisa menos coisa, talvez para menos do que para mais.

Ora se virmos qualquer filme americano, o que é encontramos sempre? O capitalista como o mau da fita, como o tipo que explora todos e que inclusive não tem escrúpulos de mandar contratar qualquer gangster ou grupo terrorista para despachar quem tiver imbuído de ideais de fraternidade social. Nem Lenine nem Karl Marx chegaram tão longe. Vamos a exemplos.

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Lembram-se do filme uma Mulher de Sonho, com o tibetano Richard Gere e a sorridente Júlia Roberts? O que acontecia, era que o homem andava a comprar empresas falidas, para as fundir, despachar os trabalhadores e depois vendê-las novamente, já muito mais magras, mas mais valiosas. Mau, este capitalista! Mas o que aconteceu?

Eis que apareceu uma linda meretriz – daquelas que mesmo a minha avozinha que ia à missa 3 vezes por dia convidaria para tomar chá e, por certo, com quem quereria casar o neto – que, além de andar a fazer compras no Rodeo Driver, resolveu dar numa de bolchevista, talvez inspirada no Soviet Chic de Versace, e convenceu o rapaz a ter pena dos trabalhadores. Claro que antes ainda o convidou para umas voltas e banhos no jacuzzi, que isto já se sabe, um homem, mesmo inspirado pela nossa senhora da boa(zona) vontade proletária, não se convence de qualquer maneira.

O certo é que o Capitalista mau ficou bom, fez uma trapaça nos outros capitalistas maus, e houve um final feliz: para ele, que ganhou uma Cinderela cheia de curvas, e para o pessoal trabalhador. É o que se pode chamar um autêntico sindicalismo de glamour Se a CGTP ou a UGT tivessem, assim, as pernas da Júlia e o imaginário dos argumentistas de Hollywood neste momento a Ministra da Educação e Mário Nogueira já estariam numa ilha tropical a beber Margaritas e os profes portugueses estariam todos felizes a comer perdizes (piada requentada de 2008)

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Wall Street, o filme, não teve um final tão feliz para o Capitalista Michael Douglas, que também queria fundir – no fundir é que este o ganho –, pois não teve redenção e ficou mau como as cobras até ao último momento. Moral da história, foi pró anjinhos das grades e na paz do senhor ficaram os trabalhadores das companhias de aviação, onde trabalhava o pai do protagonista que safou tudo. Digamos que aqui, a coisa não foi limpa; cheirou a um certo socialismo nepotista, paisagem que nos é familiar.

No filme Iron Man, mais uma vez Karl Mark baixou sobre os argumentistas. Ora vejamos, tínhamos um menino rico capitalista, dono de um império que fabricava armas, que só queria o lucro e destruir tudo o que fosse para aumentar o seu mercado, mas que um dia viu a luz, neste caso a sombra de uma caverna e resolveu desistir de tudo, não queria fabricar mais armas. Dedicou-se a causas mais nobres, construir um modelito em ferro que o levasse a ficar assim, como uma espécie de Madre Teresa com acabamentos de M. Tatcher; ou seja, bom com os pobres e os oprimidos mas duro como o aço na queda e sempre pronto para um arraial de porrada.

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Não importa se esta decisão do capitalista, agora bom, era mais uma das suas excentricidades, nem que milhares de trabalhadores fossem para a rua porque a fábrica fecharia. Ele agora é bom e está ao lado dos oprimidos, isso é que é importante. Mas estes devaneios só podem sair de um capitalista Old Money, filhinho do papá, com tiques de BE, porque os New Money, como suaram as estopinhas para lá chegar e não tiveram nenhuma herança que lhe facilitasse a vida, vão resistir – não largam o osso – para segurar a fábrica. Logo o que vamos ter? Um capitalista regenerado, de porte aristocrático, e um capitalista igual a si mesmo, novo-rico e ambicioso, que depois de ter sido ele a fazer o império para o menino do papá, não o quer largar, nem que para isso tenha que se associar aos ainda mais maus, uma gente lá dos Orientes. Assim, eis que surge, qual tragédia grega, uma luta entre iguais, pseudo-pai e pseudo-filho a disputarem a sua criação. Ainda dizem que o cinema comercial é pimba. Isto é Shakespear e do bom! Otelo de aço!

Assim, não deixa de ser interessante que o país anfitrião de todos os capitalismos, encerre nos seus filmes sempre uma moral anti-capitalista. Andará por ali uma má consciência recalcada? Ou será que o socialismo é mais fotogénico, como história de encantar fica sempre melhor na fotografia?

Ó Papão sai de cima do telhado e deixa dormir o menino descansado!

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Por vezes já nem sei se são os filmes americanos que precisam de medos, se são os próprios americanos que não sabem viver sem eles.

Na história original do Iron Man o tipo despachava Vietcongs. Agora anda às cabeçadas com pessoal com ar de taliban.

Depois da guerra-fria o que seria do cinema sem a Al Quaeda e Associados?

Em tempos cheguei a pensar que, afinal, os americanos gostavam do comunismo só para terem enredo nos filmes de acção. Quando caiu o muro devem ter ficado num pranto, como órfãos – em quem vamos malhar agora?

Felizmente, ou infelizmente, a História arranjou-lhe sucedâneo à altura, e o terrorismo de cunho islamita tornou-se no herdeiro dos grandes vilões comunistas. Por vezes, temo que muito do que aconteceu na nossa História recente tenha sido inspirado em muitos filmes de baixa categoria. Woddy Allen disse, inclusive, no 11 de Setembro, que apenas decalcaram o imaginário dos blockbusters de Verão.

Mas será que os americanos precisam de ter só um papão no cinema, ou precisam de ter sempre uma paranóia para expurgarem os seus próprios medos, para não falar dos mercados?

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No filme Iron Man, a determinada altura, quando ele já está bonzinho e a malhar nos maus, ele luta contra o seu próprio armamento, pois os terroristas estão armados com os produtos que ele mesmo tinha fabricado. Ou seja, quem combate a América utiliza também as armas que a América lhe vende. A brincar, a brincar, penso que é este o grande dilema da corrida ao armamento e dos eternos conflitos internacionais. A indústria de armamento, por ser poderosíssima, e estar nas mãos de privados, precisa de mercado para escoar produto, e o seu mercado chama-se Guerra. Penso que é fácil de entender. Resolver é que vai ser mais complicado. Quanto vale num PIB este negócio? Muito.

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Não precisamos de Capitalistas Arrependidos, isso é nos filmes, mas precisávamos de governantes que olhassem o problema de frente e, sem medos, disciplinassem e controlassem essa indústria. Há áreas em que o liberalismo tem que ficar à porta, mesmo quando a casa em questão tem o nome de economia de mercado.

Caso contrário, vamos levar a vida a inventar papões. Podem dar muito jeito aos filmes, mas, confesso, na vida real atrapalham um pouco.

Sexo? Só depois do casamento!

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Apesar da personagem principal do filme Iron Man ter alguma piada e alguma originalidade, em relação a outro tipo de heróis – o tipo é cretino, irreverente e não lhe foi dada nenhuma força especial, a não ser a sua inteligência – não consegue, no entanto, escapar ao eterno cliché amoroso da paixão impossível ou não consumada.

C’um raio! Porque será que estes super-heróis nunca podem ser felizes no amor? Há sempre qualquer coisa que se atravessa e nunca os deixa consumar. Começamos a ficar um pouco cansados.

Não venham dizer, que é para criar suspense, para ansiarmos muito  que aconteça algo. Está mais que provado que nos filmes de sexo com muita conversa o pessoal acelera logo o DVD para passar à frente a alta literatura e chegar aos finalmente, por isso não venham com essa do encher chouriços.

Li uma vez, se não li passo a ler, que um tipo que tem uma loura brasa a atirar-se a ele constantemente e não faz nada, pois pára sempre no último momento, não é cavalheiro nem é tímido, é apenas gay.

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Sobre os heróis não ponho a mão no fogo, até porque não fui eu que os inventei, mas sobre os argumentistas tenho algumas dúvidas, ai tenho, tenho! Será que pelo facto da donzela nunca acabar nos lençóis do herói não aportará por ali nada de recalcado, do género, se eu não o posso ter, a ele, com bíceps tão bons, não vai ser a tipa, ranhosa, que o vai desfrutar?!

Escrevam eles um dia uma história com um super-herói que goste de sexo alternativo e vão ver como não haverá pruridos com a consumação, ou muito me engano, ou ele nos primeiros 30 minutos já vai estar na caminha com o louro que é mordomo.

Vamos lá gente, já não há paciência para tanta castidade. Mesmo que sejam super-qualquer-coisa, eles têm direito ao amor e, melhor, à carne. Um homem não é de ferro, certo?!

Texto escrito em 2008, a propósito da estreia do Iron Man.

O Grande Dia

Abril 7, 2013

Era o Grande Dia; há muito que sonhava com ele.

Muitos, para não dizer quase todos, esperavam pelo Grande Dia. António fazia parte dessa multidão que ansiava por um novo tempo, que fizesse o calendário ter uma cor mais viva, que lhe devolvesse o rascunho dos sonhos, que é como quem diz, que a desgraçada da vida começasse a andar um pouco para a frente e não estivesse sempre a puxar para trás, como mula empancada.

Estava ele envolto noutros devaneios – sim, porque nem só do Grande Dia se faziam os sonhos de um homem, o sono dos justos assaltavam-no com outras imagens, muitas das vezes sem sentido e muito longe de qualquer anseio idílico -, quando foi acordado abruptamente pela mulher, os filhos e o cão, que lhe invadiram o quarto com grande alarido.

– Finalmente chegou – disse-lhe a mulher, enquanto o abraçava e deixava escapar um choro miudinho; tanto que se dizia forte, mas depois, em momentos como aquele, fraquejava e deixava que a emoção fosse salgada por umas lágrimas matreiras.

Antes que António pudesse questionar algo, os filhos voaram sobre ele para o beijar e lhe fazer cócegas, como se recuassem uns anos atrás, quando eles eram bem crianças e gostavam de o acordar assim, ao domingo, depois de uma semana de trabalho longínquo.

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Até o cão quis marcar presença. Não encontrou muito corpo para fazer a festa, estava tudo ocupado com abraços, mas, por fim, lá apanhou uma mão do dono para passar a língua e, assim, também lhe dar a boa nova – pelo menos foi esta a versão, que mais tarde, contaram; que sim, que aquele cão percebia tudo, que era mais esperto do que muitas pessoas, que só lhe faltava falar para ser gente.

– Mas como sabes? – conseguiu, por fim, António perguntar.

– O homem está lá fora, de pasta na mão – respondeu a mulher.

Procurou uma roupa fácil de vestir, uma t-shirt e uns calções – para não ir de boxers, como costumava fazer por vezes, e, assim, não irritar a vizinha da frente que reclamava a todos o facto de ter que levar com o vizinho em cuecas; lá por parecer calções, não deixavam de ser cuecas, dizia ela – e foi até à porta de casa.

À porta, do lado de fora, estava o homem da pasta; permanecia imóvel, no seu fato preto, como se uma estátua se tratasse. António aproximou-se e cumprimentou. O homem, sem nome, apenas com uma placa a identificá-lo como 32.437, não respondeu à saudação. Os músculos de cara apenas se moveram para perguntar: Sr. António Silva?

– Sim, sou eu – respondeu António.

O homem tirou da pasta um ecrã, mostrou a António a notificação e pediu: assine aqui.

António leu, sim, era o Grande Dia, assinou com o dedo, a impressão digital confirmou a sua identidade.

– Tem 3 horas para se preparar – informou o homem da pasta. – Vou ficar à espera.

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Naquele momento já a vizinhança rodeava a casa, não era todos os dias que aparecia um homem de pasta por aqueles lados, por certo o Grande Dia teria batido à porta dos Silva.

António ainda estava meio perplexo com tudo o que lhe estava a acontecer; há muito que sonhara com aquele dia, mas agora, que ele chegara, não sabia como lidar com as emoções. Entrou de novo em casa; antes, distribuiu um pequeno sorriso pela assistência em jeito de bom dia.

– Pus a banheira a correr – disse-lhe a mulher, quando ele regressou ao quarto. – Vai tomar um bom banho.

António estranhou; já nem às crianças se preparavam banhos.

– Mas tenho que escolher a roupa – alegou ele.

– Depois tratamos disso, em conjunto, como nos velhos tempos – e selou a conversa com um beijo na boca.

Sem retorquir, António dirigiu-se à casa de banho. A banheira já estava meia cheia. O dia era grande, certo, mas estar ali a gastar tanta água era coisa que não gostava; mas não contrariou a vontade da mulher, ela lá saberia o que estava a fazer, afinal, dias melhores vinham aí e uma extravagância, de vez em quando, não fazia mal.

Estava um pouco perdido no meio do vapor e da dolência da água quente, quando sentiu que a mulher entrou. Poucos depois, ela invadiu a banheira. Nua, sentou-se em cima dele.

– Para quê, essa mariquice toda? – perguntou António ao ver um desfile de velas espalhado pela casa de banho.

– Ah, é giro; é como nos filmes – respondeu ela. Debruçou-se sobre o marido e voltou-o a beijar, desta vez num gesto mais prolongado.

Era o Grande Dia e o prazer sempre foi a melhor comemoração.

– E as crianças? – perguntou António.

– Mandei-as à casa da avó.

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Como nos primeiros anos de casados, voltaram a envolver-se numa cena de sexo na banheira. A água quente, um dos melhores afrodisíacos, nem sempre foi boa companhia. Primeiro, porque dificultou a penetração, como se, de repente, houve uma virgindade reencarnada; depois, porque os movimentos vertiginosos dos corpos causaram uma ondulação forte, fazendo com o líquido voasse por toda a casa de banho, transformando o espaço num pequeno lago. Só uma vela resistiu e foi testemunha completa dos sussurros e espasmos finais dos corpos; todas as outras acabaram afogadas.

Escolher a roupa não foi difícil: um fato preto e uma camisa branca era o ideal.

Enquanto a mulher lhe ajeitava o colarinho e lhe dava pequenos beijos no pescoço – a ternura e a vontade de se tocarem não esmorecera com o clímax do banho -, António pensou que a situação poderia ser ao contrário, o Grande Dia ser dela.

– Será que o teu grande dia também vai chegar? – questionou ele. – A partir da agora vai ser mais difícil, dois na mesma casa é coisa rara.

– Isso agora não interessa nada, o importante é que chegou um.

Faltava hora e meia para que o homem da pasta voltasse. Ainda havia tempo para uma comemoração mais alargada. Quando António saiu para o quintal pôde ver que a vizinhança já tinha colocado umas toalhas de papel na mesa de jardim; e com umas laranjadas, vinho de pacote, pastéis de bacalhau, rissóis, gelatina e melancia fizeram a festa. Até o Joaquim apareceu a tocar acordeão, para mal de todos os ouvidos presentes; alguém, por brincadeira, seguramente, lhe dissera, um dia, que tinha jeito para a música, e ele, agora, gostava de presentear, por tudo e por nada, o seu talento, especialmente desde que viera de Paris, onde se inspirara e misturara os acordes do vira minhoto com os toques da chanson française.

As crianças corriam a sua alegria de um lado para o outro quando o homem da pasta voltou a tocar à porta. António despediu-se de todos e dirigiu-se ao carro preto que o esperava. Um breve adeus e o vidro fumado subiu; a viatura arrancou.

Enquanto o carro percorria a rua comprida do bairro, as pessoas vieram à janela acenar. Pelo menos, foi assim que, no dia seguinte contaram as diversas bocas, na mercearia, agora minimercado, e no café do Tony – o nome original permaneceu, graças à teimosia da dona anterior, que fora apaixonada na adolescência por um cantor de charme. As vozes mais exageradas falavam até em largada de balões e colchas nas varandas; por pouco alguém não referiu, inclusive, uma charanga.

O edifício era grande – uma torre envidraçada com pouco mais de dez andares -, mas não tão imponente quanto António pensara. Entrou, percorreu largos corredores vazios até chegar a uma sala, também pouco cheia, uma mesa e duas cadeiras compunham o mobiliário. O homem da pasta, que o acompanhara, mandou-o sentar e pediu que esperasse; de seguida, saiu da sala por uma porta ao fundo. Foi por essa mesma porta, passado meia hora, que entrou outro homem, novamente com uma pasta.

– Boa tarde – começou por dizer o novo homem. – Como sabe, o programa Emprego Mais selecionou-o para ocupar um lugar de trabalho nesta empresa. Desejo-lhe felicidades e espero que corresponda às expectativas que foram depositadas em si. A sua permanência depende do que conseguir oferecer à organização. Aqui tem a pasta com tudo o que precisa, inclusive a localização do seu posto de trabalho.

Sem mais conversa, o homem saiu pela mesma porta por onde entrara.

António pegou na pasta; ali estava o que desejava há muito. Aquele objecto era o passaporte para aquilo que se tornara no maior tesouro dos últimos tempos: um emprego.

A sala 538-C, ficava no quinto andar, no fundo de um longo corredor. Quando abriu a porta, António verificou que era uma sala pequena, apenas com duas secretárias, onde estavam dois homens. Avançou até à secretária que ficava junta à janela, onde estava o homem mais velho. Este levantou os olhos do monitor e contemplou seriamente António. Durante uns minutos, olharam-se mutuamente. Sem palavras, fizeram-se as apresentações.

O homem da secretária levantou-se. António abriu a pasta, retirou a pistola e disparou. O homem caiu no chão, onde permaneceu inerte enquanto uma mancha de sangue começou a alastrar e a avermelhar o soalho.

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O programa Emprego Mais cumpriu-se: um emprego por outro emprego, com ausência de reforma.

Retirado o corpo, António sentou-se à secretária, que passava a ser sua, para iniciar o seu primeiro horário de trabalho.

– Juro que fiquei a tremer – disse o outro homem da secretária mais afastada da janela. – Ainda temi que pudesse ser eu, apesar de ele ser mais velho. Nunca se sabe os critérios malucos do programa. Bom, sê bem-vindo. Agora vamos ao trabalho, que não podemos vacilar.

António, antes de iniciar a sessão no computador, abriu de novo a pasta, voltou a retirar a pistola e disparou sobre o colega do outro lado da sala.

Afinal, o programa Emprego Mais tivera um ajustamento e, agora, por cada posto de trabalho novo era necessário a eliminação de dois; sem custos e sem reforma, como sempre.

Era o Grande Dia até chegar um outro, bem pequeno.