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Romance

CRIA  CORVOS

Nota: O texto encontra-se registado no IGAC, pelo que os direitos de autor estão protegidos.

Prólogo

Ela chegou no caminho do silêncio das tardes quentes, em hora de sesta; abriu a porta devagarinho e entrou. Ele esperava-a.

Pelas pequenas réstias de luz, que atravessavam as frinchas da janela – só disfarçando, com as portadas cerradas, o clarão abrasador que teimava incendiar a paisagem lá fora é que se conseguia saborear a sesta –, ele adivinhou-lhe os contornos do corpo; vinha nua, como nos filmes. O tempo já lhe enchia um pouco as linhas, mas, ainda assim, ele viu-a moça, como se ela viesse directamente dos dias em que soltava juventude pela casa toda e o atiçava com olhares atrevidos. Sentiu desejo, muito; de repente, como por feitiço, as suas carnes, outrora definhadas de velhice, ganharam alma e emergiram num calor devorador.

Ela avançou e, sem pedir licença, escarranchou-se sobre a cintura dele. Ele nada fez para a impedir, deixou que ela lhe puxasse as cuecas para baixo – única peça que deixava vestida para descansar – e se aconchegasse melhor em si. Não sabia se Deus aprovaria aquilo – provavelmente ralhar-lhe-ia um dia, quando ajustassem contas –, mas a língua do povo, essa sim, iria crucificá-lo para sempre que nem Cristo na Paixão; afinal, até era de paixão que se tratava.

Como mulher mestra das artes da volúpia – que não o era, pelos menos assim pensava ele –, encaixou-o dentro de si num gesto único repentino, a fazer lembrar estocada de arena. Os seus cabelos caídos, sempre descompostos, faziam, no momento, um alinho melódico de gestos soltos no ar ao ritmo de cada movimento arrebatado que ela proferia sobre o corpo dele – ainda há pouco a morrer um sono leve –, quase a desfazer-se em deleite. Para abrandar o ritmo, ela debruçou-se, roçou-lhe com os bicos dos seios nos raros pêlos brancos do peito dele – que por pouco não se abriu para deixar explodir um coração afogueado no limite – e agarrou-lhe a cabeça. Quando os lábios dela estavam prestes a devorar a sua boca – ele ainda sentiu um calor húmido a tocá-lo –, desviaram-se para uma outra parte mais ao lado, umas orelhas a derreterem-se com a pré-sensação de irem ser beijadas, e, em jeito de sussurro, libertaram:

– Vou matar-te; de prazer!

Mais do que o cio das palavras, foram as facas do destino que escutou. Há muito que ele sabia que semelhante encontro tinha que acontecer, numa espécie de ajuste de contas com os caminhos que escolhera lá atrás. Ao contrário do que dizia o povo, não havia maldições, apenas escolhas; ele não só fizera, em tempos, as suas, como também as alimentara no seu próprio ninho. Restava-lhe voar.

PARTE I

o ninho

1. Cria corvos e comer-te-ão os olhos.

Cria corvos e comer-te-ão os olhos.

Quando José Bernardo ouviu esta frase proferida pela madrinha, de costas voltadas para ele, a fingir contemplar a paisagem distante da janela, ficou gelado, empedernido no meio da sala, como uma estátua equestre no centro da praça; nunca esperou que ela reagisse daquela forma, com uma frase cortante, sem nexo ao assunto, e a acentuar cada sílaba na ressonância dos dentes cerrados. Calculava que a reacção não seria a melhor – ia perder o seu querido afilhado –, mas responder assim, à notícia do seu casamento, estava fora de qualquer previsão. Bem que ele ensaiara várias formas de comunicar o evento antes de entrar na sala grande, sempre escura, de cortinas corridas – a luz causava dores de cabeça à velha senhora –, mas nada adiantou, a reacção foi a pior possível.

Amélia Bento de Oliveira continuou muda e queda; como eram ingratos todos aqueles que a rodeavam. Depois de tudo o que tinha feito por aquela gente – sim, porque fora ela que dera de comer a muita boca faminta em tempo definhado de pão –, sentia que todos a abandonavam e cada vez ficava mais só, mais enlutada, naquela terra estranha com nome de mulher.

– Madrinha, eu não vou embora, vou estar por aqui – insistiu José Bernardo.

– Para mim foste para sempre – respondeu Amélia Bento de Oliveira, sem mover o mais pequeno músculo, a não ser os labiais, caídos e rugosos, para deixar sair aquela frase dramática, bem ao seu jeito de quase declamar as palavras com que queria atravessar os outros.

– Não percebo, afinal, eu vou casar com a Belinha, que a madrinha tanto gostava – José Bernardo tentou apelar a algum sentimento saudoso que ainda pudesse existir sobre aquela que foi, durante muito tempo, a criada de servir da madrinha e, agora, sua noiva; esquecera-se, entretanto, que Amélia, mal suspeitara que havia namorico com o seu afilhado, a correra de casa alegando que lhe desaparecera um anel.

– Uma ladra é o que ela é.

– A madrinha sabe que não é verdade, o anel apareceu depois no armário do corredor. Olhe que nunca ninguém a mimou tanto como a Belinha.

– Basta! Esta conversa tem agora um ponto final. Vai, então, procurar a tua felicidade, se achas que ela mora por esses lados; mas não tenhas ilusões, nunca a irás encontrar – rematou Amélia, novamente de uma forma vincada, como se fosse personagem dos folhetins radiofónicos que costumava ouvir depois de almoço.

Sem mais palavras, José Bernardo deixou a casa grande, o local onde passara quase todos os seus dias desde que se lembrava da sua pessoa.

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Filho da cozinheira dos ganhões e do antigo encarregado da vasta propriedade que começava na Quinta da Ponte de Vila Maria – uma aldeia que, estranhamente, tinha nome de vila –, José Bernardo foi, desde os tempos de berço, o aí Jesus da filha do homem mais poderoso das redondezas, que viu nele um certo consolo para o seu colo estéril de mulher rica e instruída; donzela que se deixou passar no tempo sem nunca vislumbrar homem para constituir família. Mas, se nos primeiros tempos esta protecção maternal da madrinha de baptismo fora farta para o pequeno Bernadinho, assim ela o apelidava, depressa se tornou num afecto sufocante; o medo de o perder, fez com que não o deixasse ganhar asas, seguir estudos para ser gente importante. Uma instrução básica era mais do que suficiente para tomar conta da extensa propriedade, contrariando, assim, aquilo que todos pensaram de início: tendo em conta o carinho desmedido que a madrinha tinha pelo afilhado, ela – tão certo como estarmos aqui – iria pô-lo a estudar na capital para se formar doutor. Mas não, nem à cidade lhe foi permitido ir fazer o liceu. Logo que terminou a sexta classe, ficou como uma espécie de aio da senhora que sofria na altura o enorme desgosto da morte do pai e, assim, mais do que nunca, precisava naquele momento de um homem – ainda que de calções – ao seu lado para a amparar. Os ditos estudos, supostamente, só eram importantes para quem nada tinha e o Bernadinho estaria a começar uma triunfante caminhada para ser dono de um largo horizonte, uma fatia quase total das redondezas e mais além.

– Está assente, vai ficar aqui ao meu lado onde não lhe falta nada – com esta frase Amélia decidira o destino de José Bernardo: ser uma espécie de camareiro da grande proprietária da região. Até a aprendizagem das lides da terra, o tomar conta dos negócios que poderia vir a herdar, foi ficando para trás; todo o tempo era pouco para andar à volta da madrinha, que se mostrava um autêntico poço sem fundo de caprichos. Por mais que ele tentasse pôr o pé fora de casa, a fim de ganhar um pouco o mundo que começava a romper nos seus olhos, havia sempre um pedido súbito de Amélia para que voltasse depressa; só um chá feito pelo afilhado – ele tinha um jeito enorme para misturar as folhas – a impedia de entrar em convulsões e de chamar o médico a casa, especialmente se lhe faltavam os fins de tarde em que ela, todos os dias, o sentava no seu colo e lhe acariciava os seus cabelos cor de mel, enquanto lhe contava histórias dos seus antepassados, umas reais outras inventadas ao gosto das festas capilares.

Sabor a rosas, era assim que José Bernardo, em míudo, sentia a pele da madrinha quando, sentado no colo, tombava a sua cabeça no peito dela e se deixava embalar pelos gestos enfeitados de palavras. Com o tempo, aquela sensação de paz e aroma florar deu lugar a um certo desconforto de rapaz de pêlos nas pernas sentado no colo de senhora velha; e aquilo, que era uma suave fragrância, depressa se transformou numa sensação enjoativa de pele de galinha perfumada. Uma questão de ossadas acabou por resolver o problema que começava a surgir: enquanto os ossos de rapaz vigoroso ganhavam volume e muito peso, os de uma velha senhora davam sinais de fragilidade. Assim, o colo de embalar foi substituído por um aconchego no sofá onde, lado a lado, ela continuou a falar das vidas que viveu e que imaginou viver, naquele seu tom verbal eloquente, de sílabas quase soletradas, como se fosse projectada para uma peça teatral épica de grandes tragédias e fortunas em tempos perdidos. O sabor perfumado tinha desaparecido, mas a impressão de uma pele crespa mantinha-se; Amélia, nos momentos mais empolgantes da sua prédica, apertava a mão do afilhado, como se ela própria ficasse com medo do que dizia.

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O tempo vai amaciá-la, pensou José Bernardo quando, novamente, se viu cá fora, no meio da praça soalheira; apesar de ser Novembro, o dia estava bonito, um sol tépido aquecia as portadas das casas, onde mulheres de negro faziam rendas para matar as tardes que ainda lhe restavam nas suas casas vazias – morrem cedo os homens cá da terra, é o que dá a bebida ruim com que tragam o resto da jorna amarga que desperta em cada canto dos malditos galos, autênticos relógios feitos de facas afiadas que se cravam na cabeça durante a madrugada –, enquanto não recolhiam para a lida da noite. Tentou não ligar muito ao acontecimento com a madrinha e seguiu feliz para casa – ainda bem que os pais juntaram uns tostões e resolveram fazer uma pequena moradia fora dos muros da quinta, nunca se sabe o dia de amanhã –, fizera o que tinha que ser feito, e agora, restava apenas esperar pelo dia 1 de Janeiro para ficar ao lado da mulher que lhe dava tardes de namoro, à janela, cheias de brilho.

Escolheu o primeiro dia do ano para a boda, porque queria entrar em grande numa nova década: 1960 estava quase a chegar e, ainda por cima, o irmão dizia-lhe que vinham aí grandes tempos. Ele nunca percebera a verdadeira razão dessa afirmação, talvez porque o irmão António, logo que começava um novo ano, referia sempre essa previdência, como que a fazer um brinde ao alento de melhores tempos, especialmente desde que andava a monte, em fuga dos senhores do governo lá da capital. Ao contrário de José Bernardo, António fizera estudos na cidade, onde completara o liceu e se perdera na vida; mais vale ser bruto e não saber as coisas, diria o pai, mais tarde, perante a atitude revolucionária do filho em contestar o poder de então. Não tanto por ignorância, talvez até mais por medo de falar coisas da política, dizia-se nas redondezas que ele estava fugido por ter roubado umas lojas na cidade e era por isso que ninguém lhe punha a vista em cima; falavam até que já teria passado a fronteira e estava em terras de França; mas não, ele nunca se afastara muito da região, por isso, a família, sem saber como, de vez em quando, recebia a sua visita relâmpago que, com a mesma velocidade com entrava, terminava depois ao fim de algumas horas, apenas o tempo suficiente para apanhar alguma roupa lavada, uns tostões que se arranjavam e uma merenda forte de enchidos. Na última visita, ao saber do casamento, o foragido fizera mais um discurso sobre os novos tempos que se aproximavam – uma outra década ia começar -, e congratulara-se com a boda do irmão, por este iniciar uma nova vida cheio de esperança no futuro ao lado da mulher que gostava, em vésperas de ventos de mudança. Por pouco não deixara escapar um certo sabor de inveja nas palavras de felicitação; apesar de acreditar na luta pelos grandes valores da liberdade e da igualdade entre os homens, também ele almejava um tempo tranquilo numa casa sua ao lado da camarada com quem mantinha um relacionamento um pouco atribulado – viam-se uma vez por outra em casa de conhecidos.

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– Este rapaz nunca vai ser feliz, a madrinha não o vai deixar em paz – comentou uma das velhas ao sol, quando José Bernardo passou e as cumprimentou com um certo sorriso de contentamento forçado. Apenas um “pois” se ouviu das outras comadres soalheiras. A conversa morreu logo ali, não porque as rendas e as costuras estivessem complicadas e se pudessem emaranhar com palavras da vida alheia – como costumava acontecer sempre que sentavam na soleira da porta –, mas porque havia que ter cuidado em falar da D. Amélia, as paredes tinham ouvidos e as pessoas língua comprida. Uma indisposição com aquela mulher e a vida na aldeia ficava logo mais difícil. A senhora até nem era de grandes truculências com o pessoal da terra, pelo contrário, sempre que alguém, no desespero, lhe batia à porta, ela, na sua caridade cristã, socorria com alguma coisa, pão duro e uma morcela da salgadeira mais antiga que fosse; mas, mesmo assim, era preciso algum cuidado com o que se dizia para não cair na sua desgraça, quase todos acabavam por trabalhar nas suas herdades e não se devia maldizer de quem pagava a jorna.

Desde aquela estranha tarde de domingo de Novembro, quente como obra do diabo, em que o afilhado lhe anunciou o maldito casamento, Amélia não voltara a sair à rua. Envolta num luto repentino, acentuou ainda mais o preto que vestia desde a morte do pai e do irmão – separados em 10 anos nas tragédias que lhes ceifaram a vida –, mandou colocar umas cortinas de veludo negro em todas as janelas dos compartimentos, onde normalmente estava, e quase deixou de falar com maioria das pessoas que ainda a rodeavam; só mesmo o encarregado da lavoura e a criada da casa grande acediam a ela. Até a missa na igreja, onde ela fazia questão de ir todos os domingos, fora substituída por uma comunhão isolada com o padre na capela da quinta, o que causou, de início, alguma perturbação, pois todas as semanas, no fim da celebração dominical e à porta da casa de Deus, costumava dar aos mais necessitados o resto do pão e dos grãos que tinham sobrado da jorna dos ganhões, e que era o consolo de muitas barrigas vazias da terra; mas só na primeira semana ficara em falta, já que nas seguintes, apesar de não comparecer na homília, mandou entregar as doações alimentares como era hábito. As gentes ficaram-lhe agradecidas e nunca mais se importaram com a sua ausência, todos sabiam que era apenas uma entrega ao desgosto de perder o afilhado e, como qualquer desgosto, aquilo havia de passar. Não passou.

***

Quando naquela manhã de 1 de Janeiro de 1960, José Bernardo se sentou dentro do grande alguidar de alumínio com água quente para o banho da semana, fê-lo com mais cuidado, afinal, não era todos os dias que um homem se casava. Enquanto esfregava bem as partes mais íntimas, tudo tinha que estar num asseio completo, um pensamento libidinoso invadiu-lhe a cabeça: como seria a noite com a sua Belinha? Umas carícias mais ousadas e uns abraços roubados, além dos beijos triviais de namoro, fora tudo o que conseguira obter até então. Ela queria ir de branco e merecê-lo bem; ele não tentara contrariar a decorosa ideia, aguentara-se firme e sem insistências manhosas para calar os rompantes fogosos que o avassalavam amiúdo. A razão de tal concordância de ideias, por parte de José Bernardo, explicava-se porque os desejos mais rebeldes andavam há muito amainados: desde os 17 anos que visitava regularmente uma senhora na cidade, numa certa casa perto do castelo, na rua mais florida que houvera visto; tanto era o ornato que até a cama dela parecia cheirar a jardim – ao princípio, não gostou muito da fragrância, lembrava-lhe outros odores florais de mulher da infância, mas depois excitava-o sempre que, no meio do entrelaçar suado dos corpos, provinha da janela aberta um aroma de alfazemas, malvas e outras coisas que não conseguia identificar.

As considerações mais ardentes sobre a noite que se adivinhava foram interrompidas por um barulho inóspito de uma passarada do outro lado da janela.

Estranho!, naquela altura do ano só as aves de capoeira marcavam presença; ainda por cima nem era um chilrear, soava-lhe mais a um canto agreste de pássaros grandes.

Mal se limpou, José Bernardo foi à janela mas não viu nada, apenas ao longe enxergou uma certa nuvem negra que poderia ser um bando qualquer a desaparecer no horizonte.

– Viste aquilo? – perguntou-lhe Mariana, a sua irmã, que recolhia, à pressa, a roupa do estendal no quintal, peças para a cerimónia, ainda a precisar de passagem a ferro.

– Não.

– Passou por aqui um bando de corvos, negros como a noite. Imagina tu, uma passarada assim, logo no primeiro dia do ano. Isto não é coisa boa!

José Bernardo não ligou aos agoiros, coisas de mulher, e fechou a janela. Já não faltava muito tempo para entrar na igreja e ainda tinha que se vestir com o melhor fato que lhe encontraram, tarefa complicada para um homem que apenas pusera gravata no dia em que tirara fotografias na cidade. Olhou-se ao espelho para ver como ficava. Achou-se estranho naquela figura de rapaz aperaltado; até a madrinha, que insistia em tê-lo sempre com uma roupa lavada e sem remendos, o que fazia dele quase um príncipe, nunca o tinha posto naqueles preparos tão endomingado.

***

José Bernardo, nos seus 25 anos, tinha uma figura diferente da maioria dos homens da região: os cabelos louros, a pele clara, os olhos azuis esverdeados e uma boa altura davam-lhe uma aparência de quase estrangeiro, o que alimentava ainda mais a má-língua sobre a sua avó paterna, uma alentejana que no início do século se perdera de amores por um estranho que aparecera nas redondezas e que falava uma língua que ninguém compreendia. Rezava a história, e a vontade dos sentimentos, que não fora preciso grande tradução para se entenderem, o que levou a, então, moça, às escondidas de poucos, a família, e com conhecimento de muitos, o resto da aldeia, a dar-lhe abrigo: uma cama na almiara[1] da eira e uns restos de comida roubada a si própria – esta rapariga anda a comer muito mal – embrulhados com um certo carinho. Mas, da mesma forma misteriosa com que apareceu por aqueles lados, o estranho desapareceu um dia sem nada dizer e a jovem ficou entregue a um desgosto profundo que só o casamento aligeirado com um primo em terceiro grau – um bom homem, que não se importou com o que diziam – a fez reagir. Não adiantou levar mais 3 meses para casar e outros 9 para ter o único filho que parira, o certo é que, quando a criança nasceu – Joaquim, o pai de José Bernardo –, lourinha e de olhos claros, foi logo vista como uma herança carnal do estrangeiro; o pecado tinha ficado guardado lá dentro e viera ao de cima no momento certo, por capricho de Deus, para marcar bem a virtude roubada. Anos mais tarde, a figura alva do neto confirmou ainda mais a crença, só que ela já não estava por perto para sentir na pele os olhares mordazes da maledicência. Se o desgosto da perda do seu estranho encantamento de amor fora grande, o de ver o marido não se afeiçoar ao filho foi ainda maior – até ele, tão boa pessoa, acreditava no falatório da gente da terra –, o que fez com que um dia, cansada de lhe chamarem Maria quando afinal era Genoveva, ela agarrasse na faca com que degolava a galinha para o almoço melhorado de domingo e a passasse nas suas próprias goelas. Não adiantou tentarem atar-lhe o pescoço com um lenço de ceifeira para suster o sangue, pelo contrário, até há quem diga que foi isso que a fez cair ainda mais depressa no chão e a deixar, para sempre, quieta no meio daquele banho vermelho em que se transformara, entretanto, o terreiro do seu quintal.

Uma corda pendurada de imediato pelo marido numa oliveira, a poucos metros dali, fechou de vez a história daquele casal amargurado pelas narrativas surdinas da vida. A criança, na altura com 6 anos, viu-se num só único dia a percorrer o caminho solitário dos órfãos, que conseguia ser ainda mais sombrio e silencioso do que aquele que sempre conhecera, desde o primeiro momento, entre muros de sua casa. O tempo acabou por o ajudar a enublar as tristes lembranças daquela tarde amarga; só mesmo umas décimas, cantadas em tabernas ao som do vinho, lhe perpetuaram a memória dos acontecimentos.

***

À hora marcada, José Bernardo caminhou para a igreja.

A pouca distância que separava a casa dos seus pais e o local onde ia comungar, aos olhos de Deus, o seu destino com o de Belinha, fez com que o percurso fosse percorrido a pé, num cortejo vistoso composto por duas partes: os convidados da boda e os populares que saiam à rua para ver as vestimentas de quem passava.

A noiva, em último lugar naquela procissão, de braço dado com o pai, era o andor principal. Apesar do dia em causa, seguia com ar contrafeito, pois, ainda que fosse curta a caminhada, queria ir de carro para a igreja, como faziam as raparigas ricas, e não arrastar a cauda do vestido pela terra batida das ruas; por muito que as meninas enfeitadas com flores no cabelo amparassem as abas do traje, todas orgulhosas daquela missão importante, o certo é que a veste perdia, a olhos vistos, a alvura tão pretendida.

Seguiam todos em conjunto, mas o cerimonial fez com que a futura esposa só entrasse na igreja depois do noivo e do resto dos convidados estar devidamente acomodado, o que demorou algum tempo: há sempre umas velhas tias que não encontram sítio ou quando o encontram não é o ideal, mesmo ao lado está uma comadre com a qual já não trocam palavras há muito. Estava a noiva, já junto ao altar, a ajeitar os molhos de fazenda do vestido com as rendas emaranhas do véu, as fotografias iam congelar aquele momento para sempre e não queria que a vissem, mais tarde, alagada no revolto de tecidos, quando soltou um grito.

Não se sabe de onde, nem sequer era época, mas, aproveitando a porta aberta, um bando de corvos – os testemunhos não foram exactos, de meia dúzia a mais de cem tudo se ouviu – invadiu a igreja e, conjuntamente com o barulho ensurdecedor das suas gralhas estridentes em eco, num gesto de fúria, atacaram as pessoas presentes que, perante tão estranho acontecimento, desataram numa gritaria pegada, coisa bem inusitada naquele local de toadas contidas. Talvez atraídos pela brancura acetinada do vestido, duas aves tomaram conta da noiva e desferiram um ataque violento, como se estivessem num ajuste de contas com algum espantalho que os afastara de campos bem fartos de sementeira; apesar da ajuda de José Bernardo, que espantou as aves durante algum tempo, Belinha ficou arranhada na pele e nas vestes.

Fugir para o adro foi a solução.

As aves ficaram lá dentro, em silêncio – como era conveniente numa igreja –, donas do lugar.

Entre várias soluções atiradas ao ar, a de Patalino foi a que acabou por ser posta em prática; ele nem esperou que houvesse concordância, correu a casa, mesmo ali ao lado, buscar a caçadeira, ainda por estrear – esperava uma caçada valente para dar os primeiros tiros –, e entrou pela igreja dentro, pronto a fazer justiça com semelhante intrusão.

– Ai, minha nossa senhora, que ele vai partir tudo! – clamou Dona Guilhermina, ao temer o estardalhaço que uma caçada aos pássaros pudesse fazer dentro da igreja.

Não se enganou. Patalino, no seio da sua inexperiência de atirador – só a gente de posses, com propriedades e dinheiro para armas, se podia dar a esse luxo de andar sempre a caçar –, disparava para todo o lado, mas eram mais santos e caliços que caiam no chão do que aves; somente umas meras penas avulso se soltaram e pairavam no ar.

À porta, um grupo de convidados contemplava a cena dantesca: aves em rebuliço, estilhaços por todo o lado, um enorme cheiro a pólvora e tudo isso dentro de uma pequena igreja que gemia empoeirada. A preocupação já não estava na estranha passarada ali albergada, mas sim no próprio templo que parecia vir abaixo com os disparos. Octávio, pai de Belinha, não aguentou mais ver aquela destruição sem sentido, avançou sobre o seu compadre, tinha que o impedir de continuar aquela loucura – quando a passarada fosse abatida já não havia igreja para a sua menina casar –, e tentou pedir-lhe que parasse. Patalino, com o seu pouco treino, e não aguentando firme o coice dos disparos, acabou por desviar o sentido da arma; um dos tiros seguiu direito ao peito do seu velho compadre que, de braços no ar, lhe tentava dizer algo.

A queda do corpo no chão devolveu ao ambiente um certo silêncio; os disparos cessaram, os convidados ficaram mudos com o que viram e a passarada voou para uns frisos de talha dourada sobre o altar e ali permaneceu quieta, apenas os olhos se mexiam numa vigia constante. Foram os gritos de Belinha, que avançou, como uma fera picada na toca, sobre o pessoal que lhe entupia a porta, a quebrar o estado hipnótico em que todos se encontravam. Já pouco preocupada com a brancura do vestido – o sangue rompia em força na camisa acabada de estrear do seu pai -, agarrou-o para que ele lhe dissesse qualquer coisa, mas apenas obteve um gemido sumido antes que a cabeça paterna tombasse definitivamente nos seus braços.

Quando todos pensavam que ela iria iniciar o carpido dos mortos, Belinha levantou-se, ainda com mais força com que entrara, pegou na espingarda de Patalino, pousada num banco enquanto ele expiava o remorso num pranto, avançou até ao altar e disparou sobre os corvos, que assistiam empoleirados a todos os acontecimentos sem um único pio. A primeira coisa a tombar foi o Cristo do altar-mor, que chegou ao chão já pulverizado. Mas nem o facto de ver o filho do Criador desfeito a seus pés, só mesmo a cara de espinhos ficara intacta, a fez desistir: um novo disparo, o único que lhe restava com uma caçadeira de dois canos, foi solto.

Só não houve mais tragédia por milagre, afiançaram alguns, pois ao primeiro tiro a passarada levantara voo e Belinha desferiu o segundo disparo já virada para o centro da igreja, tendo, inclusive, o pessoal sentido o deslize dos chumbos a soprar-lhes bem perto das cabeças. Como entraram, os corvos saíram; de um momento para o outro esfumaram-se no horizonte, apenas dois ficaram caídos no chão, como testemunho, mesmo ao lado do corpo de Octavio; um deles ainda batia as asas, embora por pouco tempo. A noiva, agora já com pouco vestígios dessa condição, apanhou-o e torceu-lhe o pescoço com uma estranha força viril de satisfação. Juntou os dois pássaros no regaço do seu vestido e saiu da igreja, sem que alguém fizesse algo para a impedir.

Não bateu à porta, despiu o vestido – aquele mesmo que outrora quis branco, mas que naquele momento era uma mistura de tons onde o vermelho se destacava –, colocou nele os dois corvos mortos e largou-o ali, na soleira junto à entrada principal da casa grande da Quinta da Ponte. Anos mais tarde contava-se que Belinha, depois de deixar os pássaros nos restos do seu vestido, deambulara nua pela aldeia até ao anoitecer; mas não, ela apenas seguiu, em combinação de cetim – prenda da madrinha de casamento para a noite de núpcias –, directamente para sua casa, não muito longe dali, onde se fechou num luto perpétuo. A negrura dos seus dias a partir daquela data não lhe permitiu outras cores mais alegres, pelo que todas as tentativas de José Bernardo para retomarem um destino comum foram em vão, não havia mais lugar no seu coração para a brancura de um novo vestido de noiva.

– Esta terra é mesmo destrambelhada dos cornos, é o que dá não saber se, afinal, descendemos de uma santa ou de uma puta – alguém comentou no fim do dia, remetendo a graça para as origens de Vila Maria.

Apesar de nenhuma criadagem o confirmar, e eram muitos os que passavam pela quinta, o certo é que sempre se disse por aqueles lados que D. Amélia teve até aos restos dos seus dias, como companhia, dois corvos que lhe guardavam a cabeceira da cama; vivos.

2. Mais vale ser filho da santa do que da outra

Não há memória que Vila Maria alguma vez tivesse ostentado, propriamente, o estatuto de vila, nunca passara de uma mera aldeia, um pequeno povoado, mas também jamais alguém se preocupou com esse assunto, era apenas uma banal designação; mais importante, sim, era a origem do nome de mulher que carregava na sua denominação, uma vez que havia duas histórias lendárias que perpetuavam, simultaneamente, a génese daquela pequena praça com uma rua principal, espinhada com várias ruelas adjacentes, onde se abrigava um alvo casario, de rodapés coloridos, abandonado na planura alentejana de olivais e searas junto à fronteira.

A primeira narrativa vinha dos tempos das guerras com os espanhóis. Constava que um rei – nunca ninguém se preocupou em saber qual –, a caminho de Espanha, para um encontro militar secreto – também nunca ninguém aprofundou os detalhes do segredo –, resolveu parar numa taberna à beira da estrada, um casebre esquecido na poeirada dos caminhos da época, para que fosse dado de beber às bestas da comitiva e ao pessoal acompanhante; aí, perdeu-se de encantos com a mulher do taberneiro que naquele dia, como todos os outros, penteava os seus longos cabelos escuros debaixo de uma oliveira por detrás do casario. Não tardou mais de meia hora e o todo soberano já rebolava nos lençóis encardidos do quarto, bem ao lado do balcão onde o marido servia vinho e pão com azeitonas à restante companhia que soltava altas gargalhadas para abafar os sonantes suspiros monárquicos.

Lá para os lados do palácio real não devia haver concubina assim; mesmo sem novas concertações hispânicas, o certo, é que a sua alteza real voltou várias vezes para se amigar com aquela estranha mulher de cabelos lavados e pele suja, que se mexia na cama como uma serpente com cio, como se tal houvesse, enquanto mandava o marido pastar o gado para bem longe. Tal foram as aptidões nas artes da lascívia que, além do rei, outros importantes começaram a passar por ali para conhecer os bons ofícios de Maria, sua graça; tal procura, apesar de serem tempos distantes de capitalismo, gerou oportunidades de negócio e, ao contrário do que normalmente acontece quando a má fama se espalha, trouxe também alguma concentração de casario. Ninguém conseguia atestar esta história, nem mesmo o mais esperto dos doutores, a não ser a memória da língua dos habitantes, mas o certo, é que muitos , ainda hoje, a apontam como a verdadeira origem do lugarejo e do nome que sempre carregaram.

Mas o peso da denominação feminina não se tornou coisa fácil ao longo do tempo. O nome da virgem recebeu, por ali, acepção pouca virtuosa e, contrariamente ao que acontecia no resto das terras, em Vila Maria a maioria das mulheres não o recebia no baptismo; aliás, Maria dito entre dentes, era tido como um insulto a lembrar as actividades especiais da meretriz mais conhecida da região.

A segunda história, sendo tão lendária quanto a primeira, tinha, no entanto, outros contornos: muitos afiançavam que só aparecera para limpar o nome da mãe do salvador; havia mesmo quem afirmasse que surgira somente no princípio do século XX, inventada na catequese por um conjunto de beatas que, cansadas de ouvir o nome da virgem proferido com todas as malícias – adjectivar alguém de Maria na terra levava, por vezes, a zaragata, tal o insulto –, resolveram dar um novo primórdio ao nome de baptismo do lugar.

Dizia então, a nova versão, que numa guerra com os espanhóis, quase todas as historietas contadas envolviam gentes do outro lado da fronteira, foi travada uma valente batalha na região – tão forte que as águas das ribeiras ficaram tingidas de vermelho como se, de repente, uma praga bíblica se tivesse abatido por ali –, e que um cavaleiro português, ao saber de um plano de ataque do inimigo – espiara-o durante toda a noite –, correu, montado num cavalo, em direcção ao seu exército para o avisar de semelhante estratégia, que a acontecer seria a perdição total. No caminho avassalador não contou que uma serpente se atravessasse mesmo à frente da patada da sua montada e que esta, perante o tamanho colossal do réptil, coisa nunca vista nas redondezas, se empinasse quase até ao céu e o atirasse contras as rochas estacionadas na beira da estrada.

Ferido e sem forças, o cavaleiro ali ficou estendido durante horas; mais do que o frio da terra, que se arreigava em todos os cantos dos ossos, e do sangue que lhe fugia pelas fendas do corpo abertas na queda, era o sentir que a alvorada ameaçava despertar e que os seus companheiros de armas, ao não serem avisados, iriam ser apanhados na cilada hedionda, bem preparada por aqueles que, até ao momento, estavam a perder a batalha. Como uma criança, perdida dos pais em sonhos, chorou na noite, um carpido a enunciar todas as mortes que iam nascer quando a própria madrugada brotasse; mas, tal como o pranto de menino, acabou por, no meio dos soluços, soltar palavras de ajuda, um colo pedido em forma de súplica, à madre mais poderosa para que o amparasse e, desta forma, ele próprio pudesse proteger outros filhos de suas mães.

Foi alta a sua prece; uma luz surgiu no breu da noite e trouxe até ele, não só a força perdida, como o cavalo tresmalhado que quase se ajoelhou para que o cavaleiro o pudesse montar. Apesar do enlevo celestial em lhe devolver forças e montada, somente umas asas podiam compensar o avançar do tempo, que entretanto galopara; o acampamento ainda estava longe e os espanhóis, por certo, já estavam a caminho; dificilmente conseguiria chegar antes deles. Não se sabe como, mas a tal luz – onde o oficial de diligências vira uma certa cara doce da virgem Maria a soprar-lhe forças –, iluminou um caminho secreto, criado pelos próprios céus, tão curto, que ainda antes de qualquer galo ter cantado, já toda a praça militar patriota estava avisada, levantada e preparada para receber os castelhanos pelo lado contrário. Os portugueses ganharam a batalha.

Ninguém sabia muito bem que contenda militar estivera em causa, nem em que época ocorrera, mas o certo é que muitos acabaram por acreditar nesta versão da origem da terra – sempre é melhor sermos filhos da santa do que da puta –, e chegaram mesmo a erigir um pequeno padrão logo à entrada da Vila, onde, supostamente, se dera a aparição. Embalados pelo sucesso romeiro de Fátima, ainda resolveram pedir ao bispo que avaliasse o local como sítio santo, mas o homem foi de pouca fé e, através de um secretariado, pediu apenas que lhe trouxessem relatos de milagres para que, assim, fosse tomada em consideração a possível aparição da mãe de todos em cima de um rochedo. Ao que consta, os milagres rarearam e o assunto foi esquecido, como convinha; fazer terra santa em chão de pecado não era muito boa ideia.

3. Macho fraco morre depressa

Pouco ligado às lendas da terra, nem mesmo a praga anunciada dos corvos – que desfizera numa tarde as querenças amorosas dos últimos anos – lhe dera maior fé, José Bernardo andou perdido durante uns tempos. Primeiro ainda insistiu com Belinha para que o casamento fosse de novo retomado, logo após o luto – noiva de preto enguiça a vida -, mas desde que um dia vira nos olhos dela a febre do ódio a derramar veias, depressa desistira da ideia, o seu caminho já não entroncava naquela porta e havia outras veredas para trilhar, o problema era saber quais. Depois, na tentativa de encontrar novo mapa da afeição, fez o que qualquer homem fazia quando queria curar a dor dos males de amor: procurou a quentura dos copos e dos corpos para melhor se orientar. Entre noitadas na taberna – até o Ti Jerónimo o pôr para fora que a noite já ia longa e as tardes enrolado com a dama da rua florida – aquelas juras de amor sussurradas ao sabor dinheiro sabiam-lha à mais pura das verdades -, gastava os seus dias.

– Estás a ficar um fraco, e um homem não se quer fraco; macho fraco morre depressa, ainda que possa andar por aí – disse Maria Bernarda, avó materna de José Bernardo, quando ele um dia a foi visitar a seu pedido.

***

Mulher vinda de outras paragens, de terras perto do mar, Maria Bernarda – era de fora, podia carregar o nome Maria sem consumições – depressa conquistou as gentes de Vila Maria com a sua forma especial de encarar a vida: pouca dada a lamentações e com energia para levantar uma existência do chão, conseguira criar os cincos filhos sem ajuda do marido, que ficara acamado ainda novo até ao fim dos seus dias, após uma parelha de coices da mula raivosa comprada a um cigano na feira. Mesmo no enfraquecer dos seus setenta e dois anos, ainda tratava das galinhas poedeiras e colhia erva para os coelhos que vendia – se a moléstia não lhe pegasse – a um comerciante do mercado da cidade, criando, assim, um pequeno sustento para si mesma, para que nem filhos nem netos se preocupassem em aliviar a pobreza da sua velhice.

No entanto, o que a tornou afamada não foi tanto a genica com a vida, mas sim a sua capacidade para pôr um assunto em pratos limpos, sem problema de espécie alguma. Não sendo linguaruda, não gostava de emudecer o que lhe contavam, afirmava mesmo que não era nenhum baú para guardar segredo de quem quer que fosse: então vocês não aguentam com ele e eu é que vou ficar calada, dizia ela sempre que alguém lhe pedia para não contar nada a ninguém; se é para não dizer, então fique vossemecê entupida com ele, que eu cá não faço de alçapão de ninguém. Perante esta determinação em não ser o abafo de falatórios, era uma romaria de vizinhas à sua porta: umas para porem a circular algo que andavam a dizer baixinho ou que tinham entalado na língua há muito; outras para irem buscar as novas que precisavam de soar alto – não sou eu que digo, é a velha Bernarda.

***

José Bernardo encolheu os ombros como resposta ao comentário da avó, ela tinha razão, devia ter, tinha sempre, mas sabia-lhe bem aquela fraqueza miudinha, de não decidir nada, de se deixar engolir pelo cantar das horas, dia após dia, bem ao jeito dos gatos que andavam por ali a preguiçar o sol e o borralho da noite. Voltar à Quinta da Ponte estava fora de questão, a madrinha já tinha mandado vários recados, mas ele fizera-se surdo de orgulho e nada respondera, queria esquecer o tempo que ali tinha queimado e encontrar novos rumos, ainda que a pujança para os procurar estivesse fechada juntamente com toda a afeição do seu querer.

– Zé, tens que te fazer à vida, ela não pára muito tempo no apeadeiro e quando dás por ti já a magana vai longe. Não fiques nessa agonia de morrer um pouco a cada dia – continuou a avó Bernarda a sua filosofia de responso, na tentativa que o seu neto mais querido lhe desse ouvidos e largasse aquele ar de cão sem dono.

– Eu sei, mas não me conformo, é muito azar para uma pessoa só, perdi tudo.

– Mas que azar Zé? Sempre tiveste tudo e ainda podes ter outra vez, basta quereres. Engole o orgulho e volta para a maldita velha, faz-lhe novas festas e, mais dia, menos dia, és dono de tudo aquilo.

– E a Belinha?

– Esquece-a, se ela realmente te quisesse estava aí ao teu lado, tu não vês que o maior querer dela era o que tu valias para a velha, nada mais; depois, ao ver que não a podia vencer, desistiu de ti, como quem larga carga de mula cansada em caminho empinado.

– A avó acha mesmo que devo voltar para a madrinha e fazer de conta que não aconteceu nada?

– Essa é maneira mais fácil de resolveres as coisas, mas não é a única nem a melhor; antes de qualquer abastança está a endireitança de um homem. Tens bons braços e boa cabeça, levanta-te dessa modorra e faz-te à vida por ti mesmo, não falta por aí quem te queira, quer no trabalho, quer no aconchego.

Se sobre o querer das raparigas a avó tinha razão, a sua boa figura e o facto de ser o menino querido da mulher mais poderosa da região fazia com que fosse pretendido por tudo o que era moça casadoira, já no que respeitava a trabalho, não era bem verdade que o pretendessem em parte alguma. Sempre de volta da madrinha, José Bernardo não aprendera grandes artes da lavoura nem de quaisquer outros ofícios, até mesmo nas sortes, a velha inspecção militar, tinha ficado mal; mas aí, não fora desmérito físico seu, pois, mais uma vez, a protectora movera influências – nessa ocasião, junto a um capitão de cavalaria – para que o seu querido menino ficasse livre das agruras militares e, assim, continuasse disponível no seu labor de escudeiro de vontades. A consciência que sendo homem feito pouco mais sabia fazer do que conduzir a madrinha à cidade e fazer vistorias no grande casario para ver que obras precisava, levava a que não ganhasse vontade para enfrentar de novo o mundo.

– Anda, ajuda-me a esfolar uns coelhos para entregar no Monte das Gralhas, parece que lhes deu lá a moléstia e precisam de uma dúzia deles para a boda da Adelina – rematou Bernarda a conversa.

Pouco depois, o sol já quente de Maio fez com que se pusesse de lado a ideia da matança dos animais, o melhor era mesmo metê-los numa alcofa e entregá-los vivos; lá no monte que os matassem quando quisessem, senão ainda azedava a carne e boda acabava todo de molho, a rebolar na cama com dores e cheiros pouco agradáveis, como a da filha da comadre Rosália que, graças a uns ovos estragados – as galinhas dela nunca foram grande coisa –, espalhou os convidados todos pelos campos adjacentes à festa do copo-de-água com as calças nas mão, até noiva passou a noite a entregar o seu corpo, reservadamente casto, a um grande balde de alumínio.

***

José Bernardo preparou a mula e resolveu, ele mesmo, ir entregar os bichos ao monte, precisava de desassombrar as ideias e os campos naquela altura, com o perfume e as corres garridas dos mantos florais, criavam alento novo a almas mortiças. Ainda há pouco tempo todos os percursos que fazia eram no bonito Chevrolet De Luxe Sedan preto da madrinha, que, quando chegou à aldeia nos finais dos anos 50, fazia as pessoas sair de casa para o ver passar, e agora, para não ir a pé, tinha que albardar o velho animal que, mesmo sem a carroça que puxara durante uma vida, arrastava já as patas.

O contentamento de respirar de novo aquele ar colorido de primavera em força, como se tivesse estado eternamente fechado num casarão de uma cidade e o sabor da terra fosse apenas lembrança de meninice, fê-lo assobiar uma melodia alegre, uma canção que nem o nome sabia, mas que ouvira algumas vezes na Emissora Nacional no programa Serão para Trabalhadores. A falta de melhor memória fazia com que o sibilo não passasse do principal estribilho, a única parte que lhe tinha ficado na mente; ainda fez algum esforço para se tentar recordar da restante melodia, coisa que não conseguiu. Um outro canto mais harmonioso interrompeu-o: uma bela voz feminina, por ali perto, trinava um fado sobre um amor desgraçado. Até a própria mula deve ter ficado fascinada com semelhante cantar, pois empancou definitivamente no caminho estreito de terra batida e nem umas vergastadas mais fortes no lombo a demoveu, parecia escutar atentamente a forma melodiosa como as palavras da música eram soltas no ar.

José Bernardo desmontou a besta e bem tentou puxá-la, nem que fosse para percorrer apenas o resto do caminho a pé – o monte estava perto, ali mesmo no cimo do olival que vinha até à estrada -, mas foi em vão, nem sequer o mais leve movimento das patas do animal se vislumbrou. Apesar de tudo, não se sentiu agastado com a contrariedade, ele próprio acabou por ficar cativado com o embalar de semelhante canto, como se fosse um chilrear especial da passarada que naquela época invadia os campos. Para matar a curiosidade da autoria, aproximou-se da ribanceira, delimitada por um pequeno muro de pedras, que separava a estrada do terreno da parte debaixo, a horta do monte.

Ao fundo, pôde, então, verificar que uma rapariga, enquanto esfregava com força uma peça de roupa no ladrilho do tanque envolto por um extenso laranjal, cantava, entregue a si própria, uma melodia sobre os desenganos do amor. Era a Cilinha, a filha mais nova do dono do Monte das Gralhas. Olhou para ela e viu que era uma bonita moça, bem ao contrário daquela menina ranhosa e definhada que chegara à escola quando ele já estava a sair. Na altura, a completar a sexta classe, um quase homem a romper os poros, não olhou muito para ela, apenas lhe ficara na ideia a imagem de uma miúda pequena com um ar muito doente e com a qual todos se metiam, para puxar as suas longas tranças; mas agora parecia-lhe bem diferente, estava uma mulher de busto saliente e de pernas carnudas, bonitas apesar de alguma brancura de inverno que se enxergava sempre que ela se debruçava sobre o ladrilho para esfregar melhor o encardido da fronha. Gostou do que viu, e se os ares daquela primavera estendida pelos campos o tinham feito respirar melhor o dia, aquela nova paisagem de uma moça entregue a lavagens e cantorias ainda o acalentou mais, tanto, que lhe apeteceu meter conversa para ficar por ali, nuns momentos de cavaqueira soalheira ao sabor das laranjeiras que, em flor, já espalhavam um cheiro agradável por todo o lado.

Para criar assunto, resolveu fazer uma pequena brincadeira: atirar subtilmente uma pedra sobre a água do tanque e desta forma criar uma pequena diversão para que Cilinha soltasse um ai de susto e, qual casta donzela, ruborizasse quando o visse e lhe chamasse de maroto. Sem fazer muito ruído, felizmente que a mula continuava empancada como uma estátua, procurou uma pequena pedra para fazer o seu tiro, mas na altura da escolha achou que uma maior faria melhor efeito no cair das águas e provocaria, assim, sobressalto mais sonante, ideia que o levou a apanhar um calhau do tamanho da palma da mão. O espavento criado acabou por não ser propriamente a queda do objecto voador sobre o leito do tanque mas, sim, o grito de dor que Cilinha soltou – por força da fraca pontaria de José Bernardo – ao receber na sua cabeça a pedra robusta tão carinhosamente escolhida.

Foi com a cara dela num banho de sangue que chegaram os dois ao monte, o que provocou um alarido nunca visto, Dona Conceição e as restantes quatro filhas saíram em alvoroço ao seu encontro: quem teria tentado matar a sua bela menina? – só podia ter sido obra dos ciganos, que andavam a rondar o monte há algum tempo a tentar apanhar os animais mais soltos nos campos, felizmente que o Zé tinha passado e a socorreu. No entanto, aquilo que parecia ser uma tragédia imensa, afinal, não passava de uma pequena ferida na testa que, depois de lavada e tapada com um pequeno lenço a fazer de ligadura, depressa estancou e deu um outro ar àquela cara que ainda há pouco tempo se iludia como uma chaga total.

Já os ânimos estavam mais calmos, quando José Ramiro entrou na sala, soturno e silencioso, como sempre. O mulherio envolvia, na altura, José Bernardo e Cecília para tentar obter explicações sobre os acontecimentos, como tinha aparecido do céu uma pedra a voar, obra de Deus não era, só podia ser mesmo do diabo ainda que em forma de gente, e de gente sem eira nem beira que, quando aparecia, só trazia problemas, se calhar o melhor era chamar a guarda para pôr essa trupe das redondezas para fora.

– A culpa é da cadela da tua prima, que os deixa acampar no terreiro – disse José Ramiro para Dona Conceição, naquilo que foram as primeiras e as suas únicas palavras. Ainda que não percebesse muito bem o que se estava a passar, e no meio de um hálito a vinho, sabor constante no seu dia-a-dia, ele não deixou de culpar a parente da mulher por aquele acontecimento; desde os tempos de juventude que Amélia simbolizava todos os males que lhe desabaram em cima.

Conceição fez que não ouviu, já sabia que qualquer resposta sua, por muito boa que fosse, teria apenas como palavra de réplica o som do peso das mãos do marido. Maldito homem aquele que só lhe dera amargura, melhor seria ter caído morta no dia em que o seu coração parou ao ser roubado de amores por aquele jovem ceifeiro do norte que descera ao Alentejo apenas para fazer a campanha de Verão da ceifa; a prima bem a avisara, que ele era um interesseiro e que só lhe ia trazer desgraça, aliás a ninguém lhe assentava tão bem o nome de ratinho[2], com falinhas mansas levou-a no encanto mas depois roeu-lhe tudo, até a alma mais profunda. Se arrependimento matasse servia-o, por certo, todos os dias, de mansinho, em copos bem grandes de vinho, como ele gostava, até que aquela sombra de homem caísse redonda no chão e lhe devolvesse a serenidade necessária para o resto do pouco tempo que ainda tinha para corroer.

4. A morte pela fome é o que os espera.

Conceição e Amélia, primas, eram as únicas filhas moças dos dois grandes lavradores da região, os irmãos Mário e Afonso Bento de Oliveira, donos de quase todas as propriedades em volta de Vila Maria e arredores. Essa abastança não era de estranhar já que descendiam directamente do Comandante Pedro Vaz de Oliveira, homem de grande influência na corte que, com medo das aragens republicanas que começavam a soprar no raiar do século, decidiu largar os negócios do mar e mergulhar nos ofícios da terra; primeiro comprou quintas e montes para as suas caçadas – eventos de grande importância na região, pois, pasme-se, algumas delas contavam até com a presença de sua alteza real -, depois alargou horizontes para sementeiras e criação de gado. Em voz baixa, como sempre acontecia quando se falava da vida dos poderosos, dizia-se nas redondezas que muitas das herdades nem compradas tinham sido, umas artimanhas nos registos e os limites das propriedades foram alargados e unidos até ao alcance que a vista permitira.

No início da instalação da família em Vila Maria, as duas primas, quase da mesma idade, a estudar no melhor e único colégio de Lisboa para raparigas, raramente deixavam a capital para visitar as terras do Alentejo, o sol e o frio naquelas paragens distantes eram muito agrestes para a tão tenra e delicada pele das meninas; inclusive, quando acabaram os poucos estudos possíveis para qualquer moça da época, com os pais já definitivamente instalados nas propriedades, ficaram a viver no pequeno palacete nas Janelas Verdes, um casarão que a tempestade da República não tinha devorado, com uma velha tia solteirona. Apenas no natal de 1914, não só para as resguardar de possíveis ventos de guerra que começavam a soprar, mas sobretudo para as afastar de dois revolucionários republicanos que as cortejavam, simultaneamente, se instalaram na Quinta da Ponte e na Herdade das Gralhas, morada fixa de seus pais.

Nem o facto de se terem mudado dos ares da grande cidade para os do campo alterou as rotinas diárias das duas moças: ajuda nos labores de casa pela manhã – o pessoal se não for orientado na faz nenhum –, bordados e piano pela tarde – felizmente que na região havia um velho professor para continuar as lições –, continuaram a ser tarefas desempenhadas como se ainda vivessem no palacete. Mas se para Amélia a adaptação fora fácil – aquela paixão pelo jovem oficial não era coisa para si, ainda não tinha largado a rua do palacete e já o tinha esquecido –, para Conceição a mudança trouxera-lhe uma tristeza profunda, mais do que as calçadas de Lisboa, o seu coração sentia o vazio do rapaz que fazia vigílias debaixo da janela de seu quarto. Já o seu pai pensava mandá-la de novo para a capital – os meses de cama, a que caíra, pareciam definhá-la –, quando, subitamente, ganhou alento e novas cores; primeiro ainda pensaram que era do calor tórrido do Verão, que abrasava campos e corpos nos dias largos, mas depois suspeitaram que algo mais se estaria a passar, especialmente porque os passeios solitários que fazia todos os finais de tarde – coisa estranha na época para uma rapariga solteira – a deixavam com uma alegria cintilante no olhar.

Só com o cair do estio e o soltar da língua dos locais, os pais puderam verificar que a sua querida filha andava perdida de amores por um trabalhador temporário que naquele ano tinha vindo fazer a época da ceifa. Com um sorriso rasgado e um ar atrevido, ele depressa conquistara o coração delicado, ansioso de novos latejos, da mais formosa moça das redondezas com que se cruzava todos os dias nos campos contíguos do monte. Antes que o escândalo desabasse sobre a família, respiraram todos de alívio com o final da época de Verão: os ratinhos, homens do norte vindos a sul para trabalho de temporário, regressavam a suas terras, e Conceição, mais uma vez, ia esquecer os arrebates românticos. Enganaram-se; o rapaz, por vontades amorosas ou de cobiça, resolveu ficar por perto, a trabalhar num pequeno monte que não era de ninguém da família dos Bento de Oliveira, e desta forma continuou o seu cerco de namoro. Com todos os cuidados, o par apaixonado conseguiu manter secreto o romance, nem à prima, confidente de todas as suas mágoas, Conceição contou, sabia que ela desaprovava tal amor – já lhe o tinha referido várias vezes – e que iria, de imediato, contar ao tio, o que era a mesma coisa que contar a seu pai.

Quando um dia, ano e meio mais tarde, numa taberna de uma aldeia vizinha, os irmãos de Conceição escutaram uns risos sobre a família, que quase levou a briga de navalhas, é que perceberam como andavam todos enganados; o maldito aproveitador não tinha ido embora, pelo contrário, como caçador à espera da presa, manteve-se vigilante a montar a armadilha para atacar na hora certa. Ao chegarem ao monte, em galope acelerado, para avisar o pai e mandar a mana de imediato para Lisboa, a fim de purificar suas virtudes, verificaram que já era tarde demais para grandes decisões: Conceição, com 21 anos e julgando-se maior, partira sem deixar rasto, apenas escrevera um bilhete à mãe a pedir perdão pelo que ia fazer – a felicidade era um caminho que só pondo os pés nele é que se alcançava, e o dela começava ali, naquele momento, a ser calcorreado.

Ainda chamaram todos os homens do monte, mais os da herdade do tio, e resolveram fazer uma batida pela região, como se estivessem à caça de animal selvagem que atormentava gado sadio, mas foi em vão, o casal apaixonado sumira pelos trilhos esquecidos e nem o pó levantado deixara marcas para contar. Mário Bento de Oliveira amaldiçoou-os: nunca vão ver um grão de trigo desta terra, gritou ele à porta da casa grande do monte, perante todos os que tinham participado na busca e que regressavam sem notícias, a morte pela fome é o que os espera. Mas a morte veio de outra maneira e não esperada:

dez anos mais tarde, em 1926, ao ouvirem que Conceição vivia em Lisboa numa casa mal afamada, onde o homem que a desonrara a pusera a render nos vícios do prazer, os irmãos fizeram-se à estrada e foram até à grande cidade para lavar a honra e trazer o grão que ainda restava dela para casa, só que, quis o destino que naquele Maio houvesse pela capital grande alvoroço, e um não respeitar as ordem de um batalhão militar, que fazia parte do movimento que tomava o poder de então, fez com que fossem disparados vários tiros sobre eles – de certeza que eram mais uns anarcas republicanos, quiçá comunistas –, atirando-os para o rol anónimo das vítimas daquele dia[3] que a História haveria de marcar por outras razões que não a da procura da moça desonrada.

Sem filhos homem, a terra tragou-os sem piedade, e sem filha, o destino também a devorara, Mário Bento de Oliveira perdeu o rumo aos dias e foi desfazendo-se aos poucos, em gestos loucos de agonia. Perante o desnorte do marido – os negócios da lavoura morriam com a alma do dono -, a mulher, também Amélia, uma senhora da finada corte que um casamento arranjado um dia a fez cair por aquelas terras perdidas, resolveu entregar ao cunhado, Afonso Bento de Oliveira, a exploração de todas as propriedades, ficando apenas com o Monte das Gralhas para viver e ir enterrando lentamente o homem que se deitava na sua cama. A ameaça do marido, na sua alucinação perdida, andar a apostar as terras com qualquer estranho que lhe aparecia, fizera com que o cunhado a convencesse a ceder-lhe as propriedades de papel passado, com a promessa que um dia, se a filha voltasse, ele lhe devolvia tudo. Mas esse dia chegou e nada mudou.

Passados sete anos a filha, Conceição, voltou e apenas encontrou o Monte das Gralhas como seu, as terras que o seu olhar, em tempos, perdia de vista eram agora um pequeno horizonte que terminava logo lá em baixo, a seguir ao laranjal da horta.

Mário já não a viu o regresso da sua menina, a loucura comera-lhe ainda mais os dias tristes e numa tarde, corria o ano de 1932, foi encontrado caído, sem réstia de vida, debaixo do grande chaparro, onde costumava ficar desde o nascer até ao pôr-do-sol, agarrado ao tarro[4] grande que sempre o acompanhava e ao qual se referia como o pote das libras de ouro que ganhara com a venda das terras. Não se soube como a notícia chegara a Conceição, mas o certo, é que passado pouco tempo, apenas dois meses após a morte do pai, ela chegou ao Monte das Gralhas na companhia do homem que lhe traçara o destino.

Com 37 anos, Conceição perdera a graça e a leveza de menina fina, os cabelos dourados, outrora sedosos e bem penteados, eram, então, pardos e desalinhados, o corpo ganhara peso e disformidade, e a voz arrastava as palavras num som dorido; até mesmo José Ramiro já não mostrava a boa figura que impressionara em tempos, conservava ainda o grande porte, mas o seu trato já não seduzia, o seu rizo rasgado e cativante dera lugar a um ar carrancudo e de poucas falas. Apesar de tudo, a viúva recebeu-os de braços abertos, como se tivessem sido sempre íntimos da casa, e mandou preparar uma grande festa, para receber a filha pródiga, qual reincarnação bíblica. Chamou o cunhado viúvo da Quinta da Ponte, os sobrinhos Pedro e Amélia, sua afilhada, para que se voltasse a criar a santa união da família.

– Está na hora de virarmos o destino, quero que nos devolva tudo, a Sãozinha está aí de novo e agora é ela, com o marido, que devem tomar conta de tudo – pediu a viúva de Mário ao cunhado Afonso, num momento em que o afastou da mesa, cheia de fartas iguarias, para uma sala ao lado.

Obteve a concordância imediata do cunhado, mas não o seu cumprimento. Quis o destino, ou quem mexe cordas nele, que, logo no início da semana, a charrete, vinda da Quinta da Ponte, subisse ao Monte das Gralhas para irem todos à cidade, ao tabelião, desemaranhar os negócios, e descesse sem tal propósito; Amélia, filha de Afonso, ao subir ao quarto, encontrou a sua tia e madrinha, da qual herdara o nome, adormecida na cama com um sono de não acordar. No dia seguinte, foi enterrar Amélia, viúva de Mário, e toda uma negociata sobre as propriedades à volta de Vila Maria. Desde então, só mesmo algumas vozes populares comentavam os possíveis arranjos que se fizeram em tempos, nomeadamente quando viam a Quinta da Ponte a prosperar e o Monte das Gralhas a definhar. Conceição e José Ramiro não chegaram a ser informados do que se passara, e até aceitaram alguma ajuda do tio para voltar a pôr a herdade em funcionamento; só com o falatório do tempo, começaram a desconfiar que alguma coisa teria acontecido na sua ausência para que toda a imensidão de propriedades ficasse reduzida àquele meio hectare de monte. Um dia, ganharam coragem e resolveram confrontar os parentes, mas não obtiveram resposta a não ser a do azedume, que cortou relações e criou um silêncio que nem os natais davam voz.

José Ramiro, desiludido com a fortuna que não lhe coubera em sorte, pouco interesse deu à sua nova condição de lavrador, preferiu antes a companhia do vinho para matar o tempo. Não se sabe se por essa cumplicidade alcoólica, ou se porque acreditou nos rumores da fantasia popular que por vezes se faziam ouvir – a alma do velho Mário pairava naquelas paragens –, o certo é que também ele cismou com o suposto pote das libras de ouro que o seu sogro, em tempos, teria enterrado perto do monte. A procura, a partir de uma certa altura, tornou-se uma obsessão e passou a maior parte dos seus dias a cavar locais que os seus sonhos ditavam. Na aldeia, murmurava-se que o espírito do velho Mário viera para o atormentar, numa vingança tardia, e o pôr tão louco quanto ele tinha ficado com a perda dos seus filhos.

O que Conceição fizera em Lisboa, ou em qualquer outro sítio onde teria estado, nunca se soube, ela chegou, instalou-se e, como cortara relações com a prima Amélia, não falava com ninguém. Primeiro sozinha, depois com a ajuda das filhas, cinco que vieram de seguida, levou em frente a pequena faina do Monte das Gralhas.

Todos acharam estranho que uma mulher chegasse ali com 37 anos sem nenhum rebento e depois, de repente, desatasse a parir filhas de enfiada; havia mesmo quem dissesse que o buxo dela estava tão imundo com as porcarias que fizera em Lisboa, que fora preciso a pureza da terra para o limpar. Mas a mais misteriosa das gestações foi quando, aos 52 anos, teve o último filho, desta vez varão, sem que praticamente ninguém desse conta, o que também não era difícil pois a sua clausura no monte era quase total. O povo comentava, como sempre, que José Ramiro devia ter emprenhado uma empregada que andara lá pela propriedade durante uns tempos e que Conceição assumira o filho como seu para não criar problemas, a rapariga era muito jovem e não tinha família. O desaparecimento súbito da moça, de um momento para o outro deixou de ir fazer as compras na venda da aldeia – era ela que tratava do avio do monte –, ainda enrijou mais o dito popular.

Apesar de todos os ditos, bradados no silêncio cortante da língua populares, Conceição palmilhou os dias e a pequena terra para sustentar a família que lhe coubera como sorte da sua paixão. Na paz da noite, rezava para que Deus cortasse o fio que a ligava a um amor distante; só assim os dias voltariam a ser seus.

5. Isto de andar por aí ao deus dará não é coisa para um homem aguentar a vida inteira.

Não bastasse o alarido por causa da pedrada na cabeça de Cilinha, e novo alvoroço surgiu: os coelhos, que tinham ficado esquecidos a um canto, nos sacos dentro das alcofas, cansados de estar naquele espaço apertado, conseguiram sair e resolveram espalhar-se pela casa toda. Só o grito de Otília, outra das filhas de Conceição e José Ramiro, por medo de ter visto uma ratazana gigante a passar, deu conta do sucedido. Foi preciso algum tempo para que os bichos voltassem a estar em local seguro; o último foi mesmo apanhado debaixo de uma cama, só por sorte não entornara um bacio que ficara esquecido de despejar na estrumeira atrás do casario.

Estava José Bernardo a passar revista ao celeiro – não se tivesse algum coelho escapado por ali, já que a porta do fundo, que ligava a casa àquele espaço onde guardavam algumas rações para os animais, estava aberta -, quando sentiu que alguém entrara; voltou-se e viu, por detrás dos sacos, Adelina, a noiva, irmã de Cilinha, que ia casar no domingo seguinte.

– Há muito que não te punha a vista em cima, o que é feito de ti? – perguntou ela.

– Tenho andado por aí – José Bernardo respondeu sem voltar a cara, continuou a sua procura dos coelhos, tinha quase a certeza que já estavam todos encontrados, afinal uma dúzia eram doze e era este o número de animais que recolhera, mas ainda assim restava-lhe a dúvida se a avó não teria posto um a mais do que a encomenda, como oferta aos noivos; ela tinha dito qualquer coisa sobre isso, mas ele não prestara grande atenção, maldita cabeça que está sempre na lua.

– Ouvi dizer que não andas por bons caminhos.

– Não ligues ao que dizem.

– Não ligo, até porque os meus também não são grande coisa – e soltou aquela gargalhada alta e irritante que era costume em Adelina, mulher que José Bernardo conhecia muito bem, tinham sido colegas de escola desde a primeira classe.

Ele não respondeu, mas por dentro concordou. Aquela rapariga nunca batera bem de cabeça, ainda lhe vinha à memória, andavam eles na sexta classe, o dia, em que ela o convenceu, conjuntamente com outros dois colegas, a se meterem debaixo do pontão que havia por detrás da escola para baixarem as cuecas e mostrarem o que tinham dentro delas. Pela primeira vez viu o sexo de uma mulher, ainda que muito moça, e quase o tocava, ela permitira que na brincadeira pudesse haver algum contacto, mas o maldito cão da professora apareceu por ali a farejar, o que trouxe de seguida o próprio filho da mestra, que o procurava, e acabou com tudo, calções para cima e saia para baixo antes que viesse mais alguém e os visse naqueles preparo. Não foi preciso vir, bastaram alguns minutos e a escola inteira já sabia do acontecimento – aquele miúdo sempre fora um queixinhas –, pois o intruso mal saiu do pontão, correu aos gritos até à sala da mãe a dizer que a Adelina estava a fazer coisas feias com uns rapazes. A professora Gertrudes quase que teve um colapso, não propriamente com a notícia, mas, sim, depois, com a valente sova à reguada que deu nos quatros protagonistas, em frente a toda à classe. José Bernardo só se lembrava de a ver também assim, possuída por uma fúria avassaladora, em que as suas carnes gordas tremiam todas ao som das fortes pancadas, numa outra manhã de escola, andava ele na terceira classe, em que, com medo de pedirem mais tinta para o tinteiro – ela fazia sempre um alarido imenso com os gastos de material -, resolveram urinar para os mesmos, aproveitando uma ida da mestra à casa de banho, e foram, depois, apanhados, ela voltara para trás porque se esquecera de algo. Apesar de as fúrias poderem ser irmãs, a vergonha foi diferente: enquanto no dia dos tinteiros, depois de passado o amargo da pancadaria, foi uma risota com a traquinice que tinham feito, naquele episódio do pontão o silêncio da mão pesada do pai de José Bernardo, chamado à escola em vez da madrinha, foi forte; mesmo assim, não fora tanto como o cinto de José Ramiro que deslizou sobre o corpo de Adelina desde o portão da escola até à porta de casa do Monte das Gralhas, criando feridas de vergonha que demoraram meses a sarar.

Adelina não se incomodou muito com a falta de conversa do seu antigo colega, permaneceu no celeiro e ajudou-o a procurar o coelho que poderia andar por ali. Ela manteve-se sempre bem junta a José Bernardo, medo dos ratos foi a justificação arranjada para semelhante colagem. Ele tentava não dar importância àquele corpo de mulher roliço quase enfiar-se por debaixo dos seus braços, pôde, inclusive, sentir os cabelos dela roçar-lhe o queixo, ela sempre fora atrevida – nos bailes da casa do povo, os rapazes faziam fila para a tirar para dançar, pois, ao contrário das outras raparigas, não impunha uma certa distância e permitia que, num movimento mais atrevido, se pudesse roçar nela –, mas agora estava a ser demais, em véspera de casar oferecia-lhe o corpo no meio dos sacos de farinha. Antes que ele se afastasse ou dissesse algo, Adelina virou-se, espetou as suas mamas na barriga dele e meteu-lhe a mão por entre as calças.

– Adelina, ganha juízo, estás prestes a casar – tentou José Bernardo dissuadi-la daquela brincadeira, já não eram crianças e aquilo podia acabar mal – imagine-se se entrava alguém –, mas ela ignorou o seu pedido e ainda foi mais atrevida, agarrou-lhe na mão e colocou-a entre as suas pernas quentes, por debaixo da saia.

– Deixa-te de conversa, mexe naquilo que não acabaste um dia e esquece a merda do casamento. Já estou prenha e tudo, nem há problema.

Mas para José Bernardo havia problema: a qualquer momento podia aparecer alguém e, acima de tudo, a existir mulher naquela casa que ele desejasse não seria propriamente a que se lhe oferecia; Cilinha, com o seu jeito meigo, tinha-o encantado e ele queria aproximar-se para ver se havia hipóteses de namoro. Atirar Adelina energicamente para cima dos sacos foi a única solução, libertou-se daquela tentação e saiu do celeiro de imediato, por certo eram mesmo só doze coelhos que a avó tinha enviado, não havia que procurar mais.

– Frouxo! – ouviu ainda Adelina gritar, mas ele seguiu em frente, tinha que sair o mais depressa dali antes que a força dos calores de um homem lhe fizesse fraquejar os propósitos das razões; na pressa, nem ouviu dona Conceição a chamá-lo para lhe pagar os animais, só à porta o pararam.

– Ouve lá, o que é que andas a fazer? – perguntou-lhe José Ramiro ao sair, na sua voz arrastada, sentado num poial da porta, o que lhe provocou um certo embaraço, será que ele teria visto alguma coisa?, uma única tarde naquele monte e já tinha duas coisas para esconder, a pedrada e o amarfanho no celeiro. – Ouvi dizer que andas meio perdido desde que a rapariga te largou e a outra cadela te enxotou.

– Cá me arranjo, uns dias melhor outros pior – José Bernardo tentou cortar a conversa para ir montar a mula, que o esperava atada à porta da vacaria.

– Olha, eu preciso de um homem a sério aqui no monte, estou a ficar velho, o gaiato ainda é muito novo e o mulherio não serve.

Não foi necessário muita palestra para o convencer, era tempo de começar um novo rumo, e a partida podia estar mesmo ali – isto de andar por aí ao deus dará não é coisa para um homem aguentar a vida inteira –, tanto mais que agora havia uma voz melodiosa que o fazia imaginar dias melhores: o rouxinol Cilinha. Sem regatear jorna ou lidas, José Bernardo aceitou a proposta e acertou que na segunda-feira seguinte estaria no monte para arregaçar os braços.

– Aparece no domingo aí na boda, sempre bebes um copo.

Voltou o pôr o fato que lhe destinaram para o seu próprio casamento, e na hora marcada juntou-se ao cortejo na igreja. Uns olhares trocados e uns sorrisos contidos foram o suficiente para que tivesse a certeza que o namoro com Cecília tinha pernas para andar; nesse mesmo dia, na festa da boda, foi um dançar contínuo toda a noite, o que motivou logo falatório dos presentes e a irritação disfarçada da noiva, não era pela mão da mana que queria ver aquele homem entrar em sua casa.

Poucos dias passaram e o namoro já era oficial, José Bernardo estava autorizado a ir todos os domingos à janela por detrás do monte empoleirar-se em cima de uma pedra, o parapeito era alto, para conversar de coisas bonitas com Cilinha e poder mexer na suas mãos; o gradeamento que protegia a abertura não dava para muito mais, apenas um beijo roubado, rápido, se ninguém tivesse a ver, e com muito cuidado, não fosse acontecer o que ocorrera na primeira vez em que o tentara fazer, um caso que poderia ter acabado numa tragédia. Ele, no fogo de a poder beijar, entrara com a cabeça pelas grades dentro, mas, depois de cumprido o desejo, não a conseguira tirar, por mais que rodasse parecia que aquela parte do corpo tinha crescido; a situação ainda viria a piorar mais quando o apoio que lhe sustentava os pés, duas pedras sobrepostas, resvalara e ele ficara completamente suspenso; valera-lhe a sua boa condição física para se agarrar às grades, evitando um enforcamento na certa, e a força de Cecília que o empurrara, aflita para não ser apanhada naquele embaraço. Quando no dia seguinte lhe perguntaram o que lhe acontecera às orelhas, que ostentavam umas feridas de tanto terem raspado nos ferros do gradeamento, ele lá se desculpou que caíra da mula.

A notícia do namoro depressa se espalhou, José Ramiro fez questão que se soubesse bem do novo pretendente da família, não só para mostrar que as suas filhas não estavam encalhadas – a mais velha já tinha 27 anos e não havia quem lhe pegasse, de todas só Adelina conseguira casamento e mesmo assim o povo comentava que tinha sido arranjo à pressa, o rapaz era meio tonto e nunca fora visto a cortejar quanto mais aparecer como noivo –, mas também para que Amélia tivesse conhecimento que o seu querido afilhado ia constituir vida dentro da família que ela tinha renegado. Sedento de vingança, desconhecia o tamanho da tempestade que os seus ventos semearam.

– Dr. Covas, quero que trate de aplicar o que está escrito e lavrado em lei há muito tempo e que eu, na minha imensa bondade, nunca fiz valer. Finalmente o Monte das Gralhas vem para mim por direito. Deixei-os por lá por pena, por serem da família, mas eles não olharam a meios para me atingir, agora sofrem as consequências, paciência tem limites. Já agora, numa próxima vinda à quinta traga também o escrivão para redigirmos de novo o meu testamento, está na hora de tirar das sortes da minha vida aquele maldito e mal-agradecido rapaz.

As palavras de Amélia, enérgicas e dramáticas como sempre, foram ditas ao advogado, chamado à Quinta da Ponte de urgência, no próprio dia em que tomara conhecimento do novo namoro do afilhado; havia que providenciar medidas, não podia esperar que aparecesse sempre um bando de corvos para cumprir os seus desígnios, desta vez tinha que ser ela mesmo a bater as asas para que a ira das suas ordens sobrevoasse o Monte das Gralhas e cobrisse de negro o seu destino.

6. A dor de desgosto, quando é forte, parece bebedeira.

A noite devolvia o barulho silencioso dos luares de Agosto, apenas umas cegarregas cortavam a calma quente dos campos. José Bernardo sentia que os seus passos, um calcar estaladiço no restolho, o denunciavam, não estava habituado ao terreno nem a caminhar na penumbra, ao contrário do seu futuro sogro, José Ramiro, que parecia levitar, tal era o sossego que a sua andança fazia; notava-se que ele conhecia bem o caminho, procurava o chão mais solto, sem pasto nem arbustos, para pôr os pés, também não era de estranhar, aquela pequena courela, junto ao rio que separava Portugal de Espanha, era sua há muito – ainda que distante, fazia parte da propriedade do Monte das Gralhas que ficara com a família. Terra de regadio, onde semeavam o meloal e o tomatal de cada ano, tinha por lá umas belas árvores, precisamente uma nespereira, uma amoreira e uma nogueira, onde a passarada se reunia no seu descanso nocturno, facto que fez José Ramiro convencer José Bernardo a participar numa caçada com pressões de ar e redes; dentro em pouco, a bicharada levantaria voo para rumos mais a sul e depois já não havia tempo para se fazer aquele bom petisco de passarinhos fritos.

A técnica foi boa; ao primeiro disparo caíram alguns pássaros e outros tantos ficaram presos nas redes colocadas nos ramos. Ainda estavam a recolher para um saco, quando ouviram passos, José Bernardo pensou que seria a guarda e que iam ter chatices, apesar da venda livre das pressões de ar, a caça aos pássaros não era permitida, especialmente à noite, mas, por certo, uma boa conversa com a autoridade resolveria o assunto, deviam de ser de um posto perto e, assim, provavelmente conhecidos. Enganou-se, nem era guardas nem conhecidos, pelo menos seus, já que do futuro sogro não tinha tanta certeza, o homem aproximou-se logo dos invasores e começou uma conversa com eles um pouco estranha. Antes que pudesse compreender alguma coisa, afastaram-se todos em direcção a um pequeno casebre, onde se guardavam alfaias, deixando José Bernardo a assistir ao longe a inusitada cena; por um momento, pensou que a caçada fora apenas um pretexto para aquele encontro e que os primeiros tiros tinham sido uma espécie de aviso para assinalar que estavam ali.

Ao fim de poucos minutos, os homens que tinham aparecido do meio do nada, depois de carregarem uns sacos, desapareceram na noite; o luar forte de lua cheia permitiu ver que se fizeram ao rio, nada de estranho, naquele sítio, com o caudal de Verão tão baixo, era fácil de passar para o outro lado.

– Esta merda das sementeiras não dá nada, uma pessoa tem que fazer pela vida de outra maneira – justificou-se José Ramiro, perante o silêncio acusatório de José Bernardo

– Cada um sabe de si – foram as únicas palavras que José Bernardo devolveu como resposta.

As mulheres, ainda a pé, estranharam a volta mais cedo e com tão pouca passarada no saco, mesmo assim, trataram logo de os depenar para a carne não ganhar mau gosto de sangue morto.

O Verão acabou, não houve mais caçadas, mas as idas à courela, pela calada da noite, repetiram-se, a necessidade de um homem forte na herdade, que Ramiro invocara no momento em que o convidara para trabalhar no monte, era apenas um reforço para o negócio de contrabando que ele promovia a partir de suas terras, pois havia dias que o vinho tolhia-lhe as ideias e os movimentos, e só mesmo uma outra pessoa de confiança o podia substituir.

José Bernardo depressa aprendeu o ofício, bastava-lhe ir ao local para entregar mercadoria, a fim de ser passada para o outro lado, ou receber a que vinha do outra margem, limitando-se, assim, a gerir apenas o casebre, que acabava por funcionar como uma espécie de entreposto; depositavam-se os bens logo após a travessia ou antes dela, para que, depois, o caminho pelas redondezas fosse feito em segurança, pela luz do dia, nas carroças ou zorras, que transportavam habitualmente palha ou sementeiras, evitando-se, assim, suspeitas de maior. Café para Espanha e mercearias para Portugal, era este o fluxo comercial que se fazia mover por ali. Alguns vendedores ambulantes, uma pequena descendência dos almocreves, recolhiam de lá, nas suas carroças, os bens que depois iam vender pelos montes e aldeias da região, juntamente com pão, fruta ou hortaliça. A vida, como sempre, dava a suas voltas; um rapaz que estava fadado para grandes destinos, acabava, assim, um mero peão do contrabando local, coisa que, na boa da verdade, não o desgostava muito, sabia-lhe bem aquela tarefa de chefe de armazém, sem grandes responsabilidades, até porque ele nunca tivera muito jeito para as artes da lavoura, a madrinha não o deixara sair debaixo de suas saias, fizera dele quase uma menina – assim o gozavam, por vezes – de tão borralheiro o ter criado. Com o novo ofício, finalmente ganhava um certo respeito na zona, coisa que nunca conseguira até ao momento; apesar do negócio ser secreto, todos sabiam dele, inclusive os guardas que faziam vista grossa, uma passagem pelo Monte das Gralhas e uns chouriços e morcelas resolviam o problema de visão.

A fama secreta de guarita de passadores chegara bem longe, um dia até o seu irmão António apareceu, de surpresa, como sempre, e fez-lhe um estranho pedido: que escondesse dois homens no casebre da courela e que os ajudasse a atravessar para o outro lado na companhia dos contrabandistas que viriam buscar café.

– O que faço não é muito certo, mas daí a ajudar criminosos vai uma grande distância – contrapôs José Bernardo à proposta do irmão.

– Lutar pela liberdade não é crime, é um dever do homem verdadeiro – respondeu-lhe António com o seu eterno jeito de enfatizar grandes princípios em cada sentença.

José Bernardo não argumentou mais, não percebia muito daquelas coisas políticas que o irmão falava, para ele o governo nunca lhe tirara a liberdade – só a maldita madrinha o fizera e contra essa ninguém se revoltava –, e acabou por aceder ao pedido do irmão; apesar de não compreender as suas ideias, tinha-o como um homem bom, assim, ele nunca lhe ia trazer gente de má rês para dentro de casa. Instalou-os no barracão durante alguns dias, até arranjar passadores que os levassem para Espanha; tinha guardado uma remessa grande de café que devia estar a ser procurada e os homens que normalmente faziam o seu transporte eram de confiança, por certo, a troco de umas pesetas, os levariam e os deixariam no vilarejo mais próximo.

Durante os 3 dias que estiveram fechados no seu lugar, até conseguir passagem, ele levou-lhes comida, pão, chouriços e um tarro com grãos, para que comessem alguma comida quente. Os dois homens não eram de grandes conversas, além de uns obrigados pouco mais lhe arrancou; não fora uma curta conversa que escutara à porta antes de entrar, eles estavam envolvidos numa acesa discussão acerca de traições, e nunca soubera que eles tinham fugido da prisão. Quando entrou, fingiu que nada ouvira, havia coisas que era melhor nem saber, o importante seria que eles fossem embora dali o mais depressa possível, com sorte nunca mais os veria e desapareceriam da sua vida, que até podia não ser grande coisa, mas não tinha complicações com gente do governo. O que José Bernardo não contava, era que dali a muitos anos haveria de reconhecer um deles, na televisão, como pessoa importante do novo regime.

José Ramiro, à medida que foi ganhando confiança no homem que namorava a sua filha, afastou-se daquelas traficâncias e preferiu continuar a sua procura da quimera das libras de ouro que um dia o antigo dono daquelas terras havia de ter enterrado como consolação da má fortuna que lhe batera à porta. Ponham mas é umas sementes atrás dele, diziam, ao menos o revolver da terra servirá para alguma coisa, já que de tesouro não havia meio de dar fé. Aquela loucura do sogro, alargada pelos copos de vinho, acabava por ser uma bênção para José Bernardo, dessa forma ficava afastado dele; apesar do grau familiar que estava prestes a criar e de ter sido bem acolhido, havia naquele homem algo de sombrio que o incomodava, bastava ele chegar a casa que a vozearia das mulheres logo era calada – como se espectro fosse, carregava de imediato nos olhares delas um silêncio temeroso.

– Não é má pessoa, mas com os copos tem um feitio terrível, é melhor não o provocar – comentou uma vez Cilinha numa conversa de raspão; o pai não era agrado do seu falar, preferia contar detalhes sobre as peças do enxoval que cuidava dia a dia nas tardes sossegadas do monte, estava a ficar tão bonito, especialmente uma colcha de renda que queria ver estendida na sua cama na noite da boda, isto se a saúde lho permitisse, os males que tinha tido durante a infância pareciam que não gostavam de alegria. Ao ficar de namoro os padecimentos de outrora voltaram: uma fraqueza de borboleta, uma tosse constante e uma palidez fora do comum, mais parecia pele de menina estrangeira, levaram-na de novo a andar de doutor em doutor – coisas da idade, quando crescer isso passa, foi sempre o que lhe disseram -, mas agora já trazia consigo 20 anos, as mudanças do corpo tinham acabado o seu ninho há algum tempo, e o mal, além de não passar, alastrava a cada dia.

***

Namoros grandes dão canseira ou acabam com gente solteira, frase da avó Bernarda que o neto tomou em consideração, até porque já tinha provado o seu real sabor; assim, marcou casamento com Cecília, a sua Cilinha, para o final do Inverno seguinte, no fim da campanha da azeitona e antes das sementeiras da Primavera, quando as lides dos campos amainavam e havia mais tempo e cabeça para preparativos, aquela boda tinha que ser em grande. Mas os pensamentos esponsais foram roubados naquela manhã, princípios de Novembro, em que a guarda apareceu no monte com uns papéis do tribunal, ficaram todos mudos com o que estava escrito naquela linguagem esquisita de gente letrada.

– Vou matar aquela puta! – berrou José Ramiro, ainda sóbrio, quando soube que a prima da mulher tinha mandado executar uma acção de despejo do monte; afinal, ainda que ninguém o soubesse, a propriedade sempre tivera em nome da parentela velhaca e ela podia fazer o que quisesse.

No meio de todo o pranto feminino que de imediato se instalou, umas gritavam em lágrimas por se verem expulsas, outras apelavam ao pai para que não pegasse na espingarda e se desgraçasse, José Bernardo tentava manter a calma:

aquilo era só um aviso e ainda havia muita coisa que se podia fazer; para começar ia falar com um doutor da cidade, que ele conhecera nas idas à casa da rua florida – cruzaram-se nas escadas várias vezes e acabaram a beber uns copos no café da praça central –, o homem percebia de leis e havia de o ajudar, pois não devia ser ajuste fácil mandar porta fora quem ali viveu longo anos.

Realmente não era; Amélia vira as suas primeiras tentativas serem ignoradas, quando em Maio do ano anterior tinha entrado com o processo: a figura de usucapião, ainda que à data a lei não o dissesse claramente, já era reconhecida, o que concedia, assim, algum direito a quem sempre viveu num sítio. Só mais tarde, já com a actuação do amigo advogado de José Bernardo em curso, uma intervenção directa de Amélia com o juiz, amigo de um grande amigo de seu pai, pessoa do governo, fez com que a sua pretensão seguisse em frente, mas, ainda assim, não da forma como ela queria: os parentes poderiam ficar no Monte, desde que lhe pagassem uma renda, estabelecida por lei, não tendo necessidade de partir de imediato, com os bens empilhados em carroças, não mais de duas, para terras bem distantes da sua vista e do seu escutar – pior do que ver, é saber por línguas alheias da felicidade de alguém que não queremos.

O inverno chegou e ninguém deu por ele, há muito que o frio e o cinzento invadira os dias daquele lugar. Ainda que a situação estivesse entregue nas mãos de um advogado, que lhes garantira que não podiam sair dali sem mais nem menos, as gentes do Monte das Gralha recolheram-se num quase luto: o abandono do seu lugar de sempre era uma sombra que pairava no ar, como pássaro agoirento à espera de ovelha moribunda; e o estado de saúde de Cilinha agrava-se a cada momento, nem mesmo a ilusão de um casamento próximo a fazia arrebitar, até as rendas do enxoval foram interrompidas dada a falta de forças para pegar em agulhas e linhas. A agravar a angústia, o menino de Adelina, nascido na entrada do frio, também apresentava problemas, mal abria os olhos e não mexia um braço. Deu-lhe a moléstia, foi o diagnóstico nefasto do avô nas únicas palavras que lhe dirigira. Realmente, o homem não tinha tempo para grandes palavras, o seu estado piorava a cada momento; talvez, pelo medo de perder tudo o que tinha, inclusive o sonho do tesouro, resolvera apressar a sua demência e começar a dedicar cada minuto à procura das fantasiosas libras de ouro; a ira contra a prima depressa se transformara em alucinação, esquecera os insultos e as promessas de a matar, e dedicava-se a cavar e cavar terra, desde o nascer do sol até a noite alta, altura em que recolhia a casa, para amargura maior da mulher e filhas que ansiavam que ele ficasse lá por fora os dias completos.

***

O ano de 1961 entrou e nem por isso trouxe melhores sortes, pelo contrário, parecia que repetia desígnios do Janeiro anterior;

logo nos primeiros dias as novas do advogado não foram boas, as terras eram mesmo de D. Amélia Bento de Oliveira e a família do Monte das Gralhas só poderia lá ficar se pagasse uma boa renda anual, bem como uma compensação por todos os anos que lá viveram e nada desembolsaram;

e não adiantava recurso, a forma como ela chegara ao juiz tinha assinatura e força de coisa bem graúda para, depois, se repetir em estâncias superiores, além disso, embora o homem das leis não o dissesse, ele sabia que se insistisse muito no caso a sua clientela da cidade ficaria contada a quase nada, quando se metiam com poderosos a justiça não era coisa de direito mas de vontades.

No entanto, a pior notícia estava para vir;

num dia em que escutavam, na cozinha, ao calor do lume, a Emissora Nacional – tinham roubado o navio Santa Maria[5], uma pérola de Portugal, uns terroristas, gente de má espécie, assaltaram o paquete que andava pelas Américas e desviaram-no, com inocentes a bordo, para parte incerta, só podia ser obra de comunistas –, Adelina foi lá dentro, ao quarto, ver como estava a sua criança e Cilinha, esta já não se levantava há dias, o mal tolhia-lhe as forças, e voltou lavada num pranto:

a irmã estava gelada e quieta na cama, hirta como os finados no seu leito final.

Naquela noite nem os cães se ouviram, tudo ficou mudo para que os gritos do carpido das mulheres se fizesse soar bem ao longe.

Cecília foi enterrar passados dois dias; não contando a população local, que nunca faltava a um acontecimento daqueles, especialmente se o defunto fosse gente nova, apenas as mulheres da sua vida a acompanharam na efectiva descida à terra.

O pai não disse uma palavra sequer sobre a morte da filha, nem se sabe se entendeu muito bem a notícia, remeteu-se apenas ao seu alucinado silêncio que interrompia apenas para vociferar contra uma suposta assombração que o acompanhava, e na qual ele despejava toda a sua ira verbal, uma espécie de alma expiatória que o fazia libertar uma conversa que ninguém entendia. Enquanto o caixão saía porta fora, a caminho do cemitério, ele lá continuou debaixo do chaparro que ultimamente era quase a sua casa – ali permanecia sempre que não estava a cavar –, sem que desviasse, por instante mínimo que fosse, o olhar ou a emoção para o último passeio da sua menina mais nova.

O outro homem da vida da defunta também não viu os torrões secos – ia um inverno que não se avistava pinga de chuva – a cobrirem as tábuas da alcova final de sua amada; José Bernardo ainda acompanhou o corpo até à aldeia, mas logo que ele entrou na rua principal, a fazer os passos finais para o cemitério, saiu do cortejo de soslaio, qual alma penada que se esfuma, e dirigiu-se à Quinta da Ponte.

***

Mesmo sem conhecer muito bem a rapariga – vira-a apenas algumas vezes, quando miúda, na missa -, Amélia desceu até à capela para rezar um pouco pela alma daquela sua parente; ao que lhe constava, ela nunca tivera grande saúde, mas ninguém merecia tal sorte de encontrar uma morte tão cedo, especialmente quando se tinha um pai como aquele; esse sim, já devia ter ido há muito e continuava a vadiar por ali. Esperou um pouco no jardim até ouvir o repicar dos sinos do cemitério, benzeu-se e entrou em casa. Estava só, Ermelinda, a criada, também fora ao funeral – na terra toda a gente se conhece, fica mal se não for –, e o resto de pessoal raramente tinha ordens de entrar na casa grande, a não ser que a patroa quisesse dar algum recado especial. Ao retirar o véu preto que colocara na cabeça para rezar, apesar de estar na sua capela não podia ir descomposta, veio-lhe à cabeça a imagem da morte e como era coisa frequente na família; desde que se lembrava, que aquela sombra invadia constantemente os beirais de sua casa como se houvesse uma certa maldição entranhada nas paredes, mas depressa largou a cisma, se calhar era só impressão em dia de gente finada, afinal, falecimentos aconteciam a todos, pois, no fundo, a vida era isso mesmo, um desfile contínuo de fins para nos acamar o nosso.

Quando entrou no quarto, para descansar um pouco até ao jantar, que por certo ia ser tarde, Ermelinda ainda tinha que vir do enterro e fazê-lo, ficou estarrecida com o que viu e soltou um grito, não muito alto, quase abafado: José Bernardo estava deitado na sua cama, todo nu, destapado como se estivesse a dormir uma sesta no pino do Verão.

– Venha madrinha, venha de vez provar aquilo que sempre quis – disse-lhe ele, esticando bem as pernas para, assim, exibir ainda mais o corpo.

– Tu estás louco – proferiu ela, com a voz a sumir-se; por muitos raios que caíssem na sua cabeça, nunca podia imaginar uma cena indecorosa daquelas, mesmo ali, debaixo do seu tecto, na sua cama, um altar onde tantas noites rezava terços a fio.

– Deixe-se de merdas, vamos acabar com isto de vez, cansei das suas pragas tristes de mulher vazia.

– Bruto, não é nada disso.

– É, madrinha, é! Não adianta disfarçar com festinhas e beijinhos molhados na pele da cara, é isto que quer, sempre quis, mesmo que não o saiba. Vá, venha e sirva-se, que já é hora de acabar com o enguiço.

Chocada com a imagem impudica que se lhe apresentava aos seus olhos, nunca esperou viver para ver coisa assim, deixou-se cair no cadeirão de forro aveludado, colocado ao pé da porta, que servia de apoio àqueles que a visitavam quando ela estava adoentada; ultimamente a sua saúde não andava boa, só preocupações, só consumições, não há mulher que aguente, especialmente quando já se tem uma certa idade e o coração começa a dar avisos, talvez os sinais de Deus, ele assim quererá.

José Bernardo levantou-se mas, contrariamente ao que a madrinha esperava, pelo menos ansiava, não pegou na roupa, dirigiu-se a ela e expôs-lhe bem à frente dos olhos toda a sua nudez, encostou mesmo, ligeiramente, as partes à cara de Amélia, o que lhe fez sentir uma estranha sensação: a respiração ofegante dela soprava nos seus pelos púbicos e causa-lhe umas cócegas quentes.

– Então, não apanha, agarre o mangalho e acabe com isto de uma vez?

Amélia não reagiu, manteve-se quieta, até porque qualquer movimento, por mais pequeno que fosse, poderia implicar tocar nas carnes do afilhado, e logo na sua parte mais pecadora; como podia ele fazer aquilo?, tinha que estar bêbado, o desgosto levara-o à perdição, por certo, se calhar tudo influência daquele maldito do Ramiro, que onde toca põe o diabo a feição. José Bernardo, numa última tentativa para lhe provocar uma reacção, agarrou-lhe nas mãos e esfregou-as no seu próprio corpo, começou pelo peito e acabou no sexo:

– Toque, apalpe bem esta carne que sempre quis e nunca ousou pedir, não basta festinhas na mão e na cara enquanto conta histórias da carochinha, mexa agora nas partes verdadeiras e volte a contar uma das suas lengalengas. Acabe com isto de vez, lambuze-se e liberte-me para a vida.

Um esticão repentino – quando sentiu as carnes a crescer na mão – levou a que José Bernardo fosse atirado para o chão; a velha Amélia ainda tinha forças quando queria. Com aquele gesto abrupto, conseguiu soltar-se e sair do quarto. À porta ainda lamentou o dia em que o acarinhou – criei uma víbora no meu colo –, melhor seria não se ter rendido àquela carinha risonha quando a viu, já devia ser a tentação demoníaca fingida de anjinho, agora ali estava ele, possuído pelas forças do pecado, a pô-la à beira da morte – a vida não se aguenta com arrebates assim -, oxalá a Ermelinda já tivesse vindo, havia que a mandar matar uma galinha de imediato, só uma canja bem forte, com muita hortelã, lhe dava ânimo para esquecer o padecimento que acabara de viver.

Quem diria que a morte de uma parente de falas cortadas a ia pôr naquele estado, pensou para os seus botões a criada, Ermelinda, quando chegou e a encontrou completamente alucinada a andar de um lado para o outro e a dizer coisas sem tino; mal sabia ela que a patroa tentava expiar, assim, através de um taramelar oratório, o fogo que lhe ia na alma por ter visto o afilhado naqueles preparos despudorados, pior, por a sua mão lhe ter tocado nas partes imundas.

José Bernardo saiu da casa a cambalear, faltavam-lhe forças e clareza nas ideias para perceber o que acontecera, ainda não tinham passados muitos minutos e já não se lembrava de quase nada. Uma coisa percebeu naquele dia, a dor de desgosto, quando é forte, parece bebedeira.

7. O mal mais ruim é aquele que dorme dentro de casa.

O sexo do afilhado, imponente – quem diria que um franganote como ele era em criança, ia dar um homem assim –, voltava a invadir-lhe a cara, com uma certa veemência, quase não a deixando respirar. Amélia gritou.

Ermelinda largou a rodilha com que limpava as mãos na cozinha, e foi até à sala pequena, mesmo ao lado, ver a razão de semelhante bramido, a D. Amélia devia ter adormecido de novo sentada à mesa – um braseiro debaixo da saia da camilha e caía logo em sono profundo -, o problema é que ela agora não podia fechar os olhos e tinha logo pesadelos como as crianças; não sabia o que se passara, mas desde o dia do funeral da Cilinha, em que encontrara quase tresloucada a caminhar sem sentido pela cozinha, que andava assim, estranha, cabisbaixa, a patroa nunca fora de muitas falas, mas ao menos, quando era para dar ordens, fazia ouvir-se bem alto.

– Então D. Amélia, o que lhe sucedeu? – perguntou-lhe a criada apenas para fazer conversa, a resposta não lhe interessava muito, já sabia o que ia dizer, que era só um pesadelo parvo; algo pesado devia atormentar a patroa e seria pecado graúdo, para andar assim tão desvairada dos sonos, coisa ruim teria aprontado, não era de estranhar, ela sempre tivera um feitio torcido, mas também, haja compreensão, ter ficado com tudo a seu cargo, tão nova, não era coisa fácil, especialmente depois de ter passado por tanta tragédia.

– Vou subir e deitar-me um pouco, não estou lá muito bem, tenho a cabeça à roda, isto de dormir nesta posição dá-me pesadelos – informou Amélia ao levantar-se. – Avisa o Vicente que prepare o carro para amanhã, vou à cidade tratar de assuntos importantes, eu já lhe disse, mas ele tem uma cabeça de alho chocho. Levanta a saia da camilha que o braseiro está forte.

Aquelas palpitações nunca mais a largavam, cada dia sentia-se pior, será que tinha chegado a sua hora? Amélia voltava a ensombrar-se com a morte, há algum tempo que aquela imagem a perseguia de novo, parecia que a via em cada canto, como se o seu espectro, a lembrar outros tempos, deambulasse familiarmente por ali, afinal, a casa já era sua conhecida, várias vezes assentara morada entre aquelas paredes.

Amélia perdera a mãe muito cedo, uma senhora muito fraca, nunca se deu bem com ares agrestes do Alentejo, o calor tirava-lhe o ar, o frio gelava-lhe os ossos, tanto que acabou por falecer ao fim de algum tempo naquelas terras com saudades do palacete de Lisboa – onde respirava brisas mais moderadas – e não propriamente, como o marido gostava de soltar ao mundo, por desgosto da implantação Republica – que acabara de nascer nesse ano – e do definhar do pouco que ainda restava de uma certa corte, berço da sua meninice.

O irmão, Pedro, rapaz robusto e cheio de energia, não teve melhor ventura, acabou por ser vítima do seu feitio mulherengo, metia-se com tudo o que era rapariga da região; o facto de ser filho de um senhor importante da lavoura dava-lhe assento para todas as conquistas, muitas raparigas ficaram solteiras por causa dele, ninguém lhes pegava depois de andarem nas bocas do mundo em virtude de se terem deixado levar pelo feitiço do rapaz mais fino das redondezas. A sua glória de sedutor foi grande até que um dia se perdeu de encantos por uma cigana que acampou às portas da aldeia; enquanto não lhe fez a corte não descansou, os cabelos e os olhos negros como o carvão punham-no fora de si, nunca vira beleza igual, ela tinha que ser sua, não de papel passado, que isso era coisa guardada para gente da sua portada, mas de corpo enrolado, só que não teve tempo; somente a cobiça foi o suficiente para ferir sentimentos, o noivo, cigano prometido desde criança, depois de lhe chegar aos ouvidos semelhante afronta, esperou-o à entrada da quinta e espetou-lhe 15 navalhadas, tantas quantos os anos da moça que ele almejara. Teve morte imediata.

A mesma sorte, de um fim repentino, não teve o pai, que padeceu muito antes de morrer. No ano de 1947, numa viagem a Lisboa, apareceu-lhe um louco, a andar a 40 à hora, que se despistou e foi chocar com o Ford Perfect dos Bento de Oliveira, acabado de comprar, o que o atirou para uma cama de hospital durante meses – era carne rija – até falecer com uma infecção pulmonar derivada de uma perfuração no acidente.

***

Ermelinda voltara para a cozinha, a água já devia ferver para escaldar a galinha e a depenar, mais uma vez ia fazer canja – qualquer dia ainda apanha uma coisa de tanto comer aquela sopa. De tão absorvida com a sua faina, nunca mais se lembrou da recomendação para o motorista; já quase caía a noite – o sol nesta época é franzino com força de menino, mal aquece desaparece – quando lhe veio à cabeça o recado, limpou as mãos ao avental e saiu pela porta das traseiras, ele ainda havia de andar por ali a limpar a garagem, tinha a mania de não fazer nenhum durante o dia e era depois ao fim da tarde que lhe davam os apetites trabalhadores, se fosse ela que mandasse há muito que o tinha posto ao fresco, tanto mais que, nos dias em que patroa ia de visita à D. Alda, única pessoa na aldeia que a tirava fora de casa, tinha a mania de se prantar lá na cozinha com falinhas atrevidas, esquecendo que ela era uma mulher viúva fechada ao mundo – o seu homem tinha levado um tiro de um carabineiro ao passar a fronteira e queria honrá-lo até ao fim -, e que ele era casado com um rebanho de filhos a puxarem-lhe as calças. Ia ela nestas cogitações quando, ao abrir a porta, ficou pasmada: José Bernardo estava mesmo ali, à sua frente, especado como um espantalho.

– A madrinha está? – perguntou ele.

– Está a descansar.

– Precisava de falar com ela. Está na altura de pôr uma pedra em tudo, não se pode viver assim, com o coração cheio de cravos.

– Fazes bem Bernardo, isto não é viver, desde que foste embora ela nunca mais foi a mesma, então ultimamente anda muito esquisita, eu já lhe disse para chamar o doutor Veiga, mas ela é teimosa e não ouve o que se lhe diz. Então hoje, está muito achacada, só dorme. Mas eu vou lá acima, ver se já acordou e digo que o menino está aqui.

Ermelinda não mais se lembrou do recado que ia fazer, foi em passo acelerado ao quarto da Amélia dizer-lhe que o seu afilhado querido estava ali para fazer as pazes, finalmente ia ter dias de descanso, os tempos com Bernardinho eram muito mais folgados, era ele que lhe satisfazia todos os caprichos e a aturava; só rezava para que a velha tivesse de boa feição e o aceitasse de volta. O coração quase que lhe saltava, aquilo de subir as escadas a correr já não era para a sua idade, mas ainda ficou pior quando, depois de muito bater à porta do quarto, entrou e viu Amélia, deitada na cama, sem se mexer, de olhos arregalados, parecia animal embalsamado. Em maior ligeireza do que aquela com que subira, desceu as escadas à procura de Bernardo – acudam que deu uma coisinha ruim à D. Amélia. Ainda chamaram o filho de D. Alda, que não sendo médico, dava injecções e percebia de doenças – era a ele que recorriam quando não iam à cidade e a doença não podia esperar até a terça-feira, dia em que o doutor vinha à Casa do Povo dar consultas –, mas nada adiantou, o quase entendido em enfermidades confirmou que a velha senhora sucumbira como um passarinho e não havia nada a fazer, apenas chamar o delegado de saúde para atestar o óbito.

O destino era mesmo velhaco, então no dia em que o afilhado resolvia pôr todas as agruras para trás das costas e pedir perdão pelo que não fez, Deus levou a madrinha para que o encontro não se desse, como se fosse só perante Ele, grande justiceiro, que as verdadeiras reconciliações se fizessem. O povo não se continha em prelecções sobre o acontecimento que a todos pasmara: a senhora, com os seus 68 anos, parecia tão rija, e fazia muita falta, tinha o seu feitio, mas nunca se negara a ajudar quem precisava; ainda que depois pagasse uma miséria nos campos, mas o que se ia fazer, todos os patrões eram assim, os tempos estavam difíceis.

***

Apesar da pouca família, a propriedade encheu-se, vieram pessoas de toda a parte, até um general do governo apareceu. José Bernardo tomou conta da situação e assumiu o comando das operações, tratou do funeral como se fosse o herdeiro, cuidou que o corpo fosse velado na capela da quinta e que o jazigo de família fosse preparado para receber a última dos Bento de Oliveira, já que Conceição, a prima direita ainda viva, tinha sido completamente esquecida como pessoa da mesma linhagem.

A Quinta da Ponte ficava à entrada de Vila Maria e estava separada da estrada principal pela ribeira do Brejo que acompanhava lateralmente quase toda a aldeia, um riacho que era uma dor de cabeça quando chovia muito e havia cheia, já não bastava que a água ficasse barrenta e impedisse a lavagem da roupa, como entrava pelas portadas mais baixas das casas que ficavam na margem.

A população local ficou do outro lado da ponte a ver os carros que entravam – tudo gente muito importante que vinha lá da cidade e da capital – para a quinta onde, na capela, estava o corpo em câmara ardente. Os eleitos que acediam ao local do velório cumprimentavam José Bernardo, como se ele fosse o único familiar; alguns deles conheciam-no de acompanhar a madrinha e sabiam da estima que a falecida lhe tinha.

D. Alda, ainda que sem propriedades, era outra das poderosas da terra, não gostou muito daquela cumplicidade de José Bernardo com os ilustres – imagine-se um filho de campónios a passear-se no meio de gente fina e de importância maior – que apareceram para cerimónia fúnebre: os doutores da cidade estavam quase todos; de Lisboa tinham vindo parentes afastados, gente muito bem relacionada; até pessoas da esfera do senhor professor estavam ali, nem faltou um general importante, que no mês seguinte ainda o viria a ser mais, ao participar numa tentativa de golpe de estado contra o regime[6], marcou presença, entre outros. Além do mais, ela, como amiga e visita de casa, sabia das desavenças do afilhado com a D. Amélia e que fora, inclusive, deserdado; assim, naquele momento, ele só podia ser um aproveitador da situação, pior do isso, estava a roubar atenções do seu filho, Fernando Alberto Pinto, que além de ter decretado a morte, coisa de importância maior, andava a tentar ser o novo querido da defunta. Não fosse o criador a ter levado cedo demais e seria ele o verdadeiro herdeiro de tudo.

Desde que o afilhado ingrato se tinha afastado, Alda tratara que o seu rebento aparecesse na quinta mais amiúde para fazer companhia à desconsolada e solitária senhora. O problema é que Fernando, apesar de ser filho de família ilustre da aldeia e de boa educação, não era homem de fino trato e não tinha muita paciência para aturar nem os caprichos da mãe nem de D. Amélia, o que não agradou muito à proprietária da quinta – este rapaz parece que foi criado numa cavalariça, fala sempre aos coices –, e levou a que ele, tirando as vezes que aparecia por lá para dar as injecções à senhora, pouca intimidade ganhasse.

Para contrariar o afilhado desagradecido, que roubava as atenções no velório, assumindo-se quase como da família, D. Alda decidiu marcar a sua presença e a sua posição como íntima da finada: sem que tivesse consultado ninguém, resolveu que o funeral seria acompanhado com o andor da santa da terra, uma réplica de uma outra situada em Fátima, que elas as duas, em tempos, tinham feito questão de arranjar para dar uma imagem mais forte a Maria, a padroeira da Vila, antes que alguém tivesse o desplante e se lembrasse de fazer uma estátua à meretriz do rei.

– É uma santa a acompanhar outra – justificou-se ela perante o assombro generalizado de todos, inclusive do padre, nunca tal se houvera visto por aqueles lados, um funeral com procissão pelo meio.

José Bernardo ainda tentou impedir aquele carnaval, não era homem de fé muito profunda, apesar de todos os ensinamentos da madrinha, nem achava que fosse apropriado uma coisa daquelas, mas não conseguiu; antes que pudesse fazer qualquer coisa, já a santa entrava pela capela dentro e era colocada mesmo ao lado do corpo ardente. Apesar de contrariado, deixou seguir o espavento, seria melhor assim, a sua situação também não era muito clara e a D. Alda ainda podia começar a dizer algo que não devia, a última coisa que queria era um escândalo naquele momento em que começava a calcorrear a ladeira de homem importante na terra.

Só com a saída para o cemitério, a fronteira social da ponte se quebrou e o pessoal da terra pôde, assim, aproximar-se da defunta e acompanhar o resto de uma cerimónia fúnebre que até incluía procissão. Todos acharam estranho aquele cortejo, mas a gente de posses tinhas dessas coisas, eram diferentes, e até nos caminhos para Deus tinham atalhos privilegiados- À boca pequena, comentaram que tudo aquilo era um despropósito, quase uma heresia, é que apesar de dar pratos de grãos e pães secos a necessitados, a mulher não era nenhuma santa nem de trato fácil e nas suas propriedades muito se tinha padecido. Os mais velhos ainda não tinham esquecido as chicotadas que o antigo patrão Bento de Oliveira gostava de estalar na espinha dos camponeses a seu soldo, sempre que as coisas não lhe corriam pela feição; felizmente que morrera cedo – Deus lá sabe o que faz –, mas a situação também não melhorou, o feitor que ficou à frente das herdades, logo que o pai de José Bernardo foi mandado embora após a morte do patrão, ainda conseguia ser pior, andava a cavalo para ver quem levantava a cabeça durante a ceifa ou apanha da azeitona, e quem abusasse recebia logo umas vergastadas – deus queira que com a morte da velha tudo mude.

O cemitério seria pequeno para tanta gente e temia-se que pudesse haver confusão, mas quis o destino que, no momento em que a urna assomou nos portões ferrugentos da entrada, desabasse sobre aquela terra um aguaceiro imenso, como se o dilúvio tivesse sido transferido, de repente, para ali, o que provocou uma debandada geral, povo e ilustres; todos já tinham feito o seu papel, lamentar que nós não somos nada, mostrar-se e dar conta de quem estava.

– É Nossa Senhora a chorar, a despedir-se dela – disse D. Alda num carpido eloquente, havia que chegar a sua lamúria a todos os importantes presentes.

A maioria pensou que seria antes Deus a protestar por aquele acontecimento bizarro e a mandar recolher a santa à sua casa, coisa que foi feita de imediato, o manto quase que se desfazia com a água que caía sobre ele. Quando a urna deu entrada no jazigo, o único daquelas dimensões no cemitério – fazia lembrar uma catedral em miniatura –, já só restava José Bernardo, o padre e os desgraçados dos empregados que a carregavam em ombros e que não puderam fugir. O responso final foi acelerado antes que desaparecessem todos na água enlameada que desaguava pelas ruelas do cemitério.

Os ilustres tinham corrido para os carros, alguns estavam um pouco longe, estacionados na quinta,

e o povo regressara a casa rapidamente, tudo estava visto e agora era tempo de ir confortar a comadre Rosália, que também carpia o desgosto da perda de um filho em Angola;

uma carta com muitos dias chegara do ultramar e informava-a que o rapaz – que tinha ido para lá tentar a sorte, mas que apenas conseguira um emprego na guarda da prisão de Luanda –, fora apanhado num tiroteio durante um assalto no passado dia 4 de Fevereiro[7]eu bem lhe disse para não ir para essas terras perdidas no fim do mundo, sabe-se lá que gente se encontra nesses lados.

Ainda no meio da chuvada, José Bernardo reparou que, do povo presente, apenas ficaram, ao longe, a ver o desfecho do funeral, três mulheres, sem qualquer abrigo – a água escorria pelas suas roupas encharcadas –, permaneciam quietas como se esperassem um sinal para partirem. Olhou bem e reconheceu-as: eram as mulheres da Horta das Lobas – uma pequena propriedade já distante da Vila, onde viviam afastadas de todos –, avó, mãe e filha.

A mais velha, conhecida por Maria Loba, chegara por aquelas terras, por volta de 1947, apenas com uma filha pequena pela mão e instalara-se na horta abandonada, também pertença dos Bentos de Oliveira; os tempos passaram e a menina ficou mulher, pronta para parir uma cria de quem nunca se conheceu o pai, apesar de homens a rondar-lhe as saias nunca lhe terem faltado. O contacto daquelas mulheres com as pessoas de Vila Maria – à excepção dos ganhões mais acesos que rogavam agrados – era apenas uma vezes por mês, para fazer as compras na venda e pagar a renda da horta a D. Amélia, ou então, quando alguém, no desespero das causas da vida, resolvia perder o medo e ir até às Lobas inquirir sobre as voltas do destino, já que, desde sempre, trouxeram consigo a fama de soldadoras[8], mulheres estranhas, que faziam arrepios ao vê-las passar e se deitavam adivinhar futuros ou a moldá-los ao sabor de mezinhas.

O que queriam elas para estarem ali especadas como mulas teimosas? José Bernardo voltou a sentir o arrepio que lhe percorria o corpo sempre que via alguém daquela família, quer fosse a mais velha, que o aterrorizava desde pequenino, especialmente quando o apanhava no seu passeio pelas margens da ribeira, quer fosse a mais pequena, que, por vezes, se atravessava no seu caminho, sempre de rompante, sem dizer palavra alguma, como se fosse uma assombração. Só faltava que, num momento como aquele e para dar azo aos boatos alucinados de gente fraca dos nervos, elas levantassem voo – tinham fama para isso e muito mais. Tentou não pensar mais no assunto, havia que regressar à Quinta da Ponte, onde grandes decisões tinham que ser tomadas.

Quando atravessou a ponte, quase a transbordar – a continuar assim, mais umas horas e não se passava nela –, viu que havia gente na casa grande, carros parados à porta e luz na sala principal; afinal, nem todos tinham partido para os seus lugares, como aves de rapina preparavam-se agora para começar a caçar as boas presas da herança. Apesar do receio com o que podia encontrar, era gente com maior poder do que ele, entrou de peito firme para mostrar que entrava ali de pleno direito; ainda que nos últimos tempos houvesse algum aziago nesse desígnio, tinha sido ele o escolhido para continuar os destinos daquele lugar. Encontrou na sala e viu os primos de D. Amélia, parentes pelo lado da mãe, que José Bernardo já vira em tempos numa ida a Lisboa, bem como o advogado que costumava tratar de todos os negócios.

– Então rapaz, o que se faz agora? – perguntou aquele que aparentava ser o primo mais velho, com uma idade semelhante à da morta.

– Cumpra-se o desejo da madrinha – respondeu José Bernardo firmemente, enquanto se sentava na poltrona que era exclusivo de D. Amélia, era ali que ela recebia a visitas.

Antes que a conversa prosseguisse com mais detalhes, o advogado chamou-o para terem uma palavra em privado, havia necessidade de esclarecer algumas coisas e não era na frente daquela gente que se ia fazer, apesar de parentes não deixavam de ser estranhos. Já na sala ao lado, um pequeno escritório onde estava toda a papelada da quinta, o Dr. Covas estendeu-lhe um papel onde José Bernardo pôde ler que a madrinha deixava todos os seus bens à prima Rosário, irmã da ordem das Carmelitas para que ela pusesse toda a sua riqueza ao serviço de Deus.

– Porque não apresentou isto lá fora? – inquiriu José Bernardo. – Tinha esclarecido toda a gente, até porque eles também são família dessa Rosário.

– Deixe-se disso, José Bernardo. Eu não queria ter esta conversa hoje, ainda o corpo não arrefeceu, mas já que estão todos ali especados na sala à espera que lhes caia alguma coisa no prato, há que despachar isto depressa. Todos sabemos que o aí Jesus de D. Amélia era você, era a si que ela ia deixar tudo, eu próprio fiz esse testamento. No entanto, quis o destino que ela ficasse abespinhada consigo e nos últimos tempos deu o dito por não dito. Agora aqui entre nós, será que o que está aí escrito era mesmo o que ela queria, dar este trabalho todo de uma vida a uma freira que vive fechada sabe-se lá onde? Não me parece, ela apenas fez o novo testamento porque estava magoada, mas creio que, com o tempo, tudo ia passar. É por isso que eu sinto que aquilo que lhe vou propor não é um desrespeito nem uma trapaça, é apenas repor a vontade que ficou calada.

– E o que propõe?

– Tirando eu, praticamente ninguém tem conhecimento deste documento, e quem tem eu trato depois disso. Como sabe, nestas matérias temos que ser francos e realistas para podermos, se estiver de acordo, fazer uma coisa que sirva a nós os dois, às duas partes conhecedoras, intervenientes e merecedoras de tudo isto. Assim, vamos fazer um negócio: eu faço esquecer este documento, reponho o testamento anterior e dividimos as propriedades, mais coisa menos coisa, também não sou lavrador, não quero ficar com muitos encargos, aliás, as minhas, até pode ser você à administrá-las e a levar uma boa parte das rendas. Como lhe digo, não estamos a fazer vigarice, estamos a repor uma situação que não ficou clara.

José Bernardo ouviu atentamente, não queria acreditar que o homem que se tinha limitado a escrever no papel ordens da madrinha estava ali à sua frente a querer ficar com metade daquilo que sempre estivera guardado para si. Ainda sem dizer nada, foi até a uma gaveta da secretária e tirou um envelope que mostrou ao advogado. Este, ao ler o documento, começou a mudar de cores como roupa branca a corar em cima de sangue.

– Tem razão Dr. Covas – disse José Bernardo. – Este testamento que tinha aí era mesmo um vendaval que lhe passou na cabeça num mau momento. A sua vontade era a do primeiro testamento, conforme está ai nessa carta, escrita pelo punho da própria madrinha, como pode verificar.

– Sim, vejo que a letra é dela e que diz que o segundo testamento é para ficar sem efeito, mas tem que aceitar que isto é uma mera carta, não é um testamento.

– Ora Dr. Covas, o senhor como homem de leis, sabe que com o primeiro testamento, aquele que me dava tudo, e essa carta o juiz não vai ter muitas dúvidas, ela sempre me apresentou a toda a gente como o seu herdeiro, inclusive a ele; aliás, lembro-me de ter ido a casa do juiz um dia com a madrinha para tratar de negócios, a mulher dele até me encheu de bolachas. Pode levar tempo, mas tudo isto que é meu por direito vai ficar para mim.

– Então será o direito a dizer isso, eu apresento o testamento que tenho e você apresenta o seu. Depois vamos ver.

– Sabe Dr. Covas, eu sei que tenho razão, mas a razão leva tempo e isto não pode ficar parado, por isso o melhor é fazermos o tal negócio e a coisa fica mais rápida e de agrado para todos. Como o senhor disse, não é homem de lavoura, não necessita de grandes terras, mas eu também vou ficar com mais do que preciso, assim uma mão lava a outra e tudo se resolve.

O advogado, perante a possibilidade de não ficar com nenhuma parte – quer o herdeiro fosse o José Bernardo, quer fosse a freira, ele não seria contemplado -, aceitou o trato e ficou apenas com uma herdade, perto da cidade, o que até lhe dava jeito, não era terra muito boa para sementeiras, mas para as caçadas servia, a propriedade sempre esteve um pouco esquecida da faina da Quinta da Ponte e o novo dono não ia sentir a sua falta.

Ainda nessa tarde os parentes regressaram a Lisboa com o desconsolo de nada ser acrescentado ao seu património, quem diria, um zé ninguém tomou conta de tudo e eles, que ainda carregavam no sangue sabores da família, não tiveram direito a nada, isto das leis é muito injusto.

A negociata foi feita, mas a convivência com o seu primeiro parceiro comercial ficou por ali, logo que os registos de tudo ficaram prontos, José Bernardo tratou de despachar o advogado e requisitar os serviços do outro seu amigo, camarada de pecado; afinal, um homem que se propôs a ajustes daqueles não era de confiança, trai uma vez, trai duas ou três. O facto de ele ter aceitado o Monte das Ralas em troca do desfazer do testamento levá-lo-ia, por certo, a ficar em silêncio para sempre, por isso não havia com que se preocupar. Até D. Alda, que a princípio ainda soltou alguns comentários malévolos, acabou por se calar, mais valia ficar de bem com quem tem do que com quem ainda vem.

***

Se a justiça era um destino com caminhos tortos, havia alguns atalhos que ele podia pôr direito; assim, resolveu, logo que ficasse com tudo de papel passado, devolver o Monte das Gralhas a quem de direito; nunca percebera como é que D. Amélia podia ser dona daquilo se a propriedade, após a morte do velho Bento de Oliveira, coubera em divisão de irmãos ao Mário, pai de D. Conceição. Mal tomou a decisão, nem esperou que o advogado desse o propósito como concluído, meteu-se no seu Chevrolet, o tempo de andar de mula tinha ficado para trás, e dirigiu-se ao monte para dar a notícia. Ao chegar, pôde ver José Ramiro debaixo do chaparro a cavar mais uma vez a terra que padecia de tanta ser remexida; ali estava ele na sua perpétua loucura cada vez mais acentuada. Sentiu pena do homem, apesar do seu mau trato, não deixava de ser um pobre desgraçado que um dia, tal como ele, pensou que ia deixar a pobreza que lhe corria no sangue e ser dono de grandes terras, mas a quem o destino resolveu trocar as estradas e acabou numa vereda de coisa nenhuma, nem a família, grande, que construíra lhe serviu para alguma coisa, a não ser para descarregar nela as agruras que o consumiam. Resolveu ir ter com ele e contar-lhe a nova, podia ser que isso lhe fizesse bem e quebrasse um pouco os tormentos que lhe enchiam cabeça. Ao aproximar-se do chaparro sentiu um cheiro pestilento, como se tivesse entrado num curral de animal, os restos de comida espalhavam-se pelo chão, misturados com a terra revolta, e José Ramiro apresentava-se todo esfarrapado e encardido do pó e do sol que apanhava durante os dias inteiros; água era coisa que não via há muito, também outra coisa não era de esperar, ele não tinha tino para ir sózinho até ao tanque lavar-se e, desde o dia do funeral da Cilinha, as outras filhas tinham-no impedido de entrar em casa, ficando, assim, sempre ao relento, somente nas noites mais frias procurava abrigo no palheiro junto à vacaria.

– Vim devolver-lhe o monte, agora ele volta a ser vosso como sempre foi – anunciou José Bernardo, não que tivesse à espera que ele lhe ficasse agradecido e dissesse alguma coisa, mas achava que, mesmo louco, alguma coisa havia de entrar lá dentro e lhe provocar uma certa alegria.

José Ramiro não parou de cavar, continuou os seus movimentos na terra como se não tivesse ouvido nada. Já José Bernardo se afastava quando ele reagiu:

– A cadela morreu, as coisas tinham logo que vir ao sítio. Nunca vi coisa assim, espumava de tanto veneno, naquele corpo só tinha ruindade, ruim de maldade e ruim de puta. Era uma autêntica cadela com cio.

José Bernardo voltou atrás e sentou-se ao pé dele, como que à espera de seguimento na conversa, não devia saber o que dizia, mas, desde há muito, eram as únicas palavras que saíam da sua boca como resposta a algo que se lhe dissera.

– Só queria era ser montada como as cadelas – continuou José Ramiro. – Desde o primeiro dia em que a vi, percebi logo naquele olhar que queria ser comida. Então, quando fui à quinta desbastar a nogueira que estava a dar cabo da nora, naquele maldito Verão, não saía dali, andava sempre acarretar água, como se uma moça como ela fizesse algum dia aqueles trabalhos. Tanto rondou, tanto rondou, que um dia, debaixo das arcadas da nora, depois de se ter roçado em mim ao passar, levantei-lhe aquelas saias e encavei-a por trás, como se faz às cadelas, mas, para meu grande espanto, nem ganiu, era mulher já habituada a ser montada, aquilo entrou à larga como se fosse uma puta velha. Mas a magana, mesmo depois de ser bem comida, foi das primeiras a soltar-me os cães, tive que ir daqui fugido como um criminoso a comer o pão que o diabo amassou noutras paragens, como se eu alguma vez na vida tivesse comido pão que não fosse amassado por esse filho da puta.

– Mas foi só dessa vez? – perguntou José Bernado com pouca certeza que ele lhe respondesse, até porque tudo aquilo era apenas mais um delírio, como podia ele dizer aquelas coisas da madrinha, se ela sempre deu entender que nunca tinha conhecido homem algum.

– Não, todos os dias em que eu estive na horta da quinta ela apareceu e foi montada. Passados uns anos, quando voltei, pensei que ela tinha esquecido tudo, mas não, fez-me o cerco outra vez e sempre que ia para a courela ela aparecia por lá para ser comida no barracão. Até que um dia, quase que ia sendo apanhada e nunca mais voltou, a não ser para me infernizar a vida com a sua maldade de tudo querer.

José Bernardo não sabia o que havia de dizer, por um lado não acreditava muito naquelas palavras, a ser verdade porque teria ele calado tudo durante tanto tempo, se podia com isso tê-la domado e tirado alguma coisa, mas por outro, uma coisa era certa, lembrava-se em miúdo de acompanhar a madrinha na charrete até às courelas junto ao rio, onde ela desaparecia, ia rezar no meio do campo, e ele ficava a brincar na água até ela chegar. Levantou-se e seguiu o propósito que o tinha levado ali, dizer às mulheres daquele lugar que o chão que pisavam voltava a ser seu, mas antes ainda ouviu José Ramiro gritar:

– A cadela era tão ruim que até o bucho seco tinha, as vezes que foi fodida e nunca pariu nenhuma cria.

Foram as últimas palavras que escutou de José Ramiro e, por ventura, foram também as derradeiras que ele proferiu, já que passado uns dias houve a notícia que morrera queimado: um candeeiro a petróleo no palheiro tombara e tudo ardera, incluindo ele – só mesmo um louco levaria fogo para tal sítio. Pouco mais de um mês tinha passado, e novo funeral voltou a inquietar Vila Maria, desta vez não porque viesse gente importante, mas porque o mistério da morte levou a um falatório generalizado, todos estavam convencidos que o candeeiro fora quebrado por alguém – se o homem dormia sempre às escuras por que raio aquele dia foi buscar luz? –, mas a guarda nada apurou e o assunto acabou por ser arrumado no canto do esquecimento miudinho que, apesar de calado, vinha sempre acima quando se tocava nele.

No cemitério, José Bernardo despediu-se da família de José Ramiro e prometeu ajudá-los, só por um capricho do destino traiçoeiro é que não tinham ficado unidos, a sua Cilinha ficara-lhe guardada para sempre em jeito de viúvo postiço. No meio da quietude, o corpo descera à terra sem o mais leve carpir, nem reparou que Adelina já não estava presente, muita abatida com a morte do pai, não aguentara vê-lo desaparecer naquele chão seco de lágrimas; ela saíra sorrateiramente quando o padre encomendava a alma ou o farrapo que restava dela. Por isso, foi com grande surpresa que viu, ao abrir a porta do quarto, na casa grande da Quinta da Ponte, onde agora vivia, Adelina deitada na cama à sua espera. Pelo pedaço de corpo que fugia do lençol adivinhou que ela estava completamente nua. No primeiro instante apeteceu-lhe rir, uma outra imagem mais antiga, de figuração semelhante, veio-lhe à cabeça; aquela maldita cama tinha coisa, parecia que atiçava as pessoas a deitarem-se nela para provocar em dias lutuosos.

– Vem, vamos começar o que já devíamos ter acabado há muito – disse ela, enquanto se rebolou para os pés da cama, mostrando aquilo que ele já percebera, um belo corpo de mulher, bem nua, esguia como se não tivesse havido maternidade nela, coisa estranha à época.

– Tem juízo, ainda agora o teu pai se enterrou e estás aqui nesses preparos.

– Esquece o meu pai, aquilo acabou para sempre.

– É teu pai, Adelina, mesmo louco e com todas as coisas, era o teu pai.

– Eu é que sei o que ele era. O fogo foi o só princípio do grande inferno onde ele irá arder.

– Mas o que é que se passou realmente Adelina?, as pessoas falam coisas.

– Deixa-as falar, cada um sabe de si. Faz-me um favor para o resto das nossas vidas, nunca queiras saber mais nada do meu pai, mesmo nada. Ouviste? Não digo isto para meu bem, digo para o teu também – ela sentou-se na cama e abraçou-o pela cintura, tocando, assim, com as mamas firmes na parte do corpo que ele tentava dominar mas, ao ganhar cada vez mais volume, não conseguia. – Agora vem, há outros fogos melhores para atear e eu não sou mulher para ficar apagada.

Como uma fêmea em cio, agarrou José Bernardo e derrubou-o na cama. Lá fora, do outro lado da ribeira, ainda se ouvia o arrastar dos passos do pessoal que voltava do funeral, mas dentro da casa ecoavam os gritos de uma mulher que se entregava ao prazer naquele fim de tarde, felizmente que não havia gente em casa para se escandalizar com semelhante despudor. Na rua, ao longe, por a janela estar aberta, ainda houve quem escutasse uns gemidos ofegantes mas, face ao momento fúnebre que tinham acabado de presentear, arrepiaram-se com semelhante desgosto tão ressonante, deve ser uma das filhas, coitadinha, mesmo maluco, o pai vai fazer-lhe muito falta!

Enquanto os corpos jaziam na cama um prazer findo, José Bernardo pensava nas palavras de Adelina sobre José Ramiro: que coisa teria feito aquele homem para existir um ódio tão grande nos corações dos que lhes eram mais próximo? Nem no dia da despedida houvera uma lágrima para lhe acenar, parecia que enterravam o cão que se ruía de sarna na entrada do monte; até a possível maledicência das gentes da terra, funeral sem carpido era objecto de falatório eterno, não fez com que bramissem um simples ai. Só algo muito forte levava a tal comportamento, indiferente, distante, como se tivessem largado carga pesada de cima do lombo e ainda não tivessem ganho forças para seguir caminhada. Elas lá saberiam com que linhas teciam o desgosto, que tormento estava entranhado nas paredes do monte. A avó Bernarda dizia que o mal mais ruim era aquele que dormia dentro de casa, e devia ter razão. Estranha terra, aquela, tão pequena e tão grande em segredos. Desde a puta do rei, à santa que ensarilhava guerras, tudo aparecia naquelas paragens. Não lhe bastava o fantasma do estrangeiro, que ele e seu pai, sempre carregaram, havia sempre outras sombras a rondar as paredes coradas do sol.

José Bernardo olhou para o corpo de Adelino, nu e estendido na cama, a fingir um sono, e tentou não carregar o pensamento com desassossegos sobre o passado, isso era mais coisa de mulher, fraca dos nervos, que gostava de remoer os dias já apagados. Agora, era tempo abrir caminho como um grande senhor da lavoura; ninguém o podia parar.

Engano dele; eu podia destruí-lo a qualquer momento. Ele tinha demasiadas sombras para esperar horizontes ensolarados nos dias futuros. Sim, Bernardo, a avó tinha razão sobre o mal mais ruim dormir sempre na nossa casa. Soltar estas palavras é o princípio do acordar.

(continua)


[1] Almiara – meda de cereais ou palha antes de ser enfardada.

[2] Alcunha pela qual eram conhecidos os trabalhadores agrícolas do norte de Portugal que desciam a sul à procura de faina temporária.

[3] A 28 de Maio, um golpe de estado pôs termo à Primeira República Portuguesa, levando à implantação da Ditadura Militar, depois auto-denominada Ditadura Nacional e por fim transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo.

[4] Tarro, recipiente, tipo panela, em cortiça, usado no Alentejo para o transporte de comida com o objectivo de manter a temperatura da comida no campo.

[5] Na madrugada de 22 de Janeiro de 1961, o paquete de luxo Santa Maria, da Companhia Nacional de Navegação, foi tomado de assalto em águas internacionais, nas Caraíbas, pelo comando único do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), chefiado pelo Capitão Henrique Galvão. desencadeando a “Operação Dulcineia”, numa tentativa de provocar uma crise política contra o regime de Salazar.

[6] Em Abril de 1961, o general Júlio Botelho Moniz, fez uma tentativa de golpe de estado, designada por golpe Botelho Moniz, onde, conjuntamente com Craveiro Lopes e outras personalidades ligadas aos círculos do poder, intentou forçar a demissão de Salazar.

[7] A 4 de Fevereiro de 1961 ocorreu uma revolta em Luanda, com ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da PSP e à Emissora Oficial de Angola, acção considerada como o princípio da luta armada em Angola, bem como o início da Guerra Colonial Portuguesa.

[8] Soldador(a) era um termo utilizado pelos camponeses para videntes ou curandeiros.

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