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A Máscara do Absurdo dos Dias

Outubro 14, 2012

O país está a ferro e fogo:o povo está na rua;

o preço dos combustíveis a ultrapassar a marca psicológica dos 3 euros;

os transportes públicos, apesar de caros, a não conseguirem responder a tanta procura;

os preços exorbitantes da alimentação de primeira necessidade a criar fome numa classe que já foi média;

a quebra do consumo em mais de 80% nos produtos não alimentares a levar à falência, em massa, as empresas;

uma elevada taxa de desemprego, próxima dos 30%, a ser a causa principal das pilhagens e do aumento generalizado da violência;

são os factores que contribuem para a situação caótica do país.

Segundo o Governo, só com a entrada em vigor da Lei de Estabilização Social poderá ser reposta alguma normalidade.

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Vasco não quis ouvir mais nada da notícia que estava a ser transmitida num televisor, ao fundo da sala, nem sequer esperou para ouvir Álvaro Aristóteles, o primeiro-ministro, explicar a razão da necessidade de aprovação da famosa Lei de Estabilização Social que, para muitos, era uma Lei Marcial com outro nome: um desígnio legislativo com o qual seriam cortadas quase todas as liberdades em nome da reposição da ordem. Desligou a televisão e voltou a contemplar o ecrã do computador que devolvia uma completa imagem branca, quase imaculada pela ausência de qualquer caracter digital na folha do processador de texto. Apenas uma longa fila de asneiras ansiava por se libertar através dos dedos no teclado e borrar aquele cenário alvo.  

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Um homem de máscara toca um estranho instrumento. Vê-se uma explosão ao longe.

Um casal jovem abraçado está à beira de saltar de uma janela bem alta de um castelo. Do outro lado têm a ponta de uma espada apontada a eles.

– Mesmo que nos mate, não acabará com o nosso amor! – grita uma bela e loura rapariga, como se tivesse saído de um catálogo de uma agência de modelos, nos braços de um atlético rapaz, também ele decalcado de um manual de instruções onde se esculpem pessoas perfeitas para mostrar aos outros como são imperfeitos.

– Tem calma Anastácia! – sossega o rapaz, com ares de galã, que ampara a donzela. – Mesmo um canalha quando mata, olha de frente a vítima, não se esconde atrás de uma máscara. Vá, mostra-te, assume quem és!

– Não estás em condição de exigires nada – responde um homem de máscara, o detentor da espada afiada que ameaça o par amoroso. – Mas faço-te a vontade, afinal é a última vez que vais ver quem eu sou.

Uma máscara cai no chão.

Vasco releu o resumo da última cena do penúltimo capítulo da telenovela que, entretanto, abrira no computador. Sentiu um arrepio, não pela qualidade do que lera – ela era realmente escassa -, mas por tudo o que deveria estar a seguir ao último parágrafo: aquele que seria o capítulo final, onde tudo era revelado, ainda estava em branco.

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Naquele tempo de crise incendiária, apenas uma coisa fazia sucesso, o folhetim A Máscara. Vasco sempre sonhara em escrever grandes romances e argumentos de filmes de culto, mas acabara por ser um mero guionista de uma televisão em decadência. Agora, pela primeira vez, experimentava o sabor do sucesso, a sua telenovela era ainda a única coisa que fazia parar um país em convulsão.

A entrega do último capítulo estava com um atraso de 3 dias. A produção estava a ficar sem margem de manobra para a rodagem atempada e à beira de um colapso; o país estava em suspenso para descobrir quem era o grande vilão mascarado – a misteriosa figura que vinha assassinando algumas das personagens ao longo da trama – e as filmagens corriam o risco de ficar paradas.

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– Mas o que se passa? – perguntou, num tom bastante elevado, o director da estação televisiva do outro lado da linha telefónica. – Estamos a ficar sem tempo para gravar e, assim, apresentar o último capítulo na próxima sexta conforme está agendado. Temos todo o espaço publicitário já vendido e não se pode falhar. Não imagina como é difícil ter clientes nestes tempos que correm, apesar de todo o sucesso da telenovela ainda tive que ratear alguma publicidade. Não me vá falhar agora, por amor de Deus! O pagamento de muitos salários está dependente do encaixe dessa noite.

– Fique descansado – sossegou Vasco o responsável televisivo que, do outro lado, parecia mostrar algum pânico com a paragem das gravações. – Hoje, ao final do dia, enviarei por mail o guião. É que para surpreender na revelação do Mascarado tive que reler tudo o que estava para trás, para não haver incoerências.

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Era apenas desculpa; Vasco sabia que não era possível garantir a entrega. Ele até poderia ter feito a tal análise detalhada dos capítulos anteriores, mas os motivos de tão árduo trabalho seriam outros que não os de estudar as incoerências. A telenovela estava no momento crucial da revelação mais aguardada e ele não fazia a mínima ideia quem ia ser o homem da máscara; nem isso nem qualquer outra coisa, pois não fora a sua pessoa o verdadeiro autor de semelhante obra. Com um bloqueio criativo quase desde o início, aceitou que outro escritor, secretamente, lhe escrevesse todos os capítulos do folhetim. Assim, todos os dias, pela madrugada, recebia um capítulo por correio electrónico do verdadeiro autor; este mantinha sempre uma regularidade irreparável; mesmo quando se atrasava um pouco mais, entregava depois, simultaneamente, 2 ou 3 para compensar. Desta forma, Vasco nunca tivera problemas com o cumprimento da obrigação de autor, ainda que não o fosse. Não percebia – agora, mesmo no final – porque o genuíno criador o deixara pendurado; há 3 dias que ele não dava sinal de vida, nem e-mails nem telefone, a nada respondia.

Vasco já relera tudo o que fora escrito até então, para ver se conseguia congeminar alguma coisa, mas além de sentir um vazio enorme – as peças de semelhante emaranhado jamais se encaixavam na sua cabeça –, uma repulsa por aquele enredo anacrónico invadia-o também; como era possível que numa altura daquelas, com um país à beira de um estado de sítio, fosse mais importante o amor de donzelas desamparadas e a vingança do cavaleiro mascarado, do que todo o resto que assolava a sociedade? Uma nação a arder e uma simples Máscara servia de extintor.

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Tocaram à porta. Vasco abriu.

– Dada a importância do momento, preferi entregar o último capítulo em mão a enviá-lo por mail – disse alguém do outro lado da porta.

– Queres matar-me do coração? – repostou exaltado Vasco. – Isto está super atrasado. Se querias escrever esta porcaria tinhas que levar isto até ao fim, não era agora, no momento pior, deixares-me pendurado.

– Desculpa – disse Álvaro Aristóteles, enquanto entrava. – As reuniões do Conselho de Ministros têm sido umas atrás das outras, não tenho tido tempo para escrever. Mas pronto, está aqui, vai ser um final lindo!

A máscara está caída no chão. O jovem casal está no meio da sala. Aquele que fora até ali o mascarado está à beira da janela altaneira do castelo.

Mascarado:

-(grita) Só o meu sacrifício vos poderá salvar!

O Mascarado atira-se no vazio e cai no fosso do castelo. Uma máscara esvoaça ao redor da torre do castelo.

Álvaro e Vasco assistiam, os dois juntos, no sofá, ao desfecho da telenovela. Álvaro deu um abraço terno a Vasco.

– Nunca pensei conseguir levar isto até ao fim – disse Álvaro, enquanto fazia uma festa no cabelo a Vasco. – O que um pai não faz por um filho!

– Ok, fico-te eternamente agradecido – respondeu Vasco. – Mas ó pai, agora que tive um convite para escrever um filme, quero fazê-lo sozinho, está?

– Está, até porque eu também tenho que pensar noutras cantilenas mais importantes; governar não é fácil.

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Ainda estavam a saborear o champanhe, com que brindaram o final do folhetim, quando a emissão foi interrompida com um especial informativo:

– Boa noite, interrompemos a programação para noticiar que morreu Manuel de Mascarenhas. O líder da oposição, ao visitar um dos muitos complexos industriais abandonados com a crise, caiu num fosso de um elevador, de onde foi retirado já sem vida.

Falso conto; passagem de um mini-romance chamado o Absurdo dos Dias – do qual já postei por aqui um outro delírio, A bela -, escrito em 2008, ainda antes do rebentar da crise e que tem estranhas coincidências (devo ter uma costela de professor Zandinga).

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3 comentários leave one →
  1. Outubro 14, 2012 6:34 pm

    E, de repente, pus-me a imaginar o “gajo” a espreitar a Casa dos Segredos o dia todo, e a preparar as dicas para a Loirona Esganiçada…

    • Bau P permalink*
      Outubro 15, 2012 7:02 pm

      🙂 bom, o dito gajo deve preparar coisas piores

    • Bau P permalink*
      Outubro 22, 2012 6:56 pm

      E quem sabe se o tal “gajo” não o faz? 🙂

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