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O Grande Dia

Abril 7, 2013

Era o Grande Dia; há muito que sonhava com ele.

Muitos, para não dizer quase todos, esperavam pelo Grande Dia. António fazia parte dessa multidão que ansiava por um novo tempo, que fizesse o calendário ter uma cor mais viva, que lhe devolvesse o rascunho dos sonhos, que é como quem diz, que a desgraçada da vida começasse a andar um pouco para a frente e não estivesse sempre a puxar para trás, como mula empancada.

Estava ele envolto noutros devaneios – sim, porque nem só do Grande Dia se faziam os sonhos de um homem, o sono dos justos assaltavam-no com outras imagens, muitas das vezes sem sentido e muito longe de qualquer anseio idílico -, quando foi acordado abruptamente pela mulher, os filhos e o cão, que lhe invadiram o quarto com grande alarido.

– Finalmente chegou – disse-lhe a mulher, enquanto o abraçava e deixava escapar um choro miudinho; tanto que se dizia forte, mas depois, em momentos como aquele, fraquejava e deixava que a emoção fosse salgada por umas lágrimas matreiras.

Antes que António pudesse questionar algo, os filhos voaram sobre ele para o beijar e lhe fazer cócegas, como se recuassem uns anos atrás, quando eles eram bem crianças e gostavam de o acordar assim, ao domingo, depois de uma semana de trabalho longínquo.

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Até o cão quis marcar presença. Não encontrou muito corpo para fazer a festa, estava tudo ocupado com abraços, mas, por fim, lá apanhou uma mão do dono para passar a língua e, assim, também lhe dar a boa nova – pelo menos foi esta a versão, que mais tarde, contaram; que sim, que aquele cão percebia tudo, que era mais esperto do que muitas pessoas, que só lhe faltava falar para ser gente.

– Mas como sabes? – conseguiu, por fim, António perguntar.

– O homem está lá fora, de pasta na mão – respondeu a mulher.

Procurou uma roupa fácil de vestir, uma t-shirt e uns calções – para não ir de boxers, como costumava fazer por vezes, e, assim, não irritar a vizinha da frente que reclamava a todos o facto de ter que levar com o vizinho em cuecas; lá por parecer calções, não deixavam de ser cuecas, dizia ela – e foi até à porta de casa.

À porta, do lado de fora, estava o homem da pasta; permanecia imóvel, no seu fato preto, como se uma estátua se tratasse. António aproximou-se e cumprimentou. O homem, sem nome, apenas com uma placa a identificá-lo como 32.437, não respondeu à saudação. Os músculos de cara apenas se moveram para perguntar: Sr. António Silva?

– Sim, sou eu – respondeu António.

O homem tirou da pasta um ecrã, mostrou a António a notificação e pediu: assine aqui.

António leu, sim, era o Grande Dia, assinou com o dedo, a impressão digital confirmou a sua identidade.

– Tem 3 horas para se preparar – informou o homem da pasta. – Vou ficar à espera.

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Naquele momento já a vizinhança rodeava a casa, não era todos os dias que aparecia um homem de pasta por aqueles lados, por certo o Grande Dia teria batido à porta dos Silva.

António ainda estava meio perplexo com tudo o que lhe estava a acontecer; há muito que sonhara com aquele dia, mas agora, que ele chegara, não sabia como lidar com as emoções. Entrou de novo em casa; antes, distribuiu um pequeno sorriso pela assistência em jeito de bom dia.

– Pus a banheira a correr – disse-lhe a mulher, quando ele regressou ao quarto. – Vai tomar um bom banho.

António estranhou; já nem às crianças se preparavam banhos.

– Mas tenho que escolher a roupa – alegou ele.

– Depois tratamos disso, em conjunto, como nos velhos tempos – e selou a conversa com um beijo na boca.

Sem retorquir, António dirigiu-se à casa de banho. A banheira já estava meia cheia. O dia era grande, certo, mas estar ali a gastar tanta água era coisa que não gostava; mas não contrariou a vontade da mulher, ela lá saberia o que estava a fazer, afinal, dias melhores vinham aí e uma extravagância, de vez em quando, não fazia mal.

Estava um pouco perdido no meio do vapor e da dolência da água quente, quando sentiu que a mulher entrou. Poucos depois, ela invadiu a banheira. Nua, sentou-se em cima dele.

– Para quê, essa mariquice toda? – perguntou António ao ver um desfile de velas espalhado pela casa de banho.

– Ah, é giro; é como nos filmes – respondeu ela. Debruçou-se sobre o marido e voltou-o a beijar, desta vez num gesto mais prolongado.

Era o Grande Dia e o prazer sempre foi a melhor comemoração.

– E as crianças? – perguntou António.

– Mandei-as à casa da avó.

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Como nos primeiros anos de casados, voltaram a envolver-se numa cena de sexo na banheira. A água quente, um dos melhores afrodisíacos, nem sempre foi boa companhia. Primeiro, porque dificultou a penetração, como se, de repente, houve uma virgindade reencarnada; depois, porque os movimentos vertiginosos dos corpos causaram uma ondulação forte, fazendo com o líquido voasse por toda a casa de banho, transformando o espaço num pequeno lago. Só uma vela resistiu e foi testemunha completa dos sussurros e espasmos finais dos corpos; todas as outras acabaram afogadas.

Escolher a roupa não foi difícil: um fato preto e uma camisa branca era o ideal.

Enquanto a mulher lhe ajeitava o colarinho e lhe dava pequenos beijos no pescoço – a ternura e a vontade de se tocarem não esmorecera com o clímax do banho -, António pensou que a situação poderia ser ao contrário, o Grande Dia ser dela.

– Será que o teu grande dia também vai chegar? – questionou ele. – A partir da agora vai ser mais difícil, dois na mesma casa é coisa rara.

– Isso agora não interessa nada, o importante é que chegou um.

Faltava hora e meia para que o homem da pasta voltasse. Ainda havia tempo para uma comemoração mais alargada. Quando António saiu para o quintal pôde ver que a vizinhança já tinha colocado umas toalhas de papel na mesa de jardim; e com umas laranjadas, vinho de pacote, pastéis de bacalhau, rissóis, gelatina e melancia fizeram a festa. Até o Joaquim apareceu a tocar acordeão, para mal de todos os ouvidos presentes; alguém, por brincadeira, seguramente, lhe dissera, um dia, que tinha jeito para a música, e ele, agora, gostava de presentear, por tudo e por nada, o seu talento, especialmente desde que viera de Paris, onde se inspirara e misturara os acordes do vira minhoto com os toques da chanson française.

As crianças corriam a sua alegria de um lado para o outro quando o homem da pasta voltou a tocar à porta. António despediu-se de todos e dirigiu-se ao carro preto que o esperava. Um breve adeus e o vidro fumado subiu; a viatura arrancou.

Enquanto o carro percorria a rua comprida do bairro, as pessoas vieram à janela acenar. Pelo menos, foi assim que, no dia seguinte contaram as diversas bocas, na mercearia, agora minimercado, e no café do Tony – o nome original permaneceu, graças à teimosia da dona anterior, que fora apaixonada na adolescência por um cantor de charme. As vozes mais exageradas falavam até em largada de balões e colchas nas varandas; por pouco alguém não referiu, inclusive, uma charanga.

O edifício era grande – uma torre envidraçada com pouco mais de dez andares -, mas não tão imponente quanto António pensara. Entrou, percorreu largos corredores vazios até chegar a uma sala, também pouco cheia, uma mesa e duas cadeiras compunham o mobiliário. O homem da pasta, que o acompanhara, mandou-o sentar e pediu que esperasse; de seguida, saiu da sala por uma porta ao fundo. Foi por essa mesma porta, passado meia hora, que entrou outro homem, novamente com uma pasta.

– Boa tarde – começou por dizer o novo homem. – Como sabe, o programa Emprego Mais selecionou-o para ocupar um lugar de trabalho nesta empresa. Desejo-lhe felicidades e espero que corresponda às expectativas que foram depositadas em si. A sua permanência depende do que conseguir oferecer à organização. Aqui tem a pasta com tudo o que precisa, inclusive a localização do seu posto de trabalho.

Sem mais conversa, o homem saiu pela mesma porta por onde entrara.

António pegou na pasta; ali estava o que desejava há muito. Aquele objecto era o passaporte para aquilo que se tornara no maior tesouro dos últimos tempos: um emprego.

A sala 538-C, ficava no quinto andar, no fundo de um longo corredor. Quando abriu a porta, António verificou que era uma sala pequena, apenas com duas secretárias, onde estavam dois homens. Avançou até à secretária que ficava junta à janela, onde estava o homem mais velho. Este levantou os olhos do monitor e contemplou seriamente António. Durante uns minutos, olharam-se mutuamente. Sem palavras, fizeram-se as apresentações.

O homem da secretária levantou-se. António abriu a pasta, retirou a pistola e disparou. O homem caiu no chão, onde permaneceu inerte enquanto uma mancha de sangue começou a alastrar e a avermelhar o soalho.

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O programa Emprego Mais cumpriu-se: um emprego por outro emprego, com ausência de reforma.

Retirado o corpo, António sentou-se à secretária, que passava a ser sua, para iniciar o seu primeiro horário de trabalho.

– Juro que fiquei a tremer – disse o outro homem da secretária mais afastada da janela. – Ainda temi que pudesse ser eu, apesar de ele ser mais velho. Nunca se sabe os critérios malucos do programa. Bom, sê bem-vindo. Agora vamos ao trabalho, que não podemos vacilar.

António, antes de iniciar a sessão no computador, abriu de novo a pasta, voltou a retirar a pistola e disparou sobre o colega do outro lado da sala.

Afinal, o programa Emprego Mais tivera um ajustamento e, agora, por cada posto de trabalho novo era necessário a eliminação de dois; sem custos e sem reforma, como sempre.

Era o Grande Dia até chegar um outro, bem pequeno.

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3 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Abril 11, 2013 11:25 am

    Bau…
    a brincar tambem se fala a sério e a falar a serio tambem se brinca…
    mas este teu texto tem um humor negro verdadeiramente verdadeiro…
    porque (não é preciso arma de fogo para se matar alguém) lidamos todos os dias com uma serie de mortos vivos… todos os desempregados sem esperança e todos os que, tendo emprego, se apagam a ele a qulaquer preço mas sem viço e sem brilho…

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