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Olhares – Suspiro para Buñuel (2)

Setembro 11, 2012

Escurecia à medida que se ia afastando das artérias principais, como se a cidade tivesse dois fusos horários na mesma noite. As ruas começavam a ficar mais estreitas e silenciosas, o barulho dos carros era apenas uma ressonância que provinha da grande avenida ao fundo; mas de repente, uma certa luz avermelhada veio vestir a paisagem. Estava quase lá.

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Por muito que já tivesse percorrido aqueles trilhos, sempre que avistava as montras, iluminadas num néon vermelho rosado, um certo frio nervoso miudinho inundava-o. Dezenas de mulheres contorciam-se, numa espécie de bailado autista, dentro daquelas vitrinas revestidas a veludos quentes, como se tivessem num aquário gigante, de uma água luminosa, à procura de um pescador. Vicente, apesar de saber de cor o repetido elenco, gostava de olhar aquelas figuras femininas quase nuas, cheias de brilhantes na pele; faziam-lhe lembrar os tempos de miúdo, em que ia sempre ver, na feira da sua terra, a atracção da domadora de serpentes – ao mesmo tempo que ficava aterrorizado pela dimensão dos répteis, sentia-se também fascinado com todo o espectáculo, especialmente com aquele deslizar das cobras na pela rosada da mulher que, seminua, brincava com os animais.

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A lanterna vermelha a piscar, por debaixo de um grande néon, indicou-lhe que tinha chegado ao local que pretendia. Bateu à porta e entrou. Uma senhora, com peso na idade e no olhar, veio até Vicente e cumprimentou-o com alguma familiaridade.

– Esteja à vontade, escolha aquilo que mais lhe agrade – disse ela, fazendo um gesto largo com os braços, convidando-o a avançar.

Antes de subir ao pequeno quarto de cima, era necessário fazer a escolha da companhia; para tal, e como frequentador rotineiro, já sabia as salas do rés-do-chão que deveria visitar para escolher a mulher daquela noite. As novas aquisições estavam numa primeira sala à entrada, divisão a que só os clientes habituais tinham acesso imediato para não perderem muito tempo; os outros, o que começavam a frequentar aquele espaço, teriam que percorrer primeiro as outras salas, onde permaneciam as mulheres mais antigas no negócio. Novas ou velhas, todas elas os recebiam sempre com um sorriso formatado e um pequeno gesto de saudação. Sentadas ou deitadas em longos sofás vermelhos, à medida que os clientes passavam, abriam as suas chambres semitransparentes, para que se pudesse ver com melhor detalhe o corpo que ofereciam.

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– Então, por aqui? – Vicente quase que teve um ataque cardíaco quando ouviu esta pergunta mesmo atrás de si; era Vieira, um colega seu de trabalho.

– É… é! – balbuciou Vicente, todo atrapalhado com o encontro. A última coisa que queria na vida era encontrar alguém conhecido por ali.

– Ó homem, não se atrapalhe; afinal estamos os dois aqui para o mesmo, ou não?!

– Pois!

– Então, já escolheu alguma coisa?

– Ainda não, acabei de chegar. Mas parece-me que hoje isto está fraco.

– Realmente está, mas eu já me decidi. Ali nas novinhas está uma ruiva de cair para o lado, genuína e tudo. Tendo em conta o tipo de petisco que me apetece esta noite, vem mesmo a calhar.

– Eu ainda vou ver melhor o que há.

Sem mais conversas, foi cada um para seu lado. Vicente continuou a sua ronda. As aquisições recentes eram todas muito bonitas, altas, elegantes, aparentemente sofisticadas, o que as tornava muito irreais. Naquela noite, apetecia-lhe uma mulher menos perfeita, mais próxima daquilo que ele era, um homem banal; só assim, o que tinha em mente fazer ganhava sentido. De repente, reparou numa candidata, já com alguns anos, de formas mais arredondadas, que estava ao fundo da sala. Só naquele dia notou que ela tinha uns olhos escuros profundos e um sorriso muito doce, apesar ter estado sempre por ali, no mesmo canto. Era ela, a tal.

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Quando a eleita se levantou e se dirigiu até Vicente, ele viu que os anos já tinham feito algum trabalho no corpo daquela mulher, talvez por isso, ela ficara invisível naquela sala de exposição; mesmo assim, achou-a atraente. Cumprindo o ritual estabelecido, ele disse-lhe ao ouvido o que pretendia naquela noite e depois subiu até ao quarto que lhe fora indicado. Ela dirigiu-se a uma sala dos fundos, vedada aos clientes, abriu um cofre grande, escolheu a matéria que lhe fora solicitada e meteu-a numa caixa forrada com um tecido aveludado vermelho.

Ainda que já tivesse perdido a conta de todas as vezes que fizera aquilo, Vicente sentia-se sempre um pouco constrangido em despir-se e ficar nu junto a alguém que não conhecia, especialmente nos primeiros momentos; por esse motivo, mal deixou cair os boxers, deitou-se naquele enorme sofá chaise longue e cobriu-se com um lençol de cetim que estava dobrado.

A sua dama da noite entrou, vestida com um robe negro transparente, e pousou a caixa na mesa ao lado do sofá.

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– Começamos? – perguntou ela.

– Sim, sim. Não vamos perder tempo.

Uns seios volumosos, um pouco descaídos, puderam ser vistos quando ela despiu o robe. Hesitou ao tirar as cuequinhas rendilhadas.

– Quer que tire?

– Não, pode deixar ficar – respondeu Vicente delicadamente, ao sentir que ela não teria muita vontade de ficar completamente nua.

Ela abriu a caixa, retirou de lá um DVD e colocou-o no aparelho. Em seguida, dirigiu-se ao sofá e deitou-se ao lado de Vicente que, de imediato, deixou cair a cabeça no seu colo. 

As primeiras imagens de Lassie apareceram no ecrã. Enquanto foram saboreando as aventuras do canídeo mais cinematográfico, ela fez-lhe festas no cabelo, numa espécie de pentear suave. Vicente quase adormeceu de emoção: as imagens a que assistia lembravam-lhe a velhinha Laica, a cadela mais doce do mundo e que fora a sua companhia na infância.

No outro quarto ao lado, o colega de Vicente, nu e e estendido numa cama, esperou que a ruiva novata se despisse e se deitasse ao lado dele. Juntos começaram a assistir a Gilda, uma velha fita com a Rita Hawyorth. No momento em que Rita tirou a famosa luva, cantando Put the Blame in my Mame, Vieira e a ruiva deram as mãos, e assim permaneceram até ao final do filme.

  Ambos os homens, quando apareceu the end, vestiram-se, pagaram e saíram para a rua.

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A coincidência do destino voltou a marcar pontos, e os dois homens reencontraram-se, mas já cá fora. Ainda falaram um pouco do que tinham visto naquela noite, mas a conversa foi curta e circunstancial, depressa cada um seguiu sentido oposto.

Com o caminhar, Vicente foi perdendo, aos poucos, a aurora vermelha do bairro. Antes de abandonar completamente a zona ainda avistou uma montra, muita escondida, com homens em exposição e onde algumas mulheres, muito timidamente, entravam; também elas começavam a procurar aquele tipo de serviço.

Não fora um grande serão, mas sentia-se bem; o seu pensamento, mais descontraído, começava, agora, a centrar-se no seu novo desejo: ver Gata em Telhado de Zinco Quente. O problema maior seria a dificuldade em arranjar uma mulher com olhos cor de violeta para lhe fazer companhia e lhe dar o enquadramento almejado. Só se mudasse de casa, mas dificilmente outra Movies Girls House teria tão boas companhias como aquela sua velha conhecida, que lhe permitia ter afecto e cinema simultaneamente; coisa que, nos tempos que corriam, não era nada fácil de encontrar.

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