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O Regresso de Calimero – Refundar as Leis de Murphy

Outubro 28, 2012

Andou por aí uma senhora pelo mundo inteiro a falar – vender é o verbo mais apropriado, mas pronto, não quero levar isto para o lado mercantilista – de um tal Segredo; uma coisa que nos leva a um encontro com as energias positivas – numa espécie de borga no bar da esquina, onde tudo o que é bom toma umas caipirinhas connosco e conta umas anedotas alarves – e a conseguir a realização dos nossos desejos através de uma tal Lei da Atracção, nome mais catita para a eterna fonte dos desejos, mas desta vez sem atirar moeda.

Bom, eu quero já essa Rhonda Byrne aqui, ao meu lado, pago o que for preciso, para que ela me explique o tal secretozito tintim por tintim, como se faz aos meninos de fraca compreensão, como eu.

E tudo isto porquê? Porque se para muitos há o Segredo, para mim há apenas o “(in)segredo”, que é como quem diz, o “à boca cheia”. A lei da atracção na minha pessoa, quando existe, é para fazer convergir todas as energias negativas de uma só vez e, desta forma, começar a suceder-me em catadupa toda uma série de acontecimentos que não lembram ao diabo.

Ou seja, eu se tiver um livro de cabeceira que me acompanha, não será o tal Segredo, da australiana espertalhona, mas sim a Teoria de Murphy.

calimero

“Se alguma coisa pode correr mal, correrá. E mais, correrá da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”

E foi mesmo assim.

Com uma viagem marcada para os lados do sol nascente, encetei na véspera, como sempre à última da hora, os eternos preparativos. Nem sabia o que me esperava – coisa estúpida, a menos que se seja a Maya ou administrador do banco de Portugal, depois dos factos ocorrerem, nunca ninguém sabe.

Para não partir com “calotes” por pagar, entrei no meu banco online com a intenção de fazer uma série de pagamentos. Como recebi um telefonema pelo meio, a sessão expirou. Ao tentar entrar, obtive a seguinte mensagem “por motivos de segurança, a sua conta on-line foi cancelada, contacte….”. Tentei não desesperar, evitei abrir de imediato a gaveta dos calmantes, saí para o banco, a fim de levantar em cash o que precisava para os pagamentos, bem como comprar alguns dólares. Comi à pressa, num cafezito perto, e dirigi-me ao banco.

Para não perder tempo em caixas e balcões super ocupados resolvi levantar por ATM interno do banco o dinheiro que pretendia. Surpresa! A máquina engoliu o cartão também por motivos de segurança. Mau-maria, será que tinha virado o inimigo público nº 1 do banco?

Contactado o gestor de conta, não me soube explicar o que se estava a passar – coisas da informática, sabe como é, tem dias em que estas máquinas parecem que ganham vida própria.

Para ultrapassar a questão e porque não podia esperar, resolvi activar um outro cartão que me tinha sido oferecido pelo banco, mas que, até ao momento, por não precisar dele, ainda não o fizera. Surpresa! O sistema estava em baixo e não era possível fazê-lo – mas vá descansado que nós trataremos disso mais tarde.

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Decidi, então, resolver parte da questão, com o cartão de crédito. Quando, ao inserir o dito na máquina, me deu senha inválida, olhei para todo os lados à procura de uma câmara para os Apanhados. Só podia ser. Nem voltei a tentar mais nada, retirei-o antes que também fosse comido em nome de uma tal segurança máxima, como se os meus cartõezitos fossem os maiores terroristas à face da terra.

Saí sem banco online, sem cartão de débito, apenas com a promessa de um outro, e com o cartão de crédito só a funcionar por assinatura. Tudo isto a poucas horas de viagem.

Andei uns metros e senti umas fortes cólicas no estômago.

“Nada está tão mal que não possa piorar.”

No outro dia, à hora de apanhar o voo para Londres para iniciar a primeira de muitas partes da viagem, estava eu refastelado num hospital a levar soro. Fora-me diagnosticado um problemita de nada: uma gastroenterite. Bonito! Felizmente que recebi um telefonema do banco a dizerem que o tal cartão reserva não podiam ficar activo porque já expirara o prazo; iam emitir um outro que chegaria dentro de dias. Nada melhor do que estar estendido numa cadeira de hospital, a soro, e receber boas notícias. Sentia-me cada vez mais isolado do mundo financeiro, que parecia estar num amuo comigo. Não dei grande importância, naquele momento a cabeça estava mais virada para as gotas mínimas da garrafa que pareciam teimar em não cair. E o tempo a passar.

E o que faz uma pessoa normal numa situação destas? Sai do hospital e vai para casa descansar com sopinhas de dieta. E o que faz um palerma como eu? Adia apenas o voo da manhã para um outro ao final do dia, ainda a tempo de conseguir a ligação para Hong-Kong – que por sua vez tinha uma outra para Bali e ainda uma outra para Dili.

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Em lugar das dietinhas recomendadas pelo médico, o palerma foi meter-se na boca do lobo, neste caso no paladar de cozinhas exóticas que estoiram com qualquer um. Para piorar, havia ainda um pequeno detalhe gastronómico: estar mais de 20 horas fechado em voo, a comer os manjares dos caterings aéreos.

Viagem Porto-Londres tudo normal. Fui ali sossegadito num “tem não te caias” para ver ser não virava o barco. Eu que tinha escolhido o voo da manhã para passar o resto do dia em Londres a relaxar e a tomar uns teas com a minha parentela real, acabei por chegar bem à noitinha e ir para um hotel de aeroporto à espera do voo do dia seguinte.

“A informação mais necessária é sempre a menos disponível.”

Check-in em Heatrow. Pedi, por gentileza, se fosse possível, para que me arranjasse um lugar à janela, pois temia que a viagem não corresse muito bem e esse lugar poderia permitir um descanso melhor da cabeça. Manias minhas. A lady sorriu e disse que sim.

Mas a porra da realidade disse que não. O lugar não era na janela, era bem entaladinho e, para que eu não ficasse triste, tratou de me colocar também no mesmo lugar no voo de Hong-Kong para Bali. Assim como quem diz: ai não gostas de lugares ao meio?, então comes mais que é para aprenderes a gostar.

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Também não percebo porque insisto em pedir um lugar à janela. Calha-me sempre o lugar sobre a asa, mas do lado de dentro, claro. Viaje eu para onde viajar, já sei que a asa me está sempre reservada. Será que as minhas viagens são compradas em saldos? Ou será que as companhias têm uma recomendação médica secreta para a minha pessoa, em que, supostamente, por receio que eu sofra de vertigens, me põem ali, bem seguro, a vislumbrar a paisagem de umas turbinas e umas placas de aço? Não sei, mas o certo é que esteja eu a sobrevoar Nova Iorque ou Badajoz tenho sempre a mesma paisagem.

Penso mesmo, que se um dia fizer uma viagem à lua, o meu lugar será ali bem em cima do reactor para que, ao ver o lindo espectáculo do planeta azul, não tenha as tais vertigens presumidas. Como esta gente da aviação gosta de mim.

" Irás sempre encontrar algo no último lugar que procuras."

Mas a simpatia da lady operacional de check-in não tinha terminado. Num avião que não ia muito cheio, havia muitos lugares vagos, colocou-me a mim, ao meu colega e a um outro passageiro, todos bem juntinhos, numa fila de 3 lugares. Porque raio a mulher não colocou o outro senhor num outro lugar vago para que todos pudéssemos estar mais à vontade numa viagem de 12 horas? Por certo, para irmos bem juntinhos e não termos frio, sim que lá no alto aquilo arrefece bem e há que ir aconchegado.

Vendo que havia bastantes lugares vagos, filas completas, pedi à hospedeira se depois do avião levantar poderia trocar de lugar? Sorridente disse que sim.

Com a minha mania de ver a programação de filmes e experimentar todas as opções e botões, perdi algum tempo a brincar com a TV e o comando disponível. Assim, quando me preparava para mudar lugar, reparei que já tinham sido todos ocupados por outra gente que, sem mais nada, resolveu espraiar-se à grande e à francesa para dormir uma soneca. Tarde piaste. Bem dizem as mulheres que um homem, quando apanha uma gerigonça electrónica nas mãos, perde a noção das coisas. Eu perdi e paguei bem caro, pois com a noção do tempo foi-se também a oportunidade de me esticar bem durante a viagem.

Eu devia receber uma medalha de ouro das companhias de aviação, porque devo ser a única pessoa do mundo que até gosta de comida de avião – vamos dar um desconto ao verbo gostar, ok? Normalmente nunca como antes das viagens, aquela coisa de mostra passaporte, põe a mala, tire o computador, dá-me um stress inibidor de apetite; assim, quando entro num avião, estou super esfomeado e a folha de alface com um fiambre mal-amanhado sabe-me sempre a caviar russo em fatias de roquefort.

No entanto, tendo em conta o meu estado, não passei do pão e água, ou seja, em linguagem avionês, de chá e uns brioches ressequidos. Mas como sou pessoa de carnes fracas, lá para o fim, desesperado com a fome, cedi à tentação e tentei provar um arroz de uma chicken qualquer para enganar o estômago. Morte do artista, recomeçou todo o problema gástrico.

Ainda hoje me arrepio só de pensar que o avião poderia ter-se despenhado. O estado em que deixei aquelas casas de banhos minúsculas do avião foi tal, que, só por um milagre, quem lá entrou não começou em convulsões também e contaminou os restantes passageiros, assim tipo filme de zombies, mas desta vez escatológicos.

“O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude, o realista ajusta as velas e quem conhece Murphy não faz nada.”

Permaneci uma tarde e uma noite em Bali para poder apanhar no dia seguinte a ligação para Dili. Marcaram-me a estada num excelente resort perto do aeroporto; aquilo a que se pode chamar um luxo asiático. A minha suite, tinha 3 casas de banhos. Primeiro não percebi porquê, para que precisava uma só pessoa de tanto espaço? Ignorância minha. Claro que eles já previam o estado em que eu ia chegar – coisas das ciências ocultas orientais, mestres na adivinhação – e sabiam que eu precisaria das 3 e muito mais. Não os desiludi – sou lá pessoa para deixar ficar mal as ciências orientais – experimentei, usei e abusei, em força, todas elas e outras tantas, se houvesse.

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Cheguei a Dili no outro dia, já um pouco melhor.

Com o tempo fui melhorando; mesmo assim, não pude deixar de ter alguns cuidados. E de um momento para o outro, tornei-me num consumidor compulsivo de chá. Eu, que até nunca fui grande apreciador do dito, nem em líquido nem em palavras – especialmente daquelas que vinham sempre em tom de ralhete -, bebi litros e litros daquele sumo de ervinhas. Digo-vos uma coisa, se é verdade aquilo dos antioxidantes do chá, eu, face à quantidade avassaladora que ingeri, tenho o meu interior digestivo num autêntico inox – nem sei porque não apitei por esses aeroportos fora, sempre que passava nas máquinas de detector de metais.

“Se estás a sentir-te bem, não te preocupes, isso passa.”

Cumpri o meu compromisso profissional da melhor maneira. No fim, depois de todas as tarefas terminadas, preparava-me para relaxar e iniciar a viagem de regresso com umas paragens em Bali e Hong-Kong, já às minhas custas, à semelhança do que já fizera em vez anterior, quando me aventurei pela Austrália e Singapura. Agora, era vez de conhecer o paraíso do surf e a Nova Iorque oriental.

Mas eis que os Deuses de Murphy se voltaram a reunir e a indisposição voltou. Também pudera, por mais cuidados que se tome há sempre um exotismo alimentar que espera por si.

Mesmo assim, não desisti e rumei a Bali.

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"Não se tem porque ser pessimista, as coisas não vão funcionar mesmo."

Se no início da viagem me tinham colocado num resort muito bom, na segunda vez colocaram-me na zona cosmopolita de Bali, Kuta, para ver bem a movida "baliana", que é coisa para nunca dormir.

A parte urbana foi uma desilusão, parecia uma Benidorm mas ainda mais caótica.

A praia não me pareceu nada de jeito, tenho visto bem melhor. Mas, ao que parece, os surfistas adoram. Tenho cá para mim que deve ser mais pelas massagens, que são oferecidas a toda a hora, do que propriamente pela ondas. Mas até compreendo, depois de um dia todo a levar com a prancha nos calcanhares, nada melhor do que umas doces e macias mãos orientais para massajar os músculos doridos. Deve ser por recomendação médica que a rapaziada invade aquilo.

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Bali é uma terra de sol e de calor. Calor apanhei, sol nem por isso. Eu chego e o tempo muda. A probabilidade de eu ir à praia e fazer mau tempo é quase tão grande como o Natal ser em Dezembro. Inclusive tenho pessoas que me telefonam a perguntar se eu vou à praia, porque se eu for, elas já nem se atrevem, vai estar um dia péssimo de certeza.

Uma vez visitei a ilha da Boavista em Cabo Verde, que tem as melhores praias do arquipélago, ainda estado selvagem. Já não chovia há imenso tempo. Cheguei e aquilo foi um mar de chuva. Eles todos contentes; eu furibundo. Deviam ter-me erguido uma estátua.

Será que sou um Deus da chuva sem saber?

“Quem sai com ar de chuva, molha-se.”

Voltando a Bali. Como o tempo não estava grande coisa, resolvi fazer um passeio pela ilha e conhecer alguns dos seus costumes e gentes.

O melhor da ilha é mesmo o countryside: as paisagens campestres e os templos. Visitei alguns.

Apesar de ser ateu, sinto-me culturalmente cristão – afinal a catequese, a comunhão e todas as festas que nos caem em cima, alguma marca deixam. Talvez por isso os Deuses Indus pregaram-me uma partida: mal eu entrava num templo, desatava a chover a cântaros. Ficava que nem um pintainho. Quando saia de lá, parava logo de chover. Veio-me à ideia aquela imagem dos desenhos animados, em que, de repente, havia uma nuvem só a chover em cima de uma personagem. Naquele dia a personagem era eu, qual Calimero.

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Uma coisa curiosa que pude observar nos templos. Não se vende nenhum símbolo religioso, ao contrário dos nossos, mas em contrapartida coca-colas e batatas fritas não falta gente a vender. Porque é que Deus e o comércio têm sempre que andar de braço dado?

“Quando se anda de bicicleta, não importa para onde se vai, é sempre a subir e contra o vento”

Deixado o paraíso turístico, que outros viram, há que apanhar voo e rumar a Hong-Kong. Mais uma vez as deusas aeroportuárias foram meiguinhas comigo. Bom lugar na asa, entaladinho e, creme da la creme, com uma criancinha bem ao lado que, ao estar ainda mais maldisposta do que eu, exerceu o seu pleno direito de abrir pulmões durante toda a viagem. Felizmente que os auscultadores e um Travolta drag queen em Hair-Spray resolveram a questão.

Hong-Kong. Caótica e organizada ao mesmo tempo. Avenidas de arranha-céus, ruas estreitas de vendedores ambulantes. Tudo se vende, tudo se mexe. Contra-sensos contínuos.

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Tive a sensação que a Time Square tinha sido replicada em várias séries, à boa maneira chinesa, e todas elas foram colocadas ali. De repente, talvez pelo meu estado de contínuo enjoo, senti-me como se tivesse dentro da (bela) canção do Windmills of my mind: tudo rodopiava à minha volta; os neons, os caracteres mandarins, os cheiros, o reboliço comercial, tudo implodia na mina cabeça.

Só tinha uma solução: antecipar a viagem e regressar. Com um simples telefonema, resolveram-me tudo. Nem me atrevi a pedir lugar de janela. Até na asa eu vinha.

Contei cada minuto das longas horas da viagem; imaginava-me a morrer lá em cima, o que, se fosse boa pessoa, até facilitava a coisa, afinal já estava bem perto do céu; era só uma questão de pedir para sair num apeadeiro qualquer. Mas como o meu lugar deve ser bem nas profundezas, os deuses não se deram a esse trabalho.

Delirante, cheguei.

Aventuras e escritas do ano de 2007, numa malfadada viagem pelos orientes.

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Outubro 28, 2012 7:23 pm

    Não é de esperar que tanto azar possa ter graça mas delirei 🙂 . Relato impagável, excelente, cinco estrelas ! Quem sabe, sabe…

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