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pequenas histórias de amor – 1

Agosto 12, 2012

Ele olhou-me do outro lado do bar, assim que entrei; estava sentado junto ao final do balcão.

Fosse um dia normal, talvez não tivesse reparado nele, mas naquele fim de tarde ansiava por um contacto, um toque, um olhar que fosse; o dia pesara demasiado.

– Anime-se, homem! – disse-me o empregado, numa espécie de exortação encomendada, quando pousou a bebida no balcão e me encontrou com as mãos na cabeça, pensativo.

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Esbocei um sorriso e levei o copo à boca, quanto mais depressa o tempo começasse a ficar toldado pelo álcool, melhor – só me faltava, depois de uma casa vazia, ter também um emprego despojado.

Quando bebia o segundo trago, os nossos olhares voltaram a encontrar-se; definitivamente, ele contemplava-me. Sorri, gostei daquele galanteio visual. Ele entendeu o meu sorriso, pois o seu olhar largou o ar de ternura inicial e ficou mais espevitado.

Enquanto bebi o resto do gin tónico, continuámos com aquele jogo de olhares; a cabeça dele, que se inclinava para um lado e para outro, dava-me a entender que eu lhe agradava.

A turbulência do dia não casou muito bem com a rebeldia do álcool: passado algum minutos, a cabeça começou a andar à roda. Na tentativa de segurar o que ainda restava de mim inteiro, fui à casa de banho lavar a cara. Pelo caminho, passei por ele e pisquei-lhe o olho; ele fez-se tímido e voltou a cabeça.

 Refresquei-me. Como as forças ainda estavam confusas, entrei numa cabine e sentei-me.

andrew salgado

Estava eu com as mãos a segurar a cabeça, quando senti os seus passos. Ele viera ter comigo. Sem qualquer rodeio ou pudor, empurrou a porta e sentou-se no meu colo. Estava sem palavras. Antes de procurar a mais apropriada, ele avançou até ao meu rosto. De imediato, senti a sua língua na minha pele: primeiro no rosto, depois nos lábios, a seguir numa orelha até chegar aos meus olhos.

– És muito atrevido – disse-lhe, enquanto ele me fitava com aquele ar ternurento que me cativara desde o primeiro momento.

Nessa noite já dormiu em minha casa; a primeira de muitas.

Sou um fraco, confesso, não resisti àquele olhar; ao olhar de George.

Voltar a casa deixou de ser um vazio. Por muito que o desvario dos dias desabe sobre mim, sei que abro a porta e, nesse mesmo instante, sou cumprimentado com todo o calor e entusiasmo.

No bar, quando lá voltamos os dois, dizem que nunca viram um amor assim.

Sempre ouvi dizer que nós não escolhemos um cão, é ele que nos escolhe a nós. Assim foi. Depois de abandonado, George apareceu no bar e esteve alguns dias sem prestar atenção a alguém, até eu entrar. Tudo mudou nesse dia.

Ilustrações de Russ Mills e Andrew Salgado

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2 comentários leave one →
  1. Maria permalink
    Agosto 12, 2012 7:04 pm

    Não encontro um adjectivo que consiga fazer jus, penso que quem já catalogou os seus contos como irremediavelmente dramáticos irá ficar muito surpreendido, eu não fiquei. Apenas com uma sensação da ternura que emana do texto e uma certeza confirmada.

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