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Parabéns Avozinha!

Junho 24, 2012

Amélia não tinha os olhos doces – também, se os tivesse, por certo, já os teria ajeitado, que ela não era mulher para ter excesso de açúcar no corpo, mesmo que em sentido figurado. Pelo contrário, o seu olhar sempre mostrara um certo fogo, uma certa rebeldia, que ela acentuava todos os dias com a colocação de sombras e contornos vivos em frente ao espelho; nem que fosse só para a libertar daquele karma de ter um nome de velha desde que nascera.

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Alguma heroína, a transpirar beleza e juventude em todas as páginas, se chamava Amélia? Alguma vez se encontrou uma criança que carregasse esse nome, mesmo que em diminutivo? Não. As Amélias, numa espécie de lei oculta, nasciam já velhas, de carrapito na cabeça, saias compridas e com personalidades tortas, fossem elas velhas – lá está – criadas de servir, ou velhas senhoras – claro, tinha que ser – de família (como se a criadas não pudessem ser senhoras nem ter família), daquelas que herdam um nome de muitas gerações e falam pausadamente, num português com as sílabas todas, bem ao jeito de velhas actrizes – pois não – do Teatro Nacional.

Por carregar essa cruz do nome, de lhe negar uma juventude, Amélia odiava ser Amélia. Pior do que isso, só o seu defunto marido, Jacinto; além de ter também um nome de velho – até a conhecida pastorinha, que fora despachada cedo por causa do trauma das aparições, apesar de morrer imberbe, parecia, e as fotos testemunham isso, que vivera mais de um século -, Jacinto era sempre nome de jardineiro ou motorista, daqueles que arrastam os pés e tiram o chapéu ao entrar pela porta das traseiras. Sim, porque se o jardineiro ou o motorista fosse jovem e garboso, do género deus grego para a velha senhora depenicar um pouco os seus músculos – versão mais atrevida, diria quase pornográfica – ou suspirar pelo seu abraço – versão mais cordel -, seria sempre Marco, Márcio ou Fábio, guardando-se os Paulo, Pedro e Miguel para filhos ou convidados da casa.

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Por tudo isso, naquele dia, Amélia carregou ainda mais na maquilhagem; queria que o seu rosto contrariasse a sina do nome; queria que a entrada na sala esmagasse pela juventude. Só por ser Amélia não tinha que ser velha; claro que o facto de dentro em breve, meros minutos, não mais, estar a apagar 80 velas num bolo todo cheio pedrinhas luminosas de açúcar – muito em moda, agora – não lhe deixava muitas alternativas.

Não fora o fado desafinado do nome, e a Amélia até podia estar bem feliz: com 80 anos tinha um aspecto elegante e conservado. Os avanços da ciência permitiam a qualquer pessoa – que tivesse dinheiro, evidentemente, porque isto dos tubos de ensaio é coisa de muito gasto – ficar cristalizada no tempo: o envelhecimento físico nunca ia muito além do antigo estado das pessoas com 50 anos no início dos anos 2000. Não fosse alguma doença rara, destrambelhada, aparecer e, na hora da morte, todos faziam cadáveres lindos de morrer. Então, se contassem com a ajuda da cirurgia plástica – muito bem desenvolvida naqueles anos de 2040 -, todos pareciam ficar embalsamados numa juventude eterna, não daquela juventude fresca e inconsequente, de quem tem 20 anos, mas da outra que há muita era conhecida: das estrelas de cinema, que viviam 30 anos a parecerem que tinham 30 anos.

Conhecedora das magias do bisturi e das injecções hormonais, há muito que Amélia se entregara nas mãos do Dr. Gonçalo Simões – um santo, aquele homem, um santo a fazer milagres – para que de dois em dois anos lhe fizesse um restauro, mais do que à decoração da sua sala, que renovava apenas de cinco em cinco.

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Assim, não foi com grande surpresa que se fez aparecer na sala onde esperavam os convidados. Apesar de estar deslumbrante no seu longo vestido vermelho, com um decote quase até à cintura, onde um grande cinto trabalhado lhe acentuava as formas, todos acharam que ela estava bem cuidada como sempre.

Todos, menos um amigo do neto mais novo, jovem com hormonas ainda 100% naturais e que ficou deslumbrado com a aparição da homenageada. Ele já a vira uma vez ou duas, mas nunca reparara como a senhora era bela e possuía um corpo ainda em muito bom estado – bolas, até eu dava umas voltas com a velha, pensou ele quando se lhe eriçaram boas sensações ao ver semelhante paisagem feminina. Com a boa educação que tinha – para alguma coisa havia de servir os bons colégios onde os pais torravam o dinheiro, já que o sucesso escolar, não fossem as anfetaminas do conhecimento, não era nenhum -, o rapaz calou as sensibilidades libidinosas, nem sequer um cochicho brejeiro ao amigo soltou, e bateu palmas de boas vindas à velha, jovem e boa senhora.

Amélia cumprimentou, com um sorriso discreto, todos os presentes, não gostava de euforias nas saudações, atitude mais adequada a famílias das classes de onde sempre lhe saíram os empregados, uma espécie de aviário social que produzia a pouca mão-de-obra que ainda necessitavam; felizmente que as máquinas já resolviam a maioria das situações laborais, faziam menos barulho, eram mais eficientes e podiam-se trocar sem grandes conflitos.

Um olhar panorâmico pela sala permitiu-lhe verificar que não faltava ninguém: os dois filhos, o pastelão do genro – aquele rapaz arrastava-se pela vida e pelo dinheiro da família -, a estúpida da nora, que tinha a mania que era sempre a rainha das festas, os cinco netos – felizmente que nenhum casara e não lhe dera o desgosto de ser bisavó, não haveria medicação nem cirurgia que resistisse ao desmoronamento dessa palavra – e alguns amigos chegados; bom, estava ali um rapaz que não se lembrava de o ver, provavelmente um amigo dos netos. Pena que fosse aquele dia, caso contrário haveria de o convidar para ir lá a casa e tentar uma sedução; a rapaziada nova – sabe-se lá porquê, se por aquelas coisas complicadas da psicanálise, se porque sim – gostava de provar mulheres mais velhas, e estas sabiam – como os homens já há muito o tinham descoberto – que o melhor elixir da juventude para se tomar era saborear um corpo bem tenro.

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Sem demoras, Amélia aproximou-se da mesa e inspirou bem forte; de um único sopro apagou as 80 velas.

– Parabéns avozinha! – gritaram em coro, emoldurados numa grande salva de palmas.

– Muito obrigada por terem vindo – disse Amélia, tentado olhar para todos. – Fico muito emocionada por estarem presentes num momento como este.

Sem mais palavras, encaminhou-se para a porta e acenou aos presentes. Como nos velhos programas de televisão, aqueles em que vedetas esquecidas gostavam de aparecer e desaparecer por uma porta luminosa, Amélia dissipou-se ao passar as ombreiras da portada. Lá fora, uma ambulância-limusina esperava-a. Dois homens, de fato branco, depois de abrirem a porta do veículo, esperaram a sua entrada. Amélia instalou-se numa cama de veludo azul celeste, onde aguardou que os homens de branco lhe colocassem umas pulseiras que, por sua vez, estavam ligadas às máquinas que a rodeavam. Nada daquilo a surpreendeu; sabia que no dia em que fizesse 80 anos haveria de ter aquele encontro. Num ecrã, o maior – nos mais pequenos passavam fotos da sua vida -, surgiu a imagem do primeiro-ministro; tão pouco aqui ficou surpreendida, já conhecia a gravação de tanto ter sido mostrada e debatida.

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– Boa noite, Amélia – começou por dizer o primeiro-ministro. – Parabéns pelos seus lindos 80 anos. Como sabe, é também nesta data que se dá por terminada a sua viagem nesta vida. O avanço da ciência permite-nos viver sem problemas quase eternamente. No entanto, nenhuma sociedade aguentaria uma população gigante que não se renovasse. Assim, o rigoroso programa LifePlus permitiu-lhe viver com toda a qualidade até esta bonita data. Agora, é tempo de iniciar uma nova viagem, a grande eternidade. Obrigado Amélia, por ter feito parte da nossa sociedade e a ter contribuído para que ela fosse melhor e mais bonita. Feliz viagem!

A imagem do homem desapareceu e deu lugar a um conjunto de paisagens de belas praias, azuis e cristalinas, estereótipos de paraísos, como se todos os édens tivessem que desembocar num qualquer resort das Caraíbas.

– Tretas! Fosse eu da cor do cabrão e conseguisse meter uma cunha e, por certo, estes 80 anos davam lugar a outros tantos – desabafou Amélia, sem que, no entanto, os homens de branco lhe prestassem atenção, continuaram a programar o seu trabalho. – Vá lá, dêem-me a puta da injecção, que já não tenho mais paciência.

Antes de chegar ao Centro Vital, outrora um hospital, Amélia já repousava o último sono; a droga tinha um efeito rápido. Numa capela, cheia de vitrais que se compunham com a imagem da falecida, a família esperava o corpo.

No programa LifePlus o ser 45667289 foi abatido aos registos; duas novas ordens de nascença foram dadas.

Ilustrações de Russ Mills

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2 comentários leave one →
  1. Maria Bruno permalink
    Junho 24, 2012 6:26 pm

    Excelente….

  2. Anónimo permalink
    Junho 25, 2012 11:05 am

    oh Bau… fiquei fascinada com o fim…
    Sabes? A vida e a morte, não fosse eu uma bióloga, foi sempre um tema que me fez pensar, meditar…
    A morte em si nunca me assustou… nem a minha nem a dos próximos.
    O que sempre me assustou foi adivinhar o que seria uma morte dolorosa e uma agonia prolongada..
    Faz bem pouco tempo perdi o meu pai que passou quase um ano a definhar dia a dia – nas conversas que tinha com ele, dizia-me muitas vezes “ah, se a gente pudesse saber exactamente o dia em que a morte nos tocava, tudo seria mais fác…il”
    e eu questiono-me: seria?
    como viveriamos sabendo que no dia tal tinhamos a vida terminada?
    e assim me vou…
    beijinhos
    minda

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