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O Papel do Amor

Junho 10, 2012

imageQuando Maria Rita passou tão bonita – airosa, com a cesta de frutas à cabeça –, Bernardino sentiu que aquele era o dia certo para lavrar no papel tudo o que lhe enchia o coração. Entrou em casa e procurou nas gavetas a folha mais bonita para nela escrever as palavras que lhe incendiavam a cabeça há muito. Não era muito o seu saber no engenho da escrita, mas, por certo, com o pouco que a professora Elvira lhe ensinara – ainda não fizera dois anos que concluíra a escola de adultos -, haveria de conseguir compor o mais belo pedido de namoro que a memória da terra algum dia tivesse escutado; tão forte, que só um sim escancarado podia ter como resposta de Maria Rita.

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Por mais que revolvesse a papelada, Bernardino não encontrou folha limpa e bonita que fizesse jus ao amor que queria derramar nela. Pouco asseados, rasgados ou até desbotados com o tempo, foram esses os estados que encontrou nos papéis que lhe saltaram das gavetas. Amaldiçoou a vida parca e bruta, de luta diária com o mar, pouca dada ao engenho das letras; fosse ele doutor, e não lhe faltariam gavetas e prateleiras com os mais ricos e vistosos papéis.

Não adiantava sair e ir à venda de Leontina, por lá só haveria papel grosseiro para embrulhar mercearias gordurosas ou, quanto muito, pequenos cadernos para os miúdos que tinham a sorte de frequentar a escola; mas nada disso estava à altura da escrita para a sua Maria Rita.

 Decidido, Bernardino preparou o bote e resolveu enfrentar o mar até à ilha maior, onde, no armazém do senhor Adriano, não faltava papel de carta de todos os tamanhos e feitios; já ouvira dizer que até com cheiro a rosa se podia escrever. Cinco horas a remar, o vento não estava de feição para a vela, foi o tempo que lhe levou até avistar terra mais abastada.

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Mal colocou pés em terra firme, os seus passos tomaram direcção certa. Não houve tempo para cumprimentos de ocasião com as gentes do cais – companheiros da luta marítima.

Quando entrou no armazém, não perdeu muito tempo a olhar para as prateleiras – não muito cheias -, dirigiu-se de imediato à empregada – que conversava a vida sem pressa nenhuma – e pediu a sua encomenda: queria papel de carta, do mais bonito que houvesse, daquele perfumado, que ao abrir a carta iludisse uma jardim inteiro. A rapariga, bonita – mas não tanto como a sua Maria Rita -, na sua calma, tirou uma caixa debaixo do balcão e mostrou-lhe um pequeno conjunto de envelopes, todos selados com um plástico.

– Se levar este tem um cheiro bonito, a rosas – e indicou um pequeno sobrescrito cor-de-rosa acompanhado de uma folha com flores estampadas.

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– Posso cheirar? – pediu Bernardino, queria testemunhar o aroma.

– Não; se abrir a embalagem perde o cheiro e a moça, depois, não vai gostar – não foi preciso grande explicação para que a vendedora percebesse o verdadeiro objectivo da compra.

Como homem de bom coração, confiou na rapariga, não regateou nada e pediu que lhe vendesse aqueles papéis floridos e aromáticos.

– Sabe que toda a moça depois de dizer sim gosta de ser agradada – retomou a vendedora. – Não quer levar uma coisa bonita para a embelezar?

Bernardino não trazia muito dinheiro; além da carta, pretendia levar também uns sacos de arroz e farinha, por isso pegara, em casa, nuns trocados maiores. No fim das compras, não lhe restaria muito para fazer agrados.

Sem esperar pela resposta, a rapariga voltou a tirar uma caixa debaixo do balcão e mostrou-lhe um coração dourado, que se abria em dois, e onde se podia colocar uma fotografia.

– Se ela disser que sim, vai gostar de ter junto a seu próprio coração este outro com o retrato do seu amado; ainda por cima com um moço tão apessoado, não lhe faltará querer.

– É de ouro? – Bernardino não ligou ao elogio, apenas se preocupou com o preço do bonito objecto.

– Parece, não é? Mas não lhe vou mentir, não é de ouro; tem um brilho forte porque é feito com um pó de ouro, uma cosa lá dos orientes.

Em casa ainda havia algum arroz, e peixe não ia faltar, ele pescaria todos os dias; ficaria para outro dia o carregamento de mantimentos, levaria, sim, aquela jóia para que Maria Rita luzisse, perante todos, o brilho do seu amor.

Ainda que a distância entre o armazém e o cais fosse grande, Bernardino sentiu-se a voar todo o caminho, especialmente quando apertava contra si o embrulho com a carta e o coração dourado. Tal era o enlevo com as compras, que nem reparou em dois rapazes, que se aproximaram e, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, apontaram-lhe uma faca ao peito.

– Passa para cá o pacote – exigiu um deles, o que não tinha a faca na mão.

– Mas isto não tem interesse, é só um papel – tentou Benardino desfazer tão malvada atitude.

– Pouco conversa ou ficas já aqui a derramar sangue por causa de um papel – e sem que lhe dessem mais tempo para imploro, arrancaram-lhe o embrulho das mãos. Com um empurrão, Bernardino tombou no chão. Foi precisamente aí – antes que as lágrimas o invadissem, como criança desesperada – que soltou uma última súplica:

– Fiquem com o coração de ouro, mas deixem-me os papéis! Essa coisa não vos renderá tostão, e para mim é pão para o coração.

Os ladrões riram com semelhante rogação – temos poeta, disse um deles -, tanto que, mais longe, deitaram foram o embrulho onde estava o envelope e a folha de carta, ficando apenas com o coração dourado. Bernardino levantou-se e correu para apanhar o seu almejado objeto, antes que qualquer aragem, mais daninha, o arrastasse para uma das muitas poças de água existentes. Felizmente que uma folha seca de palmeira o amparara.

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Só quando colocou o bote a navegar, Bernardino se sentiu seguro; mas não por muito tempo. O vento que lhe faltara na vinda, era agora uma força maior. Num primeiro tempo, deu-lhe jeito aquela aragem furiosa, a vela tomou embalo e a viagem tornou-se mais curta. No entanto, já próximo de terra, o céu resolveu irar-se ainda mais e enviar uma tempestade tropical; o mar elevou-se e a pequena embarcação foi completamente engolida. Os deuses estavam naquele dia pouco dados a arrebatos românticos e resolveram estragar o enlevo de Bernardino, assim pensou ele. Mas não se deu por vencido. Qual poeta lusitano a salvar lírica maior – tal como a professora, um dia, lhe contara -, agarrou o embrulho numa mão e nadou com a outra. Só o plástico, que envolvia os papéis, o salvou de chegar a terra com o envelope e a carta secos, e em condições de poderem absorver escrita.

A escorrer água, Bernardino entrou em casa e sentou-se à mesa: era preciso começar a escrever as palavras bonitas para Maria Rita. Os tormentos que lhe assaltaram a viagem deram-lhe inspiração; ficou belo o pedido de namoro escrito com todas as letras, desenhado numa caligrafia aprimorada, tal e qual lhe fora ensinado. Adormeceu cansado mas feliz: apesar de todas as agasturas que o dia lhe despejara, ele conseguira os seus propósitos.

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Na manhã do dia seguinte, ainda estava a vestir o melhor fato – ao entregar a carta queria estar como se fosse domingo -, quando Bernardino escutou a charanga. Chegou à janela e viu que a banda se dirigia para o alpendre de Maria Rita. Mau sinal; não era dia de festa, e só havia charanga sem romaria quando se acompanhava corpo à terra. Será que acontecera alguma coisa à sua amada? Colocou a carta no bolso e, sem fazer mais qualquer esmero na aparência, Bernardino correu para a casa de Maria Rita. Sentiu um enorme alívio quando, ao entrar, a viu sentada a um canto. A haver defunto não era ela. Percebeu, depois, que fora o pai da sua querida, o tio Barnabé, que finara.

Bastante desgostosa, Maria Rita levantou-se para dar uma palavra, em particular, a Bernardino. Este teve vontade de profanar o momento e entregar-lhe, logo ali, a carta que escrevera com tanta paixão; é nos momentos de dor que o amor conforta melhor. Mas conteve-se. Ela não, foi à cintura do vestido e tirou um papel, todo dobrado.

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– Lê! – pediu-lhe Maria Rita.

Bernardino desdobrou o papel e começou a juntar as palavras. Não queria acreditar. Antes de morrer, o velho Barnabé escrevera uma simples frase, que até assinara, a pedir a Maria Rita que, depois de ele fechar os olhos, ela esposasse Florentino, homem de algumas posses, e que a cortejava há muito, pois iria cuidar bem de toda a família.

– E agora? – perguntou Bernardino, enquanto olhava para Florentino no canto da sala, todo feliz, já a contar aos presentes o seu futuro com Maria Rita.

– Agora há que aceitar. Pedido de defunto lavrado em papel é uma ordem – respondeu Maria Rita, dando assim por terminada a conversa com Bernardino, o mesmo a quem ela sempre viu como o homem que a tomaria por inteiro.

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Ainda nesse dia, Barnabé foi a enterrar acompanhado da charanga. No bolso do seu casaco domingueiro levava um envelope com uma folha a cheirar a rosas. Bernardino, sem ninguém ver, acabou por depositar a sua carta de amor no fato do defunto; queria que lá, onde quer que aquele corpo fosse parar, tivesse para sempre a companhia do seu papel formoso que falava de um bem-querer puro e que ele, mesmo finado até aos ossos, resolvera enguiçar com um outro mal amanhado de letras interesseiras. Talvez deus, ou até o diabo, lhe arranjasse boa penitência por ter destalhado, assim, um grande e bonito amor.

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5 comentários leave one →
  1. Maria Bruno permalink
    Junho 10, 2012 4:40 pm

    Lindo, quase faz acreditar no destino, adorei obrigada :).

  2. Junho 10, 2012 5:04 pm

    Bem…..que mudança !! MUDASTI ! Está lindo sim senhora ! Por isso estou a comentar ….:)

    Sem mais nada a acrescentar …somente que nunca se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje já dizia a minha avó e ainda bem que começaste a escrever assim não deixaste para amanhã…

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