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O Triângulo Dourado das Mulheres

Maio 13, 2012

Adoro malas de senhora!

Não, não me passou uma coisa ruim pela cabeça e decidi sair por aí, em cima de uns saltos altos, com uma écharpe esvoaçante, à espera de ser capa de revista. Tão pouco apanhei uma gripe de cleptomania e quero apropriar-me dos tesouros que andam por lá.

Gosto porque me fascina o mistério daquele objecto com que esbarramos todos os dias, especialmente nas cadeiras de restaurante – não te importas de pôr aí a minha mala. Mas este gostar não está só, existem mais dois objectos que fazem parte daquilo a que se pode chamar o Triangulo Dourado do fascinante e misterioso universo feminino.

***

Menina, eu quero A MÁ-LA!

Penso que se uma mulher saísse à rua sem a sua preciosa carteira/mala poderia ser presa por atentado ao pudor, pois ela iria completamente nua.

Mas deixemos a nudez e centremo-nos na vestimenta.

Dentro daqueles pequenos centímetros cúbicos esconde-se todo um mundo para lá dos nossos olhos. Basta, por gentileza, pegarmos nela, para pousar na tal cadeira de restaurante, e verificamos, pelo peso, que muitos planetas resolveram fazer ali a sua galáxia. Como uma autêntica cratera mitológica, em que se atiram diversas oferendas, numa espécie de sacrifício, a mala tudo engole. Todo e qualquer objecto pode ser armazenado naquele espaço. Qual dimensão, qual peso, qual quê?! Dá-se um jeito e zás, lá entra, e lá fica perdido toda uma eternidade, como se quer em qualquer cosmos. O seu recheio é tão variado que, por vezes, parecem autênticas reproduções da própria casa, pois, com excepção dos móveis, tudo tem lá uma pequena representação. Tenho para mim, que os móveis só lá não estão porque não dá muito jeito.

Mas porque gosto assim tanto das carteiras?

 Já alguma vez tiveram uma dor de cabeça ao pé de uma senhora? E uma indisposição estomacal? E uma dor de uma perna? E uma ferida? Se tiveram já sabem: por artes mágicas, sai sempre de lá um comprimido, uma pomada, um gel, ou até mesmo um penso que nos vais salvar a vida e nos faz abandonar aquele inferno patológico acidental, em que, acidentalmente, entrámos, para nos transportar até ao paraíso do alívio.

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Mas não é só uma farmácia ambulante; qual ilusionista circense com o seu chapéu, milhares de tiradas são feitas ao dia:

Xiça, queria tanto apontar uma coisa e não tenho aqui nada – sai caneta e papel.

Ó pá, não é que deixei cair sopa na gravata! – sai um toalhete especial que limpa tudo.

Meu Deus, caiu-me o botão da camisa! – no problema, há aqui uma agulha e uma pequena linha que remedeia a situação.

Raios parta, a criança não se cala! – eis que, vindo não sabe de onde, sai um bonequinho que, além de calar a criança, vai estabelecer ali laços de amizade eterna entre a dadora e o recebedor.

Não adianta. Por mais invulgar que seja a necessidade, qual caixa de Pandora, qual caldeirão de Harry Potter, há sempre qualquer coisa lá no fundo para resolver a pior e a mais inoportuna das situações.

É por tudo isto, que este objecto, a mala de uma senhora, devia ser considerado Património da Humanidade e já devia ter ido a votação nas 7 maravilhas do mundo.

A minha dúvida, não é só como elas se lembraram de pôr tudo aquilo lá dentro, é também como foi possível caber tudo lá? Mas tenho uma teoria:

Aquela coisa lá do córtex e dos lóbulos – que lhe dá as tais características especiais do ser feminino, como o falar continuamente e executar várias tarefas ao mesmo tempo, e que faz, por vezes, de nós homens, um mero objecto mecânico de on/off -, deve ter também por lá mais uma área que se dedica em exclusivo às carteiras de senhora. Essa área, ainda desconhecida dos cientistas, provoca, enquanto todos dormem, uma energia cósmica dentro da casa que faz com que os objectos se reduzam e vão, um a um, em filinha pirilau, para dentro da carteira, que, qual dragão vulcânico, está de boca a aberta à espera que tudo entre.

Penso que além de mim, só o argumentista de “Eu casei como uma Feiticeira” desvendou esta capacidade energética das mulheres. Claro que ele exagerou na dose, mas tudo o que vemos na série e no filme não é fantasia, é apenas uma hipérbole para demonstrar esta teoria.

Por isso meus senhores, quando começarem a desesperar porque a senhora revolve e revolve e nunca mais encontra o raio do telemóvel, lembrem-se como aquele poço sem fundo é tão importante nas nossas vidas, pois o prazer que já nos deu, ao tirar-nos do apuro mais inusitado, é superior a qualquer nervoso miudinho de ouvir o som de uma Shakira qualquer a apitar e nunca mais atenderem.

***

O Equilíbrio das Sereias

Não, não tenho nenhum fetiche com os pés e com sapatos. Agora, que aqueles dois objectos elevados, a não sei quantos centímetros do chão, são também, para mim, um colossal mistério, lá isso são!

Os sapatos, na minha pessoa, são apenas o elemento que me liga ao chão. Uma coisa cómoda e prática, que não choque muito com o resto da indumentária, resolve tudo; mais, que não sejam muito caros, porque saber que uma quantidade enorme de euros anda por ali a arrojar pelo chão, faz-me doer um pouco a dentadura da alma.

Mas, quando olho para os pés das mulheres, vejo ali mais do que um invólucro para os pés. Vejo sim, um elevador do condomínio da sua personalidade:

umas ficam-se pelo piso zero, normalmente porque são mais dadas a comportamentos simples de casas térreas, os quintais ensolarados das suas cabeças são mesmo o mais importante;

outras, como já gostam do espaço mais arejado, escolhem o piso 1, 2 ou 3, onde abrem umas janelas para que circule alguma brisa no seu comportamento;

mas há ainda outras, que, sabe-se lá porquê, gostam que a sua personalidade viva num autêntico arranha-céus, e, vai daí, escolhem modelos que só param mesmo num 20º andar.

É sobre estas, e sobre os tais objectos elevatórios, que me apraz falar.

Vê-las entrar numa reunião, com uma série de pastas na mão, com um sorriso aberto, e em cima de uma coisa cuja altura dava para qualquer homem ter logo vertigens e tomar uns comprimidos para o enjoo, é obra! Melhor do que isso, não só é obra como arrasa com qualquer estaleiro.

Como será possível alguém equilibrar-se assim? Os únicos homens que conheço que conseguem andar uns palmos acima do nível da terra trabalham em circos e são muito bem pagos para isso. Qualquer ser humano, que não depile as pernas e que saiba ler mapa de estradas, entraria, ao colocar-se em semelhantes andaimes, numa urgência hospitalar com um desvio de coluna, três traumatismos no cóccix e ainda uma luxação no tornozelo. Mas elas não, riem-se, cruzam as pernas e aviam os últimos dossiers, como quem come calamares e bebe cerveja numa tarde ensolarada em Sevilha, depois terem palmilhados quase uma meia-maratona à procura da blusinha caqui que tão bem liga com aqueles benditos sapatos.

O que levará uma mulher a querer caminhar num 20º andar da vida? Logo elas, que têm a fama de terem os pés bem assentes na terra. Só pode ser mesmo piada! Ou então uma metáfora.

Tenho também uma teoria para tal escolha: aquilo que ornamenta os seus delicados pezinhos não são sapatos, são autênticas armas secretas fabricadas numa agência também ultrassecreta de espionagem feminina. O objectivo é pura e simplesmente destrambelhar o inimigo, pois enquanto ele fica com suores frios só de se imaginar em cima daquilo – ou com suores quentes a imaginar outras coisas – elas avançam com a matéria de que querem falar. Passo a explicar:

Imaginem que numa reunião, em que é preciso debater e fazer passar determinados pontos de vista, entra uma senhora, vestida normalmente e em cima de uns sapatos do piso zero, quanto muito piso 1. O que é que cérebro masculino, atrofiado por preconceitos machistas ao longo do tempo, vai fazer? Tomar cuidado:

– Hum! Esta deve ter pelo na venta, tem a mania que é dona disto e que sabe tudo, vai querer fazer passar a dela. Vou estar atento.

Agora, imaginem que lhe entra uma outra senhora, das tais que habita sempre no 20º andar, mesmo quando a reunião é no rés-do-chão. O que vão pensar as tais cabecinhas masculinas recortadas a ideias sexistas de outras eras?

– Uau! Com estas pernas e estes sapatos, não se espera grande coisa. Já que deve sofrer tanto em cima daquelas coisas, não deve ter muito tempo para preparar a matéria. Deixa-me cá ir sorrindo e dizendo-lhe que sim, para não a deixar triste.

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E com isto, quando se dá por ela, já a burra está nas couves; eles, sem se aperceberem, aprovaram o que ela quis sem pestanejar. Só não se levantam e lhe oferecem flores, porque o impulso não fica bem e não convém copiar a publicidade.

Mas com ou sem teoria, o certo é que continua, para mim, todo um mistério: que um ser humano se aguente em cima de tamanhos propósitos, consiga caminhar serenamente e, sobretudo, consiga sorrir – e eu a pensar que na Idade Média houve objectos de tortura muito menos perigosos!

***

Uma questão de peito!

Se numa carteira podemos pegar e sentir o seu peso, e se até mesmo nuns sapatos altos, numa bebedeira carnavalesca, nos podemos meter em cima e sentir as tais vertigens, num soutien nunca podemos perceber o que pode provocar aquele objecto espartilhado no corpo. Podemos, sim, perceber outras coisas, quando a sua imagem colocada ou descolocada se torna nossa vizinha do lado, mas não é isso que está em causa.

O soutien, além de toda a parte estética e sedutora que tem, é antes de mais uma peça importante para a saúde e o bem-estar da mulher – dizem. Até aí tudo bem. Mas, ao contrário de todas as outras peças de vestuário femininas, tem algo de inalcançável e de provocador. Inalcançável, porque parece ser uma autêntica fortaleza para proteger um tesouro; provocador, porque ao deixar uma pequena parte das joias a brilhar – ou pura e simplesmente deixa (pre)ver o design e os quilates subjacentes às peças – parece querer cativar uma aproximação.

Assim, se por lado temos a fortaleza afastar, por outro temos a montra da joalharia a chamar por nós; é nesta dicotomia que reside o mistério da dita peça. O problema é que, por vezes, o mistério complica-se, e aquilo que parecia ser meramente um forte militar simples para qualquer oficial e cavalheiro conquistar, acaba por se transformar numa autêntica armadilha, já para não dizer emboscada.

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Se a mala deveria ser considerada património da humanidade, o soutien deveria figurar nas listas de armamento sofisticado a ser reavaliado em qualquer negociação de desarmamento da ONU, nomeadamente, e sobretudo, por causa dos adolescentes, as principais vítimas desta guerra. E tudo isto porquê? Por causa duma simples patilha de abertura, que, ao contrário do que parece fazer crer – o acesso ao paraíso dos rapazes -, se transforma num autêntico instrumento aniquilador de ambientes e de conquistas. Digamos que é um autêntico napalm no erotismo do momento.

Já imaginaram quantos adolescentes masculinos ficaram traumatizados por, nos seus primeiros passeios pelas colinas de Afrodite, esbarrarem na autêntica armadilha de ferro que, não só lhe fechou as portas ao admirável mundo novo, como também lhe dizimou o ego erótico por uns tempos? Por favor senhoritas, sabem que estas armas nunca vêm demonstradas em nenhum jogo da Playstation! Como querem depois que os rapazes saibam desferir o ataque mestre para ultrapassar a entrada na fortaleza se eles nunca dedilharam esse jogo?

Numa determinada fase da vida, abrir um soutien é pior do que resolver um problema de física quântica; com a agravante, quando estamos a resolver o problema mantemos alguma serenidade, pois não estamos propriamente a palpitar calores por tudo o que é lado, a não ser que se tenha estudado mal a lição, mas aí, os suores serão outros, muito pouco apetitosos, até porque a paisagem que avistamos também é outra, já não é coleguinha que sempre sonhamos, mas um professor mal-encarado, com cara de quem já não conquista a fortaleza há muito.

Com o tempo, tudo se aprende e o homem é um animal que evolui. O problema é que evoluir nesta matéria é pior do que tirar uma pós-pós-graduação em Oxford, parece que nunca aprendemos o suficiente. Já somos catedráticos, os sabichões maiores lá da rua, e, de um momento para outro, vimo-nos confrontados com outra espécie de armamento, vulgo novo modelo, que nos foge completamente a todos os estudos e cálculos exponenciais que já desenvolvemos. É nesse momento, quer se tenha 30, 40 ou mesmo 50 anos, que nos voltamos a sentir um pobre adolescente ainda a comprar Clearasil para as borbulhas.

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Claro que os homens, lembrando-se dos tormentos porque passaram nos primeiros tempos, inventaram formas mais simples de armaduras para que as novas gerações não tenham que passar pelas agruras que eles passaram. Somos uns camaradas! O pior, é que a utilizadora final nem sempre está pelos ajustes com as modernices, ou então, digamos que tem assim uma espécie de culto clássico pelos mecanismos ancestrais, e nunca mais arquiva aquele que é o mais aterrador mini-objecto para a rapaziada: o Colchete.

Eu fazia um apelo, em nome das novas gerações:

Privilegiem novos métodos de trabalho, uma espécie de Novas Oportunidades, com adopção de técnicas mais inovadoras na abertura da fortaleza. Estamos numa época de poupança de energia; neste momento, todo e qualquer programa economizador é bem-vindo. Não nos podemos esquecer que os rapazes terão depois, um pouco mais à frente do abrir da fortaleza, com diferença de poucos minutos, um outro momento de alto consumo termelétrico: a colocação daquele outro objecto, mais latexiano, que, apesar de ser neste momento o melhor amigo do homem, mesmo antes do cão, requer também um esforço enorme de concentração – é que se não se vestir a rigor, a festa pode ficar comprometida. Bom, com tanto desperdício de energia em montar o cenário da contenda, quando o jovem guerreiro abraçar definitivamente a doce batalha, a probabilidade das pilhas fraquejarem é muita. Como vêem, não é fácil ser homem nesta vida moderna, então jovem nem se fala.

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Com toda a evolução, ainda não sei porque não abandonamos a questão analógica do problema. Não seria mais fácil se entrássemos na era digital dos soutiens e, com um simples click, tudo aquilo se abriria sem esforço nenhum. Ok, para sofisticar e proteger o momento, poder-se-ia lá colocar uma password, que nos seria dita depois ao ouvido, de um forma sensual.

E se as donzelas se esquecessem da password? No problems! Por certo, elas iriam à tal carteira e lá encontrariam, perdido e bem no fundo de tudo, um papelinho com a dita senha apontada. Provavelmente nessa altura, e com todo o despejar de objectos e mais alguma coisa da carteira sobre a cama, já qualquer um suspiraria pelo velho e adorado colchete do soutien.

Texto já com alguns anitos, mas que recauchutei para não ficar perdido por aí.

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2 comentários leave one →
  1. Maio 14, 2012 2:59 pm

    Fiquei sem palavras, melhor era impossivel. :))))
    Maria

    • Bau P permalink*
      Maio 15, 2012 8:41 pm

      obrigado, mas melhor é sempre muiiiiiiiito possível 🙂 ainda agora ao abrir vi um uma gafe na primeira frase com 1 s a mais na adjectivação de senhora.

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