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Enlevos Primeiros

Abril 22, 2012

Era tempo de avançar para práticas sexuais mais avançadas; amanharem-se com as mãos, enquanto espreitavam o alivio urinário das mulheres do rancho junto à ribeira, já lhes sabia a pouco. José Bernardo e João Aguada, com os seus 17 anos, estavam homens feitos. Assim, resolveram rumar à cidade onde havia uma casa, na rua mais florida do burgo, cheia de mulheres que lhe ofereciam as carnes a troco de um bom pagamento.

O facto de não terem dinheiro para amainar o desejo, não os desanimou: resolveram roubar um borrego para venderem na praça antes de entrarem na casa do prazer.

No dia seguinte, quando chegaram à cidade, já o sol ia bem alto, dirigiram-se ao mercado para tentar vender o borrego, mas como os dias eram quentes e os negócios faziam-se bem cedo, não havia a quem feirar o bicho. Desfeito o sonho, na cabeça de José Bernardo era tempo de pensar em voltar a casa. Como sempre, João não desanimou: se não havia mercador para comprar, poderia haver donzela para trocar; quem sabe se as mulheres da rua florida não aceitariam um borrego em troca de uns favores na cama, o bicho ainda valia bom dinheiro.

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– Então rapazes, vocês vêm para foder ou para adorar o menino Jesus? – troçou, entre gargalhadas, uma mulher, de longos cabelos morenos, ao cimo de uma escada, quando viu os dois amigos, um dos quais, João, com o cordeiro aos ombros.

A risada foi geral, o mulherio, disponível, surgiu de imediato para ver semelhante desplante; até um alferes, em ceroulas e de galões ao ombro, apareceu, vindo de um quarto, para ver o que se passava; se havia coisa que o irritava era quando, no meio do enlevo maior, faziam burburinhos cá fora, perdia logo a pujança que tanto o orgulhava, mas aquela cena também o levou a arreganhar o farto bigode.

– Vamos lá ver, isto aqui não é nenhum presépio, virgem e menino é coisa que há muito não mora por aqui, e a Páscoa já foi há muito – replicou a mulher dos longos cabelos pretos, perante o descaramento e a insistência de João em oferecer o borrego como pagamento de uma faina na cama. – Onde pensam vocês que eu ia meter o bicho?

– Ó Tina, olha que isto ainda vale bom dinheiro vendido no mercado da praça – tentou entusiasmar uma outra mulher, aparentemente mais nova, não tanto pela receita que o animal poderia dar, ela não ia ver boa parte desse dinheiro, mas porque, apesar de serem ossos do ofício, e eles eram bem duros, tinha ali dois jovens, bem-parecidos, e com todo o ar de quererem iniciar-se nas habilidades de alcova naquele dia; uma mulher da vida gostava sempre de coleccionar principiantes, talvez como forma de expiação das máculas que lhe assombravam os dias.

– Tina, avia aí os rapazes que eu pago e fico com o raio do borrego – comunicou o alferes, que viu ali um bom negócio: a mulher haveria de lhe fazer um preço especial pelo aninho com os rapazes e ele, por certo, conseguia arrecadar bom preço ao sargento responsável pela messe.

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 Não foi preciso mais discussão; passado um quarto de hora, já os rapazes, envergonhados, despiam as roupas, um em cada quarto, sob o olhar atento das mulheres que lhe calharam em sorte; elas divertiam-se com o embaraço daqueles dois inocentes que lhes bateram à porta de cordeiro em ombros, dando laivos de oferenda divina a coisa tão pouco sagrada.

José Bernardo acabou por ficar com a mais velha, era uma mulher um pouco acabada, não porque a idade lhe pesasse muito, mas porque a marca do tempo não tinha sido generosa, os longos cabelos negros escondiam um rosto onde algumas rugas já traçavam caminho; umas coxas fortes e um peito generoso foi tudo o que ele conseguiu observar antes de se deitar, timidamente, na cama e ser engolido pelos abraços fogosos que lhe ofereceram.

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João ficou com a mais moça, uma rapariga magra, de cara redonda, como se fosse gorda, de olhos amendoados e boca pequena, o que lhe agradou bastante, queria uma mulher que pudesse ser como uma namorada e não uma que lhe lembrasse sua mãe; ela, por sua vez, não ficou tão agradada, desejava que lhe calhasse, ou que a Tina assim o tivesse deitado em sorte, o outro rapaz mais esguio e com ares mais fino – parecia mesmo estrangeiro o moço.

Quando José Bernardo saiu do quarto há muito que João o esperava ao fundo das escadas; este, na pressa da ansiedade do momento, despachara-se depressa e a rapariga não tivera para grandes conversas, o serviço estava feito, era tempo de ir lavar roupa ao tanque nas traseiras, que o tenente já fora, todo contente com o animal, e a clientela estava fraca, à noite, por ventura, aquilo animar-se-ia. Zé, pelo contrário, demorara-se muito mais, não que tivessem sido prolongados os primeiros arrebatos, bastaram uns impulsos mais forte sobre as carnes rosadas femininas e a sessão terminara de imediato; mas a mulher, ainda entorpecida com toda a vozearia à volta do borrego, achou por bem dar-lhe mais um tempo, era rapaz novo e umas festinhas quentes pelo corpo logo o voltariam a colocar no ponto de encetar novas galgadas, coisa que aconteceu e que a surpreendeu, apesar de novato depressa aprendera, a segunda rodada, mais calma, deu-lhe a ideia de já ter ali um amante calejado em muito saber de alcova.

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– Bem que me podias ter deixado para mim o mais jeitoso, sempre quis enroscar-me com uns olhos azuis – comentou a mais moça das meretrizes após a saída dos rapazes.

– Verdes, mulher, os olhos eram verdes.

A divergência da verdadeira tonalidade do olhar teve tempo para ser bem esmiuçada; José Bernardo haveria de voltar outras tardes para tudo esclarecer e para se aprofundar mais nos engenhos do bem-querer repentino. Naqueles minutos, em que se amarfanhava nos corpos oferecidos, as palavras de amor quente, sussurradas ao ouvido, ainda que fossem enganadoras, cuidadas ao sabor de um serviço, soavam-lhe à mais verdadeira declaração apaixonada sobre a terra; os ouvidos e o coração seguiam confortados durante algumas horas e quase se esquecia o esforço que fizera para arranjar soldo conveniente para semelhante léxico impetuoso.

Entre homens, um segredo de aventura carnal era sempre um recato partilhado; bastou uns dias para que eles fizessem propagandear – baixinho, para que todos soubessem – entre a ala masculina a sua nova condição de machos conhecedores dos mistérios femininos; não faltavam detalhes, para que ficasse provada a sua verdadeira sabedoria, contados na taberna do ti Jerónimo, ao domingo, quando a maioria dos homens se juntava – ao sol, nos dias invernosos em que ele abria, e eram muitos, ou, no estio quente, à sombra de uma laranjeira velha que por ali ficou esquecida na rua principal – para falarem das grandes façanhas do enlevo.

Falso conto: excerto do capítulo 9 do folhetim-romance Cria Corvos.

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