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Lindo de Morrer!

Abril 17, 2012

Todos nos lembramos de um tempo em que se guardavam coisas para uma ocasião especial: o fato que não se vestia, para que só fosse usado em caso de casamentos e baptizados; o pijama novo oferecido, que ficava religiosamente arrumado numa velha cómoda, para a eventualidade de surgir uma doença súbita e houvesse a necessidade de uma exposição pública da nossa intimidade têxtil no hospital; a toalha de mesa em linho bordado, que esperava, guardada numa gaveta do armário, uma qualquer visita importante que resolvesse aparecer; a roupa mais formal e em bom estado que, a partir de uma certa idade, ficava estacionada à espera de ser o vestuário final.

Outros tempos nasceram. Afogados num mar de coisas à nossa disposição, não só não guardamos nada, como compramos, usamos e deitamos fora muito mais do que realmente é necessário, a fazer lembrar crianças gulosas que ainda não acabaram um doce e já pensam noutro. No entanto, apesar desta voragem, algumas pessoas ainda reciclam o novo tempo em antigo, e, com toda a calma, fazem uma reserva especial para o brinde final.

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Genoveva, apesar de continuar de boa saúde, sabia que os seus dias já não seriam muitos; os seus 76 anos começavam a pesar nos pequenos passos do dia-a-dia. A ideia de se preparar para o dia final há muito que não a largava – credo, ainda me entra pela porta dentro, mais cedo do que devia, e encontra-me toda enxovalhada.

– Paula, tenho que lhe pedir um favor – disse Genoveva, enquanto olhava para umas caixas de cartão, azuis com flores amarelas, que o seu filho Pedro acabara de montar a muito custo, jeitinho de mãos não era o seu dom, aquele rapaz conseguia pôr num frangalho não só os nervos, como também qualquer peça que fosse preciso arranjar. – Um dia destes, pode vir comigo às compras? Eu tenho que fazer umas comprinhas especiais e gostaria de ter alguém para me ajudar; sabe, aquelas coisas de mulheres, que precisam sempre da dica de uma outra, nem que seja para depois culpá-la por ter comprado algo que afinal não se gosta.

Paula franziu a testa, em jeito de surpresa: não era Natal e a sua sogra, tirando essa época, há muito que deixara de sair para fazer compras, a não ser que a arrastassem – como boi a caminho do matadouro – para uma visita a algum centro comercial novo, com a desculpa que ela precisava de conhecer aquele espaço todo hodierno, cheio de luzes, de gente aos encontrões e de escadas rolantes que a mareavam. Normalmente, ela acedia ao convite perante o entusiasmo dos netos em querer levar a avó, mas bem que preferia ficar no seu sofá a ver televisão do que enfrentar toda aquela romaria moderna – eu quero é as minhas novelas, quero lá este chinfrim todo de gente que mais parece gado no curral em dia de feira.

– Eu, quando morrer, não quero dar trabalho nenhum, quero que tudo já esteja preparado – anunciou Genoveva de surpresa. – Assim, queria ir comprar a roupa que vou levar vestida nesse dia. Estive a ver os meus trapinhos e não tenho nada de jeito, mesmo morta uma pessoa precisa de ir composta.

– Por amor de Deus, Veva! – exclamou Paula estarrecida, não só com a morbidez da ideia, mas também com a penosidade de ter que acompanhar a sogra numa sessão de compras com tal fim.

– Está decidido, eu vou comprar a roupa; se a Paula não quiser vir, vou eu sozinha.

– Não é isso. Claro que vou consigo. Agora, não tem necessidade de estar a pensar nessas coisas, primeiro porque está aí muito boa, cheia de genica, e depois quem cá ficar que resolva o assunto.

– Eu é que sei como quero ir; mas pronto, então se está disposta a vir comigo, fica resolvido o assunto. Diga-me só quando é que lhe dá mais jeito.

Sem mais conversas, Genoveva foi para o quarto arrumar as caixas de cartão. Paula compreendeu, então, porque é que a sogra fizera questão de comprar aquelas caixas de arrumo, aquando de uma visita a uma grande loja de coisas para casa; logo ela, que dizia que não comprava mais nada para casa, já tinha tralha que chegasse, novos tarecos só serviam para estorvar e dar trabalho a limpar o pó.

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Paula e Genoveva entraram na enésima loja de roupa.

Genoveva dirigiu-se de imediato ao local dos vestidos e começou a escolher. Paula procurou, de seguida, uma cadeira para se sentar, estava exausta: como podia alguém andar a escolher roupa para o dia em que morresse, se a dita pessoa estava com uma energia alucinante? Ela entrava e saía das lojas com mais fulgor do que uma adolescente eufórica com a escolha da roupinha para a festa de finalistas.   

Genoveva vestiu toda uma série de roupa; conseguiu desfazer dois varões de vestidos, para desespero da empregada que estava espantada ao ver uma pessoa daquela idade com semelhante fúria por experimentar. Mirava-se ao espelho, rodopiava para ver o efeito e caminhava até perto da nora para que ela lhe desse a sua opinião; esta, sempre sentada, abanava a cabeça afirmativa ou negativamente, não percebendo muito bem o porquê de tanta escolha.

– Este faz-me um pouco gorda, não faz? – perguntou Genoveva.

– Não, pelo contrário, cai-lhe lindamente – respondeu a empregada, que julgava tratar-se da escolha da roupa para uma cerimónia um pouco mais viva do que aquela a que realmente se destinava.

– Sempre quis ter um vestido assim – referiu Genoveva, mais tarde, ao colocar um com umas flores alaranjadas bem grandes –, mas é capaz de não ficar muito bem.

Paula ficou para morrer com semelhante escolha. A sua sogra, a quem nunca vira usar outras cores que não o sóbrio cinzento e azul-escuro, estava ali à sua frente com um lindo vestido branco cheio de flores laranja, toda sorridente e a rodopiar como se fosse embarcar para a Jamaica. A boca de Paula quase que esteve para se abrir e dizer: – sim, não lhe fica lá muito bem, especialmente porque depois não vai ligar com os tons da madeira do caixão –, mas segurou-se.

– Bom, se calhar não é muito próprio – comentou Paula, um pouco hesitante.

– Tem razão – concordou Genoveva num tom melancólico, deixando, assim, escapar um certo desapontamento por aquele pequeno sonho, de usar um vestido a gritar alegria, ter sido desfeito na única oportunidade confessa para o realizar.

Depois de mais umas provas, Genoveva encontrou finalmente um vestido azul-marinho liso que poderia ser a escolha acertada. Caminhou novamente até Paula, bem airosa na sua passerelle improvisada – sentia-se uma verdadeira modelo –, mas já não levava o sorriso rasgado que tivera quando vestira o de flores laranja.

– Que tal?

– Bom, esse fica-lhe a matar – respondeu Paula, quase trincando a língua ao tentar travar a adjectivação; no momento em que a proferiu reparou que não era a mais adequado às circunstâncias.

Já com o vestido azul, e com mais um conjunto de acessórios e complementos, as duas mulheres dirigiram-se à última loja: uma sapataria.

Enquanto a sogra calçava sapatos, Paula aproveitava e experimentava umas sandálias, as férias estavam quase à porta e havia que ganhar tempo.

Mais uma vez, Genoveva andava de um lado para o outro, saltitando, a experimentar e a ver o efeito dos sapatos. Depois de já ter calçado uma boa dúzia deles, fixou-se nuns azuis-escuros.

– Eu gosto muito destes, mas não sei, não. Acho que me magoam um pouco ao andar.

Paula pousou definitivamente na prateleira as sandálias que tinha acabado de experimentar, num gesto bem estridente, e, cansada de tanto fashion choice, olhou seriamente a sua sogra:

– Mas servem-lhe?

– Servem, só que me magoam um pouco aqui atrás.

– Bom, vamos lá ver, se é para o que é, esteja descansada que nesse dia não lhe vão magoar de certeza, ou muito me engano, ou não vai precisar de dar um passo com eles.

– Pois é! – respondeu Genoveva, num tom triste ao cair finalmente em si; tudo o que comprara com tanto gosto era apenas um conjunto de coisas indiferentes, quando as fosse usar já não faziam nenhum sentido para ela; afinal, tinha, simplesmente, andado a comprar os derradeiros pedaços do seu próprio fim. – Levo estes, então!

sapatos

Chegaram a casa num perfeito silêncio. Genoveva arrumou todas as compras nas caixas de cartão, compradas para o efeito, e foi fazer o jantar, que o filho e o neto estavam à espera dos seus petiscos; ela não gostava que a sua gente saísse dali de barriga vazia.

A meio do jantar, a ala masculina não percebeu a razão que levou Paula e Genoveva, perante a observação do neto – queria outros ténis porque os que tinha andavam a magoá-lo –, a explodir num ataque de riso, sem conseguirem parar.

Nessa noite, deram folga à máquina e lavaram a loiça as duas juntas.

1º Conto-capítulo da pseudo novela Cenas Cortadas do Filmezinho da nossa Vida.

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4 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Abril 18, 2012 1:07 pm

    Muito, muito bom!!! Adorei e ri, imaginando a cena, para gente jovem pode ser estranho, mas era assim mesmo, mesmo que depois a família decidisse por algo completamente diferente, delicioso
    Maria

    • Bau P permalink*
      Abril 19, 2012 9:45 pm

      só espero que as verdadeiras protagonistas nunca leiam isto 🙂

  2. minda permalink
    Abril 22, 2012 2:31 pm

    ola Bau

    acho que ja tinha comentado este post mas pelos vistos não ficou registado ou eu estou completamente balhelhas e já nerm sei o que faço….

    também eu tinha lá em casa aqueles sapatinhos e aquela roupinha de vestir ao domingo…

    e também tenho hitórias destas na família… mas a mais caricata é a tia Laurinha que, para além de ter a roupa comprada e a jeito para o “dia de me encontrar com o Senhor” … Laura dixit, também tinha tudo tratado com o padre e com a funerária…

    mulher prática e viuva há muito não queria dar trabalho e também não queria correr o risco de não lhe fazerem o enterro ao seu gosto!

    hábitos!

    e para ti… beijinhos e muitos parabens mais uma vez!
    minda

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