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Facas de Fogo – Um Folhetim alarve em 1000 palavras

Abril 7, 2012

Esta rapariga vai para puta, vaticinavam as vizinhas de Fabiana, ao verem o rol de namorados que arranjava da noite para o dia; mas ela torceu-lhe as profecias e conseguiu ser dama distinta da Foz; para tal, bastou-lhe um bom broche no descapotável do benjamim dos Pimenta Lencastre. Martin, um rapaz quase virgem, confundiu tesão com amor – uma boca assim era coisa maior do que qualquer Julieta – e apresentou-a à família como a mulher da sua vida.

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Teresinha, matriarca de retrato a óleo na parede da sala, marcou de urgência uma consulta no psiquiatra – diga-me doutor Guilherme, como faço para desmascarar uma vagabunda que arremessou nosso nome no lixo? -, mas o médico preferiu deitá-la no sofá e cobri-la de beijos, era terapia garantida e sossegá-la-ia durante umas semanas.

Ricardo, homem de negócios importantes, ao ver que o petiz dos seus cinco filhos sucumbira nas garras de mais uma mulher da Gaia, saiu no seu Jaguar, a queimar pneus, no encalce de Carminda, sua velha conhecida e mãe da galdéria. Ainda ele não tinha passado a soleira da porta e já ela o aviava com palavreado grosso: – não venhas com merdas de eles serem de origens diferentes, que foi assim que me endrominaste.

Quando escutou que era um amor proibido, por serem do mesmo sangue, Carminda soltou uma grande gargalhada – só mesmo um cabrão de um morcão como tu, para acreditar que Fabiana podia ser tua filha, se fosse tinha-te esmifrado até ao tutano. Ó tonho, tu deves ser mais seco que galo capado; o que eu fiz para emprenhar e nada; bastou tu partires e o primeiro macho que encontrei encheu-me logo o bucho.

Ao chegar a casa, Ricardo foi lavar as mãos – deixar Carminda estendida no chão, depois de lhe apertar o pescoço, fazia-o ver sangue por todo o lado, ainda que nem pinga tivesse sido derramado -, mas era a alma que lhe apetecia branquear. Se era estéril, como poderia ter cinco filhos todos garbosos? A sua Teresinha sempre fora tão respeitadora. Com as análises, o tormento da dúvida deu lugar a um outro muito maior, o da raiva: nenhum dos filhos podia ser seu, os seus espermatozoides eram mudo e quedos, rapaziada rara e preguiçosa.

Como vingança de semelhante traição – quem seria o pai de tão grande filharada? -, chamou Fabiana e deu-lhe toda a bênção, tanta que até a administração da fábrica de cutelaria lhe ofereceu: se foi putedo que gerou isto tudo, porque não ter uma puta a mandar?

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Fabiana, rapariga de poucos credos mas de muitas intuições, tratou logo de desapear Simão, o delfim da família, do comando – quero aquelas trombas longe, só vejo veneno naquele olhar – e chamar o Quim, velho amigo da Afurada, que era astuto e estava habituado a lidar com peixeiradas, não fosse ele dono de duas traineiras. Não contou que o futuro cunhado, homem de educação esmerada, chamasse ao terreiro outro Quim, este pirotécnico, para deitar fogo a todo o complexo fabril – a puta vai ser dona de cinzas; saco o dinheiro do seguro e fujo para o Brasil com a minha Luisinha e os meus queridos filhos, que sou homem de princípios cristãos, a família sempre junta; só espero que, quando tudo arder, a vaca esteja lá dentro, para fazer rodízio.

No dia da encomenda, o fogo começou. As paredes que viveram gerações prósperas de faqueiros Pimenta Lencastre, depressa sucumbiram à devoração das chamas. Simão, ao longe, assistia feliz como criança no arraial.

Para espanto de todos, Fabiana também ficou feliz: o Quim fogueteiro era amigo do Quim peixeiro e ateou apenas a ala dos cabos; foi um favor, despedia-se uma parte do pessoal – Fabiana, de 9º ano tardio, sabia que um bom gestor deve despedir sempre para causar boa impressão – e importavam-se os cabos da China; com o seguro, entrou bom dinheiro para pagar a boda.

No início do Verão, a capela da quinta em Penafiel iluminou-se para receber o casamento. A noiva, a querer botar boa figura, encomendou o vestido a estilista de renome; esqueceu-se que uns reduzidos panos brancos carmim não eram indumentária adequada para a casa de Deus; não fossem as manas do noivo, Clara, Branca e Alva, e o padre José terminara a cerimónia de imediato.

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Antes que algum dos noivos soltasse o sim, Simão tirou do cinto uma das melhoras facas da família e correu para Fabiana – com fraca pontaria, não podia arriscar um número de faquir -, tinha que evitar que uma messalina comungasse o sagrado casamento, deus agradecer-lhe-ia.

– Pára! – gritou Carminda, ainda a recuperar da tentativa de estrangulamento. – Simão, Fabiana é tua filha.

Há 20 anos atrás, ainda Ricardo não tinha voltado as costas e já Carminda arrepanhava o filho mais velho, na altura com 15 anos, para debaixo das suas mantas – a soleira daquela porta de Gaia destrambelha a tesão dos homens da família.

Martin começou a ficar mareado: afinal, a sua mulher era também sua sobrinha. Pior ondulação estava para vir. Teresa levantou-se, arrancou a faca de Simão e avançou para Carminda – umas boas sessões de terapia aliviariam o trauma de despachar aquela pecadora -, mas a avó, Isabel, ajoelhou-se e carpiu um pranto, baixinho, como gente bem: – Não! Teresa não mates a tua irmã, Carminda. Tive que a abandonar, depois da minha perdição com… contigo, padre José.

O padre José pediu as chamas dos infernos para o engolir. Já lhe bastava o filho bastardo – felizmente que se formara doutor – com a beata Alice, agora caía-lhe uma Carminda qualquer no colo.

Confusos com semelhante enleio familiar

– então, não é que o doutor Guilherme também confessou que andou a foder a Teresinha e a fazer filharada para o Ricardo sustentar, como vingança da sua mãe ter sido expulsa de cozinheira quando engravidou do padre José –,

Quim fogueteiro e Quim peixeiro resolveram fechar a igreja e deitar fogo a tudo aquilo; mas antes, pegaram nas 3 irmãs – que eram boas como o milho – e foram viver uma família moderna, lá para os lados de Lavadores.

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