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Atrás da Porta

Abril 4, 2012

Quando descobriu, ela, num primeiro tempo, não queria acreditar; preferia pensar que eram os seus olhos que enxergavam mal, que a sua cabeça começava a ter visões; mas uma segunda espreitadela confirmou o pior dos seus receios.

Lavada em lágrimas, telefonou para a sua melhor amiga, Beta; precisava de desabafar, de um colo para o choro. No maior dos dramas, sentia que toda uma vida ruíra.

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– Ana, eu vou já para aí – respondeu-lhe Beta do outro lado do telefone, enquanto gateava pela sala à procura das chaves do carro que, com o desvario, tinham rolado sabe-se lá para onde; depois de ter resmungado contra os filhos, que lhe armazenavam restos de comida não amada nos mais recônditos dos cantos, e com a empregada que fingia nada ver daquele cemitério alimentar, lá encontrou as malditas chaves.

Não passara mais de 30 minutos e já Beta tocava na campainha de Ana; esta abriu a porta e, mal encarou com amiga, desatou num pranto de fazer inveja a qualquer carpideira do antigamente. Foram precisos uns largos minutos – e, na boa da verdade, um valente copo de conhaque, tragado de um só gole – para que tudo ficasse mais calmo, para que Ana se sentasse tranquilamente no sofá ao lado da amiga e começasse a abrir o rosário.

image– Foi horrível Beta, horrível! – começou por dizer Ana, agora já sem soluços e com uma certa pausa nas sílabas, fruto da elevação alcoólica que o bom conhaque aportara. – Descobri tudo. Não que eu quisesse saber, se calhar, no fundo até já sabia e não queria admitir; mas foi mais forte do que eu, tive que abrir aquela porta para enxergar com os meus próprios olhos. Aqueles gemidos, aquela barrulheira tão alegre não enganava ninguém; foi só uma questão de espreitar de mansinho e confirmar: lá estava ele.

– Enrolado com uma galdéria? – antecipou a amiga.

– Pior, Beta, pior!

– O quê? Tu não me digas que ele estava enrolado com um gajo?! Não esperava isso do Gustavo.

– Muito pior, mas mesmo muito!

– Credo! – exclamou Beta, imaginando o marido da amiga no mais pérfido e perdido dos mundos, coisa barbuda capaz de ser notícia em qualquer jornal escabroso, ou até mesmo nos ditos sérios, que para este tipo de assuntos não se fazem rogados. – Uma orgia, o malandro enfiou-se nessas modernices.

– Não. Eu vou contar-te, para não imaginares mais coisas.

Beta recostou-se no sofá, como a abrir os braços da mente para receber a hecatombe da notícia anunciada.

– Eu abri a porta devagarinho, e ali estava ele, todo deleitado, com o prazer estampado no rosto, a ver o Glee.

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Dois copos de conhaque, um para cada mulher, voltaram a encher-se; era preciso arranjar força para enfrentar a realidade.

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One Comment leave one →
  1. minda permalink
    Abril 23, 2012 3:08 pm

    sem legendas!!!

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