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A luz das Sombras (cordelito)

Março 29, 2012

Estava um calor abrasador no dia em que mudei para a casa nova, parecia que o inferno tinha aberto uma janela para aliviar as suas entranhas. Quando apanhei a última caixa, que ficara esquecida no pequeno relvado em fronte ao meu novo domínio, o suor desfazia-me por completo; talvez por isso, nem dei muita importância ao facto dos vizinhos – um casal de média idade –, não me devolverem qualquer cumprimento no momento em que entravam, apressados, em casa. Aparentemente alucinados, ignorando completamente a minha presença, fecharam-se na sua moradia – ainda que não siamesa, era gémea da minha –, batendo com a porta de uma forma violenta. Foi o primeiro de muitos casos estranhos.

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Nos primeiros tempos não voltei a pensar no assunto, andava ocupado demais em procurar o lugar das coisas, que, numa casa nova, ganham vida própria e resolvem instalar-se nos confins do mundo – temo que os ditos objectos montem uma conspiração para nos colocar à beira de um colapso nervoso sempre que procuramos algo. No entanto, na segunda vez que encontrei a vizinhança, comecei a ficar intrigado:

um pequeno rapaz – não mais de 10 anos – olhava para mim com um ar assustado, na portada de sua casa, enquanto eu teimava em desbastar a pequena sebe que separava os nossos espaços frontais; os seus olhos, bem abertos, pareciam querer saltar-lhe do rosto.

Esbocei um sorriso para meter conversa com ele, mas antes que eu pudesse proferir qualquer sílaba, algo – um braço, supus – puxou-o abruptamente para dentro de casa, num abrir e fechar porta relâmpago, fazendo com que a criança, de repente, se esfumasse como que por artes mágicas. Mais uma vez, tentei não dar importância ao assunto: ele lá teria deveres escolares e estava a fazer birra. Isto das crianças há que lhes pôr a mão em cima desde o rebento, senão ficam uns rebeldes antes de tempo, já dizia a minha mãe.

O que me deixou gelado, não foram propriamente os ruídos que, por vezes, escutava durante a noite – numa madrugada, em que o sono tinha emigrado para a minha região de eleição, problemas de trabalho, escutei, inclusive, gritos vários –, mas sim as 3 letras que uma jovem (presumi filha) desenhou no pó do vidro da janela do sótão, separada por meia dúzia de metros da minha: SOS.

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Eu abrira a janela para deixar entrar o ar no meu sótão, já que o pó do tempo esquecido – os antigos donos tinham deixado toda uma tralha imensa a repousar por ali – começava a arranhar-me a garganta; foi no momento de a fechar que reparei que uma jovem, bonita, adolescente a raiar mulher, espreitava por detrás de um vidro encardido. Quando pensei que ela me ia acenar, o movimento da sua mão apenas serviu para escrever aquelas três letras. Antes que eu pudesse ter qualquer reacção – de pânico ou de riso, poderiam estar a tentar um gozo miudinho com o vizinho mais recente –, a miúda desapareceu por detrás do vidro, após um estranho e avassalador som, juraria que um urro de uma besta.

Antes de tomar qualquer medida, e porque tempo era coisa que me sobrava – ficar em casa, a tratar da fase final da tese de doutoramento, dava-me uma liberdade que há muito não sentia –, resolvi transformar-me naquilo que todos cultivamos em segredo: voyeur.

A proximidade das casas, apenas dois pequenos corredores ajardinados separavam as moradias, permitia-me espreitar pelas janelas a vida da vizinhança; isto se eles o permitissem. Só no momento em que comecei a estar em casa de luzes apagadas e com uns binóculos a espionar por detrás de cortinados, qual biólogo documentarista em plena selva, reparei que nada podia enxergar: todas as janelas daqueles vizinhos tinham grossas cortinas de panos negros – veludo, pareceu-me – a cobrirem-nas, ocultando, assim, qualquer acontecimento dentro daquelas quatro paredes.

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Estava já para desistir de tão árdua missão – não tinha muita paciência para estar de vigia a um muro negro –, quando reparei que na janela maior, a da sala, havia uma pequena frincha por onde passava uma certa luz. Coloquei os binóculos e aumentei o zoom o mais que pude sobre aquela pequena abertura do desconhecido.

Ao princípio, nada vi, apenas uma variedade de luzes, com intensidade e cores diferentes, como se houvesse uma grande festa lá dentro, emergia da fenda visível; depois, uma mulher, aquela que pensava ser a mãe, passava, aceleradamente, de um lado para o outro; como numa encenação, ela acabou por parar, precisamente na zona que me permitia enxergar, de costas para a minha visão; os estanhos sons, imperceptíveis e a ferir o ouvido – como se feras, pessoas e até monstros do imaginário infantil se juntassem a vozear num arraial – invadiram de novo o ambiente; a mulher ajoelhou-se, na minha cabeça pedindo uma certa clemência, mas um vulto súbito, que não descodifiquei, deitou-a por terra; os gritos, que reconhecia do silêncio da noite, voltaram.

– Importa-se de estar mais calmo e descrever melhor o que viu?! – disse-me uma voz do outro lado do 112, depois de eu lhe ter ligado num estado de pânico.

– É como lhe digo, alguém está a maltratar uma mulher na casa ao lado – respondi-lhe, já sem paciência para repetir tudo o que acabara de relatar. – Sabe-se lá o que pode ter acontecido.

Depois de terem passado o telefonema para a polícia, e de esta ter ficado um pouco contrariada com a denúncia – violência doméstica não é coisa fácil; nunca dá em nada; olhe que depois pode ficar em maus lençóis se for falso alarme –, o certo é que, passadas umas horas, o carro da autoridade estava parado à porta dos vizinhos.

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Pelo abanar da cara do agente e pelos sorrisos abertos de toda a família – que compareceu em conjunto uno na porta da entrada, tipo coro de natal –, pude verificar, pela minha janela, que nada iria acontecer. Não me enganei. Pouco depois, era na minha casa que os polícias faziam o interrogatório mais duro.

– Anda a ler umas coisas perigosas – afirmou um dos agentes, ao ver espalhados pela sala vários livros sobre violência.

– Estou a fazer uma tese de doutoramento sobre os comportamentos violentos gerados pela vida moderna – respondi.

– E não acha que pode estar a ficar influenciado por tal? Os seus vizinhos pareceram-me bastante normais, uma família feliz. Não esqueça que está a viver num bairro de excelência e não, propriamente, nas barracas onde os maridos batem nas mulheres de manhã à noite.

Apeteceu-me dar-lhe com todos os livros na cabeça, para, assim, lhe explicar que a violência não tinha estatuto social; afinal, eu, quase um doutor por extenso, a viver na tal zona de elite, também me passava da cabeça, como o Zé trolha, ao sair de um bar a altas horas, a fazer zaragata com a bófia.

– Estes doutores, armados ao pingarelho, lêem tanta merda que depois convencem-se que ela existe ao virar da esquina; pior, querem convencer-nos também disso – ouvi um polícia dizer antes de entrar no carro.

Uma coisa aprendera: se algo viesse a fazer, seria eu a executá-lo, por mão própria.

O prazo da apresentação da tese levou-me a um maior concentração no trabalho e quase esqueci o sucedido; até àquele princípio de noite.

Estava eu, precisamente, a dissertar sobre a forma como a violência ficcional pode acalmar a ansiedade e funcionar com escape de uma outra mais forte – a do real galope dos dias –, quando os velhos ruídos da casa do lado, que entretanto tinham acalmado, regressaram. Hesitei se havia de voltar ao meu posto de vigia, ou se continuava a dedilhar no computador. Maldita a hora em que optei pela primeira hipótese.

Ao princípio, não dei muita importância, pensei que seriam mais umas luzes a dar brilho à tal festa estúpida que teimava em acontecer por detrás daquelas cortinas negras, mas depois, ao reparar bem na luz vinda da pequena janela da casa de banho – supus esse espaço, a comparar com a minha casa –, verifiquei que era diferente: não provinha de nenhuma frincha, mas sim de um canto do vidro como se ali tivesse sido colocada propositadamente; o apagar e o acender tinham uma cadência consecutiva. Seria um código?

Como qualquer inteligente da era moderna, fui pesquisar na internet: comunicar por sinais de luz. Acabei por esbarrar num vídeo que mostrava e ensinava o código morse por transmissão luminosa. Tomei nota da forma como o pequeno ponto luminoso na janela piscava e fui para junto do computador. A resposta da tradução voltava a ser alarmante: SOS.

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Não sei se armado em herói, em parvo ou apenas em bisbilhoteiro fingindo, saí e bati à porta dos meus enigmáticos vizinhos.

– Boa noite, desculpe vir a esta hora – comecei por dizer. – Eu sou o vizinho do lado, moro aqui há pouco tempo, sei que as nossas casas são iguais, estes arquitectos são uns preguiçosos, e precisava de ver, se não se importassem, claro, onde é que têm as vossas torneiras de segurança, já que tenho uma fuga de água e quero cortá-la só na parte de cima, não em baixo.

– Não são horas para essas coisas, volte noutro dia – respondeu-me o vizinho, já pronto para me fechar a porta na cara.

– Mas se eu tenho a fuga agora, não posso esperar.

– Lamento – sem mais palavras fechou a porta.

Voltei a tocar à campainha, na esperança que aparecesse outro elemento da família e, assim, pudesse ter mais sorte. Esperei uns longos minutos até que alguém viesse; por fim, a porta voltou a abrir-se, mas desta vez apenas com uma pequena frincha, onde surgiu a cabeça da mulher que eu vira ajoelhar. Não tinha qualquer vestígio de violência.

– Já lhe dissemos para ir embora, que não estamos com tempo para essas coisas – disse-me ela em voz alta. – Por favor, não volte! – sussurrou-me e tentou fechar a porta; mas um braço impediu-a.

– Vem, que eu sei onde estão as torneiras – sem mais explicações, o miúdo, aquele que me contemplara uma vez no patamar exterior, puxou-me para dentro de casa e fechou a porta, perante o olhar alucinado de todos os restantes membros da família: a mãe, ainda no hall, disparava o olhar para todo o lado, como numa histeria ocular; o pai, estático e entre a porta que dava para a sala, fazia uma espécie de barreira e olhava-me fixamente, sem pestanejar; a miúda adolescente, ao cima das escadas, agarrava nos cabelos compulsivamente, como se tivesse à beira de começar uma gritaria histérica.

A criança agarrou-me na mão e puxou-me pelas escadas acima; ninguém disse nada, ainda que um não engasgado estivesse estampado no olhar de todos. Estranhei que a torneira de corte de água ficasse no piso superior, mas nada disse, tudo o que pudesse acontecer naquela casa seria sempre bizarro, por certo.

Assim que começamos a percorrer o corredor, o pequeno rapaz empurrou-me para dentro de um compartimento – a casa de banho – e fechou a porta.

– Só aqui estamos seguros – disse-me ele, enquanto se encostava à porta. – Normalmente não entra na casa de banho.

– Mas o que se passa? – perguntei.

– Estamos presos, não nos deixa sair; mesmo quando vamos à rua fica alguém em casa seu prisioneiro. Salta por esta janela e traz ajuda, muita ajuda, mas muito rápido, se demorares muito vai-nos engolir por completo.

Apeteceu-me perguntar: mas quem vos está a fazer isso? Não tive tempo; de imediato senti que algo empurrava a porta furiosamente. O rapaz, de quem nem o nome sabia, escondeu-se, de rompante, por detrás das cortinas da casa de banho. Os empurrões na porta eram cada vez mais fortes; senti que faltaria pouco para tudo vir abaixo. Não me enganei. Quando me preparava para escapar pela pequena janela – a falta de uma dieta rigorosa dificultar-me-ia bastante a tarefa, sem dúvida -, a porta caiu por terra. Fiquei atónito com o que vi.

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Não um homicida esquizofrénico, não uma fera, nem mesmo um monstro decalcado do imaginário mais horripilante, me apareceu; à minha frente tinha um ecrã negro, plasma ou LCD – sabe-se lá os rigores técnicos num momento de aperto como aquele -, de grandes dimensões, que, sem soltar um fragmento de imagem, parecia tentar engolir-me. De repente, o televisor ligou-se e uma sequência de imagens a uma velocidade vertiginosa, acompanhada de uma compulsão de sons, começou a desfilar à minha frente. Como num hipnotismo, senti as forças partirem para parte incerta; acabei por escorregar e sentar-me naquele chão de mármore. Só o ritual macaqueado do miúdo, numa espécie de imitação de cartoons e de anúncios televisivos, levou a que o monitor refreasse a fúria – começou a abrandar a sequência das imagens em desfile – e eu recobrasse algumas forças.

– Não olhes e foge – cantarolou-me o rapaz, enquanto prosseguia naquela representação epiléptica.

Percebi a mensagem; levantei-me, dei um salto por cima do televisor e comecei a fuga pelo corredor. Não por muito tempo, dos quartos saíram mais aparelhos de televisão, que me barram ao cimo das escadas. As imagens e os sons tentavam, mais uma vez, tolher-me as forças numa espécie de labirinto psicadélico; mas, lembrei-me da mensagem do miúdo, fechei os olhos, tapei os ouvidos e dei um novo salto, em voo picado, para as escadas. Não sei como cheguei cá abaixo, nem como não parti nada, mas o certo é que aterrei numa carpete, aos pés de um qualquer buda de cerâmica. Ninguém veio em meu auxílio, o resto da família copiava o ritual do infante, quais alucinados em transe, repetindo as imagens que viam nos televisores à sua frente que, como praga, se multiplicavam por toda a casa: o pai transitava entre discursos inflamados, pontapés imaginários e simulações de cópulas; a mãe chorava umas despedidas e encontros; a filha apenas rodopiava músicas.

Mais do que tentar perceber a razão daquela alucinação, em que uma família estava refém de alguns dos seus objectos domésticos – nem sempre a razão é o melhor motor par nos mover –, era preciso encontrar uma solução. Lembrei-me de desligar o quadro eléctrico; será que ninguém até ao momento se lembrara de uma coisa tão simples? Quanto tentei lá chegar, percebi a resposta: dois pequenos monitores, a passar imagens de dragões em fúria, estavam de guardiões ao espaço. Mal me aproximei, fui repelido com uma espécie de descarga eléctrica. Voltei a cair aos pés do tal buda; por pouco não desfazia a estatueta com cabeça.

A despenhar-se também sobre a minha cabeça estavam um conjunto de livros numa estante – daqueles, com encadernações de luxo, que ninguém leu, bem arrumados para impressionar, em que as lombadas são a única coisa importante -, que, com a pancada do meu corpo no móvel onde estavam albergados, oscilavam uma queda anunciada. Foi mesmo o maior volume da colecção – uma Guerra e Paz bem pesada – que me inspirou a solução: ainda no ar, apanhei-o e, fazendo jus aos velhos tempos de basquetebol universitário, atirei-o sobre os monitores guardiões do quadro eléctrico.

Uma pequena explosão de faíscas – quebrar ecrãs junto a fontes de energia não é coisa recomendável – provocou de imediato um curto-circuito, com fumo e fogo, e, finalmente, uma imensa escuridão. O silêncio iluminou a casa. Felizmente que as labaredas depressa definharam; passados uns segundos, apenas a edição abastada de um velho Tolstoi morria, aos poucos, nas suas páginas, numa espécie de sacrifício redentor.

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Não foi preciso qualquer iluminação de refúgio para fazermos o que todos ansiávamos: juntos, como se fossemos uma velha família, desfizemos – até um martelo dos bifes serviu de arma expiadora – todos os televisores existentes. Livres, exaustos, saímos para a rua; deitámo-nos no relvado e, apenas, contemplámos as estrelas.

Ninguém reparou que o monitor de um iphone se acendeu, saiu do bolso do meu casaco, fotografou-nos e desapareceu na rua.

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