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Prólogos

Março 25, 2012
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A cidade respirava o reboliço quente do fim de tarde; as pessoas atropelavam-se umas às outras, numa ignorância completa, como se os corpos, a chocar entre si, fossem meros espectros de um mundo que estaria para além do seu entendimento. Era tempo de chegar a casa e esmagar o que restava do dia. Talvez por isso, quase ninguém se apercebeu que o céu se transformava; a limpidez do azul depressa evoluíra para um tom mais avermelhado, forte e riscado por estranhas nuvens cor de fogo, e fizera parecer que um anormal fenómeno atmosférico iria acontecer. Apenas alguns murmuraram, entre corridas cansadas para a paragem do autocarro, que o clima andava mesmo destrambelhado – também com tanta coisa ruim a mandarem para atmosfera outra coisa não seria de esperar, isto de brincar com a natureza é o que dá, armam-se em deuses e depois sofrem as consequências, não sei onde vamos parar, qualquer dia sai-se de casa com abrigos para a neve e entra-se com toalha de praia.

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Só mesmo um barulho enorme, como um trovão difundido numa sala de cinema em surround, fez despertar as pessoas para o que se passava acima das suas alheadas cabeças. Em jeito de fotografia, pararam e congelaram todos os movimentos; de boca aberta, a lembrar miúdos no circo a ver acrobacias voadoras, contemplaram no céu aquela coisa nunca vista em tempo algum. O que há bem pouco se assemelhava a um emaranhado de nuvens em fogo, estava agora a transformar-se num vulto, numa espécie de rosto com contornos bem definidos, como se os técnicos de efeitos-especiais de Hollywood estivessem escondidos por detrás dos edifícios a projectar algo no firmamento e quisessem pregar uma partida aos ingénuos, a fim de lhe colorir o final de tarde que, mesmo sem chuva, era cinzento de agonia. Muitos viram, em tudo aquilo, mais uma campanha absurda, igual a tantas outras que lhe despejavam todos os dias e com as quais tentavam impingir novos produtos que nunca lhes fariam falta.

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O vulto pairava sobre a cidade, ao jeito de um gigante desembarcado em Lilliput, numa espécie de observação serena dos pequenos habitantes que, silenciosos, assistiam a todo aquele fenómeno afogados em espanto. A cidade, outrora a gritar freneticamente vida, sucumbira a um fenecimento contemplativo, apenas o barulho de alguns acidentes em cadeia, a distracção dos condutores era fatal, cortava o mutismo das ruas.

– Já era hora de dar um ar da minha graça – disse a voz, forte e profunda numa ressonância exponencial a ferir os ouvidos mais sensíveis, daquela figura semelhante a um idoso sem tempo, cujos cabelos esvoaçavam como se labaredas fossem. – Tantas dúvidas sobre a minha existência, tanto disparate dito em meu nome, é tempo de aparecer e pôr ordem nesta barbárie caótica em que transformaram a minha criação.

Mais do que o impacto da inverosímil aparição, mais do que o som grave e atroador das palavras que ecoavam por todo o espaço, foi a consciência do encontro com semelhante figura que apavorou as pessoas e fez com que muitas delas sucumbissem no chão, traídas por corações débeis amamentados em colesterol.

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– Apesar de tementes a mim – prosseguiu a imagem celestial –, não hesitaram em fazer tudo o que vos passou pela vossa débil cabeça, especialmente quando escudados no meu nome; mas é tempo de mudar, e para dar o primeiro o passo, vou abrir a minha memória eterna para contar tudo aquilo que sei sobre vocês, mostrando como a mentira é, afinal, a massa que vos molda. Preparem-se, um a um, toda a verdade sobre a vossa vida vai ser escancarada por aquele que, desde sempre, tudo viu, tudo sabe.

Miguel ainda sentiu o vento a arrastá-lo quando a boca da aparição se abriu para expelir o grande evento que seria uma verdade magnânima e desmedida, mas, antes de conseguir agarrar-se a qualquer coisa que o impedisse de resvalar, caiu no chão com algum estrondo.

Ao subir para a cama, Miguel riu-se perante tão burlesco dislate, não voltava a ver filmes de segunda categoria antes de adormecer, melhor ainda, não devia comer nada picante ao jantar, pois já sabia que acabava sempre emaranhado em sonhos perdidos de absurdo; um dia destes, tinha que fazer uma endoscopia ao estômago, ainda era novo, mais o raio da ansiedade – coisa rara até então – e de alguma comida estragavam-lhe as noites, especialmente aquelas em que o mau estar o arrastava para sonhos sem pés nem cabeça. Fosse ele criança e já estava na cama dos pais, assustado, a pedir um colinho; assim, como homem feito, ficou prostrado, a contar horas da noite. Ele sabia que fora muito mais do que um mero sonho, o que lhe destalhara o dormir; ele sabia que as imagens alucinadas tinham sido a ilusão da verdade que o atormentava nos últimos tempos. Quem és tu, maldito Mensageiro?

Falso Conto, apenas o prólogo de um Romance pseudo-policial escrito entre 2007-2008, que começou por se chamar A Fúria de Deus, depois mudei para O Mensageiro (por causa de estúpidas coincidências)  e agora anda numa coisa de O Retalho dos Dias.

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4 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Março 26, 2012 9:36 am

    Gosto da simplicidade crua das palavras e da facilidade que tem para ilustrar o que afinal todos sentimos, uns mais que outros. Talvez, a existir esse Ser superior , a sua intervenção devesse ser mais positiva de modo a modificar alguns dos males do mundo, mas esta visão está mais perto da ideia que tenho Dele, infelizmente 🙂 . Adoro as imagens com que ilustra os textos, sempre tão assertivas. Em suma, gosto realmente muito de o ler.
    Maria

    • Bau P permalink*
      Março 26, 2012 6:44 pm

      Obrigado Maria C. Este prólogo é um bocado enganador 🙂 na realidade a história seguinte não é tão metafísica assim; policial é policial.

  2. minda permalink
    Março 29, 2012 11:18 am

    ola Bau!

    vou ficar aguardando que saias do prologo e avances para as deambulaçoes policiais…
    espero que me digas “me aguarde” (lido com um sotaque meio sertanejo)…
    espero, porque me deixaste com água na boca!

    beijinhos
    minda

    • Bau P permalink*
      Março 29, 2012 10:17 pm

      ai minda, minda, acho que só prolegarei 🙂

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