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As Sombras do Prazer (2)

Março 22, 2012

Mas quem é que o Ministro da Economia se julga?, o dono do governo?! Digo-te uma coisa, um dia destes perco a compostura de senhora, vou-me a ele e parto-lho os cornos.

As palavras ecoaram como um trovão na sala; não porque o seu volume tivesse sido estridente, a aparelhagem sonora era de primeira, mas porque quase todos os presentes naquela conferência de imprensa no porto de Lisboa puderam perceber, com todas as letras, as grandiosas sílabas emanadas da boca da Ministra dos Transportes e Comunicações. Distraída na sua energia compulsiva, a dama do governo, ao falar por telemóvel, não reparou que o tempo era coisa cheia de modernices e que alguém já lhe colocara o microfone na lapela do casaco cinza velho – que fazia conjunto com uma saia igual, vestimenta com que procurava dar o tal ar de senhora composta, ainda que as más-línguas dissessem que ela, por muito bem que se ajanotasse, parecia sempre um homem com vestes femininas.

 

O estado estático, quase hipnótico, de Teresa Ferro, ao se aperceber da grande gafe de falar com microfone aberto – ai se o chão se abrisse e ela pudesse desaparecer, melhor, se aquela gente toda se esfumasse, como por magia cinematográfica –, contrastava com o ritmo histérico dos seus assessores que, em jeito de libelinhas histéricas, esvoaçavam por toda a sala a tentar controlar a situação, nomeadamente para verificar quais os jornalistas presentes e como podiam amansar a fera semântica que se soltara. Felizmente não eram muitos os profissionais da informação, a sorte de o Benfica ter marcado para a mesma hora uma conferência de imprensa – isto de contratar jogadores a meio da época alguma vantagem havia de ter -, levou a que a sala estivesse quase vazia; não fossem as entidades oficiais convidadas e as carpideiras políticas de ocasião, quase não se dava pelo anúncio de mais um programa de conversão da zona ribeirinha de Lisboa.

Um silêncio, feito de um burburinho rasteiro, transformou o ambiente: os olhos de cada um dos presentes cravaram-se, como espadas afiadas, na cara da Ministra, à espera de uma reacção. Teresa tentou, numa primeira fase, ignorar os risinhos surdos que a maioria das pessoas camuflava, mas depois, gélida e taciturna, procurou encontrar uma solução para o constrangimento que provocara inadvertidamente, nem que fosse, em jeito de disfarce, soprar para o microfone, numa tentativa de experiência de som; afinal, as palavras que soltara bem podiam ser de um teste com algum humor negro à mistura.

– Podia ser pior, só há uma câmara de televisão e não deve ter apanhado o momento, estavam ainda a ligar o material. Acho que podemos controlar a coisa – alguém lhe sussurrou ao ouvido, mas Teresa não sossegou, sabia que ignorar o acontecimento não era a melhor solução, pelo menos ali, naquela sala deliciada com a iguaria frívola que lhe fora servida. Chegou-se para a frente na tribuna, à procura da posição ideal para falar, mas, mais uma vez, esqueceu que tinha o microfone colado a ela; quebrando todos os protocolos, deu início à sessão:

– Bom, agora que tivemos um quebra-gelo maior do que o Titanic, não fosse eu a dama de ferro, vamos dar início à apresentação do programa Tejo Meu.

Gráficos, filmes digitais, em que a uma cidade se construía num piscar de olhos, a mostrar que o futuro ainda era um esboço, e outras chuvas de efeitos desfilaram pela apresentação projectada num pequeno ecrã, que os presentes ao fundo da sala pouco viam: enquanto o director do projecto debitava um discurso pausado, a tentar sincronizar léxico com imagens, os espectadores prestavam pouca ou nenhuma atenção, estavam todos desejosos que a sessão terminasse para, qual ordem de largada, saírem em grande reboliço a anunciar aos quatros ventos o que a ministra berrara alto, e em bom som. Partir os cornos ao colega ministro, era uma afirmação que ficaria na História. Só uma coisa lamentavam: não ter nenhum registo, sonoro que fosse, que comprovasse o acontecimento.

Sorte bem diferente teve Rui Morgado, um freelancer na área das filmagens e pau para toda a obra de uma produtora de reality shows, que resolveu ir àquele evento para apenas recolher imagens avulso, quer para o novo programa que ia começar a passar num canal de televisão, quer para o documentário que tentava realizar, a seu custo, sobre o poder como metáfora sexual; ele, sem querer, acabou por captar a frase mais famosa dos próximos tempos. Quando começara a tirar uns planos genéricos da sala e da mesa dos ilustres, não sonhava o que estava para acontecer: precisamente nesse preciso momento, a senhora ministra resolvera desferir aquele léxico viperino, que ficou registado em todo o seu esplendor, obtendo, assim, imagens a valer ouro nos tempos mais próximos. Quanto lhe pagariam para passar aquilo nos noticiários da noite? Tinha que pedir bom preço, queriam sangue, ele tinha sangue, e o sangue paga-se caro; não era só abrir a boca e dizer “um rigoroso exclusivo”, havia que se cobrar por isso. Ou seria melhor ficar em silêncio para render ainda mais? Sim, porque a forma como um assessor da ministra o cercava, a cada passo, a cada gesto, indiciava que suspeitavam de qualquer coisa e o iam pressionar no sentido de devolver a gravação, provavelmente a troco de uma boa quantia. Rui tentou manter a calma e continuar as gravações da sessão que, por muito esforço que fizessem, nunca mais conseguiu ser algo politicamente solene.

Teresa tentou também manter-se serena quando iniciou o discurso que fechava a apresentação – o último acontecimento antes de se dar início à conferência de imprensa propriamente dita -, mas não foi fácil, não só o embaraço da situação de abertura não lhe saía da cabeça, como agora a postura algo voluptuosa de um garboso rapaz, sentado na fila da frente, vestido como uma patente de oficial da marinha, em representação da Capitania, a perturbava e não a deixava fluir nas palavras. Logo ela, uma mulher tão segura, fria e calculista nas decisões – havia, inclusive, quem a apelidasse de generala -, estava novamente à beira de um colapso nervoso com mais uma situação absurda; enquanto desfilava um enredo obtuso de pensamentos, a tentar criar um epílogo explicativo das imagens anteriormente apresentadas, o seu olhar não largava o colo do referido jovem que, despreocupadamente, ostentava uma enorme erecção, bem visível nas suas apertadas calças brancas.

Não percebia por que razão aquela situação de priapismo extemporâneo a atrapalhava na fluência das ideias, o sexo era uma coisa há muito esquecida e à qual não dava importância; mantinha, há muito, um casamento em que não havia troca de afectos, mero detalhe sem importância na sua idade, pensava ela, mulher dos seus cinquenta e muitos anos. Por pouco, não teve um ataque de riso com o panorama que se lhe oferecia: espera-se todo o tipo de exteriorização às palestras dos membros do Governo, mas nunca que alguém se sinta excitado no mais verdadeiro sentido do termo.

– Sobre esse assunto estamos à vontade para falar, nem sequer temos erecção à vista – foi o rastilho final para a situação voltar a explodir. Teresa, ao querer explicar que o programa não era demagógico, como muitos diziam, pois não havia eleição para o governo nos tempos mais próximos, baralhou a semântica e acabou por proferir a palavra que lhe atormentava a paisagem há alguns minutos.

Explosão de riso; desta vez não houve hilaridade em surdina, o momento foi mesmo de alvoroço geral. Tal a confusão, que Teresa resolveu dar por terminada a sua palestra e abrir de imediato a conferência de imprensa, que, face a todos os acontecimentos, esteve prestes a não se realizar; não fosse a sugestão de um assessor, que achou melhor dar uns minutos aos jornalistas, para que eles extravasassem alguma das emoções antes de saírem porta fora a dar azo ao relato da alucinação que viveram naquele fim de tarde – é melhor diluir o orgasmo já aqui, para que cheguem às redacções mais aliviados –, e todo aquele espectáculo surrealista em que se transformara a sessão teria acabado de imediato, sem qualquer colóquio. Com esforço, Teresa preparou o semblante para as entrevistas relâmpago; havia que ter paciência, um discurso directo sempre podia amansar as feras e diminuir o impacto das suas garras no teclado dos computadores.

– Mais uma vez temos um grande projecto para a zona portuária. Não corre o risco de ser outro elefante branco como o projecto Babilónia? – foi a primeira pergunta a ser disparada, o que revelou o estado bem atiçado das feras.

– Só posso entender isso como uma provocação – ripostou Teresa, num tom enérgico e azedo, o que não estranhou ninguém, pois era bastante comum no seu discurso habitual. Depois de toda a atribulação da apresentação, só faltava mesmo trazerem à ribalta um caso embaraçoso do governo para ofuscar o seu novo mega projecto. – Desculpe mas os terrenos onde agora está o Babylon Show também começaram por ser um grande projecto na península de Tróia e acabou tudo num reality show para o mundo inteiro ver – insistiu o jornalista no assunto, o que fez Teresa soltar um suspiro impaciente. Não era para menos, aquele que era o seu calcanhar de Aquiles na política – tudo correra mal -, tinha sido novamente desenterrado.

– Meus senhores, caso não haja outro tipo de perguntas damos por encerrada a conferência de imprensa – apesar do remate, Teresa não teve essa sorte e a sua penitência teve que continuar, outras perguntas surgiram, entretanto, e o debate instalou-se novamente. Não fora um ataque de espirros, que parecia um cantar ao desafio entre o marinheiro excitado e uma mulher situada no meio da sala – ambos espirravam compulsivamente -, e tudo seria normal, como se nada de extravagante tivesse acontecido. Mas aquele fim de tarde não estava fadado com o signo da normalidade.

Sem que ninguém o esperasse, o jovem oficial da marinha, levantou-se, num gesto algo abrupto, irrompeu contra a plateia até ao encontro da mulher que fora a sua companheira de espirros, esbarrando, com força, em alguns dos presentes, e avançou sobre ela. Começou por lhe rasgar a roupa para, de seguida, beijá-la no corpo de uma forma impetuosa, inclusive violenta. O estranho é que ela, uma senhora aparentando uma meia-idade, não só não repeliu os gestos, como respondeu com iguais meneios no corpo daquele recente parceiro. Entrelaçados, com suspiros que ecoavam em toda a sala, deixaram-se cair e rebolaram no chão como animais famintos de um desejo calado por toda uma eternidade. Antes que alguém fizesse algo, despedaçaram a parte da roupa que abrigava as suas partes sexuais, a única ainda no corpo, e deram inicio uma cópula enérgica, estridente e lasciva.

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Se havia algum alvoroço inicial, por parte dos espectadores boquiabertos, quando começou aquele estranho espectáculo, depressa deu lugar a um silêncio generalizado de contemplação bizarra da cena. Incrédulos, com o que os seus olhos viam, eram incapazes de fazer alguma coisa. Apenas Rui resolveu tornar-se num voyeur mais activo, ao se aproximar dos amantes instantâneos e, assim, recolher as melhores imagens daquela que era a pérola maior dos seus registos naquele dia.

– Por amor de Deus, alguém ponha cobro a isto – ordenou Teresa, do alto da tribuna, perante o incomodo de ter semelhante deleite pornográfico ao vivo, mesmo ali, quase a seus pés. Por instantes ainda pensou que seria um momento de apanhados para um qualquer programa cretino de televisão.

Perante a passividade de todos, um outro homem fardado, a representar outra entidade policial convidada, dirigiu-se ao par lascivo e tentou separá-los. Mas, como animais enfurecidos com a privação do coito em pleno cio, atacaram-no com mordidelas bem profundas, o que fez com que o voluntarioso dos bons costumes desistisse de imediato – já tinha ficado com grandes feridas para tratar. Outros, com o incómodo a gerar algum voluntarismo, tentaram também separar o par, mas ele, o marinheiro inflamado, além de dotado de um desejo explosivo e repentino, estava possuído de uma força pouco natural, o que fez com que os intrusos no acto sexual fossem atirados para bem longe, em jeito quase voador.

Mais do que suspiros intermitentes de prazer, foi uma espécie de longo uivo que soltaram quando atingiram, em conjunto, o orgasmo. No fim, permaneceram quietos, como corpos desfalecidos, perante o olhar de todos. Antes que alguém dissesse ou fizesse algo, o homem levantou-se, puxou o que sobrava das calças e partiu em fuga pelo fundo da sala. A mulher, quando retomou uma respiração menos ofegante, tentou tapar as pernas desnudadas com os restos do vestido e soltou um choro convulso, baixinho.

– Por favor, levem-me daqui! – pediu ela, enquanto escondia a cara com as mãos e os cabelos desalinhados.

Mais tarde, dois telemóveis, em pontos separados, não paravam de tocar, mas nenhum deles foi atendido; nem Teresa, ainda anestesiada com os acontecimentos que lhe desabaram naquela tarde, nem Rui, feliz com tudo o que captara, atenderam os telefones. Só uma boa noite de descanso – por certo, amparada nalguns comprimidos – os faria amainar as ideias para o dia seguinte.

Falso conto, pois é o 1º capitulo (adaptado) do romance O Beijo de Babilónia, escrito em 2009.

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