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Diário de um Idiota (6) – Amanhecer

Março 18, 2012

Olhei-me no espelho, nu; não por qualquer espécie de narcisismo – como se a borrasca dos anos deixasse lugar a qualquer leviandade desse tipo! -, mas apenas para ter a noção por onde começar. Vi que o órgão tinha um volume considerável e, contrariando as leis das ciências rigorosas que tudo sabem, que tudo definem, reparei também que a sua grandeza não era constante, variava de momento para momento, dependendo do meu estado de espírito, das folias em que embarcava e, até, do olhar dos outros.

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Principal objecto de prazer, sem dúvida, todos os dizem, se bem que para os mais intelectuais a coisa passa-se sempre na única casa que conhecem, o cérebro, quais princesas virginais fechadas nas torres mais altas, entre bordados e leituras elevadas, desconhecendo que o sangue prazenteiro da vida jorra nos andares de baixo; mas também o principal instrumento de absorção do pó dos dias, que transforma, por vezes, um simples riacho – é mais livre e maior o rio da minha aldeia” -, a correr tranquilo, num deserto em fúria que nos engole com a areia solitária.

image Peguei na faca e, num gesto repentino – não podia cogitar muito, o pensar tolhe-nos a força cega -, comecei a cortar. Uma dor invadiu-me; não uma dor cirúrgica, exposta, do corte – moderno que sou, tomara antes uma boa dose de anestesiantes -, mas sim um padecimento profundo de separação, como se toda aquela carne gritasse desumanamente uma despedida. Demorei algum tempo a concluir a tarefa, isto das anatomias – e não só – nunca é como vem nos livros, retóricos com arranjos linguísticos sempre tão perfeitos, com palavras moldadas ao que, secretamente, ansiamos.

Terminada a empreitada, peguei na peça – ainda bem ensanguentada – e pendurei-a no armário. Voltei a olhar para ela, já fora do meu corpo: afinal, não era tão feia como me parecia, mas pronto, o que estava feito, estava feito, não havia lugar para lamentações. Agora, só precisava de procurar outra; aquela já dera tudo o que tinha para dar. O problema seria encontrar uma nova pele que se ajustasse a mim; por melhor que fosse a derme, de marca até, por mais perfeitos que os poros viessem – novinhos, a fervilhar de estreia -, teria sempre que se ajustar ao meu tamanho. Enfim, despirmos a vida e estrearmos outra não era coisa fácil, pois as estúpidas das ossadas, que o tempo também se encarregou de esculpir a ferro e fogo, é que moldam a pele e respiram os nossos dias.

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Não desesperei. Fechei o armário, deixando a antiga vida ainda a pingar – não me posso esquecer de comprar um bom detergente para a empregada limpar aquela bodeguice -, um dia, se tiver tempo, vou pô-la ao sol, para que a seca lhe curta memória. Depois, como homem desta nova era, liguei o computador e procurei: por certo, por ali, não me faltariam vidas – ao meu tamanho – para vestir; só espero apanhar uma boa promoção, que os existencialismos não estão para devaneios.

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4 comentários leave one →
  1. Anónimo permalink
    Março 18, 2012 4:49 pm

    Li e reli, provocou-me uma mistura de sentimentos e emoções muito difícil de passar para o teclado; maior, talvez a que senti na personagem e que partilho, uma necessidade de renovar emoções, mágoas passadas, saudades , sentimentos, até a própria pele. Muitas vezes se sente um cansaço de nós, do ser que somos e com o qual temos que conviver e que é difícil ultrapassar.
    Maria

  2. Março 18, 2012 10:22 pm

    Oh homem! Agora você complicou isto tudo.
    E lendo mais do que uma vez, ainda se complica mais.
    Na primeira volta lembrei-me logo dum filme em que o Depardieu utiliza um a faca eléctrica para cortar rente a “fonte dos seus problemas” (A Última Mulher(1976), IMDb dixit).
    Depois percebi (ou penso ter percebido) que se trata de coisas mais sérias: mudar de VIDA.
    Já equacionei o tema teoricamente várias vezes, e, mesmo em teoria, acabei por esbarrar nas tais “ossadas”.
    Para nós não existe o “green field”. Podemos mudar a vida futura, mas vamos ter que carregar com a passada às costas. O que acabará por condicionar as acções futuras.
    Life is a bitch!

  3. minda permalink
    Maio 8, 2012 1:01 pm

    Bau,

    também tentei mudar-me de pele…. raspei, esfreguei, abrasivos e detergentes vários… em vão…

    por vezes, caí na tentativa de, simplesmente, acabar com ela… em vão!

    só há um modo – fazerv o exercicio de excluir ossadas e fantasmas da nossa vida.

    tentei. em vão!

    beijinhos
    minda

    • Bau P permalink*
      Maio 9, 2012 10:24 pm

      já o outro cantava, muda de vida sim, mas não adianta 🙂

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