Skip to content

As Sombras do Prazer

Fevereiro 29, 2012

Por força de uma cópia da chave da porta da rua, ela entrou na casa dada ao ganhão maior, e, antes que ele pudesse fazer alguma coisa, ajeitou-se na cama sem pedir licença – cama de empregado era sua também –, sem qualquer pano sobre a pele, o que o fez estremecer; depois de lhe arrancar a camisola e as ceroulas encardidas, enroscou-se no corpo dele.

A Joaquim Cachola não lhe valeu cogitar sobre os martírios do que podia acontecer se viessem a descobrir que um borra-botas de um ganhão se amanhara com a filha do patrão, o entendimento fogoso dos corpos depressa ateou uma tortura de deleite que o fez esquecer tudo. Para ele, apesar de pensar que fora derrubado como uma besta, não deixou de ser uma experiência única: só tinha sentido nos seus braços mulheres da vida, era a primeira vez que uma moça de bons modos lhe tocava, mas, por tudo o que aconteceu naquela noite, entendeu – sem grandes enleios de sabedoria – que havia putas mais putas do que as próprias putas.

image

Quando ela deslizou a boca pelo corpo abaixo e quase lhe engoliu as suas partes mais íntimas, Joaquim Cachola ia morrendo do coração. Primeiro, temeu que ela – numa espécie de vingança por ele a ter despeitado –, utilizasse a boca para lhe arrancar o seu bem mais precioso, a única parte do corpo que lhe abonava realmente alguma coisa, já que as restantes só serviam para dar fartura aos outros; tinha razão para recear, nunca ninguém lhe fizera aquilo, nem mesmo a Ofélia, a puta mais sabida que conhecia – costumava aparecer numa carroça ao final da tarde e aviava os homens do rancho, muitas das vezes apenas em troca de uma bucha –, se aventurara naqueles preparos de tragar o instrumento de um homem. Depois, sentiu-se a chegar ao céu, se que esse é o lugar do maior contentamento: um prazer estrondoso invadiu-lhe cada pedaço do corpo, criando-lhe espasmos próprio de moribundo a dar despedidas, a boca daquela mulher ao deslizar com a língua pelo seu coiso parecia faze-lo explodir, nunca imaginara que nos gozos da carne houvesse coisa assim, era como se estivesse a possuir, a beijar e a amanhar-se com as mãos ao mesmo tempo.

image

Senhora dos seus feitos, Amélia soube parar a tempo o suplício voluptuoso e, antes que ele tomasse qualquer iniciativa, escarranchou-se em cima do corpo do seu ganhão preferido – apesar de ser bruto no trato, tinha aspecto de homem fino, alto, pele e cabelos claros e uns olhos com uma cor que não se definia, havia dias que eram azuis, havia dias que eram verdes -, voltando a tomar conta da função: cravou-lhe as unhas nas coxas e cavalgou-o como se ele fosse mais um dos seus animais da quadra.

Novamente Joaquim voltou a ficar pasmado com semelhantes amanhos, na sua parca idade sempre que tomara uma mulher fora ela que ficara por baixo, ao embalo das suas estocadas, e nunca o contrário; será que por ser menina rica tinha outros modos mais aprimorados, ou era mesmo coisa de cabeça maluca? Sim, porque muito acertada não devia ser, qualquer mulher na idade dela, ainda mais com a posição que tinha, já estaria casada e parideira há muito, e não naqueles propósitos de andar a aliciar homem alheio; mas não, Amélia com os seus 38 anos estava solteira e não se lhe conhecia pretendente, ainda que não fosse muito formosa, era vistosa e rica, logo não se compreendia tal sorte. Antes que pudesse concluir qualquer outro pensamento sobre a vida estranha da donzela desnorteada que lhe coubera nessa noite – forma que ele arranjara para se distrair e não deixar desaguar de imediato o aprazimento que lhe parecia rebentar a qualquer momento –, Joaquim não teve mais forças e expandiu-se no final do prazer com um grande urro como se fosse besta picada; os cães, lá fora, responderam a tal chamamento sonoro que ecoou na noite e desataram num carpido de uivos durante algum tempo.

Quando pensou que começara a descida dos céus, depressa viu que a coisa estava mais para inferno, o fogo da mulher aumentou e não o deixou amainar, pelo contrário, apertou-lhe as coxas contra as nádegas dela, para que lhe não escapasse o impulsor do empolgamento, e iniciou uma galgada mais acelerada do que a anterior; ao princípio, foi um pouco doloroso, as forças faltavam-lhe, mas depois, com o ritmo desvairado dela, acabou por atiçar de novo a firmeza que se lhe esvaíra, e voltou a soltar um outro grito ecoante quando os dois corpos, já quase desfeitos num só, terminaram por cair, enrolados um no outro, como velhos amantes. Os cães voltaram latir.

image

As palavras não foram muitas, poder-se-ia dizer quase nenhumas; Amélia, em silêncio, procurou suas roupas, vestiu-se, ajeitou o cabelo e preparou-se para sair; foi Joaquim que, completamente baralhado com o sucedido – o elanguescer do prazer misturava-se com a raiva de ter cedido àquele capricho –, soltou os primeiros vocábulos da noite:

– E agora?

– Esqueça. Pense que foi apenas uma assombração que lhe aconteceu, o que não andará muito longe da verdade. Foram apenas sombras o que realmente rebolou nessa cama.

Sem mais arengo, nem um olhar final devolveu, Amélia saiu e bateu com a porta; desta vez, os cães encolheram o latir, o faro dos passos daquela mulher coalhava-lhes a vontade de manchar o silêncio da noite.

Falso conto, apenas uma passagem do capítulo 8 do romance Cria Corvos; um apontamento sexual numa noite de verão alentejana no início do século XX.

Anúncios
2 comentários leave one →
  1. Março 1, 2012 9:18 pm

    Mais um relato do quotidiano.
    Andam por aí umas quantas Amélias (cada vez mais).

    A diferença é que você ainda conseguiu pôr alguma poesia na coisa.

    • Bau P permalink*
      Março 1, 2012 10:01 pm

      O prazer tem sempre poesia, mesmo quando dói. A historieta tem um enquadramento social e temporal, que aqui não percebe

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: