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Até um dia

Fevereiro 19, 2012

Primeiro, ele vendeu a casa e todo o seu recheio, para grande espanto da maioria dos seus conhecidos, já que amigos eram poucos. Num tempo em que dinheiro perdia valor e só a propriedade dava alguma riqueza, vender, por tuta e meia, não fora um bom negócio; especialmente, porque era um bom apartamento – talvez demasiado bom, talvez demasiado grande para a parca família solitária que tinha -, situado numa boa zona, que numa outra época, menos alucinada de dias cinzentos, em que todos pareciam mergulhar num abismo dolente, valeria muito bom dinheiro.

Do recheio da casa, Basílio vendeu, doou ou atirou fora quase tudo. Nem mesmo os objectos mais pessoais, com que teimava ligar o tempo aos afectos – recordações de lugares onde fora feliz -, guardou. Naquela fúria de extermínio do passado, apenas deixou ficar: a cama, não porque necessitava dormir nos últimos dias, antes da entrega da casa, mas porque fora uma arena que merecia encerramento grandioso; o computador, porque o ligara ao mundo, numa espécie de máquina de reanimação; e os seus escritos, não que valessem alguma coisa, mas eram uma espécie de sangue seu, assim não convinha efectuar nenhuma transfusão para não infectar ninguém.

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Depois, no emprego, um final de tarde, mais cedo do que era costume – só fica a trabalhar até tarde quem não sabe produzir no tempo certo -, sem dar explicação alguma, saiu, disse “inté” e nunca mais voltou; nem sequer desviou o olhar da porta, para não ficar em memória qualquer traço de uma despedida. Pelo caminho, sentiu algum prazer mesquinho pela quantidade de projectos que tinha a seu cargo, coisas que ninguém queria saber, e que agora iria ser difícil pegar neles sem saberem o emaranhado dos desenvolvimentos.

Nessa mesma tarde, entrou na agência de viagens e deixou a menina em alvoroço.

– Não vai ser fácil, assim de um dia para outro – respondeu-lhe ela, perante o pedido urgente, dia seguinte, de um voo para a Austrália e uma reserva de 2 meses naquele que era considerado um dos melhores resort do mundo. – Tem que compreender que estamos dependentes de vários condicionalismos, voos, ligações e disponibilidade de reserva.

– Hoje em dia está tudo à distância de um clique – insistiu ele.

Ela anuiu com a cabeça e encetou uma furiosa batalha com as teclas do computador, enquanto soltava suspiros negativos. Por fim, lá soltou uma notícia animadora:

– Bom, nos voos consegue-se lugar, não é uma tarifa barata, mas sabe, uma coisa assim à última da hora, tem o seu preço.

Basílio encolheu os ombros, em sinal de: não há problema, pago o que for necessário.

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Quando saiu da agência, Basílio sentiu-se feliz, conseguira tudo a que se propusera. A empregada também ficara radiante, não era todos os dias que fechava um negócio daquele montante: dois meses de alojamento, naquele que já fora eleito, em vários anos, o melhor resort do mundo por revistas das especialidade. Com semelhante venda já obtivera uns bons pontos naquele maldito sistema de avaliação de desempenho; mesmo que não conseguisse vender umas míseras viagens a Palma de Maiorca, já podia suspirar de alívio até ao final do contrato. Quase lhe apetecia beijar aquele estranho cliente, sim, que só podia ser um louco; quem é que comprava uma viagem daquele género, de um momento para o outro, para ir sozinho?

Naquela que seria a última noite no seu apartamento – no dia seguinte entregaria a chave –, arrastou a cama para o terraço, colocou em cima dela o computador e umas boas resmas dos seus escritos – teimava em imprimi-los para fazer correcções que nada adiantariam, já que ninguém os ia ler -, regou tudo com gasolina e ateou um poderoso fogo, devolvendo, assim, uma luz imensa ao ambiente, como se, por milagre, dia fosse. Felizmente que eram altas horas e nem uma réstia de pessoas vagabundeava pelas rua para, histericamente, chamar bombeiros ou uma outra autoridade, que, naquele momento, gozaria a serenidade de um qualquer programa cretino de televisão, num ecrã minúsculo por detrás de um balcão. Enroscado numa manta, Basílio brindou à inflamação incandescente das cinzas dos seus dias.

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Antes de seguir para o aeroporto, sem qualquer tipo de bagagem, entrou num dos melhores armazéns e comprou de tudo, desde a própria mala à roupa interior, não esquecendo um conjunto de indumentárias das melhores marcas que havia; não precisava de muita roupa para o sítio onde ia, mas queria estar à altura em cada momento.

No avião, pela primeira vez, sentiu o verdadeiro cheiro de uma primeira classe; realmente, viajar só era cansativo para os pobres, que seguiam amontoados, a comer amendoins, em económica.

Quando o carro parou em frente à recepção do hotel desejado, Basílio não ficou deslumbrado: era belo como nos catálogos. Instalou-se numa das melhores suites e descansou um pouco. Depois, um pouco mais refrescado, foi descobrir os detalhes do paraíso. Era perfeito. Até uma velha diva, uma antiga de actriz de um seriado televisivo, por ali andava com o seu jovem namorado a tiracolo; estava muito diferente do tempo em que ele a via, mas ainda dava uns ares do que fora, especialmente quando entrava no restaurante com uns grandes óculos escuros, a esconder uma importância que queria ser mostrada.

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Entre requintadas refeições, massagens e a preguiça total nas piscinas – inclusiva na pequena que tinha no seu terraço privado – desfez os seus dias; deixou-se derreter pelo sabor deleitoso das horas. Pelo caminho, foi contactando com o pessoal do resort que, face à longa estada, o começou a tratar com algum carinho e deferência; também, as boas gorjetas contribuíam para esse cultivar de afectos.

Uma das empregadas do bar chamou-o à atenção: o rosto, de uma beleza angelical, contrastava com um corpo um pouco demoníaco, todo ele era cheio de curvas, que ficavam realçadas com uma farda ajustada ao centímetro e com um andar bamboleante sempre que passava à frente de alguém. Talvez por isso, ele a baptizou de Anjo Negro; Basílio tinha a mania, ao chegar um local, de dar nomes às pessoas em função da imagem primária que elas lhe devolviam.

À medida que o tempo da estada se aproximava do fim, e o saldo do seu cartão também, sentiu que chegava a hora do grande momento. Para tal, precisava de uma outra parte, que um tango não se pode dançar sozinho. Sabia que o seu Anjo Negro era a pessoa ideal. Não precisou muito para a convencer, bastou que antes tivesse feito um bom levantamento de dinheiro e o tivesse colocado em cima da cama para que ela o visse logo que entrasse com mais um dos fantásticos cocktails que sabia preparar. Ao princípio, fez-se rogada, que não era mulher para uma coisa daquelas, que por ser empregada não estava ao serviço das taras de um qualquer ricaço, que por terem dinheiro para estar num sítio como aquele – onde pessoas como ela só entravam para laborar – pensavam que eram donos de tudo e de todos; mas, por fim, acabou por aceitar. Marcaram para o dia seguinte.

Basílio, depois de ter desgostado o melhor lavagante que já comera, acompanhado com um Dom Perignon de 2000, bem gelado, dirigiu-se à sua suite para o grande momento. Encheu a banheira – redonda, grande, cheia de bolinhas – com água bem quente, despiu-se e mergulhou nela. Ao fim de alguns minutos, sentiu a porta abrir; era ela, o seu belo anjo negro.

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Sem nada dizer, a empregada entrou no quarto de banho, sorriu e pousou na beira da banheira um belo copo de cocktail – o mais belo que alguma vez vira, jurava Basílio – cheio de cores avermelhadas, como se tivesse sido feito com salpicos se sangue. Ele sorriu também, pegou no copo e começou a beber; elevou um pouco a taça numa espécie de brinde. Ela, sem nada dizer, saiu.

Depois de beber os primeiros goles, resolveu beber todo o resto de um só trago. Colocou com cuidado o copo no chão, não queria que se partisse; queria que soubessem de imediato a razão de tudo, assim que fosse descoberto. Por fim, deixou-se escorregar na água para sentir uma explosão de prazer dormente invadir o seu corpo, arrastando-o para um sono profundo, levitante, ainda que o seu corpo, cada vez mais, começasse a estar submerso.

Não fora assim que imaginara o final; nos seus escritos haveria uma pistola e um tiro final. Mas que raio, como poderia ele trazer uma pistola para aquela lugar?, onde não conhecia ninguém, onde fora controlado ao pormenor na fronteira. Apesar de tudo, também não estava mal, um duplo efeito com menos estardalhaço e, sobretudo, menos sujeira. Assim, seria tudo mais fácil quando o encontrassem.

E foi.

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Quando, no dia seguinte, a arrumadeira o encontrou a boiar na banheira – e depois de ter saído numa berraria histérica pelo corredor, pondo o hotel em estado de alarme -, foi chamada a polícia, não houve dúvidas: a mistura explosiva de um bloody mary com uma generosa quantidade de antidepressivos – caixa encontrada em cima da cama – só podia resultar naquilo, um afogamento por overdose.

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10 comentários leave one →
  1. Fevereiro 19, 2012 8:45 pm

    Ora bem…….extraordinariamente bem escrito….mas….embrulhado numa imensa nuvem negra, que espero que seja somente um simples acto de escrita criativa 🙂

    E eu esperava ler um desfecho diferente…enfim….desisto !

    • Bau P permalink*
      Fevereiro 19, 2012 10:01 pm

      comentar aqui não dá para, ao responder o comentário, pôr um like e ficar mudo 🙂
      um fim é só um fim, na escrita que seja.

  2. Fevereiro 20, 2012 2:11 am

    Por isso comentei aqui ! 🙂

    Está muito bom mesmo . E pronto…..eu fecho os olhos ao final !

  3. Alexandra permalink
    Fevereiro 20, 2012 8:58 am

    Bau, Bau, Bau…não sei que te diga…muito bom, como todos de resto. Mas raios, liberta-te dessa onda negra. Vê lá se escreves um conto cor de rosa…faz-me a vontade, ando a precisar de finais felizes!

    • Bau P permalink*
      Fevereiro 21, 2012 7:54 pm

      nuvem negra? porque será que ninguém consegue ver uma final feliz. este conto é cor-de-rosa 🙂

  4. Fevereiro 21, 2012 6:32 pm

    As senhoras já deram os beijinhos, e como eu já ando a “gramá-lo” há uns anitos, só me surpreenderei quando sair algum menos bom. Da forma estamos falados.

    O conteúdo, eu até nem acho muito negro. Afinal que percentagem da humanidade consegue morrer no “paraíso” na altura que acha correcta?

    Depois temos o suicídio. Esse acto fnal que eu ainda não sei classificar. Coragem ou Cobardia?

    • Bau P permalink*
      Fevereiro 21, 2012 7:58 pm

      vá lá que alguém não achou negro; escrevo (tento) com metáforas e alegorias; escolher o fim à nossa maneira pode ser um final feliz.

  5. Anónimo permalink
    Fevereiro 25, 2012 6:41 pm

    Muito bom, concordo que escolher o fim à nossa maneira é “O” final feliz; sem querer parecer demasiado entusiasmada com a decisão da personagem, confesso que fiquei quase feliz por ele, nem todos conseguem atingir esse grau de perfeição na última tarefa executada neste mundo, em suma, amei.

  6. minda permalink
    Março 1, 2012 10:09 pm

    parafraseando um pouco o K, de estranhar será quando um dia escreveres algo de que não goste…

    adoro sobretudo, a diversidade de temas que buscas, a análise profunda dos meandros da mente humana.

    imagino este homem, um género de manga de alpaca moderno, calado e discreto no seu local de trabalho, livre e criativo no aconchego da casa…

    imagino-o a divagar. imagino-o a sonhar em ser livre na vida.

    assim, esta morte é um final feliz!

    beijinhos (já que sou senhora!!!)
    minda

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